The Office, Suíça

É meio inacreditável, mas já faz três meses que estou trabalhando. Depois de um começo meio sofrido, eu finalmente peguei ritmo, comecei a entender melhor a estrutura da empresa, a me sentir confortável e segura no que tenho que fazer. As coisas andam indo super bem, e eu já obtive um excelente retorno pela minha "coragem" de fazer, nessas alturas da vida, um estágio (ou returnship, como diz minha chefe). Mas é óbvio que as coisas são bem diferentes aqui do que no Brasil, e eu achei legal dar uma comparada com as nas principais diferenças que vejo na vida corporativa da Suíça. Voilà. 

Horários
Se por um lado aqui as coisas me parecem bem mais flexíveis (muitas pessoas trabalham part time, tipo 60%, 80%, etc), por outro tem algumas coisas bem determinadas: horário de chegada e de saída. O pessoal aqui chega em geral até que cedo, mas saí também cedo: entre 17 e 18h o escritório esvazia. E não tem desculpa, ninguém fica sem jeito, nada, deu 17h, o povo fecha o computador, levanta e vai embora. Não posso falar pelo Brasil inteiro, mas na minha vida inteira em SP, quem ia embora antes das 18:30, "estava desmotivado" e era mal visto. Mesmo no meu antigo emprego em que eu podia trabalhar de casa, eu estava à disposição até bem mais tarde do que isso. Aqui não tem essa, e o balanço entre vida pessoal e profissional é mais respeitado. 

Produtividade
Se por um lado o povo sai mais cedo, devo dizer que rola bem menos cafezinho e horário de almoço. A galera aqui é bem pá pum, e não fica "disperdiçando" tempo fora de casa. No Brasil a gente sempre faz 1h de almoço (direito legal, incluive), e toma vários cafézinhos ao longo do dia. Aqui percebo que a galera toma um café de manhã, outro depois do almoço e rapidinho (meu horário aqui é de 30 minutos), e nada também de ficar enrolando muito pela internet da vida. Enquanto estão sentados em frente ao computador, estão rendendo. Resumindo: passam menos tempo no trabalho porque são mais efetivos. E isso não é um elogio ou uma crítica, apenas uma constatação. 

Dress Code
Um tanto mais relaxado, rs. Não que as pessoas não se vistam profissionalmente, mas vejo muito mais jeans, sandália rasteira (no verão) e tênis do que é aceitável num escritório no Brasil. Também fiquei meio abismada com o tanto de mini saia rs... A real é que dress code não me parece um tema, sabe? Acho que se você trabalhar com público, talvez seja. Mas mesmo estando numa empresa de serviços financeiros, percebi que não tem orientação, não tem regra.

Cantina
O direito ao Vale Refeição como conhecemos não existe na Suíça. A maioria dass empresas grandes, no entanto, tem cantinas onde a refeição é subsidiada, saindo mais barato do que ir a um restaurante. Isso acaba contribuindo, claro, para que o horário do almoço seja mais curto do que conhecemos no Brasil. Eu no começo ficava meio broxada de não sair, tomar um ar, ver gente diferente. Agora que acostumei - e que o inverno chegou rs - já não ligo mais de almoçar na cantina todo dia. Além do que, pra quem é mais despachado, é uma ótima oportunidade de fazer networking. 

Sitting 
Por fim, uma particularidade que acho que não é suíça, mas da minha empresa. Eles tem espaço dinâmico, ou seja, são estações equipadas com monitores, dockstation, telefones, você chega todo dia com seu laptop e senta onde quiser, é só conectar o computador no dockstation e digitar seu código no telefone. Pois bem. Sabe o que as pessoas fazem? Isso mesmo, sentam todo dia no mesmo lugar hahaha.. 

Pessoal que trabalha em outros países, alguma diferença?

Um fim de semana em Annecy

Fim de semana passado eu fui com uma amiga para Annecy, uma charmosa cidade francesa bem perto da fronteira com a Suíça na área de Genebra. A idéia veio de um post que li anos atrás no Diário de Polly, como um passeio legal pra se fazer a partir de Genebra. Há algumas semanas compramos as passagens de FlixBus (eu jurei que não poria meus pés mais nessa tranqueira, mas pus rs) e pagamos mais ou menos 17 euros ida e volta. A viagem dura 40 minutos. Reservamos um AirBnb no centro histórico, e voilà. 
Oi Annecy :)
Chegando na cidade num sábado por volta do meio dia, nos deparamos com um festival, uma Annecy bem cheia e movimentada. Não sabíamos direito o que era, mas ficamos nos encantando pelas ruas estreiras com canais floridos, bares, bicicletas, tudo numa pegada medieval, até a hora do nosso check in. Quando fomos conversar com o nosso host, ele explicou que ia ter desalp, e que a parada passava bem em frente ao apartamento. O desalp é uma festividade de outono, quando as vacas e demais animais descem dos Alpes para enfrentar o inverno no quentinho dos estábulos. Da nossa vista mais do que privilegiada na varanda, assistimos o desfile das vacas, ovelhas, gansos, cachorros, fazendeiros, padres, músicos. Tudo muuito fofinho e alpino demais <3




Vacas enfeitadas, alpenhorn, e a nossa vista privilegiada imune a mijada de animais rs
Quando acabou o desalp, saímos para explorar a cidade. Demos muita sorte com o tempo, e estava além de super ensolarado, com uma temperatura incrível para essa época do ano. Passamos o dia andando por todas as ruazinhas, sentando na beira de canais, tomando um sol, comendo bem, entrando em lojinhas e enlouquecendo com a beleza colorida de Annecy. A cidade é maravilhosa demais! Fica no meio dos Alpes do Ródano, tem um lago babado, tem seus primeiros registros datados do século X, pontes e canais, flores, é um presente pros olhos.


Surra de canal porque eles são maravilhosos demais

E aos domingos rola mercado sobre as pontes. É incrível!
O canal até o lago <3
No domingo não tínhamos muito plano, e embora seja impossível enjoar de passear pela cidade, resolvemos tentar algo diferente. Andamos até o Castelo d'Annecy, uma construção do século XVI que fica no topo de uma pequena colina e hoje abriga um museu, porém estava fechado pra almoço rs. Fica essa dica: quem for visitar, evite as 12-14h, porque ele fecha. E foi aí que paramos numa loja de aluguel de bike e perguntamos se rolava dar a volta no lago. O cara nem prestou atenção na minha cara de mocoronga, no meu outfit não apropriado, na bike nada a ver que ele estava prestes a alugar pra gente, nada.. só disse, sim, é sim. E pronto.. la saímos nós felizinhas andando pelo lago. Depois de uma hora e meia e uma descida absurda, resolvi olhar no mapa e tomei um susto: tínhamos pedalado 16km, e ainda faltava 24 pra terminar a volta ao lago. Eu meio que paniquei. Mas depois daquela descida imensa, fazer meia volta não era uma opção. E foi assim que pedalei 40km de calça jeans e sapatilha rs. Mas olha, devo dizer que apesar da dor nas pernas, I regret nothing. A vista foi linda por 40km, e não teve um minutinho que não babei na paisagem. 
Sem saber ainda o tranco que nos aguardava rs...
Depois de uma subida poderosa, olha essa vista!
A cara de morta feat. destruída, porém feliz
E como não estar, né?
Chegamos de volta na cidade com tempo de pegar nossas coisas no apartamento, tomar um café, sentar na beira dos canais pela última vez, e nos despedir de Annecy com vontade de voltar. Não tenham dúvidas de que eu voltarei :) 

Procurando emprego na Suíça

Não é porque recebi umas propostas que virei expert no assunto rs, mas agora pelo menos consigo dizer o que pode funcionar mais ou menos. E de quebra, as always, tentar ajudar alguém que precise. 

* * *
CV
O currículo por aqui é bem diferente do que estamos acostumados no Brasil. De cara, quando fui ao trabalho de Mati pedir à RH dele para dar uma olhada no CV, ela já lançou: falta foto, ta enxuto demais. Eu acho um absurdo gigantesco ter que botar foto no currículo, pois é uma baita ferramenta de discriminação. Mas o mundo a gente muda aos poucos, e pro emprego eu tinha pressa rs. Então tirei uma foto estilo profissional, com fundo branco, com roupas de trabalho (nada de cortar aquela foto que você saiu bonita numa viagem rs) e, muito braba, botei no currículo. Além disso, se no Brasil menos é mais, aqui mais é mais mesmo haha. Aparentemente, o currículo deve explicar de forma mais detalhada as experiências profissionais, e se isso resultar num CV de até 2 ou 3 páginas, tudo bem. Então fiz isso. A ideia é que fique mais ou menos assim:
Obviamente, essa não sou eu. Esse CV é um template do site http://genericrevia.club/
Onde procurar? 
A internet, meus queridos, é um mundo de oportunidade. A minha principal fonte de busca foi o LinkedIn, desde sempre. Perfil atualizado, e busca diária. Mesmo quando eu não tinha o visto de trabalho, estava sempre olhando por lá. No total, consegui quase umas 10 entrevistas pelo site e uma virou proposta. As empresas estão cada vez mais usando o Linkedin, e vale gastar tempo lá (e se comportar, Linkedin não é Facebook). Também usei bastante o Indeed e lá tem muuuuita coisa, muita mesmo. Tem ainda os sites de agências, como a Hays, a Page Personal (do Grupo Michael Page), Adecco, Randstad, etc. Se você entrar nisso tudo, vai ter um range bem grande de vagas, indo de trabalhos manuais até grande diretoria de empresas rs. 

Networking
É fundamental. Li um dado de que quase 70% das vagas na Suíça não são postadas (e desconfio que esse número seja similar mundo afora), e ter uma rede de contatos pode ser fundamental para você se colocar no mercado. Chegando num país novo é bem difícil construir essa rede e por conta disso eu comecei a frenquentar MeetUps, entrei em grupos de facebook, fui à palestras e isso foi até um dos fatores decisivos para eu optar pelo curso que estou fazendo. Num encontro de um grupo do facebook, acabei conhecendo uma mulher cujo marido era advogado, e recebi um email para realizar um projeto com ele. Na época era um projeto de um mês, e eu estaria 15 dias desse mês no Brasil, além da questão do visto, então não rolou. Mas olha só.. um drink no bar virou um possível projeto temporário, que poderia ter virado uma vaga permanente. Através da rede de contatos da Universidade de St. Gallen, onde estou fazendo meu curso, consegui o estágio que estou realizando no momento (sim, virei estagiária, e irei explorar esse ponto logo abaixo). É muito importante conhecer pessoas que possam te informar de vagas não postadas, que possam te recomendar para amigos, que possam ao menos passar o seu CV para o topo da pilha. Inclusive, eu coloquei o networking aqui, embaixo de onde procurar, porque uma coisa complementa a outra: você pode achar uma vaga no Linkedin, por exemplo, e achar um contato que trabalhe na mesma empresa, que possa botar o seu CV na mão certa.

Candidatura
O famoso application, rs.  No Brasil, quando me candidatava pra alguma vaga, era só escrever um email falando que estava interessada na vaga e anexar o CV. Aqui é beeem diferente. O CV deve ser acompanhado primeiramente de uma bendita cover letter, a carta de motivação. Eu detesto escrever cover letter, mas é necessário. Não vou dar receita de cover letter aqui porque quem sou eu na fila do pão, né... mas acho que é importante manter princípio básicos de redação: introdução, exposição, conclusão, tudo de forma coesa, e sem se alongar muito porque os caras tem sabe-se lá quantas candidaturas pra ler. Fale da sua experiência, do seu interesse pela vaga, e pronto, seja profissional. Além dela, devem acompanhar o CV o diploma (SIM, o DIPLOMA) e cartas de recomendação de antigos empregadores. Então é bom ir atrás desses documentos se vocês, assim como eu, não tem eles em mão rs. Eu me formei em 2010 e nunca tinha buscado meu diploma, olha a vergonha hahaha.. Fui quando me informaram que sem apresenta-lo aqui não ia rolar. Mesma coisa para carta de recomendação, eu nunca pedi. Mas graças a deusa sempre tive bom relacionamento com chefes, e ai fui atrás delas com um c e r t o delay, e resolvido. Ai pega CV, cover letter, diploma, recomendação, faz um tudo um PDF só e pronto, ta pronto seu application :) 

Aceite que talvez uns passos pra trás sejam necessários
Aqui acho que é um ponto crucial dessa busca. Já comentei em algum post do blog de como foi "dolorido" ver a minha experiência sendo diminuída. A verdade é que chegar num país novo é abrir mão de muitas coisas, inclusive de muitas conquistas. Eu fiz uma faculdade de Direito que no Brasil tem certo prestígio. Aqui ninguém N U N C A ouviu falar. Eu trabalhei num escritório de advocacia de ponta, com o cara que escreve livros que a gente usa na Universidade. Aqui? É isso mesmo, nunca ninguém ouviu falar. Trabalhei em multinacionais relativamente grandes, porém dessas que eu nunca tinha ouvido falar antes de entrar, e nunca mais ouvi falar depois que saí. Empresas que empregam 20 mil pessoas pelo mundo, cujo serviço passa dentro das nossas casa algumas vezes por dia, mas que não conhecemos, e que não trazem um pingo de atenção pro meu CV. Resumindo, aqui, no meio de tantos CVs com Sorbonne, LSE, St. Gallen e afins, eu sou ninguém. E se eu era gerente no Brasil, rapidinho aceitei numa boa que não seria aqui. Tentei expor a minha experiência da forma mais rica possível, e apliquei para vagas que condiziam com ela, mas também para vagas bem mais juniores. Tracei como estratégia conseguir uma vaga, qualquer que fosse ela, numa empresa grande, respeitada, que sobressaísse no meu CV pra sempre. E foi aí que, mesmo tendo recebido uma oferta de emprego fixo (também para um cargo mais baixo do que eu tinha no Brasil), bem remunerada, numa empresa grande, resolvi aceitar uma vaga de estágio numa empresa Fortune 500. Pra quem não ganhava nada, o salário de estagiário já estava bom rs, e eu entendi essa oportunidade como um investimento a longo prazo para a minha carreira. Vejam bem, eu recebi duas ofertas, as duas para vagas mais júniores que a minha experiência permite. Mas tudo bem. Entendi que esse vai ser o passo pra trás que me permitirá dar dois pra frente. Por isso, se abra para outras possibilidades. Mudar de país é um eterno exercício de humildade, em vários aspectos. 

Esses são os pontos que eu acho mais fundamental. Se alguém tiver como complementar esse post, será muito bem vindo :) 

A cara da gente

Num post lá nos idos de 2015 eu contei a relação com meu cabelo crespo e meu retorno às origens depois de mais de uma década de alisamento. Na época eu estava deixando o cabelo ao natural, e queria ver no que ia dar. A verdade é que deu muito certo. Eu fui deixando o cabelo crescer, fui cortando, fui tirando a química, fui tratando. Cheguei no ponto que eu queria. E foi aí que as coisas começaram a ficar estranhas.

Eu vivia com o cabelo desarranjado antes, e achava que era porque ainda precisava crescer, que ainda não tava "no ponto". Eis que, depois de 3 anos, eu não tinha mais  que pensar, o cabelo estava no tal do ponto. E no dia que eu lavava, ele ficava LINDO. Em todos os outros dias, era um ninho de cobra embaraçado que eu prendia em coque. O meu cabelo cacheado é seco, não se deve lavar com muita frequência, o que significa que eu passava muito mais tempo com um cabelo que não me agradava do que o contrário. E as vezes eu tinha aquelas vontades doidas de alisar, mas ai lembrava dos dias bons e passava... 
Cachos maravilhosos no dia da lavagem
Além dos "good hair days", uma coisa que ficava me martelando muito era essa de aceitação. Eu queria muito participar dessa tomada nossa pelos nossos corpos, desse amadurecimento que a mulherada está passando na relação com a própria imagem refletida no espelho. Eu queria ficar confortável com o cabelo que nasci. Então por mais que tivesse uma pulga atrás da orelha me atormentando, eu achava que era resultado de uma vida de imposição de cabelo liso como o modelo de beleza. E vamos combinar que de certa fora era sim. 

Mas a real é que toda vez que o facebook me trazia uma lembrança das antigas, eu e meu cabelo liso, eu tinha uma sensação de nostalgia muito profunda. Mas muito profunda MESMO. Me dava uma tristeza, e eu ficava "quero meu cabelo de volta". Só que perai, agora é que eu tinha o meu cabelo, né?! E eu não tentei reprimir essas ideias não, mas fiquei atrás de tentar entender o sentimento. E eu entendi que ter alisado meu cabelo dos 15 até quase os 30 moldou minha auto imagem. Eu acabei percebendo que essa pessoa de cabelo encaracolado, por mais bonito que fosse, não representava bem a imagem que eu tinha de mim mesma. Não era "a minha cara", sabe?!

E aí que nessa eu resolvi fazer uma viagem no tempo, e vou compartilhar aqui umas imagens antigas aqui:
2005
2006

(pausa dramática para a invenção e popularização do smartphone)
2012
2013
2014
2015

Não é que meu cabelo esteja f a b u l o s o em todas essas épocas, mas é assim que eu me reconheço. Demorei algum tempo pra entender que, qualquer que tenha sido o estrago do tal padrão de beleza, meio que já ta feito, porque eu simplesmente não consigo me identificar com o meu cabelo natural. E na boa?! Tudo bem. Eu acho que o grande ponto dessa revolução toda é que a gente se sinta bem. É desencanar de achar que tem um "jeito certo". E sim, hoje em dia não cabe mais induzir alguém a mudar algo do próprio corpo para se enquadrar em padrão. Assim como não cabe a gente ficar forçando numa coisa que não ta funcionando. Eu queria fazer muito parte do movimento de ode aos cachos, tentei até onde deu. Mas a prioridade sou eu. 

E foi assim que eu cheguei no Brasil disposta a voltar no meu mago dos cabelos (rysos) e retornar ao meu antigo visual. Peguei várias dessas fotos aí e mostrei pra ele. E depois de algumas horas (que seguem atormentando o meu saco), eu saí de lá me estranhando, mas me reconhecendo. Depois de umas horas eu já tava beeeem a vontade com a minha nova cara antiga. E rolou um negócio bizarro rs... Eu do nada me notei mais vaidosa, querendo me arrumar mais, e me achando muito, mas muito mais bonita. É aquilo que a gente meio que já sabe: beleza vem de dentro, de auto confiança, de felicidade. E eu posso dizer com bastante tranquilidade que há muito tempo não me sentia tão bonita, tão eu :) 
Me achando tanto que até fiz selfie no elevador pra ilustrar <3

Meu processo migratório na Suíça - troca de visto

Um pouco depois de me mudar fiz esse post explicando como foi feito nosso visto, o que é o visto L e as limitações que ele me impunha. Também expliquei aqui como tivemos que proceder para receber o nosso permit. Digamos que a minha vida estava on hold: tudo dependia do bendito visto B, que deveria chegar depois de 2 anos da gente aqui. Vamos só dar uns passos pra trás, rs...

Ano passado o trabalho de Mati deu entrada na renovação do nosso visto, e disse que "tentaria" pedir um visto B, mesmo a legislação dizendo que não europeus devem manter um L por dois anos. Eu não dei muita bola. Porém, quando fomos dar entrada nos papeis na comuna, a moça lá disse que nós deveríamos receber um B sim. Pois é claro que esse B não veio, e esse rolo todo só me fez criar expectativas e ficar ainda mais decepcionada. Mas ok, depois de ficar bem puta, segui normalmente com a minha vida, na esperança desse ano as coisas finalmente se encaixarem. O que quero dizer com esse parágrafo é: o processo migratório é tão confuso que até as autoridades responsáveis se confundem e passam informações desencontradas. Dar conta dele sem enlouquecer não é pra fracos. 

Como esse ano o nosso visto vencia em meados de julho, lá pro começo de junho eu fui me informar na imigração, na comuna, etc, qual a melhor forma de proceder para garantir que a gente recebesse um B. Ninguém quis se comprometer e dizer que receberíamos esse visto com 100% de certeza, mas falaram que tudo indicava que sim. Um detalhe importante: cada cantão tem uma cota de vistos para não europeus, então mesmo que a lei determine que um L não pode ser renovado por mais de 24 meses, se a cota do cantão já tiver se exaurido, a autoridade migratória pode emitir um novo L sim. E esse era meu maior pesadelo. Além de tudo, nesse dia eu recebi uma informação na imigração, outra na comuna, e quase abri a boca a chorar lá, tamanho o desespero de achar que ninguém sabe o que está falando. Eu precisava que as coisas saíssem redondas, mas fiquei com a impressão de que nossa única chance era a sorte. Uma senhora que trabalha lá, vendo a minha cara de choro preso se compadeceu, me ajudou muito e foi fundamental para o desenrolar rápido do visto depois.  

Em meados de junho o empregador de Mati preencheu o formulário e enviou. Ficamos aguardando resposta por um bom tempo, e nada. Já quando nosso permit tinha vencido o empregador confirmou que o visto havia sido processado, e ele havia recebido um B. Como eu vim para a Suíça com base na "reunião familiar", uma vez que o visto de Mati foi concedido, eu então preenchi um formulário de reunião familiar, pedindo o visto para mim. Como estamos nesse esquema da reunião familiar, eu o acompanho. Quando ele tinha um L, eu recebia L. Agora que ele tem B, eu recebo B. E como nessas alturas eu já tinha um contrato de trabalho assinado, enviei uma cópia para eles, para pedir que fosse processado em tempo de eu começar na data acordada com o meu empregador. E assim foi... o visto chegou 3 dias úteis antes de eu começar a trabalhar rs.

O visto B para não europeu é anual, o que significa que ano que vem teremos que renova-lo de novo. A taxa que o empregador de Mati pagou pelo processamento do visto é de 500 francos, e depois pagamos 123 cada um para a emissão do cartão. Imagino que quem esteja fazendo isso por conta própria arque com esses custos pesados sozinho - mas eu não conheço outros processos, como por exemplo, de quem vem pra cá por matrimônio com suíço, então não sei os valores e tramites exatamente. Essa é a minha experiência.

Eu acho esses posts quase chatos rs... Mas faço porque lembro de eu mesma, uns anos atrás, procurando por informações na internet e encontrando muito pouca coisa. Prefiro deixar registrado e assim, possivelmente ajudar a esclarecer coisa para quem está no processo infernal de mudar de país :)

E a vida, heim?

A vida vai muito bem, obrigada. Depois de dois anos de sofrência, chegou o tão desejado visto, o tão desejado emprego, e a vida segue aqui tomando novos contornos. Hoje em dia tenho uma rotina completamente diferente dos meus dois primeiros anos em solo suíço, e devo dizer que ainda não estou 100% adaptada. Mas ok, imagino que deve ser normal o corpo tomar um tranco com tanta mudança depois de tanto tempo numa maciota, né?!

Eu levanto 6h da manhã todo dia, às 7h pego o trem pra Zurich, entro no trabalho 8:15, saio às 17:15 e chego de volta em casa às 18:30. Duas vezes por semana tenho feito tandem de alemão, pois só uso inglês no trabalho e não quero enferrujar. Na próxima semana voltarei ao ballet, que eu tinha parado para as férias e acabei adiando a volta por conta das mudanças todas. E algumas vezes por mês tenho aula da minha pós graduação, que são dias inteiros e por isso não vou trabalhar. Aos finais de semana me sobra tempo pra dar aquela limpada na casa com Mati, encontrar os amigos, dormir até mais tarde e passear. Vai dizer que não é outra vida? Estou penando, me sinto muito cansada, mas estou feliz. Não reclamo de jeito nenhum :) 

Desde que cheguei das férias fiz bastante coisa, além de dar uma baita reviravolta na vida hahaha.. Vejamos: 

Recebi amigos em casa para um domingo de café na varanda e mergulho no rio
Passei um sábado fazendo picnic na beira do lago e explorando Lausanne, minha cidade favorita da parte francesa
Fizemos nossa primeira caminhada com ares outonais na floresta
Fui pra Paris <3
Pedalei 20 km, o melhor jeito de descobrir os cantinhos perdidos de Berna
Passei três dias em Vevey, à beira do Lago de Genebra, em aulas da pós
Ou seja... A vida anda agitada pra caramba. 

Um fim de semana em Paris

Não tem jeito, eu sou mesmo uma grande fã de voltar a lugares que já conheço. E se for em boa companhia, então... eu nem preciso pensar muito. Quando minha amiga Emilia resolveu passar um feriado em Paris, rapidinho eu dei um jeito de me enfiar na viagem dela haha. Eu adoro a ideia do trem pra Paris, porque ele é rápido e prático - em 4h você está lá, no meio da cidade - mas ele é também caro, e se não comprar com bastante antecedência, fica meio inviável. Mas tem a HOP!, low cost da família da Air France, que viaja de Basel, e mesmo com pouca antecedência é possível encontrar com eles passagens pagáveis. Voilà, tínhamos um plano. Sexta-feira depois do trabalho peguei o avião e ~EMOÇÃOOO~ jantei com minhas amigas de infância em Paris. Quem via a gente comendo barro juntas com 5 anos de idade jamaaais imaginaria que a gente estaria bem phynas em Paris um dia, nénon?
Ficamos no Ibis na região da L'Opera e eu indico muito. Primeiro porque Ibis é Ibis, não tem surpresa, é um padrãozão e você sabe o que vai encontrar em qualquer lugar do mundo. O preço era bom, e a localização, ótima. Saímos andando de lá para muitos lugares, e para ir e voltar do Charles de Gaule também é bem fácil usando o Roissy Bus, um ônibus que sai do aeroporto e para direto lá na L'Opera, na frente das chiquérrimas Galeries Lafayette. O ônibus funciona desde as 6h da manhã até meia noite, e sai de 20 em 20 minutos. Custa 12 euros. 
A vista da nossa janela :)
E sabe qual é a beleza de voltar? É ter zero compromisso com "turistagens pesadas". Nós três já conhecíamos Paris e pudemos nos dedicar a conhecer um lado menos badalado e mais francês da cidade. A Emília achou um guia muuuito legal, que dá umas dicas interessantes e menos batidas, e resolvemos seguir um dos passeios de lá, na região do Canal de St. Martin. Passamos a manhã inteira andando por vielas, encontrando lojinhas fofinhas, parando para fazer people watch e tomar uns drinks nuns lugares fofinhos. O dia estava ensolarado bem lindo, e somado a esse slow pacing, é minha definição de alegria nas férias <3
Canal de St. Martin



E esse guia, além de nos apresentar essa área linda, ainda deu a melhor ideia haha... Na Bassin de la Villete, uma bacia na sequência do Canal de St. Martin, há uma pequena marina onde é possível alugar barcos elétricos e você mesmo dirigir e fazer um mini cruise. Você pode alugar por hora, ou fazer um passeio maior saindo da bacia. Optamos por comprar uns queijos e vinhos e ficar pela bacia mesmo, só na curtição e sem preocupação. Foi um dos pontos altos do fim de semana, porque a gente se divertiu muito com o conceito, dirigindo o barco, passando pelas outras pessoas. É bem fácil, não é perigoso, e eu recomendo muito. A Marina chama Marin D'Eau Douce

Tremidas porém felizes
A área ali é bem legal, cheia de bares, restaurante, gente fazendo atividades ao ar livre. Passamos o fim do nosso dia fazendo picnic na beira do canal e pingando de bar em bar. Não poderia ter sido mais perfeito :)


Nosso domingo começou beem devagar e cheio de ressaca rs. Ninguém peregrina de bar em bar até as 2h da manhã impune, não é? Resolvemos fazer um tour por Montmartre, e começamos com um belíssimo café da manhã no Cafe Marlette. Recomendo muito também. Um ambiente super fofinho, bolos deliciosos, um café realmente bom. De lá seguimos andando pelas ruazinhas do bairro, passamos pelo Café des 2 Moulines, o Café da Amelie Poulain e seguimos até chegarmos na Sacre C'Ouer, pra mim um dos pontos mais belos da já muito bela Paris. 
Café Marlette

As ruazinhas de Montmartre

Terminamos o nosso dia, e a nossa viagem, passando pelo Trocadero e beira do Sena. Eu nunca tinha ido ao Trocadero, e achei que seria uma boa ter uma vista diferente da Torre Eiffel. Caminhamos por quase três horas só curtindo um sol, apreciando a cidade, com algumas paradinhas para comer, para beber, e para se curtir, até chegar no hotel, onde nos despedimos. Foi uma viagem muito, mas muito gostosa mesmo, que só me faz querer repetir mais e mais. Lugares, fins de semana com pessoas queridas, tudo que é bom e faz bem. Recomendo. 





Ps - faço esses posts de viagens no esquema bem diário mesmo, que é pra ficar de recordação pra mim. Mas no meio do texto faço questão de botar nomes, links e outras informações que possam ser úteis, assim além de recomendação, o post fica informativo pra quem tem interesse :)

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