A tal da endometriose

Hoje, 20 minutos após abrir um exame, por coincidência topei com uma reportagem sobre endometriose que saiu na Maire Claire. A matéria é bem completa e esclarecedora, mas mostra um lado da doença que eu, como portadora, nunca senti.
A vida toda senti cólicas horrorosas, menstruava um volume bizarro - tinha anemia de tanto sangue que perdia - sofria muito mesmo. Me lembro de, aos 15 anos, ter feito uma conta de quantas menstruações eu ainda teria ao longo da vida, e ter chorado ao ver o número final, hahaha...
Durante a adolescência, o ginecologista falou algumas vezes sobre ovário policístico, mas ficou nisso.  Em 2006, com 20 anos, tive uma crise de dor aguda no meio da rua (ou melhor, dentro do ônibus), com direito a desmaio e resgate por carro de polícia. Acabei indo parar no Pronto Socorro do HC, e Senhores, garanto, vocês não querem saber. Enfim, depois de muita onda, tomei um Buscopan e voltei pro aconchego do lar.
As cólicas continuaram, a recomendação pelo uso da pílula também. Tentamos de tudo, pílula contínua, baixa dosagem, etc. Em março de 2011, uma nova síncope. Mais uma crise de dor, mais uma visita ao hospital, que dessa vez resultou em internação de 3 dias e o diagnóstico preciso da endometriose. A minha médica então sugeriu um acompanhamento por 6 meses, com alteração na pílula. Após esse período, constatamos que o nódulo que crescia no meu ovário esquerdo tinha aumentado, e muito. A cirurgia seria o próximo passo. Como ela não operava, eu de início à caçada do médico que faria a minha cirurgia.
À época eu tinha um convênio muito bom, e acabei chegando até a Dra. Rosa Neme, super autoridade no assunto. A Dra. Rosa acho que foi a responsável pela minha tranquilidade com a minha doença - tranquilidade tanta, que esse texto é a primeira referência que faço na vida a uma "doença". Nunca me senti doente, nunca me senti preocupada.
Em outubro de 2011 fiz a cirurgia por vídeo laparoscopia, que acabou sendo um pouco longa porque eu já tinha aderências no ovário, fundo do útero, e algumas em torno do intestino. O pós operatório foi relativamente tranquilo - eu que nunca tinha feito cirurgia, e vejo esse povo indo pra faca por qualquer coisinha, achava que seria um passeio no parque, e não é exatamente isso. Mas ok, superável. Na mesma cirurgia, foi colocado em mim o Mirena, DIU que, em 90% das mulheres, cessa a menstruação, e por isso ajuda a combater a endometriose. Eu não tive essa cessação e hoje estou num momento de fazer exames e descobrir se estou com o problema de volta.
 
Acabei contando a história toda pra expor o quanto a forma que você vai lidar com tudo depende do seu médico. De ele conhecer o problema, de saber expor o problema pra você, de dar as alternativas possíveis, de ter a sensibilidade para lidar com uma doença hormonal. Em momento algum me foi dito que isso traria dificuldades para engravidar. Sempre me foi falado o seguinte: doença, como todas as outras, precisa de tratamento e cuidado. Nas vezes em que eu questionei sobre essa dificuldade, a resposta que me foi dada é de que a fertilidade é afetada por inúmeras coisas, e que eu devia focar no meu tratamento. Outro conselho valioso que a Dra. Rosa me deu foi de não olhar ao Google. Ela me disse: Gabriela, não vá. Se proíba de ir até o Google e digitar "endometriose". Você vai se desesperar e me ligar chorando. Confie em mim. E eu confiei.
O que vi muito no relato das mulheres da reportagem foi uma angústia, uma ansiedade e um sofrimento latente, que acabou por prejudicar ainda mais o processo. É claro que o fato de eu ainda não querer engravidar me ajuda a relaxar.. talvez se quisesse, a conversa seria outra. Mas a Dra. Rosa sempre me fez acreditar que aquilo era um problema removível, que ela ia me ajudar a tratar, e tudo ficaria bem. Eu sempre acreditei que tudo deu certo - mesmo agora, que os focos talvez tenham crescido novamente. Sei que faz parte do que é a endometriose, e me sinto bem para começar tudo de novo. Penso que talvez eu seja inconsequente e evite pensar na parte grave da coisa... Pode ser, mas acho que se for isso mesmo, me foi benéfico no tratamento. Mesmo quando já internada, e na sala de pré cirurgia, eu não estava nervosa, fiquei sossegada o tempo todo.
 
Na reportagem da Marie Clair também falam que, pelo fato de ser uma doença nova, muitos convênios não cobrem o tratamento. O meu cobriu todos os exames e me reembolsou por todos os gastos com a cirurgia - todinhos. Me senti amparada, e isso é fundamental para se encarar as coisas com mais leveza. Me sinto privilegiada, e fico angustiada que a maioria das mulheres mal possam ter um diagnóstico. Ainda por cima, ficam colocando como se fosse uma consequência do "egoísmo feminino", de mulheres que colocaram a carreira à frente da família, o "mal da mulher moderna", e esquecem de lembrar do mundo em que estamos vivendo. Me recuso a aceitar essa culpa. Nenhuma mulher deve se sentir culpada por ter uma doença, seja ela qual for, e decorrente do que for.
 
Enfim, acho que o assunto precisa ser abordado de uma forma real, sem o clichê "moderno", e também sem fatalismos. Teve uma novela aí, que a Camila Pitanga pegava o Lázaro Ramos, e falava que "não podia engravidar porque tinha endometriose". Foi na mesma época da cirurgia, e eu fiquei pensando que grandes merdas pra se falar em novela das 9.

É uma luta, é um saco, é um incômodo que pode ser diário... mas acho que o essencial é se manter firme, tranquila e positiva. Força meninas!

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