Sobre as voltas da vida

Hoje um amigo que está pensando em ir passar um tempo fora me ligou pedindo dicas. Eu disse pra ele que já não sabia mais muito sobre "intercambios", que jajá vai fazer 8 anos que eu voltei. E então ele soltou a frase: "você chegou mas nunca voltou, né?"

E sim, é verdade... eu cheguei, mas nunca voltei. A pessoa que foi praquela viagem nunca mais voltou, porque ela nem existe mais. E essa é a beleza de fazer um intercâmbio, de ir morar fora, de ir embora: se abrir pra um novo mundo, pra novos pensamentos, pra uma nova vida. Quando você está lá, sozinho, longe das coisas e das pessoas que você conhece, é que você descobre quem você realmente é, do que você realmente gosta, a força que você tem e como você é longe da influência de outras pessoas, como pai, mãe, grupo de amigos, etc. Quando você percebe, já está ouvindo outras músicas, vestindo outros estilos, fazendo novos planos, convivendo - e adorando - com pessoas com outra visão de mundo.

Quando eu olho pra trás e vejo tudo que eu aprontei naquele Wisconsin, eu sinto um orgulho imenso da minha pessoa (e várias vergonhas também, rs). Eu cheguei lá crente que falava muito inglês... Precisei nem de 5 minutos em solo americano (ainda no primeiro aeroporto) pra descobrir que eu falava muito menos do que achava e pior: não entendia absolutamente nada.

Eu tive que mudar de "casa" 6 veses, eu passei uma semana com minhas roupas no porta mala de um carro - alias, eu tive que ensinar o conceito de parcelamento pra um gringo, pra poder adquirir meu carro, hahaha -, eu me dei muito bem com a neve e tomei 9 tombos em 4 meses de inverno (o primeiro 12 horas depois de por o pé no Wisconsin), eu me apaixonei por um cara e quebrei a cara, eu me apaixonei perdidamente por outro e fui muito feliz, eu briguei com uma polaca que queria me roubar, eu chorei de medo um psicopata bêbado batendo na janela do meu quarto de madrugada e falando obcenidades, eu virei salva vidas de parque aquático, eu vi uma colega deixar uma criança morrer afogada, eu fiz amigos e vi eles irem embora, eu fiz novos amigos e então fui embora. 

Eu acredito que não teria feito metade disso aqui no Brasil. Na segunda mudança de casa, inclusive, teria ligado aos prantos pra minha mãe, teria pedido colo e teria me sentido amada. Mas lá eu não tinha essa opção, então respirei fundo e enfiei, seis vezes, minha viola no saco. E eu me senti forte feito um touro por isso. 

É maravilhoso aprender a se comunicar, se virar, se defender numa nova língua. É maravilhoso entender como a vida anda em outro hemisfério, como os hábitos mudam, como é incrível ter sol depois das 9 horas da noite, como a escuridão do inverno deprime, como a neve é fofa na primeira hora, e mortalmente escorregadia a partir da segunda. É bizarro ver como sabem pouco sobre o Brasil fora daqui, como pensam que podemos ser subestimados por sermos imigrantes.

Mas intercambio é maior do que isso. Um intercambio é menos sobre o lugar pra onde você vai, e mais é sobre como você vai e, principalmente, como você volta. Ou você não volta... como aquela Gabriela que saiu daqui em dezembro de 2006, achando que só queria aprender inglês e voltar pra casa, e nunca mais voltou. 

2 comentários:

  1. Gabi, fiquei morrendo de curiosidade dessas histórias que vc citou aí. Menina, que loucura! Mas vc escreveu belissimamente sobre o que é o intercâmbio. Ir e não voltar mais. Fique até com vontade de publicar o seu texto na página do trabalho que é para alunos que desejam fazer intercâmbio (dentre outras coisas). Pode?

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    1. Paulinha, um dia eu solto aqui as crônicas wisconsianas, e ó.. vc vai se divertir e chorar com Gabriela del Bairro, hahaha. Fique a vontade para compartilhar o texto, é uma honra :) Beijos

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