A endometriose e outro lado da moeda

Há algum tempo, nesse post aqui, eu expus o meu problema com a endometriose. Fui bem categórica em dizer que o médico faz TODA a diferença na forma com que se encara a doença. E agora estou aqui para reforçar a tese, justamente por, depois de um exemplo tão positivo, ter me deparado com um atendimento péssimo. 

Desde o ano passado estou fazendo vários exames e acompanhamentos, pois estava sentindo umas dores, e sabe como é, né... gato escaldado... Andei sondando a querida Dra. Rosa, mas hoje não tenho mais o convênio que cobria ela, meu convênio é inferior, e a consulta dela é uma pequena fortuna que, no momento, achei que não precisava gastar. Acabou que fui em outra médica. E minha gente... Tomem isso de lição: a pão durisse, assim como o crime, não compensa. A criatura abriu meu exame, olhou, e com a mesma cara que tinha acabado de agradecer o café que trouxeram pra ela, falou... Ihh menina, ta cheia de endometriose. 

Sério. Assim. Como quem me diz que to cheia de espinha... Já fiquei ~um pouco~ irritada. Continuamos a conversa, ela explicou sobre as possibilidades de tratamento, falou maravilhas de um medicamente novo, o Allurene, que ele dimiui os focos, que ele diminui dor, que ele da conforto, que ele faz comida, que ele te leva pra jantar, que ele faz amorzinho gostoso

E aí, vem a peróla em forma de diálogo:
- mas me conta, você quer engravidar agora?
- não, agora não...
- melhor, porque acho não ía dar não, ía ter que fazer inseminação. 

Lhes pergunto, senhoras e senhores, QUEM PERGUNTOU? PRECISA? PRECISA MESMO?
Quisesse eu engravidar, teria perguntado. Eu não perguntei porque não é uma preocupação do momento. Precisa vir jogar na minha cara, com toda essa sensibilidade de um elefante dentro da Camicado, que talvez eu não possa ter filhos?

Aí eu resolvi que precisava seguir com a conversa, pelo bem das companheiras de luta:
- mas Dra, eu NUNCA vou conseguir engravidar sem inseminação?
- veja beeeem, não foi isso que eu disse... 
- então a Dra precisa ser mais clara e delicada com esse assunto, pois foi só isso que eu entendi. 

Ai ela me olhou, meio assim, sabe... com aquela cara..

de bunda
- não, Gabriela, na verdade acho que agora, neste momento, você teria dificuldades pra engravidar, mas no futuro, com  tratamento, talvez melhore

E é isso... Eu entendi todo o rebuliço que o povo faz em torno da endometriose. É por conta de gente sem noção como essa Senhora, que cria estresses desnecessários na cabeça das pessoas. A endometriose afeta a possibilidade de gravidez? Claro que sim. Mas é fato completamente impeditivo? Em casos gravíssimos somente. É o meu caso? Disse ela, depois de cagar no maiô, que não... Francamente, viu. Nós sabemos como os fatores psicológicos afetam nosso corpo, inclusive os nossos hormônios. A endometriose é uma doença basicamente hormonal, e tendo em mente o tanto que hormônio pode virar a nossa vida de cabeça pra baixo, lhes pergunto mais uma vez: precisa mesmo desestabilizar ainda mais uma pessoa? Vai ajudar?

Dito isto, acho importante registrar aqui que entrei em contato com minhas médicas do coração, que já me mandaram sossegar o faixo e me garantiram que, se um dia eu quiser ser mãe, a decisão vai ser minha, e não dessa doença desgraçada. 

Mão nervosa

Eu sou toda metida a modernosa, mas tem hora que até minha vó deve ser mais atualizada que eu. Tipo compras online. Resisti, resisti muito. Eu simplesmente queria encostar nas coisas antes de comprar... demorei muito a ceder pras vantagens das compras a um click de distância. 

Comecei com maquiagem uns anos atrás. Fiz a festa no bom e velho Morangão. Não tive nenhum problema, nunca foi taxada, tudo chegou certo, fiz economias, mas vamos combinar que tinha a facilidade de já conhecer os produtos. Nem sei se hoje ainda vale a pena comprar lá, mas também, acabou a minha ~assanhação~ com maquiagem a hora que enchi umas 3 necessaires e não usei nem metade dos produtos - ma che bella economia, heim Gabriela...

Ano passado, acabei comprando coisas online para a minha reforma do quarto. Comprei cadeira, prateleiras, almofadas, em vários sites, tudo lindo e aí veio o drama: Mobly. FUJAM DESSE SITE! Levei basicamente 70 dias para receber um edredom. Comprei em julho, recebi depois do fim do inverno. Moral da história.. to usando pela primeira vez, em 2015, um trem que paguei em julho de 2014. E não teve Reclame Aqui que desse jeito... os caras não resolveram a merda do problema, me ligavam, me mandavam email, faziam juras de amor, mas o edredom que é bom, NADA. 

No auge da minha gastura, tentando receber o bendito do edredom, fiz uma comprinha na minha Farm querida. Pois recebi tudo bonitinho em coisa de 3 dias, parecia que tava tudo certo.. até eu ir lá olhar, e perceber que eu tinha pedido a blusa rosa, e recebi a blusa creme. Traumatizei de vez. Voltei à minha boa e velha convicção que compra boa é aquela que a gente alisa a coisa, vê o acabamento de perto, paga a dolorosa e sai com as maravilhas debaixo do braço. 

Mas eis que outro dia eu precisava substituir um sapato velho de guerra, achei uma mega promo, pedi, comprei, e pá.. chegou em 3 dias, número certinho, coisa linda. Aí eu resolvi que queria comprar um sapato masculino feminino, sei la, um oxford de respeito, e cheguei na Zattini. Recebi o sapato certinho, do jeitinho que eu queria, em DOIS DIAS. Serviu, foi amor à primeira calçada. Aí eu tava de olho numas calças aí de uma marca que só vende online, a merda da publicidade stalker do facebook me avisou que chegou delas  e adivinhem? Comprei... E é isso aí, minha gente, alguém amarra a minha mão que eu to ficando pobre... Já to me vendo velha, rodeada de gatos, sentada na frente da tv com um copo de licor numa mão, telefone na outra, comprando yogurteira da TopTerm, máquina TecPix, joia falsa e tapete persa no Infoshop da madrugada! I NEED HELP!

O inferno são os outros

Eu sou uma pessoa, digamos assim, bem direta. Quando eu começo a dar muita volta, pode entender que eu estou simplesmente evitando ser desagradável. Mas nós, pessoas não adeptas das firulices, somos sempre taxadas de grossas, insensíveis, etc. A grande sacada é que tem gente que vem, com vozinha fina e doce, e de um jeitinho bem meigo e infantil, emite opiniões bem desnecessárias, faz insinuações, ou ~brincadeirinhas~ bem sem gracinhas, coisas do tipo... Aí a hora que você, ariana sem papas na língua, dá um corte: nossa você viu, como é esquentada, né?

Capitão Hamilton, corta pro exemplo fático, que aconteceu ~com uma amiga~ minha, ariana como eu, que é adovgada como eu, e dorme na mesma cama que eu. Na empresa dessa amiga, cada um leva sua caneca pra tomar café. Medida de sustentabilidade, eliminação de copos de plástico. Aí fui lá e comprei uma caneca daquelas de metal, laranjinha por fora, branquinha por dentro, coisa mais linda. Tipo essas daqui. 

Daí uma colega de trabalho, falando com vozinha de desenho infantil, um dia no café da manhã - que é sempre cheio -, começou a dar umas risadas.. "coitada da Gabi, olha a caneca velha de vó dela, coitada, vamos dar uma caneca pra ela...". Gabriela respira fundo, da uma risada, e fala: imagina, eu gosto, eu que comprei. 

Duas semanas depois, café da manhã, a mesma criatura, com a mesma vóz de sonsa, dando várias risadinhas, abre a boca "não me conformo com essa caneca da Gabi, hahahaha.. esse fim de semana vou na Tok Stok e vou trazer uma nova pra você, Gabi..". Eu, novamente, muito gentil, mas já mais do que puta por dentro, falei... menina, nem gaste seu dinheiro. Já te disse que gosto dela, eu que comprei. 

Um mês depois, mesmo café da manhã, lá vem as risadinhas ~doces~ da pentelha: "Gabi, não me canso de sar risada dessa sua canequinha...". Aí Gabriela manda na lata "ao contrário de você, eu já cansei de dar risada dos seus comentários. Não sei se já falei, mas EU gosto da caneca, e veja como é o acaso.. por acaso ela é MINHA. Ta querendo me dar alguma coisa? Me dá 2 minutos de paz no café da manhã, por favor". 

Adivinhem quem é a grossa sem noção do escritório? Pois é... A advogada desequilibrada. Quer falar com ela? Liga antes pra saber se ta de focinheira. 



As 10 melhores

Outro dia me perguntaram quais eram minhas músicas favoritas. Da vida. Eu, que sou uma pessoa extremamente musical fiquei meio sem saber... Afinal, tem tanta coisa, TANTA. Além do mais, não sei vocês, mas para cada chocolate que comi na minha vida, tem uma música tema que me deixa saudosa toda vez que toca no rádio. 

Enfim... depois de muito esforço pra lembrar, e também pra não me contaminar pelas queridinhas do momento, consegui fazer meu top 10 da vida, mas sem ordem, de preferência porque aí já é demais pra mim. 

1-  I´m like a bird, da Nelly Furtado


I´m like a bird, I´ll only fly away... I don´t know where my soul is, I don´t know where my home is.. Acho que não preciso dizer muito mais porque que essa música, há 15 anos, me faz ir longe nos pensamentos. É uma música que não me lembra ninguém, só eu e meus sonhos ao longo da vida.


2- The Scientist, Coldplay


Essa é uma das composições mais lindas do mundo, na minha modestíssima opinião. Eu não gosto muito do que o Coldplay virou em termos de música, mas nessa época aí... eu ouvia dia e noite, e essa música me emocionava num grau... Era um sonho da minha vida cantar ela num show e foi mágico mesmo quando aconteceu. Eu nem consigo destacar um trechinho dela que eu ache mais especial, porque ela é toda especial <3


3- Pies Descalzos, da Shakira


Esse foi meu primeiro CD da vida. Até então, era só mixtape hahaha... E apesar do sucessão que era Estoy Aqui, Pies Descalzos era minha favorita. Eu era muito pirralha me sentindo rock´n´roll. Mas a música é boa demais mesmo, e hoje eu escuto e penso que era uma pirralha porreta, hahaha


4- Someday, dos Strokes


In many ways, they´ll miss the good old days, someday, someday.... Yeah hurts to say, but I want you to stay, sometimes, sometimes... 
Ahhhhh a fase brilho dos Strokes! Ouvia cantando, ouvia dançando, ouvia chorando... tables they turn sometimes.. 


5- Beija eu, da musa Marisa


Porque Marisa é vida, Marisa é amor, Marisa é tudo, e essa música é apenas o melhor de Marisa. 


6- Live Forever, Oasis


Só queria dizer que foi uma das grandes decepções da minha vida ir ao show do Oasis e eles não cantarem Live Forever. É um hino da minha vida. 
Maybe I just want to fly, Want to live don´t want to die, Maybe I just want to breathe, maybe I just don´t believe. Maybe you´re the same as me, we see things they´ll never see, You and I are gonna live forever... 


7-Heroes, do Bowie


Porque eu posso ouvir até na fila da quitanda que vou ficar com vontade de sair correndo pela rua, vivendo tudo que eu quero viver. 


8- Like a Rolling Stone, original do Dylan


Porque o Mick é mara, mas o Bob é MUIIITO MAIS... How does it feel? How does it feel? Do be on your own? With no direction home? A completely unknown? Like a Rolling Stone?


9- Lisztomania, do Phoenix


Acho que a mais recente da lista... Mas é uma delícia, é de cantar, é de dançar, e desde a primeira vez que ouvi, só me trás boas lembranças. From a mess to the masses!!!




Porque Beatles dispensam apresentações. E no meio de tanta jóia, essa é a minha favorita. É uma das mais doces, mais ternas, mas fofas, mais românticas, e ainda tem uma tristezinha, um climinha de despedida. Está ai há anos me deixando mole só de ouvir, ainda que seja no trânsito caótico pra Alphaville às 7h da madrugada. 

***

Uma duríssima constatação foi perceber que entre as 10+ da minha vida não tem Foo Fighters. Mas é isso mesmo... E aí, quais são as 10 músicas preferidas da vida de vocês? 

Wisconsin Tales - Final Chapter

A gente sabe que primavera, temperaturas mais altas, dias mais longos, tudo isso traz um ânimo extra pra vida. Ainda mais quando se está saindo de um inverno em que as temperaturas chegaram aos bizarros -32°.
Lifeguard on duty
A cidade foi ficando cada dia mais cheia. Estudantes de todo canto do mundo chegando, turistas do midwest inteiro. Ser salva vidas tinha grandes responsabilidades, mas era um prato cheio pra socializar e dar umas risadas. O resort tinha vários parques dentro, e o trabalho era mais pesado em alguns deles, e mais zueira em outros. Preciso nem dizer que tomei mais alguns tombos andando no piso molhado por aí, e também fiz uns salvamentos engraçados de marmanjos metidos a super nadadores na piscina com ondas.

As festas começaram a pipocar, e parecia um spring break sem fim. Vantagem é que lá tudo acabava às 2h da manhã, então dava pra ficar novinha pro dia seguinte. Foi quando eu fiquei fluente pra valer e me senti com a missão cumprida. Mas eu tinha muito mais pra aproveitar... Tirando os 3 amigos que eu tinha desde o começo e continuavam lá, foi também nessa época que eu fiz minhas melhores amizades, que perduram até hoje.O mundo sorri na primavera :)

É incrível como nesses lugares frios, a vida se transforma com a chegada de calor. As pessoas se abrem, o riso fica fácil, tem luz até tarde, é uma alegria. Todo dia tinha alguma coisa pra fazer. Era passeio no parque, mergulho no lago, era viagem pra alguma cidade por perto, era comprinha em outlet, era aproveitar o próprio resort nas horas de folga. Todo dia eu e meus amigos nos enfiávamos no possante e saíamos cantando Gwen Stefani pelas estradas... Outra coisa interessante foi passar o 4th July por lá. Apesar de não ser nada demais, tem fogos, tem um clima tipo o nosso ano novo, sabe? 
The Big Wave
Um comentário necessário: quando saí do Brasil, meu discurso era "não quero andar com brasileiro, não quero andar com brasileiro, não quero andar com brasileiro". Nessa ordem aí, rs... Chegando lá, ao ver o tanto de brasileiro que tinha, senti um desespero. Pura bobagem! Realmente tem gente que só se relaciona com brasileiro, e volta pra cá com o mesmo inglês que foi, assimila tanto da cultura como assimiliaria se não tivesse ido. Mas é bobagem achar que precisa se isolar. O segredo é ter os seus bons amigos conterrâneos, pra poder surtar bem surtadinho no idioma em que você se sente confortável pra xingar de A a Z, mas se abrir pro mundo. Fiz grandes amigos de todos os cantos, e já contei por aqui do reencontro que fizemos, anos depois, pra celebrar essa amizade.

Como nem tudo são flores, tinha que ter bad trip no meio do caminho. Algumas colegas ucranianas, durante o trabalho, por serem novas e não estarem habituadas à dinâmica da coisa, acabaram falhando. Aquele tipo de falha que vai te acompanhar pra vida toda. Um menininho de 4 anos se afogou em um dos parques do complexo. Foi muito tenso. O trabalho ficou bem mais puxado depois disso, por que né... quem é que quer viver com uma coisa dessa nas costas? A história é menos simples do que to contando, teve irresponsabilidade de todos os lados, e foi um momento em que a realidade, mais uma vez, se mostrou muito dura. 

Eu nunca me sentia preparada pra voltar.. Alias, não sei se já comentei, mas sou péssima pra despedidas. E pra fechar a equação, me apaixonei, o que só fez mais difícil a partida. Mas meu visto estava pra vencer, não tinha jeito, a vida, a faculdade, a família estavam me chamando. Dia 17 de julho, no auge da bagunça de verão, eu entrei no avião de volta. Chorei as 16 horas de vôo sem parar, conexão incluída. Eu me senti passando pelo portal imaginário que te leva de uma dimensão pra outra. Eu me senti saindo de uma realidade paralela... E foi meio que isso mesmo. A vida nunca mais foi a mesma. 

Guardo as melhores lembranças, as grandes amizades, os grandes causos. Dou risada de muitas coisas, e me sinto meio bittersweet por tantas outras. Hoje sei de todos os gostos que descobri quando estava lá sozinha, percebo quanto me tornei independente, como aprendi a dar valor ao dinheiro fruto do trabalho dos meus pais, dar valor a ter o meu dinheiro, vejo como amadureci com relação às diferenças, como deixei de lado tantos preconceitos... Foram meses que valeram por anos, e todas as historinhas que eu vivi lá me ajudaram a ser quem eu sou hoje.  Por isso, se eu puder te dar um conselho, só unzinho, seria esse: faça suas malas!

Devils, by Gabriela Milan

Wisconsin Tales - Chapter 2

Passado o desespero inicial, dia 31 de dezembro me mudei para minha casinha. 231 E. Adams Street, o lendário endereço. Eu tava feliz da vida, ia passar meu feriado favorito acomodada, sem preocupações. Era na rua do trabalho, eu já tinha conhecido pessoas que moravam no prédio, tudo dando certo. O esquema basicamente era: uma polaca era dona desse prédio, de outro que não está na foto e de uma casinha que fazia parte do conjunto. Ela alugava os apartamentos para estudantes mediante contrato, cobrava aluguel semanal por pessoa e vivia infernizando a vida de geral feito uma bedel da escola - my property, my rules. Apesar da encheção da maluca, que entrava na sua casa a hora que desse na telha, pegando gente sem roupa e tals, era um bom negócio pelo combo preço/praticidade. Por ali moravam brasileiros, peruanos, argentinos, eslovacos, poloneses, mexicanos, etc.
Casa n° 3. Foto do Cumpadi Washington Leo
Eu morava com mais 5 pessoas, e foram meses muito felizes por ali. Começamos a sacar a cidade, aprendemos qual baladinha ir na sexta, o que fazer no sábado, onde se comia bem e barato, onde encontrar locais, essas coisas. Esse momento é muito delícia... quando você começa a se confrontar com os hábitos locais, a aprofundar os relacionamentos, a sentir que não é uma viagem de férias, mas que você está morando ali. Eu estava encantada de conviver com gente de todo canto. Óbvio que também rolou muito drama de convivência, porque né, aparece aquele coleguinha que não tem o hábito de banho diário e nunca viu desodorante na vida, bem na hora que você ta batendo um pratão de macarrão,  é dramático mesmo. Alias, é meio que isso, você ta fora de casa, tudo adquire uma proporção exagerada. É tudo o melhor e o pior da sua vida.  

Por outro lado, o emprego, apesar de muito divertido, não era tudo aquilo que vendiam por aqui, não. Passadas as festividades de Natal e Ano Novo, a cidade estava super slow e eu estava trabalhando pouquíssimas horas por semana. Isso é um problemão pra galera que faz Work and Travel, porque as horas de trabalho não são garantidas. Quem ta indo pra Estação de Ski não terá problemas no inverno, mas... Lembra daquela história que o Chapolim nos ensinou? Pro Tio Sam, time is money. Se você trabalha pouco tempo, ganha pouco. Começou então a loucura dos applications. Eu precisava trabalhar um pouco mais, o dinheiro que tinha levado daqui não ia muito longe. O frio estava apertando, em final de janeiro todo dia rolava neve até as canelas, e temperaturas em torno dos -12°. Andar pro trabalho era um suplício sem fim, por mais que fosse sei lá, 1 km.
Wilderness - mais uma fotinho do Leo
Arrumei então um emprego de hostess num restaurante dentro de outro resort, o Kalahari, que era longe da minha casa, coisa de 5 km. Assim, acabei precisando comprar um carro, porque fazer ski cross country a -25° não é minha praia, e transporte público era inexistente. Depois de passar uma cantada violenta num vendedor, consegui comprar meu carrinho por 680 dolares AND parcelados em 2x pra não afetar meu caixa. De dia trabalhava pouco no Wilderness, e de noite ia lá receber as famílias felizes para jantar no Great Karoo. Esse emprego foi muito legal, porque eu conversava muito com os turistas... Contava do Brasil (eles não faziam muita ideia do que rolava por aqui), ouvia histórias dos confins de Ohio e pintava desenhinhos com crianças fofas. Fiz mais uns bons amigos nesse restaurante, e também engordei uns bons quilinhos comendo cheesecake escondida na câmara fria. Nesse meio tempo rolou a nevasca mais louca de todos os tempos, e foi bem engraçado euzinha com toda minha desenvoltura brasileira desatolando carro de sapatilha na neve, com o cabelo congelado.
Snow, by Gabriela Milan

Lá por março, o povo começou a se movimentar pra ir embora, mas eu ia ficar. Foi ai que o caldo engrossou com a polaca. Ela resolveu que, não interessa o que eu quisesse, ela ia enfiar mais 8 - isso mesmo, OITO - tailandeses para morar comigo no apartamento onde já era apertado morar em 6. Preciso nem dizer que depois de muito barraco, ela me expulsou do condomínio. Quis reter o meu depósito caução, e diante da minha ameaça de chamar a polícia, enfiou o rabo no meio das pernas, me devolveu o dinheiro e a terra abriu aos seus pés, tendo ela retornado para as profundezas do mármore do inferno e eu fiz minhas malinhas. Homeless, de novo. Fui acolhida pela minha amiga Laura, com quem fiquei em Baraboo (uma cidade ali perto) por uns dias, roupinhas no porta mala, noites mal dormidas. O mais importante: quando falava com meus pais no telefone, ou por câmera via MSN (tô veia, heim), soltava os pulmões para dizer que tava tudo muito bom, muito bem, maravilhoso, problema nenhum Mãe, magina.
Pack, by Gabriela Milan
Com as tralhas pra mudança número 1259 - atenção especial pra bola do Quico
Curiosidade: esses programas de intercâmbio são caros aqui no Brasil, mas são baratos na Europa. Muita gente do leste europeu faz o Work pra juntar uma grana e pagar os estudos, mas tem também tem um pessoal que acaba ficando nos EUA de forma ilegal, principalmente um pessoal mais pobre e que fala pouco inglês. Infelizmente, tem gente lá prontinha pra tirar vantagem dessas pessoas. Faz contratos abusivos, cobra multas, retém depósito na cara dura, porque sabe que ninguém vai ter coragem de brigar, arrumar encrenca. Mas comigo não, farroupilha, comigo não.

Alguns amigos acabaram saindo do predinho, e lá fomos nós dividir um quartinho no Pine Air, de novo. Nessas alturas, o tempo estava mudando, temperatura esquentando, e eu só ficava pirando nos comentários de que Dells no verão era a maior loucura. Entre um sonho de verão e outro, caia umas neves nervosas na nossa cabeça. A gente ia fazendo os passeios que dava, as comprinhas que dava, o inglês mostrando a que veio - eu já conseguia até ir ao cinema e *SURPRISE* entender o filme todo!!! Nessas alturas já nem me lembrava mais que estudava Direito, só queria saber de dançar Hips don´t Lie na balada e tomar banho de Long Island Iced Tea. Pela primeira vez na vida eu estava pagando minhas contas, resolvendo meus problemas, tava me sentindo o ser mais independente do mundo, coitada...

Em abril eu inaugurei outra fase da vida americana. Eu mudei pra minha última e mais maravilhosa casa. Fiz um curso de salva vidas, e voltei a trabalhar integral no Wilderness, dessa vez como lifeguard. Tinha sido dada largada para a melhor parte daquela viagem que já era maravilhosa. A primavera tinha chegado!
By the Lake, by Gabriela Milan

Wisconsin Tales - Chapter 1

Outro dia falei um pouco aqui sobre a experiência maravilhosa que é fazer um intercâmbio. Meio por alto, também contei um pouquinho das loucurinhas que vivi pelo maravilhoso Wisconsin. Como eu sou uma pessoa muito saudosa, adoro uma nostalgia, contar uma historinha, e tals... resolvi escrever um pouquinho sobre o "meu" intercâmbio. Como eu gosto de falar, minha vida se divide entre AW e DW (antes e depois do WI), então acho bem válido contar um pouquinho do durante. Voilà. 

***

Eu sempre sonhei em passar um tempo fora do país. Com 20 anos, segundo ano de faculdade, achei que era hora. Aqueles intercâmbios pela faculdade não rolavam, porque não pode trabalhar e eu não tinha condição de só estudar. Então fui numa agência e optei por fazer um intercâmbio no esquema Work and Travel, nos EUA. Você tem que ser estudante, mas ganha um visto de trabalho sem restrição de horas. Participei da Job Fair, fui entrevistada, arrumei um empreguinho em St Louis/Misouri. Maravilha. Passagens compradas, malas prontas, ansiedade a milhão e PÁ! Primeira emergência, menos de 48h antes de entrar no avião: meu empregador cancelou a minha vaga. Foi assim, no desespero de não querer adiar a viagem, que eu olhei pras vagas que tinham e, entre um McDonalds no Alabama e outras coisaso do tipo, escolhi trabalhar em um resort em Wisconsin Dells, no desconhecido Estado de Wisconsin sobre o qual eu tinha ouvido falar o total de zero vezes. A cidade era pequena, menos de 5 mil habitantes, mas que os americanos com sua habilidade de criar atrações onde não tem, transformaram na capital mundial dos parques aquáticos, recebendo milhões de turistas anualmente. 
Fotinho do amigo Google pra vizualizar
Com um timing de 48 horas pra pesquisar sobre o novo destino (depois de meses de pesquisa pro outro lugar), não consegui assimilar muito além da estimativa de frio de -20° durante o inverno. Ou seja, cheguei no aeroporto de Chicago, dia 21 de dezembro de 2006, às 22h, com duas folhinhas de pesquisa com possíveis lugares para me hospedar até achar housing, horário do busão de Chicago pra lá e o endereço do resort em que eu iria trabalhar, o Wilderness. No dia seguinte, após trapalhadas dignas de sessão da tarde, tipo chegar na rodoviária e ver o ônibus indo embora, chorar, puxar uma mala por quarteirões, morrer de frio, arrumar uma passagem de trem para dali 6h e descer numa estação no midwest para encontrar somente um taxista de bigode de trancinha, a realidade me bateu com força: cidades pequenas americanas são um sem fim de rodovias, com distâncias enormes, e eu teria que me virar a pé por aquele lugar durante os meses gelados.

Fui direto ao Pine Air, motelzinho das minhas folhinhas de pesquisa que o motorista das trancinhas me disse que era mais próximo ao resort e onde alguns estudantes moravam. Lá, depois de me esgoelar de chorar por ver que o preço não cabia no orçamento, consegui negociar 2 noites de estadia por um preço pagável. Eu tinha 48 horas pra achar uma casa pra chamar de minha. 

Casinha n° 1 (e n°5 também)
Nesse meio tempo, fui ao resort, entendi qual seria meu trabalho de housekeeping, conheci umas pessoas, encontrei brasileiros que se tornariam grandes amigos, já sabia qual era o caminho pro trabalho, tava dando pra se virar. Ao final das 48h, eu não tinha achado uma casa, mas estava com algumas coisas engatilhadas. A solução foi me mudar para outro motelzinho, daqueles tipo o do Psicose, onde eu consegui um desconto bom e pesadelos horríveis.  
Casinha n°2
Historinha: Gabriela chegando lá feliz da vida com sua malona, véspera de Natal, vizinho simpático se oferece para ajudar. Gabriela fica grata, abre um sorriso de orelha a orelha e fala com toda cortesia brasileira, apontando o dedinho: thank you for helping, if you need anything, that is my room
Pois bem, segunda noite, o tal vizinho bate na porta, se oferece para me fazer companhia, ou quem sabe, cook something. Polidamente, falei oi, não thanks, to de pijama e tals, obrigada de nada. Noite seguinte, de novo. Sujeito bate na porta e eu, me aproveitando dos aprendizados em filme, abri mas não soltei a correntinha. O cara ofereceu pra eu ir ver filme com ele, e you know, maybe cook something. Potz, to cansada, trabalhei, tals, não vai rolar. Outra noite, outra batidinha na porta. Gabriela não abre a porta, e responde lá de dentro noooo thaaaanks! Nessa hora ai, entrei de baixo da coberta, e morri de medo de sair e dar de cara com o maluco. O cagona mode estava ativadíssimo. Outra noite, sono profundo, batida na porta: hey lady, I want to see you naked, I need to see you naked, come to get a taste of my dic.. GET OUT OF MY DOOR YOU FUCKING PERVERT! Chorei largada... 

Mas dia 31 chegou, e eu tinha minha casa. Não só tinha minha casa, mas já tinha perspectivas de roomates. Eu tinha sobrevivido a 10 dias fora do Brasil, eu estava trabalhando, eu tinha feito amigos, eu ia ter uma geladeira e um fogão. Juntei todas as tralhas e caí fora do motel. Eu tinha sobrevivido ao Psicose.

Diálogos com o futuro

Vó - Gabi, você gosta piada de pum?
Eu - Gosto...
Vó - Então vou esperar você se distrair e te pregar uma peça boa. 

* * * 

Vó - Tem que fechar tudo, porque se não o ladrão entra pela janela, ou pelo forro.
Eu - Que ladrão, vó... Interior tem nada disso. 
Vó - Tem sim. O ladrão entra por qualquer frestinha, leva tudo...
Eu - Tudo o que?
Vó - Tudo ué. Tudo que passa pela frestinha. 

* * * 

Vó - Você viu, coitado.. a filha dele está presa... 
Eu - Fala baixo, vó...
Vó - Tráfico de drogas, menina.. ta lá.. 
Eu - Vó, pelo amor, fala baixoooooo... 
Vó - Agora ele cuida do netinho..que judiação, né.. nunca se viu ficar carregando droga por aí...
Eu - SHIUUUU VÓÓÓ!

* * * 

Vó - Assim que eu gosto... namorado boa gente...
Eu - É.. ele é gente boa mesmo...
Vó - Isso mesmo... você é de boa família, não é menina bandoleira... 
Eu - Que que é isso de bandoleira?
Vó - Essas meninas aí... 
Eu - Que meninas ai?
Vó - Essas que beijam, que ficam... 
Eu - ...

* * *

Minha vó é assim. 89 anos de puro amor e piada surpresa de peido. 

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