Wisconsin Tales - Chapter 2

Passado o desespero inicial, dia 31 de dezembro me mudei para minha casinha. 231 E. Adams Street, o lendário endereço. Eu tava feliz da vida, ia passar meu feriado favorito acomodada, sem preocupações. Era na rua do trabalho, eu já tinha conhecido pessoas que moravam no prédio, tudo dando certo. O esquema basicamente era: uma polaca era dona desse prédio, de outro que não está na foto e de uma casinha que fazia parte do conjunto. Ela alugava os apartamentos para estudantes mediante contrato, cobrava aluguel semanal por pessoa e vivia infernizando a vida de geral feito uma bedel da escola - my property, my rules. Apesar da encheção da maluca, que entrava na sua casa a hora que desse na telha, pegando gente sem roupa e tals, era um bom negócio pelo combo preço/praticidade. Por ali moravam brasileiros, peruanos, argentinos, eslovacos, poloneses, mexicanos, etc.
Casa n° 3. Foto do Cumpadi Washington Leo
Eu morava com mais 5 pessoas, e foram meses muito felizes por ali. Começamos a sacar a cidade, aprendemos qual baladinha ir na sexta, o que fazer no sábado, onde se comia bem e barato, onde encontrar locais, essas coisas. Esse momento é muito delícia... quando você começa a se confrontar com os hábitos locais, a aprofundar os relacionamentos, a sentir que não é uma viagem de férias, mas que você está morando ali. Eu estava encantada de conviver com gente de todo canto. Óbvio que também rolou muito drama de convivência, porque né, aparece aquele coleguinha que não tem o hábito de banho diário e nunca viu desodorante na vida, bem na hora que você ta batendo um pratão de macarrão,  é dramático mesmo. Alias, é meio que isso, você ta fora de casa, tudo adquire uma proporção exagerada. É tudo o melhor e o pior da sua vida.  

Por outro lado, o emprego, apesar de muito divertido, não era tudo aquilo que vendiam por aqui, não. Passadas as festividades de Natal e Ano Novo, a cidade estava super slow e eu estava trabalhando pouquíssimas horas por semana. Isso é um problemão pra galera que faz Work and Travel, porque as horas de trabalho não são garantidas. Quem ta indo pra Estação de Ski não terá problemas no inverno, mas... Lembra daquela história que o Chapolim nos ensinou? Pro Tio Sam, time is money. Se você trabalha pouco tempo, ganha pouco. Começou então a loucura dos applications. Eu precisava trabalhar um pouco mais, o dinheiro que tinha levado daqui não ia muito longe. O frio estava apertando, em final de janeiro todo dia rolava neve até as canelas, e temperaturas em torno dos -12°. Andar pro trabalho era um suplício sem fim, por mais que fosse sei lá, 1 km.
Wilderness - mais uma fotinho do Leo
Arrumei então um emprego de hostess num restaurante dentro de outro resort, o Kalahari, que era longe da minha casa, coisa de 5 km. Assim, acabei precisando comprar um carro, porque fazer ski cross country a -25° não é minha praia, e transporte público era inexistente. Depois de passar uma cantada violenta num vendedor, consegui comprar meu carrinho por 680 dolares AND parcelados em 2x pra não afetar meu caixa. De dia trabalhava pouco no Wilderness, e de noite ia lá receber as famílias felizes para jantar no Great Karoo. Esse emprego foi muito legal, porque eu conversava muito com os turistas... Contava do Brasil (eles não faziam muita ideia do que rolava por aqui), ouvia histórias dos confins de Ohio e pintava desenhinhos com crianças fofas. Fiz mais uns bons amigos nesse restaurante, e também engordei uns bons quilinhos comendo cheesecake escondida na câmara fria. Nesse meio tempo rolou a nevasca mais louca de todos os tempos, e foi bem engraçado euzinha com toda minha desenvoltura brasileira desatolando carro de sapatilha na neve, com o cabelo congelado.
Snow, by Gabriela Milan

Lá por março, o povo começou a se movimentar pra ir embora, mas eu ia ficar. Foi ai que o caldo engrossou com a polaca. Ela resolveu que, não interessa o que eu quisesse, ela ia enfiar mais 8 - isso mesmo, OITO - tailandeses para morar comigo no apartamento onde já era apertado morar em 6. Preciso nem dizer que depois de muito barraco, ela me expulsou do condomínio. Quis reter o meu depósito caução, e diante da minha ameaça de chamar a polícia, enfiou o rabo no meio das pernas, me devolveu o dinheiro e a terra abriu aos seus pés, tendo ela retornado para as profundezas do mármore do inferno e eu fiz minhas malinhas. Homeless, de novo. Fui acolhida pela minha amiga Laura, com quem fiquei em Baraboo (uma cidade ali perto) por uns dias, roupinhas no porta mala, noites mal dormidas. O mais importante: quando falava com meus pais no telefone, ou por câmera via MSN (tô veia, heim), soltava os pulmões para dizer que tava tudo muito bom, muito bem, maravilhoso, problema nenhum Mãe, magina.
Pack, by Gabriela Milan
Com as tralhas pra mudança número 1259 - atenção especial pra bola do Quico
Curiosidade: esses programas de intercâmbio são caros aqui no Brasil, mas são baratos na Europa. Muita gente do leste europeu faz o Work pra juntar uma grana e pagar os estudos, mas tem também tem um pessoal que acaba ficando nos EUA de forma ilegal, principalmente um pessoal mais pobre e que fala pouco inglês. Infelizmente, tem gente lá prontinha pra tirar vantagem dessas pessoas. Faz contratos abusivos, cobra multas, retém depósito na cara dura, porque sabe que ninguém vai ter coragem de brigar, arrumar encrenca. Mas comigo não, farroupilha, comigo não.

Alguns amigos acabaram saindo do predinho, e lá fomos nós dividir um quartinho no Pine Air, de novo. Nessas alturas, o tempo estava mudando, temperatura esquentando, e eu só ficava pirando nos comentários de que Dells no verão era a maior loucura. Entre um sonho de verão e outro, caia umas neves nervosas na nossa cabeça. A gente ia fazendo os passeios que dava, as comprinhas que dava, o inglês mostrando a que veio - eu já conseguia até ir ao cinema e *SURPRISE* entender o filme todo!!! Nessas alturas já nem me lembrava mais que estudava Direito, só queria saber de dançar Hips don´t Lie na balada e tomar banho de Long Island Iced Tea. Pela primeira vez na vida eu estava pagando minhas contas, resolvendo meus problemas, tava me sentindo o ser mais independente do mundo, coitada...

Em abril eu inaugurei outra fase da vida americana. Eu mudei pra minha última e mais maravilhosa casa. Fiz um curso de salva vidas, e voltei a trabalhar integral no Wilderness, dessa vez como lifeguard. Tinha sido dada largada para a melhor parte daquela viagem que já era maravilhosa. A primavera tinha chegado!
By the Lake, by Gabriela Milan

5 comentários:

  1. Gabi que delíííícia esse capítulo 2! Principalmente essa fase em que nos sentimos as donas do mundo porque estamos por conta própria. Tive de rir em vários momentos, mas é claro, dessa polaca dos infernos kkkkk tem gente muito sem noção né? Ainda bem que você subiu nas tamancas e ela ficou pianinho assim como a cantada violenta para comprar o carro de 2x, menina, tens que dar aula disso! kkkkk e também essa de falar pelo skype dizendo que estava tudo bem... essa é clássica para as expatriadas ( eu mesma já fiz isso quando estava casada com um psicopata kkkkk ) enfim, vou correndo ler o último capítulo! Beijo!

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  2. PS: esqueci de dizer que essa última foto me lembrou muito um seriado ( que certamente não é da tua época ) mas chamava-se Dawson's Creek que liiiiiiiiiiiiiiiiiiiindo! Beijo!

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    1. Hahaha. lembro de Dawson´s Creek sim! Alias.. eu achava o Dawson e a Joey uns xaropes, gostava mesmo do Pacey :)

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  3. Que legal ler o seu relato, Gabi, tô adorando! Eu não sabia muito sobre esse work & travel dos EUA, bem bacana!

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    1. Work é muito legal pra quem quer ir mas não dispõe de muitos recursos. Foi o que pude fazer na época, e gostei muito, mas sei de muita gente que vai pra uns empregos furados em alguns lugares.. enfim, há que se pesquisar muito!

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