Cuba - Parte 2

Depois de 4 dias em Havana, e tendo definido que nosso destino intermediário seria Cienfuegos, o Luis organizou um taxi coletivo para nos levar da capital até lá. 

Pra quem tiver a fim de se aventurar em Cuba sem ficar muito preso a planos, dá pra simplesmente reservar uma casa particular em Havana, e de lá arrumar o resto. Pra começar que tem muuuuuita casa particular no país inteiro, então vaga não falta. Basicamente, todo mundo que tem um quarto vago em casa, coloca pra alugar. Não tem investimento, então a oferta é altíssima. Todo mundo se conhece e tem um amigo pra indicar. O Luiz arrumou o carro para nos levar, ofereceu uma casa em Cienfuegos, nos dissemos que estava acima do que tinhamos nos programado pra gastar, ele achou outra no budget (20 CUCs por noite), reservou e feito. E soube de outros relatos do mesmo tipo. Os taxis são normalmente divididos. Nessa viagem eramos nós dois e mais um cubano, indo pro mesmo lugar. Eles cobram preço justo (alguns pesos a mais que o ônibus), e a viagem é mais rápida.

Na estrada
A viagem durou umas 3 horas, obviamente regada a reggaetown, gargalhadas e paradinhas na beira da estrada pra tomar água e brisa. A paisagem me lembrava muito o Brasil, cheia de canaviais e bananais, várias matas preservadas. Nos deparamos também com a maciça propaganda do governo margeando todas as estradas. 

Aqui acho válido uns comentários rápidos sobre a política em Cuba. As pessoas não tem muita liberdade para refletir sobre o regime. Em cada quarteirão do pais (sim, quarteirão) há um "delegado", um representante do governo, responsável por ouvir as conversas, reportar se tem alguém ~mijando fora do penico. O jornal de circulação nacional, chamado Granma, tocado pelo Partido Comunista, reporta todos os acontecimentos do país de forma completamente parcial, e ainda assim somente na superfície. Não tem uma reportagem de mais de meia folha (e o tamanho dele é menor, rs). Os lemas da revolução são repetidos à exaustão e as histórias de guerra são sempre romanceadas para mostrar uma revolução sempre justa, correta, e o imperialismo yanque (eles não usam o termo "americanos", o que eu acho bem interessante, já que né... americanos somos todos) o responsável pelo "maior genocídio da humanidade". É assim que eles se referem ao bloqueio comercial. Palavras como combatente e vitorioso estão até em cima das sorveterias. Então as pessoas não participam muito do dia a dia político. Elas são obrigadas a comprar o que lhes é entregue, a ter suas vidas impactadas por decisões que elas não sabem como, quando e porque foram tomadas. E tem uma resiliência incrível...

Chegamos em Cienfuegos no final da tarde, e de cara me encantei pela cidade. A avenida principal tem um grande passeio, de influencia francesa, como quase toda a arquitetura da parte central da cidade. 
Passeio do Prado em Cienfuegos
Andamos muito pela cidade, passeamos pelo Malecon (a avenida beira-mar cubana) deles, extremamente agradável. Cidade limpa, silenciosa, um contraste gritante com Havana. Eu já sabia que tínhamos feito a escolha certa depois de meia hora. É toda bem cuidada, as casas bem mantidas, muitas com pintura nova. É aí que você vê que não interessa qual o princípio rege a economia, fato é que a vida nas capitais é sempre mais hostil haha. Depois de muito caminhar, nos deparamos com o que foi um dos melhores restaurantes da viagem: Florida Blanca, um paladar delicioso, e que fez os melhores mojitos que tomei em Cuba. Precinho pra lá de camarada, tendo sido o mais barato da viagem.

A casa em que nos hospedamos, da Damilsy, era uma graça e ela uma figura. Nos deu dicas sobre a cidade, sobre as redondezas, nos ajudou a definir nossos passeios, e ainda fazia um café da manhã pra lá de delicioso e deixou o café que tomamos em um hotel no chinelo. O pé direito dos apartamentos, até no segundo ou terceiro andar, são imensos, de 3 metros pra cima... Ela explicou que a cidade foi planejada por franceses, e todas as construções até 1950 seguem esse padrão. Achei chic. 
Eu e Damilsy jogando conversa fora
Em nosso segundo dia em Cienfuegos, andamos MUITO. Além de passar pelo centrinho, fomos caminhando pelo Malecon até a Punta Gorda, uma prainha não muito bela. Passamos pelo clube de Cienfuegos, e lá tinha fotos da visita de Hugo Cháves orgulhosamente penduradas pelo salão principal. Seguimos em frente, e nos deparamos com o castelo de Jagua, uma construção de inspiração árabe que tem um restaurante no terreo e um simpático terraço em cima. Uma delícia de parar pra tomar uns drinks, descansar e aproveitar a brisa, tão deliciosa depois de andar pelo calor senegalês cubano. 

Bateria recarregadas, seguimos em frente até chegar em La Punta, a praia urbana de Cienfuegos. Eu não estava botando muita fé, porque no início do Malecon, mais próximo à cidade, a água não é limpa, e Punta Gorda tampouco me impressionou. Mas La Punta é linda. A água é cristalina, a vista incrível e tem uma pracinha com lanchonete, sombras e música. E desta vez não tinha reggaetown... Tinha Alexandre Pires cantando "to fazendo amoooooooor com outra pessoaaaaa..". Pois é. 

La Punta sendo linda

Apesar do Alexandre Pires, rolou toda uma paz em La Punta, e eu fiquei extremamente grata pela caminhada que fizemos. Sim, foi longa, foi suada e eu fiquei com vontade de dar uma choradinha quando acabou a sombra, mas valeu. Na volta, passamos no estádio municipal de baseball. Mati pirou, porque conseguimos entrar no gramado, acompanhados de uma senhorinha que trabalha na manutenção. O baseball é o esporte nacional, eles chamam de La Pelota. Todo mundo é vidrado no jogo, e você vê nos campinhos pessoas jogando, nas praças pais e filhos praticando as tacadas, uma graça.

Em Havana vimos algumas carroças, mas muito poucas. Eu não tinha dado muita atenção. Na estrada até Cienfuegos, passamos por várias carroças na estrada. Achei bem inusitado. Mas chegando na cidade meu queixo caiu... Eu diria que por volta de 30% do transporte local é feito por carroças. São muitas, o tempo todo, fazendo serviço de taxi inclusive. No fim do dia estávamos passeando, quando passa uma carroça com uma pessoa acenando loucamente pra gente: era a senhorinha do estádio, indo embora de ~taxi <3. Todos esses cavalotaxis tem uma carroceria escrito "Transporte Nacional", o que me fez achar que é tudo regulamentado. Em nossos passeios pela região, percebemo que está tudo bem enraizado. Além de ser muito comum nas cidades, as pessoas viajam nas carroças, vivem em cima delas, e ao passar por uma cidadezinha, vimos até uma carroça puxada por roda de madeira (!!!!!). Me diz se não é uma viagem no tempo?

Nesse dia voltamos pra casa, e aí o inesperado aconteceu. Na saída da praia em Havana, Mati cortou o pé, mas era pequeno, não demos muita bola. Dois dias depois, em Cienfuegos, percebemos que o corte estava (muito) infeccionado. Então, seguimos nós dois para o hospital.

Eu não sei como se vê isso ao redor do mundo, mas aqui no Brasil aprendi que Cuba pode sofrer de vários males, mas que duas coisas não faltam à população: educação e saúde. A educação do povo é visível. Realmente, todos com quem conversei me pareceram muito cultos, liam muitos livros (me pareceu que um número de livros acima da média daqui), tem formação profissional. Todo mundo estudou alguma coisa, pode até não exercer a profissão, mas são formados. Grande parte da população arrasta um inglês mais ou menos, e entre o pessoal um pouco mais velho, na faixa dos 40 e 50, é fácil encontrar alguém que fale russo.

Ao chegarmos ao hospital de Cienfuegos, no entanto, percebi que o buraco da saúde é um pouco mais embaixo. Explico: em 15 minutos, coisa impensável no Brasil, fomos atendidos. Uma clínica geral olhou o pé dele, mandou que passasse pela ortopedia. Passamos, o médico deu a receita do antibiótico e mandou fazer um curativo, que rapidamente foi feito. Tudo isso em 15 minutos. Parece bom, né? E foi. MAS... Não tinha qualquer controle sobre o atendimento. Você chega, e vai de porta em porta  de consultório pra saber onde você deve ser atendido. O hospital estava pra lá de caindo aos pedaços. Imundo, empoeirado, com pessoas machucadas se escorando pelas parades. Cortinas e lençois que já não estão mais amarelos, estão marrons. Eu achei que ele ia sair de lá mais infectado do que entrou. Passamos por 4 salas de atendimento, e não vi um aparelho sequer que tivesse menos que 20 anos. Nada era minimamente atual (vou nem dizer moderno). E ouvimos dos moradores que hoje em dia tem várias coisas na saúde que são pagas, inclusive medicamentos essenciais. Lembrando do salário que eles ganham, sob o pretexto que o governo dá tudo o que precisam, achei triste.

Vou parar o post por aqui, porque essa parada em Cienfuegos rendeu mais do que eu esperava, rs... Assim, a série que seria de 4 posts, será de 5. Nada grave :) Fiquemos com a foto de um fim de tarde cienfueguero.

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