Sobre as coisas amargas da vida

Essa semana recebi a visita de uma ex colega de trabalho (que virou também amiga). O encontro com ela foi uma delícia, mas acabou me trazendo com força a lembrança do maior pesadelo que alguém pode ter na vida profissional, e que vivi na empresa em que trabalhamos: assédio moral. Eu nunca me senti tão fraca e impotente como nos 16 meses em que convivi com um profissional abusivo, e as vezes eu acho que relembrar disso vai ser sempre um soco na boca do meu estômago. 

Pra começar do começo, meu santo não bateu com o da criatura nos primeiros 5 minutos de conversa, mas eu sempre fui da teoria de que trabalho é trabalho e o importante é ser profissional. Faça o seu, entregue tudo certinho, conviva civilizadamente e ninguém precisa se amar, somente respeitar. Mas nem todo mundo enxerga as coisas dessa maneira, não é novidade.

Basicamente, eu era a advogada interna da empresa, tinha um cargo de coordenadoria somente. O sujeito em questão, diretor de outra área, salário milionário, reporte direto ao head mundial. Olhando para a hierarquia e importância dos cargos, eu nunca imaginei que eu poderia ser uma pedra no sapato desse cara. Ledo engano. As teorias dos colegas começaram no fato de que eu me dava muito bem com o presidente da regional, com as pessoas do time internacional, e foram até bobagens como "o seu inglês é melhor que o dele". Pra mim, era mera questão de mau caratismo somado à insegurança. 

Basicamente, a minha vida virou um inferno. Sentada numa baia que era em ambiente aberto em meio a outras 20 pessoas, comecei a ouvir berros sobre incompetência, irresponsabilidade entre outas coisas. O sujeito cismou que era meu chefe e me "proibiu" de enviar email a outros diretores, ainda que a função demandasse. Eu recebia emails com críticas acidíssimas e desproporcionais (com metade dos executivos internacionais copiados) no meio do final de semana. Eu era convocada com 5 minutos de antecência para reuniões sem receber pauta ou material. Eu recebia feedbacks horrorosos na frente de outras pessoas. O cara se metia no meu trabalho, mudava textos de contrato, dava opiniões legais, etc, e quando eu discordava, ele levava pro pessoal. Se "precisasse", brigava com quem fosse pra mostrar que eu estava errada. Ele chegou a gritar com o presidente de um cliente, uma multinacional, somente para "estar certo" numa discussão em que eu tinha a mesma opinião do cliente.

A princípio, eu achei que eram os ônus do cargo. O jurídico sempre fica meio em evidência justamente por ser o estraga prazeres do negócio, então eu meio que esperava ter alguns problemas. Eu era mulher e nova, num negócio meio "bruto", não queria parecer sensível demais, fraca ou qualquer coisa do tipo. Demorou a cair a ficha de que a coisa tinha passado, e muito, dos limites. Um dia resolvi listar as situações desagradáveis que eu já tinha passado, e ver tudo aquilo compilado foi um tapa na cara. Eu percebi que estava deixando uma pessoa me humilhar e diminuir, o que não é do meu feitio. 

Isso não era só comigo, ele fazia - em menores escalas - com outras pessoas. Mas essas pessoas tinham chefes locais que as defendiam. Tentei conversar com o cara, mas o efeito foi reverso: a perseguição intensificou. O meu chefe ficava nos EUA e, por mais que eu reportasse o que estava acontecendo, não dava muita bola. Eu conversei com o presidente aqui, para quem eu reportava localmente, e embora tenha me me dito belíssimas palavras, não fez muito pra mudar a situação. Todo mundo via o problema, todo mundo se compadecia, eu recebia emails carinhosos de "não se deixe abalar", mas a solução que é bom... NADA. 

Eu gostava muito do meu trabalho, do que eu fazia lá, do escopo da vaga, da minha atuação em si. Era enriquecedora, desafiadora e eu, que há muito estava desapaixonada do Direito, tinha me encontrado. Mas a coisa começou a degringolar forte... Um dia, sofri uma ameaça velada. Ele tinha voltado de uma viagem à matriz, e me convocou para uma reunião, onde ouvi da boca do ser que ele tinha sido promovido AND tinha ganhado ações da empresa. E ainda arrematou com "as pessoas que precisam gostar de mim gostam, então apesar dos outros, eu só vou subir". Depois, fui descobrir que era mentira, que nunca houve promoção, e que ele tinha recebido um ultimato de parar com a loucura. Ou seja, não parou, piorou e a empresa fez o que? Isso mesmo, NADA. 

Além do meu alerta interno, que nessas alturas estava gritando, o corpo começou a dar sinais externos. Comecei a perder peso, sentir ânsia de vômito cada vez que eu ouvia a voz da criatura chegando no escritório de manhã. Quando meu celular tocava e eu via no identificador de chamada quem era, tinha palpitação. Domingo a noite eu comecei a ter crises de choro, só de pensar que eu teria que trabalhar. 

Veio um presidente novo, e foi a tábua de salvação em que me agarrei. Achei que alguém com o olhar fresco poderia, ao menos, equilibrar os pesos. No primeiro problema que tivemos na nova gestão, fui chamada pelo presidente que me disse: eu te entendo, não vá embora for favor, mas releve porque o chefe dele nos EUA gosta dele. Eu fiquei sem acreditar. Por fim, um dia numa conversa com uma pessoa da matriz, comecei a sacar que o cara fez fofocas - mentirosas - sobre minha vida pessoal. Pra mim deu, foi o limite da nojeira. Entendi que a empresa não faria nada por mim. Saí desesperada pro mercado e encontrei outro emprego.

Pedir demissão foi difícil, significou abrir mão do emprego que mais gostei até hoje por um motivo injusto. Fazer a minha entrevista demissional foi tipo uma sessão de descarrego. Eu chorei como nunca desejei chorar num ambiente de trabalho. Naquelas alturas, eu me sentia a pior profissional do universo, por mais que todas as pessoas que não me protegeram (presidente, chefe, etc) afirmassem o contrário e me pedissem pra ficar, dizendo que dariam um jeito. Eu fui firme em dizer que estava pedindo "um jeito" há quase 1 ano, e não tinha motivos pra achar que seria diferente. A comprovação de que eu tinha feito a coisa certa veio 10 dias depois: ele não aprovou, propositalmente, o pagamento das minhas verbas rescisórias.

Eu fiquei muito mais forte depois desses problemas, aprendi muito sobre a pessoa que eu quero ser, aprendi mais ainda sobre o tipo de profissional que não quero ser. Mas se eu pudesse dar um conselho pra alguém que desconfie estar passando por isso, seria: FUJA, FUJA O QUANTO ANTES. Não caía naquele papo de que "se você desistir, ele vai ganhar", porque não tem ganho nenhum pra você nessa história. Não espere pelos aprendizados, pois não importa quão valiosos eles serão, as marcas doloridas na alma de quem passou por isso são muito maiores. Aconteceu comigo há um bom tempo, mas ainda hoje a minha auto estima profissional não está refeita. É um passado cada vez mais distante de mim, mas que sempre vai incomodar de alguma forma. Eu não merecia e ninguém merece.  

12 comentários:

  1. Que situação horrível, Gabi. Penso que eu teria processado esse cara, mas entendo que existem milhões de outras coisas no meio para se pensar nisso. Espero que o dia chegue que vc possa olhar para essa situação sem que ela te incomode tanto. E não deixe que isso reflita na sua visão de si mesma quanto profissional.
    beijo e abraço!

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    1. Paulinha, eu queria muito processar o cara, e não a empresa (apesar de ela ter sido conivente). Mas na Justiça do Trabalho não é assim que funciona, então entendi que era melhor deixar isso pra trás e seguir minha vida. Invarivalmente uma situação dessa impacta na nossa auto avaliação, mas eu tento não me deixar abater. E conforme o tempo vai passando, as coisas vão sempre melhorando. Obrigada pelo coment fofinho. Um beijo!

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  2. Nossa, Gabi. Fiquei muito chocada ao ler esse texto... a gente ouve falar de assédio moral no trabalho mas nunca conheci ninguém que passou por uma situação tão extrema quanto à sua! Não consigo nem imaginar como é conviver com uma pessoa assim - você foi muito forte pra sobreviver tanto tempo. Assim como a Paula, também fiquei pensando se não seria viável você processar esse cara. Mas gente, como ninguém na empresa te ajudou, te ouviu, fez alguma coisa? Puta merda, é inacreditável. Mas no fim, você recebeu tudo que tinha que receber? E o seu emprego atual, você está feliz, mais tranquila?

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    1. Eu também custei a acreditar que uma coisa dessa magnitude estava acontecendo comigo... Como eu disse pra Paula, entendi que o melhor era deixar isso pra trás por completo. Recebi sim minha rescisão - e com multa (dobrada), porque né.. don´t mess with the lawyer, haha. Eu saí de lá para uma promoção, um emprego com flexibilidade de horários, home office em alguns duas, tenho minhas vantagens. Mas você que é de SP vai entender o lado dark: eu morava no Paraíso (to mudando pra Pinheiros) e o meu trabalho é em Santana de Parnaíba, no fim de Alphaville. Então a adaptação foi dificílima, mas hoje estou bem e tranquila. É o que importa, né? Beijos!

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  3. Gabi pelo amor de Deus! Eu já tinha lido em outros posts seus falando sobre o assédio moral, mas não tinha idéia da intensidade! Graças à Deus você teve forças para sair. Parabéns por ter escolhido a sua sanidade e felicidade. Me resta agora, seguir desejando que o ditado oopular faça valer nesse moço ridículo: "Aqui se faz, aqui se paga" Oremos. Beijo!

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    1. Eu acho que karma é uma coisa poderosíssima, então o sujeito que aguarde... A vida ainda vai ensinar muita coisa pra ele. Beijocas!

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  4. Que horror!!! O pior é que quando reclamamos do trabalho muita gente pensa que é fraqueza. Ou pelo fato de sermos mulheres ou por sermos relativamente novas. Daí nos forçamos a aceitar situações como essa. Ainda bem que você enxergou a gravidade e deu um basta. O mundo corporativo as vezes pode ser tão cruel, né? Lembro que dei aulas de inglês para algumas recém-formadas que trabalhavam numa multinacional. Quase toda semana elas choravam contando as puxadas de tapete dos colegas. Beijos!!

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    1. Pois é... Eu dei um basta, mas aguentei muita merda justamente por isso: era nova, não queria passar de fraca. É o que você disse mesmo... o mundo corporativo é bem cruel. Muita empresa faz políticas "modernas", de igualdade, de bem estar, mas se finge de surda diante de situações como essas. Uma pena... Beijos e obrigada pela visita :)

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  5. Inacreditável esse teu relato. Te admiro pela decisão de pular fora, mesmo gostando tanto do trabalho. Sinto pelo que aconteceu, Mas muito legal saber que você soube tirar dessa experiência negativa uma oportunidade de crescer. Muita sorte pra você, Gabi!

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    1. Obrigada, Ana! a gente tem que procurar o lado positivo em tudo, né? Acredito que a vida se torna menos complicada assim :)

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  6. Eu e meu esposo somos empresários e temos um mentor de negócios. Trabalhávamos com 11 vice presidentes no mesmo escritório e havia muito choque de opinião, o que não era problema, até que os maiores jabs vinham do nosso próprio mentor que passava a mão na cabeça de um e enchia os amigos de regalia enquanto descia o chicote nos outros que trabalhavam. As coisas começaram a ficar cada mais vez difícieis para nós já que temos uma cultura de liderança muito diferente da dele. Resolvemos dar a cara a tapa e abrir nosso segundo escritório em outra cidade e deixar a sede. Embora vice presidentes, não tínhamos espaço para exercer a função como tal.Crescemos muito rápido na empresa, com 2 anos, depois de muita ralação , alcançamos a vice presidência. Desde que deixamos a sede nossa produção subiu e temos paz. Concordo com vc, a pessoa precisa fazer o que tiver que ser feito antes que a saúde e o mental da pessoa se acabe. Há certos preços que não valem o que a gente paga.

    Grande abraço!

    Gisley Scott -Blog Querido Deus obg por me exportar

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    1. Exato... E pelo seu relato, fica bem ilustrado o tanto que isso atinge todos os níveis corporativos. É um massacre mental. Pelo menos nos livramos disso!

      Obrigada pela visita!
      Bjs

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