As dores de crescimento

Gosto de cultivar as amizades que faço pelo caminho. Tento manter contato, estar presente de alguma forma, e ter pessoas de diferentes momentos da vida comigo. E ainda que vá conhecendo tanta gente pela estrada, tenho até hoje as minhas amigas de infância. São pessoas que se conhecem desde que farmácia escrevia com ph, aquelas que estiveram em todas as festinhas de aniversário e são família, abrem a geladeira da casa dos meus pais sem a menor cerimônia.

Tenho as amigas do cursinho, as amigas da faculdade, as amigas do meu primeiro emprego, amigas que fiz pela vida. E apesar do vínculo individual que tenho com cada uma dessas amigas, nenhum grupo se manteve tão unido como aquele, o primeiro. 

Juntas saímos do ensino fundamental, fomos pra Porto Seguro, cada uma deu seu primeiro beijo, viramos calouras de faculdade. Nem todo mundo no mesmo lugar, mas todo mundo sempre junto. Viajamos, fizemos intercâmbio, nos formamos, trabalhamos, namoramos, nos consolamos, pulamos muito carnaval. Na Ilha Comprida, em São Luis do Paraitinga, no Rio de Janeiro. Sempre estivemos vivendo mais ou menos a mesma fase, sempre fomos um coletivo e nunca existiu uma, sempre fomos todas.

Estamos aqui, todas batendo na casa dos 30 e, pela primeira vez, tenho a percepção que estamos começando a olhar pras nossas vidas de forma individual. E como dói... Como é triste ver que a distância começa a crescer, que a vida pode nos levar por caminhos distintos (embora a direção não seja muito diferente). Que as vezes não entendemos mais as decisões umas das outras. Que deixamos de ser um bando de meninas malucas e viramos mulheres com suas conquistas, seus problemas e toda a bagagem emocional que vem com eles.

Não deixamos e nunca deixaremos de ser o melhor grupo de amiga de infância que alguém pode querer ter. Acho, inclusive, que todo mundo passa por isso, né? Sempre tem aquele momento em que você não sabe o que sua amiga tão maravilhosa ta fazendo com aquele boy xoxo, ou ainda aquele momento em que você fala "se você beber outra tequila você vai vomitar e eu não vou segurar o seu cabelo", e ela toma, vomita e você segura, muito puta da vida. Todo mundo tem...

Mas agora que estamos ~crescidas~, fico com a impressão que esses momentos são mais sérios. Hoje nossas vidas são mais independentes e é muito fácil ter uma briguinha besta e ficar 10 dias sem conversar, afinal de contas tem relatório pra entregar, chefe pra aturar, trânsito pra enfrentar, namorado pra amar. Além do que, nós, que sempre fizemos tudo juntas, não estamos mais exatamente no mesmo estágio das coisas. Tem uma que vai casar, a outra vai juntar, a outra ta na pixta pra pegar... Tem quem queira estudar, quem queira trabalhar e quem precise decifrar o que será do futuro. E por mais que sigamos falando a mesma língua, começam a surgir alguns bois na linha.

Eu sei que elas estarão comigo pra sempre, sei que o filho de uma será filho de todas, que seguiremos forever and ever dando pitacos não solicitados e usando todo o passado mal assombrado que ficou em Pariquera (e no bosque da USP, no Largo de São Francisco, na Gioconda, em Ipanema e no Burguer King da Santo Amaro) para sacanear quem for preciso, mas as vezes eu só queria que o tempo parasse de fazer isso com a gente. Parasse de esfregar na nossa cara que crescemos, que podemos ser egoístas, que sabemos viver sozinhas no mundo.

Tempo, tenho certeza que daqui 50 anos, vamos fazer um churrasquinho regado a caju amigo e tirar uma foto pra você:

8 comentários:

  1. super entendo esse feeling e já tive várias vezes, mas note que ele vem sempre em fases de transição. senti isso qdo minha bestie casou. recentemente qdo ela teve bebê. mas ela se ajusta e eu tbm e a amizade continua forte. não faz diferença se nos falamos todos os dias ou se ficamos quase um mês sem nos vermos. amizade que é amizade continua.
    xx

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    1. Paulinha, realmente as fases de transição são mais complicadas. O que eu sinto mais, é que no nosso caso é um grupo, e por mais que tenha certeza que seremos melhores amigas pra sempre, cada uma está levantando seu voo solo. É bonito, a vida é isso.. mas dá nostalgia. Beijos!

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  2. Gabi, me identifiquei com o seu post. Não porque eu tenha um grupo tão sólido de amizades da infância (porque não tenho), mas porque desde que vim pra Irlanda, comecei a notar que algumas pessoas estão se afastando - naturalmente, mas afastando. E realmente dói, porque eu sempre fui muito apegada à amigos, sabe? Cada um hoje tem sua vida - muitos casados, muitos grávidos, muitos com filhos, muitos viajando pelo mundo, muitos trabalhando muito e os problemas e coisas da vida vão entrando no caminho e fazendo que não tenhamos tanto contato.

    Claro que sempre vai ter aquela amigo (ou grupo) que estará com você ainda que vocês passem meses sem se falar, mas por outro lado, alguns vão se perdendo pelo caminho, né? Tem gente que acredita que as pessoas estão na sua vida por algum motivo e que quando elas cumprem a sua missão elas se vão... não sei se acredito nisso, mas às vezes dá medo pensar que pessoa X ou Y pode não ser mais presente na minha vida daqui a 2, 5, 10 anos. Faz parte de crescer e ser adulto! :(

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    1. Eu acredito nisso, que algumas pessoas vem e vão, deixando sua marca. Mas sou muito apegada aos meus amigos, sempre serei. E por mais bonito que seja ver que estamos crescendo, que cada uma tem sua vida, que estamos evoluindo, e isso nos faz menos grudadas, fico sentida, rs. Acho que essa coisa de crescer é começar a entender o novo "lugar" que as amizades ocupam dentro de você... Eu imagino que estão sempre dentro do coração, mas o espaço em si vai mudando, vai se adequando à nova realidade. Beijos!

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  3. Acho isso lindo! Minhas amigas são ainda da época da faculdade e embora eu more bem longe delas, sempre que vou ao Brasil, parece que recomeçamos do ponto onde paramos...morro de saudades. Infelizmente a vida me mandou pra bem longe do Brasil e assim como no caso da Bárbara, muitos dos meus amigos se afastaram...Mas quem ficou na minha vida, ficou por amor. E isso me basta! Aqui na Alemanha ainda não tenho amigas como as minhas no Brasil. Aqui é mto diferente e fazer amigos não é a coisa mais fácil do mundo. Enfim, lindo post!

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    1. Ana, imagino o quão difícil deve ser fazer amigos em um novo lar. E realmente, talvez nunca será como os daqui. Alias.. eu sempre disse que rola todo um darwinismo nas amizades, rs.. só as fortes sobrevivem. E acho que é por isso que eu sou tão apegada às minhas amigas de infância. Porque elas já sobreviveram a uma vida de erros e acertos, rs... Eu sei que isso nunca vai mudar e seremos amigas sempre, mas ainda assim, dói perceber que não seremos eternamente grudadas. Beijos!

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  4. Ter amigos eh bom demais. Mas a saudade deles tb doi. Eu me sinto muito sozinha ainda na Holanda. tenho poucos amigos, que nao moram na mesma cidade que eu. E por mais que sei que posso contar com alguns poucos e bons amigos no Brasil, nao eh a mesma coisa. Eu to longe!! Eu sei que tenho amigas que posso ficar mil anos sem falar, mas ainda assim nada mudara.Mas ao mesmo tempo eh estranho nao ter o contato diario, nao saber o que fez no fim de semana e por ai vai. Eh o preco que pagamos por crescer. :( Bjo

    Ps: to sem acentos no teclado....

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    1. É Gabi, acho que a parte de estar longe tem disso mesmo... Não diminui o afeto, o apego e o vínculo, mas tira estes pequenos contatos diários. É o outro lado da moeda, né? Mas acredito que com o tempo as coisas melhoram... Realmente, "amigos de infância" não vai ter outra vez, mas quando a vida tomar rumo, com trabalho, estudo, algo assim, vai se conhecendo mais gente :) Beijos!

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