Brasil em 4 atos

Uma amiga foi embora pra NYC semana passada. Era advogada super bem sucedida na iniciativa privada, largou tudo para ir trabalhar com políticas públicas em Brasilia, e daí pra desilução total foi um pulo. Tive uma despedida no fim de semana, casal de amigos se mudando pra Espanha. Eles tem filho pequeno, ele recebeu uma proposta de trabalho, não pensaram duas vezes. Dia 26 temos outra despedida. Casal gringo brasileiro, desistiram. 
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Festinha de 3 anos no salão do prédio sábado. Aquelas festinhas que há muito aqui no Brasil, infelizmente, não escuto falar. Nada de buffet rico. Pais assando pizza, pão de quejo, fritando coxinha, adultos ajudando a servir, crianças se matando no pula pula, decoração de papel crepom simples na parede, musiquinha na caixinha do iPhone. Tudo simples, gostoso e divertido, entre amigos. Eis que chega a mulher, o marido, sua única filha e a babá de branco. E enquanto as crianças estão todas soltas correndo, os adultos jogando conversa fora com cerveja, a babá de branco fica lá, no meio das crianças mesmo, totalmente fora de contexto. Fui passar uma rodada de salgadinho, servi ela. Ela diz: imagina, eu busco o meu. E eu quis morrer um pouquinho, mas ignorei e continuei passando a bandeja por ela. 
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Domingo de manhã no Villa Lobos, crianças no parquinho. Uma grávida e amiga sentadas num banquinho assistindo, de certo pensando como será a vida dela daqui a pouco. Ai que eu sento lá do lado e escuto a conversa. A menina então tava pensando em engravidar, mas ainda não tava tentaaando. Aí começou a perceber que o chefe tava pondo ela de lado, deixando de passar trabalho, ela percebeu também que todas as áreas estavam sendo reduzidas. Aí, vou até abrir aspas "aí eu parei de pensar, tentei e de primeira engravidei. Agora tão lá me engolindo, né. E eu chego a hora que quero, saio a hora que quero, daqui dois meses nasce, depois tem licença, e depois eu vejo o que eu faço. Agora, to curtindo uma folga remunerada". 
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Domingo de noite fui no cinema do Itau na Augusta. Acabei parando na rua, porque a última vez que paguei um estacionamento por ali, foram R$50 por 3 horas, um roubo. Achei uma vaga bem legal, quase na porta da Bella Paulista, padaria famosona movimentada 24h por dia. Fui assistir meu filme tranquila. Quando a luz do cinema acendeu, a primeira coisa que me veio na cabeça foi "espero que meu carro ainda esteja lá". Voltei andando sossegada, mas quando fui chegando perto da esquina, meu coração já começou a acelerar. Quando virei a esquina, olhei, olhei e não via meu carro. Comecei a correr que nem louca pela rua e finalmente achei ele, exatamente onde deixei. Só quem passou pelo choque de chegar pra pegar o carro e não o encontrar não vai me achar completamente maluca e paranóica. Mas é assim que ando vivendo. 
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Essas situações, todas se convergindo num final de semana só, me fizeram pensar muito no nosso Brasil. Pensar por vários ângulos, e não só ficar repetindo que tá uma merda, tá uma merda, tá uma merda em looping eterno, como tanta gente vem fazendo. 

Ta uma merda? Não vou negar... Mas vamos olhar mais fundo. Sério que precisamos, em 2015, ter babás de branco na nossa sociedade? Eu não consigo nem formular direito o sentimento que me corre na alma, mas a sensação é que ta tudo errado. Enquanto tiver essa separação tão clara entre quem "é rico", e quem "é pobre", isso tudo não vai mudar. Alias, já que pra mim ta difícil, vou linkar aqui um dos meus textos favoritos sobre a sociedade brasileira, do Daniel Duclos, do Ducs Amsterdam

Eu vejo essa moça, tão subserviente, que certamente não ganha mais que 2 salários mínimos para estar trabalhando num sábado até a noite, e fico pensando nos filhos dela, nos irmãos, na família. Que se vira nos 30 pra viver com esses salários, que fica vendo a explosão de "tem que ter", de "quem é maneiro usa isso", de "você é pobre então fica pra lá, enquanto a gente fica pra cá", de área VIP pra todo lado. Penso o quanto esse abismo entre classes aqui no Brasil nos empurra praquela situação ali, onde eu corro pela rua achando que meu carro foi roubado. 

Aí olho pra essa crise, onde empresas estão enxugando o quadro, e vejo essa moça grávida se aproveitando da legislação para jogar outra pessoa na fogueira. Porque sim, se todas as áreas da empresa estão sendo reduzidas e aparentemente o plano do gestor dela era reduzir justamente ela, se ela não foi, outra pessoa deve ter ido ou irá. E eu penso aqui: é justo? É justo que a nossa legislação crie esse tipo de situação? É justo que a nossa população se sinta tão confortável com o que a legislação dá, que em momentos duros e de austeridade como esse, alguém se dá ao luxo de "curtir uma folga remunerada"? Eu não faço ideia do que a moça faz, qual é o trabalho dela, mas penso... quantas pessoas desempregadas nesse momento não estariam aproveitando essa oportunidade para fazer algo melhor? Por que é que a postura dela não me surpreendeu? Será que é porque eu, trabalhando em conjunto com o RH, vejo isso todo dia?

Eu não tenho certeza de nada, mas tenho a leve impressão que quem cria nossos problemas somos nós. Se o país ta uma merda, é por nossa causa. A gente que elege representantes, a gente que não arruma uma cama e paga uma ninharia pra alguém fazer isso, a gente que pede pro médico botar mais um dia no atestado, a gente que faz um monte de coisa sem raciocinar o impacto direto das nossas ações nesse país, e a hora cansa porque ta muita merda, a gente acha que mudar pra Miami vai fazer tudo isso desaparecer. 
Foto famosa do Tuca Vieira, com o claro contraste brasileiro
OBS necessária - eu não só não vejo problema algum em mudar de país, como considero muito isso pra minha vida, já disse aqui algumas vezes. Mas com o advento do facebook, vejo muita gente que se exime de todas as responsabilidades, e só fala em "fugir daqui", pra logo em seguida reclamar da empregada que pediu aumento. Pior: andei lendo texto da internet sobre "como somos melhores quando saímos do Brasil". Oi? Ser melhor no Brasil não precisa? Enfim... é disso que eu to falando. 

11 comentários:

  1. e eu só sei que tudo isso dá muita tristeza e uma canseira... vontade de sumir, mesmo. de fugir e largar a merda toda aí. pra ser bem sincera, é isso que gostaria.

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    1. Eu fico muito triste também. E minha vontade de ir morar em outro lugar nunca aquieta... Mas hoje ela existe porque eu tenho sede de viver coisas novas, de conhecer lugares, de ver paisagens, de aprender uma língua diferente, de viver outra realidade. Quando vejo, no entanto, textos como esse ( http://projetodraft.com/por-que-os-brasileiros-sao-melhores-quando-estao-no-exterior-do-que-quando-estao-no-brasil/ ) no entanto, me dá engulhos. Acho surreal alguém ter que sair do país pra ensinar ao filho que a liçao de casa é responsabilidade dele, não da empregada. Enfim... Eu olho pro meu post, e penso que eu podia ter desenvolvido mais. Mas saiu do jeito que tava nas entranhas, rs. Beijos!

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  2. Pois é.

    Eu vejo muita gente aqui dizendo que saiu do Brasil porque é muito violento e porque tava tudo uma merda. Esse nunca foi o meu discurso... Eu saí por tudo isso aí que você falou: pela nossa forma de ver o mundo. Eu não me encaixo na visão de mundo da sociedade brasileira, simples.

    Isso e meu desejo de aventura, claro! ;)

    Beijos

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    1. Quando eu voltei de intercâmbio, era dessas que só fazia achar tudo uma merda, violento, só ver o lado ruim. Melhorei, evolui. Acho que tem muita coisa boa sim, tem muito mais o que melhorar, mas sou muito feliz aqui.

      Porééém.. tenho fogo no rabo, hahaha. Tenho fogo no rabo e inquietação na alma, então... Sabe lá onde vou parar. Mas o que sei, é que se um dia eu sair daqui, vai ser por mim, e não pelo que o Brasil é ou deixa de ser.

      Beijos

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  3. So a figura classica da baba vestida de branco, no canto dela nao se achando digna de alguem passar pra ela um salgadinho ja diz muito sobre nossa sociedade, e eu concordo com voce, e um absurdo. Eu sempre comento isso com alguns amigos, o problema e que o nosso povo nao tem aula de Historia suficiente...

    Eu ja li sobre a falta de profissionalismo pelo Brasil na pagina de uma amiga a um tempo atras, ela fez uma reflexao muito bacana. Pois enquanto muitas empresas exploram seus empregados sem do nem piedade, muita gente acha que precisa tirar alguma vantagem sempre que possivel pra compensar, e de uma forma meio que inconsciente eu acho que as pessoas trabalham como se tivessem fazendo favor a alguem. E quando isso vai pra area do funcionalismo publico, a coisa fica deprimente.

    Nessa ultima viagem eu percebi uma certa piora pelo pais, e sem necessidade. Os nossos politicos nao saem do bueiro, eles vem do meio da sociedade, entao de uma forma mais evidente eles refletem o famoso "jeitinho" brasileiro de se dar bem a qualquer custo. A culpa sem sombra de duvida e nossa como sociedade que somos incapazes de entender que precisamos fazer mais do que olhar pra propria barriga para as coisas andarem pra frente. Nao da pra reclamar do politico que paga proprina pra se dar bem, enquanto queremos que o guarda aceite nosso dinheiro para nos livrar de uma multa porque paramos no lugar errado "rapidinho", porque avancamos o sinal vermelho porque estavamos com pressa...enfim. Sem falar que ja passou da hora de quebrar o pensamento de separacao social que e forte no pais. Nao adiante reclamar da violencia, do crescimento das favelas, etc enquanto nao houver igualdade social e igualdade de acesso a uma vida melhor para todos.

    Eu moro fora do Brasil mas me preocupo com o futuro do pais, eu gostaria de ver nosso pais em um patamar melhor para seu povo, de ver a tal grandeza para qual temos potencial ser atingida e que as pessoas de uma forma geral possam ter uma vida melhor.

    Beijinhos.

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    1. Monique, você falou uma coisa muito certeira: nossos políticos não saem do bueiro. São brasileiros como nós, saindo do meio de nós. E mais uma vez, o que a sociedade gosta de fazer é "eles que roubam", eu não. Como se "eles" não fossem "nós". Enfim, eu acho que é um exercício diário. Exercício diário de ser cidadão, de fazer as coisas direito, de olhar pro outro como igual. Acho que todos falhamos um pouco nisso, eu inclusive. Mas precisamos exercitar. Precisamos lembrar que muito além do governo, quem movimenta a roda viva que é o Brasil, somos nós.

      Eu me preocupo muito com o futuro do país, me preocupo muito com a nossa evolução, com o lugar que estamos ocupando no bonde da história. Mas não acho que alguém tem que fazer alguma coisa. Eu acho que EU preciso começar fazendo. E tenho tentado ser uma cidadã melhor por isso. As vezes consigo, as vezes ainda falho. Mas eu não me eximo das minhas responsabilidades.

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    2. Eu penso como voce Gabi, a sociedade nao e formada por "eles" mas sim por "nos". Eu como membro e cidada, tenho responsabilidade em ajudar a mudar o pensamento e melhorar o nosso pais como pessoa. E um exercicio de formiguinha, so da pra ir pra frente se cada um (ou pelo menos a grande maioria) fizer sua parte que no final vira a nossa parte.

      Eu acho que eu falho tambem, eu por muitos anos tenho me disciplinado pra mudar meu "mode" mas vez por outra me pego errando aqui e la, mas e um exercicio diario e se a gente ja comecou entao fico feliz somos duas acrescentando no mar de pessoas que estao tentando, o que na minha opiniao e melhor que ficar sentado reclamando que nao vai mudar nunca bla bla bla whiskas sache. E tudo uma questao de dar o primeiro passo...e espero que mais e mais pessoas possam dar aquele passinho pra ajudar na causa.

      Beijinhos

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  4. Gabi, interessante demais o seu post (como sempre!). Calhou que ontem eu tava lendo uma crítica do filme "Que horas ela volta" de uma brasileira que mora em Berlim e bem... o texto dela tá tão enraizado desse pensamento brasileiro de que "eu não, eu não tenho empregada" mas acaba fazendo/dizendo coisas piores, sabe? Vejo muita gente reclamando do Brasil nos últimos meses. Mas reclamando muito! E acho normal reclamar, a gente reclama mesmo. Mas o negócio é que a gente não vai além, não exerce o pensamento crítico, não se esforça pra começar a mudança por nós mesmos, né? E gente, esse texto dos brasileiros serem melhores fora do Brasil, puta merda.... depois do parágrafo da babá que esqueceu de colocar a lição de casa na mochila das meninas parei. Não dá pra ler tudo não!

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    1. Pois é, Bárbara... Eu acho incrível como algumas pessoas tem a habilidade de se descolar da realidade, de falar "o Brasil precisa reagir", mas acordar de manhã e manter os mesmos habitos ~colonialistas~de sempre. Todo mundo precisa melhorar tanto...
      Vim do interior, eu dividia quarto com minha babá que morava em casa. E hoje consigo enxergar os problemas que há nisso. A gente não precisa ter a mesma opinião pra sempre, né? Pode aprender, evoluir, começar a mudança de dentro. Tem que parar de achar que "eles", "o governo" tem que fazer alguma coisa, e começar a estudar os candidatos antes de votar (também não vale ir pro Guarujá no dia da eleição), tem que parar de querer burlar o imposto de renda, tem que parar de achar OK pagar 80 mil num carro, mas reclamar quando a empregada quiser aumento salarial. Enfim, são tantas coisas..

      Eu to muito curiosa pra ver o "Que horas ela volta", mas pelo que andei lendo, é um retrato tão fiel do Brasil, que quero ver com Mati, e ele precisa de legenda. Vamos precisar esperar um pouco, rs.

      Beijos!

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  5. Gabi, quero aplaudir de pe o seu texto, da pra ver que foi escrito de alma "caliente" e isso sempre me fascinou. Mas voltando ao texto, fez-me lembrar uma professora do ensino fundamental que dizia como e facil apontar um dedo para os outros mas ignoramos que nesse movimento, tem tres dedos que apontam pra nos! Esses quatro atos sao tao caracteristicos e recorrentes que me identifico e me vejo atordoada apenas por le-los aqui no teu blog! E essa de ser melhor depois que sai do Brasil e de dar raiva, porque nao aprender a ser melhor no Brasil? Revoltante! Deu pra ver que ameeeeei o post ne? Beijo!

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    1. Pois é, Bella, tenho uma amiga que diz a mesma coisa sobre os dedos apontados. Mas eu acho que é isso que mais me incomoda no momento... a sensação de que a sociedade no geral acha que "alguém tem que fazer alguma coisa, mas esse alguém não sou eu". Essa de melhorar fora do Brasil, inclusive, é clássica. Parece que aqui ninguém quer ser uma melhor versão de si... Enfim, temos tanto no que melhorar, né?

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