Soltando as amarras

Eu sou feminista desde quando não sabia o que era ser feminista. Pois é, eu achava que feministas eram aquelas moças que odiavam homens e não depilavam o suvaco. E só elas. Achava, inclusive, que ser feminista era um problema, já que achava elas amarguradas e agressivas. Peço que me perdoem pelo clichê ridículo, mas eu era nova e não sabia das coisas. 

Mas eu sempre soube que era dona do meu corpo, que podia dar pra quem quisesse, que era direito meu sair na rua com shortinho e que errados eram eles de ficar assediando, que era um absurdo a mulher ser sempre a vagabunda e o homem pegador. Ficava indignada com o fato de que no trabalho os homens acabavam se destacando mais por menos, e com várias piadinhas que ouvia na sala de aula na faculdade e em reuniões corporativas. Com os anos, fui lendo mais sobre o feminismo, aprendendo muito sobre sororidade, empoderamento, e entendi que sempre fui feminista e que sou cada vez mais, me orgulhei pra caramba. 

Mas e aí, minha gente, eu resolvi largar trabalho e tudo e ir pra Suíça acompanhar o marido, de quem ao casar adotei o sobrenome. E tomar essas decisões já não é fácil porque não é - tem o componente família, distancia, língua, etc. Mas meu cérebro feminista tornou tudo ainda mais difícil. Porque era simplesmente inconcebível que eu, a mulher com o cargo mais alto da organização no Brasil, fosse largar tudo pra ir atrás de marido. Sério... Passei noites sofrendo com isso, me sentindo traidora do movimento.

A questão do nome me pegou de outro jeito: Mati nunca pediu nada. Quando eu perguntei se ele esperava que eu mudasse de nome, ele disse "this is not my business, it is your decision". E aí que a minha cabeça deu um nó de vez, porque eu queria mudar. E me senti menos feminista por isso. Passei meses pensando o porquê de eu querer mudar de nome. Levei até pra terapia. Entendi que era uma questão familiar: estaríamos sozinhos pelo mundo, e eu queria ter aquela sensação de família, que não precisa de nome nenhum pra existir, mas que nesse contexto se tornou simbólica pra mim. Quando aventamos a possibilidade de ele também mudar de nome, achei meio nada a ver ficarmos os dois parecendo irmãos de sobrenomes iguais. 

E depois de muito me torturar, precisei dar um tapa na minha própria cara, e repetir feito mantra: feminismo é sobre ter o direito de escolha. Feminismo é poder escolher se quero ter o nome do meu marido, e não ser obrigada por ele - ou pela lei, pela sociedade, quem seja. É poder escolher se quero ir, se quero ficar, o que quero fazer. Feminismo é sobre não deixar que ninguém faça minhas escolhas.

Aos poucos, fui ficando menos envergonhada do que decidi pra mim, até ficar completamente em paz com tudo. Porque sim, eu escolhi ir, eu escolhi ficar desempregada por tempo indeterminado para viver um amor, eu escolhi adotar o sobrenome do meu marido. Mas eu estava mortinha de vergonha por ter escolhido tudo isso. Ficava me justificando pelos cantos, como se devesse algo a alguém. No caso, à Gabriela feminista. 

Grande bobagem. Já falei sobre isso aqui, sobre como acabamos passando de um extremo ao outro, sem ponderar nossas vontades. Não vamos cair nessa cilada de ficar sempre colocando "o que os outros vão achar" na nossa frente, sejam os outros quem for. Lembrem-se disso. Eu fico me lembrando. E talvez esteja aqui, de alguma forma, me justificando, mais pra mim do que pros outros mais uma vez. Porque faz parte do processo de se libertar das amarras que a gente mesmo se coloca.

E não custa lembrar:

* Quem quiser aprender mais sobre feminismo, a página Lugar de Mulher é parada obrigatória. Essa ilustração é a capa do livro delas. 

15 comentários:

  1. Gabi, quase chorei lendo seu post. Sério.
    Esses dias li um post no Universo Racionalista, sobre como achamos que somos muito diferentes do mundo, mas no fim somos todos gotinhas iguais correndo para o mesmo oceano, muitas vezes sem nos dar conta das outras gotinhas.
    Eu estou passando pelo mesmo! Sempre me considerei feminista (não essas de pelo na axila e ideais marxistas, pelo amor), e aqui estou eu, desistindo de um p* concurso, da profissão DA MINHA VIDA, para ir atrás de marido. E MUDANDO DE NOME (ainda não aceitei bem isso).
    Doi um pouco todos os dias, mas estou tentando aceitar que a vida é feita de escolhas. Que começar tudo "do zero" com alguém ao meu lado vai ser mais fácil e que a vida de expatriada pode ser tão excitante quando é dolorida.
    Acho que por isso fiz o blog. Para me divertir com as mudanças, ao invés de sofrer por elas.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Kari, é bom saber que dividir a experiência trouxe um pouquinho de identificação e conforto à alguém. Definitivamente, somos todos gotas de um mesmo oceano.

      Como você disse, recomeçar com alguém ao lado faz tudo ser mais fácil, mas ainda assim o processo de aceitação é difícil, porque no começo temos muito mais ônus do que bônus. No momento, eu só estou vendo as coisas das quais estou me despedindo, sem saber exatamente o que está me esperando lá. Então a sensação é de perda, mas sei que é uma perda temporária, que logo virão os ganhos.
      O blog é bom pra se divertir com as mudanças e dividir o pesos das coisas. Como a gente vê nessas horas, tem muita gente que de alguma forma nos entende por aí, e é reconfortante saber disso. Beijos!

      Excluir
  2. Sis,te entendo! Também me senti boba por trocar de nome, mas eu queria aquilo, queria que a gente fosse uma família até no nome. Adorei o texto! Beijos

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada pela visita, Sis! Eu sabia que você me entenderia :) Beijos!

      Excluir
  3. Gabi, você como sempre mandando muito nos seus textos aqui, sério! Todo post seu vira o meu preferido!

    Eu tava lendo sobre mudanças de nomes recentemente quando pesquisava sobre nomes na Irlanda, e meniiiiina, o que tem de gente discutindo em fórum se deve mudar o nome e colocar o nome do marido não é brincadeira, sério. Mas eu concordo com você: se você sente no seu coração que quer fazer algo, faça, seja lá o que a sociedade diz a respeito. E a questão do emprego, acredite, tem tanta coisa mais importante na vida! A gente abre muito a cabeça quando muda, sabe? Porque no fim das contas, o emprego é uma forma de ganhar dinheiro pra proporcionar outras coisas. Claaaaro que quando a gente faz algo que gosta, se satisfaz no âmbito pessoal, mas nada te impede de encontrar uma nova carreira na Suíça ou em qualquer outro lugar do mundo. Vai com tudo que você vai arrasar!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eu concordo muito com você - a mudança vai trazer coragem pra pensar em coisas novas, vai me fazer abrir pra novas possibilidades quase que na marra. Mas até a gente "aceitar" isso, demora, sabe? Até ver o benefício... Como falamos uma vez, acho que no começo a gente só vê as perdas, depois que começa a entender os ganhos. E eu espero que arrase mesmo hahaha.. sabe se lá como, mas eu quero arrasar!!

      Obrigada pela força aqui no blog, é muito bom ler um comentário desse. Beijos!

      Excluir
  4. Que texto maravilhoso, Gabi!
    Também me vi super emocionada quando me descobri feminista e foi a melhor coisa, cresci ouvindo um monte de merda machista e aquilo ficou na minha cabeça e eu achando que aquilo era o certo, reproduzindo a mesma babaquice e como é ótimo se libertar disso!
    E é realmente o que você falou, feminismo é isso mesmo, a gente poder fazer as coisas porque quer, seja seguir o marido pra outro país ou adotar sobrenome no casamento, a escolha tem que partir da gente, ser uma escolha feliz!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Nossa Taís, nem fala. Como a gente repete merda, né? E as vezes eu vejo algumas meninas novas, falando coisas sobre as amigas "vagabundas" e fico só pensando que ainda bem que a vida ensina, rs. E precisa ensinar. Esse momento de se entender feminista é muito bacana, e com o tempo a gente só vai percebendo o quão importante é. Porque como já falei aqui, a gente vai sentindo pequenas doses de machismo todo dia, e entende que o caminho é muito longo.

      Eu me sinto privilegiada de ter conhecido um cara que me admira por ser tão livre, que me apoia nas minhas escolhas, porque sei que, infelizmente aqui no Brasil, ainda sou minoria. E justamente por saber que sou a minoria que acabei ficando meio tensa com todas essas mudanças, por ficar me cobrando uma posição mais "firme" perante o movimento. Mas é bobagem, né. Como você disse, a escolha tem que ser feliz perante a mim. E todas elas foram :)
      Beijos

      Excluir
  5. Eu adorei esse texto e me identifiquei muito com ele. Eu sou feminista desde bebe segundo minha mae, sabe-se la o que isso quer dizer...rsrsrs. Eu me senti da mesma forma na epoca que casei, me doeu muito sair do Brasil pra viver em outro pais na condição de desempregada. Eu não tinha o cargo mais alto com voce, mas eu tinha um bom emprego fazendo o que eu amava e ja tava pra ser chamada em um concurso publico que fiz. Passei anos (pra ser honesta ate hoje) digerindo minhas escolhas e me questionando sobre meu papel numa causa de igualdade x as escolhas que fiz pra vida. Ainda bem que o tempo passa, a gente amadurece e cresce como pessoa e vai aprendendo coisas novas, e numa dessas liçoes veio o que voce justamente disse, meu poder de escolha, nosso poder de escolha; escolher adotar o ultimo nome do marido, casar, mudar, ser do "lar" não são escolhas erradas e muito menos razao pra ficar acordada a noite matutando, se foram nossas escolhas e estamos felizes com elas, então ta tudo certo. O que não da e fazer coisas por pressoes sociais ou de outra pessoa e ir contra nossos principios, escollhas e senso de certo e errado.

    Se voce ta feliz, e ta de boa com suas decisoes o tempo trata de acalmar seu coracao e traz maturidade pra digerir isso tudo. E olha tenho certeza que voce vai brilhar e abrir muitas portas na Suica com seu talento, carisma e inteligencia. Mudar pra outro pais nao e um mar de rosas, mas estando em familia, com quem se ama e com força de vontade a gente consegue.

    Beijinhos

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Adorei o seu comentário. Diz muito sobre o que eu penso, e é bom saber que essa é a visão de quem passou por tudo isso, que viveu e se acalmou. Esse finalzinho, então... Me deixou até emocionada. Essa é a melhor parte de ter um blog: dividir momentos, sejam eles felizes ou angustiantes, e encontrar pessoas tão bacanas que talvez se dependesse da "real life", não encontraria.
      Beijos!

      Excluir
  6. Eu não sei se sou feminista. Na verdade nunca fui ler sobre a origem, as ideias, os ideais, mas simpatizo muito com a ideia de liberdade e igualdade...já isso de mudar de sobrenome ao casar acho muito estranho. Eu, particularmente, não pretendo mudar meu sobrenome se um dia eu casar. Lendo sobre a sua justificativa, de se sentir parte de uma familia, faz todo o sentido, e se vc se sente feliz com isso, é o que importa!

    Beijo!

    p.s. não estava recebendo as atualizações do seu blog =(

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eu nunca pensei que mudaria de nome, mas a vida é isso aí, rs. A gente vai mudando de ideia, conforme as coisas vão acontecendo pra gente. Embora tenha me sentido angustiada, hoje estou bem em paz com a minha decisão de mudar.

      O que será que houve? Eu não manjo muito do blogger, mas me parece aqui que está tudo em ordem. Vamos ver se você volta a receber, né. Beijos!!

      Excluir
  7. Adorei - como sempre - o texto e amei os comentários aqui. Suas reflexões sempre me fazem refletir. Não vou chover no molhado, mas só queria dizer que, no fim, o que vale mesmo é fazer o que te deixa feliz. Admiro vc demais, viu?
    xx

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Não há nada mais gratificante do que saber que alguém se tocou de alguma forma por algo que escrevi, ainda mais alguém tão sagaz como você. Fico que não me caibo de alegria. Muito obrigada pelos comentários sempre carinhosos, você é muito querida. Beijos!

      Excluir

Follow @ Instagram

Back to Top