Bern para iniciantes



Depois de uma belíssima primeira impressão, a vida aqui ainda não começou a tomar muita forma. Estamos percorrendo o calvário que é encontrar um apartamento, apanhando do idioma, mas acima de tudo, olhando pra tudo com aqueles olhos crus, que veem beleza e encontram graça em tudo. Enquanto ainda estou me sentindo uma turista na cidade em que vim morar, tive algumas outras impressões, algumas óbvias, e outras abertas a confirmação futura. Vejamos:

- as pessoas misturam as línguas. O alemão é o idioma oficial de Berna, mas a cidade não fica longe da fronteira com a França, e no próprio cantão tem cidades cuja língua é o francês. E tem ainda os que falam italiano, né. E aí que as pessoas aqui se cumprimentam as vezes com bon jour, desandam a falar alemão, e no final soltam, obrigatoriamente, um merciiii adieuuuu bem cantadinho. Também ouvi uma moça conversando em alemão e no fim mandou um merciii ciaooo! Obviamente isso deu um nó no meu cérebro já nocauteado pelo ininteligível alemão, mas já estou praticando. 

- a cidade é pequena. Bem pequenina. Para um SPLover nível hard feito eu, pequeníssima. Tem 140 mil habitantes, que somados aos moradores das cidades em volta chegam aos 400 mil. Nesses dias em que estamos aqui, nessa busca frenética por um lar, devo dizer que já cruzamos a cidade inteira algumas vezes. E sabe como? 
Isso mesmo. Dá pra imaginar que uma cidade pequena tenha esse nível de capilaridade no transporte? Mesmo imaginando que seria bom, fiquei muito surpresa. A malha é composta de bondes, ônibus, trolebus e trens. É tudo muito eficiente, pontual, e você cruza esse mapa de uma ponta à outra em quarenta minutos. Fiquei pensando em SP e suas 5 linhas de metrô e escorreu uma lágrima. 

- ainda no quesito transporte, as bikes estão por tudo. Não sei como é isso no inverno, mas agora tudo o que vi é bicicleta por todos os cantos, estacionamentos de bicicletas lotadíssimos, pessoas de todas as idades pedalando pra lá e pra cá  tocando a vida. Até por isso, você encontra lojas de bicicleta em quase em cada esquina. Acabou que nem temos casa pra morar mas já compramos as nossas, usadas, porque eram boas oportunidades.

- é verão e os suíços estão a toda. Dizem por aí que os suíços são frios, na deles, discretos, e eu não duvido que seja assim não. Mas sei também que o verão tem sua mágica, e eu tenho visto os velhinhos todos serelepes pelas ruas, tomando vinho, se abraçando, uma velhinha dançou outro dia dentro do bonde quando viu a amiga na plataforma, hahaha. Mais de uma vez alguém que entrou no bonde, ou chegou no ponto, cumprimentou a gente. Diria que o milagre do calor rola forte em Bern.

- o interior é logo ali. Nessa primeira semana, estamos hospedados num hotel reservado pelo empregador do Matt. Colocaram a gente em Worb, um vilarejo nos arredores (mais especificamente a ultima parada dessa linha azulzinha abaixo a direita do mapa do transporte). E embora Worb esteja há menos de meia hora do centro da cidade, no caminho do bonde a paisagem muda. As vacas com sininho no pescoço aparecem, os campos de girassol colorem a vista, fica tudo muito bucólico. Aqui do quarto do hotel dá pra ouvir as vacas mugindo, JURO. Da avenida principal de Worb, rs. Ignorem a falta de qualidade das fotos do celular, mas é isso aí a vista de dentro do bonde, um transporte urbano: vaquinhas e girassóis.


- a cidade, como todo o país, é cara. Gasta-se muito na Suíça. O transporte público é maravilhoso, mas custa CHF 4,40 um bilhete básico aqui em Bern. Claro que tem formas de pagar menos, passes especiais, etc, mas o ticket simples é esse. As bikes que estão a venda em cada esquina, uma fortuna. Bicicletas usadas você vê a partir de 400 francos, as novas então.. começam  em 700. Vi uns vestidos bem feiosos pela rua, por 50 francos. Tenso, né?

- Falando em preço... Os restaurantes por aqui são bem salgados, facinho se gasta 70 francos num jantarzinho básico. Só que a comida deixa bem a desejar. Não é que seja ruim, mas quando se gasta uma grana num prato, imagina-se que ele seja ótimo, né? Comemos algumas pastas por aqui, que eu que estou longe de ser uma grande cozinheira, faria melhor. Ficou claro pra mim porque que me disseram tanto que o povo sai pouco pra comer, que é mais de cozinhar em casa: porque simplesmente não vale muito a pena. É mais pelo social.

- o melhor fica pro final: confiança. Na véspera da nossa chegada aqui, a RH do Matt mandou um email explicando que se chegássemos após as 22h, o hotel estaria fechado, mas as chaves estariam numa caixinha na porta, e adicionou o seguinte comentário "trust is the best asset available in Swiss market". Eu já fiquei encantada. Chegando aqui, falando um dia com a própria, ela explicava coisas sobre seguro, e disse: fiquem tranquilos, aqui qualquer corretor vai te vender o que é melhor pra você. Claro que ela ressalvou que existe mau caráter em todo canto, mas não é o padrão. No mesmo dia, compramos a bike do Mati no Exército da Salvação por um precinho ridículo, porém com dois pneus furados, rs. Aí fomos na loja ao lado pedir pra trocar. O moço passou o preço e disse que ficava pronta no dia seguinte. Perguntamos então onde assinávamos, que papel precisávamos pra retirar no dia seguinte. Ele então, sem falar inglês (e a gente sem alemão) fez gesto indicando que não precisava, e sinalizou: estou vendo quem vocês são, vocês estão vendo quem eu sou. Basta. 

Enfim, acho que isso é só o começo. Foram as coisas que me saltaram aos olhos - ouvido, bolso, etc - nessa primeira semana em terras alpinas. Como eu disse, várias dessas impressões ainda irão se confirmar - ou não - no futuro. Mas eu não queria deixar de registrar o que meu olhar fresquinho vai captando - e no último caso, AMANDO. Como não ficar muito animada pra morar num lugar em que a palavra e o olho no olho valem muito? Vejamos cenas dos próximos capítulos.

Hallo

Eu tenho tanto pra contar, tanto, que não sei nem por onde começar. As últimas semanas foram muito intensas, cheia de presença de gente maravilhosa, amigos queridos, correrias e emoções mil. A viagem até Berna foi uma grande missão, cansativa pra caramba, mas deu tudo certo. Chegaram todas as malas, não perdemos conexão, não tivemos problemas com imigração, nada. Sabe quando parece que tudo flui? Pois é. E aí, ao chegar, no caminho do taxi você vê isso:



É amor a primeira vista, sabe?

Não acho que a vida vai ser fácil, que a rapadura é mole. Só acho que ter uma boa primeira impressão, como eu tive, é um ótimo sinal. São bons ventos soprando a favor do meu recomeço. Cheguei :)

Das coisas que não sentirei falta #2

Ter que ter um carro. 

Eu andei e vivi muito bem em SP sem carro por 8 anos, e confesso que naquela época vivia desejando ter carro, principalmente nos dias de chuva, ou quando o ônibus demorava mais de meia hora pra passar. Depois minha mãe deixou um carro no apartamento e eu e meus irmãos dividíamos. Eu usava somente para ir trabalhar, mas não precisava exatamente. Era uma comodidade que eu tinha, porque o trabalho me dava uma vaga de garagem de graça. 

E então fui trabalhar no ABC. Ter um carro virou uma necessidade, pois minha empresa ficava numa área industrial afastada. Na época eu comecei a querer ir morar sozinha e o fato de ter que ter um carro brecou meus planos. Eu não conseguiria naquele momento comprar um carro e mante-lo, e ainda mater uma casa, tudo sozinha. Fiquei frustrada. E apesar de não gostar muito de dirigir, a ida ao ABC era bem sossegada, 25 minutos da minha casa, sem trânsito. 

Quando mudei de emprego e fui pra Alphaville a necessidade se manteve, mas a qualidade de vida foi pro brejo... O trânsito pra Alphaville é um inferno, e ainda por cima passei a pegar estrada todos os dias. Do meu apartamento antigo, a viagem para o escritório nos confins de Santana de Parnaíba podia demorar até 2 horas e meia, dependendo do trânsito. Teve dia de demorar 3 fucking horas!!!!

Comprei meu próprio carro quando eu e meu irmão deixamos de dividir apartamento e eu vim morar com Mateus. A distância melhorou, passei a demorar em média 45 minutos no trajeto, mas 45 minutos bem estressantes. Além disso, um carro é um dependente que você não declara no IR. Eu comprei um carro popular usado, simples, que demandasse menos despesa possível, mas de algumas coisas não tem como fugir: 
- seguro, em torno de $1900
- IPVA, em torno de $830
- licenciamento, em torno de $120
- troca de óleo a cada 10 mil km (em torno de $350)
- gasolina - aqui em SP você não encontra por menos de 3,29 o litro, sendo que o teto é o limite. Em Alphaville sai por 3,79. O álcool anda saindo mais em conta, mas roda menos, então nem sempre vale a pena.
- vaga de garagem - $80 subsidiado no trabalho, $250 o aluguel mensal no prédio em que moro. 
*despesas de um Fox 2008, para um perfil como o meu

Ainda tem outras coisas, como lavar o carro de vez em quando, né, e o pedágio de todo dia até Alphaville ($7,40 todo dia). E as multas, né. Porque em Sp da pra levar tanta multa que esse mês perdi minha carteira (em minha defesa digo que não sou barbeira, mas esquecida. Furei o rodízio várias vezes, e esqueci que a marginal tinha reduzido o limite para 50km/h e na primeira semana da nova velocidade tomei 2 multas lá, rs). Deu pra sentir o drama?
Vendi meu carro. O valor foi um pouquinho menos do que eu queria, mas valeu a pena porque estava virando o mês e eu não tive que pagar estacionamento para julho. Se por um lado eu fiquei satisfeita de me livrar dessa despesa ambulante, por outro me deu peninha. Meu carro era uma belezinha! Cuidadinho, eficiente, e nos dias de chuva queria abraçar ele, por me levar de uma garagem à outra, sempre com o pé sequinho (e tem coisa pior do que ficar com o pé molhado de chuva?). Além do que, devo dizer que me senti muito orgulhosa de ter comprado um carro com meu dinheirinho, coisa de adulto, sabe? hahaha.

Mas por mais que ter carro tenha suas vantagens, e seja bem interessante numa cidade como São Paulo, é terrível TER QUE TER um carro. E dessa necessidade, dessa dependência, eu não sentirei falta. O transporte público na Suíça é famoso por sua qualidade e eficiência. Com o pé molhado a gente acostuma. 

O exorcismo de Becky Bloom

Not anymore
Em julho do ano passado assumi um compromisso comigo mesma de comprar menos. Estabeleci uma lista de coisas que poderia comprar entre o dia 1º de julho de 2015 e 1º de julho de 2016, e dei start numa jornada de auto controle e valorização do meu dinheiro, dos meus recursos e também de organização do meu espaço. 

Antes de entrar na reflexão mais profunda do que aprendi nesse ano, devo contar que traí o movimento, rs. Mas foi só um pouquinho. Vejamos a lista dos autorizados:

- um sapato plataforma - foi o primeiro item da lista que comprei, usei pra caramba, usei tanto que nem vai na mudança porque já associo ele ao trabalho, e preferi dar pra uma amiga querida.
- roupa de ano novo - comprei, e pasmem: não usei no ano novo, rs. Caí no conto de Mateus que na Califórnia não fazia frio em dezembro, comprei uma calça de linho e uma camisetinha de manga comprida. Simplesmente peguei o inverno mais frio em LA nos últimos 10 anos. Passei ano novo de roupa velha mesmo, mas to vestindo a minha linda calça nesse momento enquanto escrevo o post. 
- casaco de inverno - foi um item que acabei trocando. Decidi não comprar o casaco, e comprei camadas, que estavam faltando no armário. Comprei 3 blusas de tricô na promoção, não custaram o preço do casaco, e me serão muito úteis na Suíça. Então foi mais uma troca que um descumprimento. 
- um presente de aniversário - quando coloquei esse item, minha ideia era comprar uma bolsa específica. Só que o dólar explodiu e não foi possível, porque ela nem era cara, mas vezes 4 ficou. Comprei um sapato  - porque a brecha estava aberta, rs - mas não da pra dizer que foi um belo presente de 30 anos. 

Os descumprimentos de verdade: (i) na época do Natal entrei numa C&A tentadora, e comprei um vestido e um maiô; (ii) casei né gente, fiz vestido, comprei sapato e lingerie. Mas a causa era boa e; (iii) recebi um alerta de um site que várias coisas que eu namorava há meses tinham entrado numa super promoção e aacbei comprando uma camiseta, um vestido e um biquini.  

EEEE Gabriela, comprou um monte fora do projeto, né? É! Só que só eu sei o tanto de loja em que entrei, rodei, enchi o braço de cabides, e devolvi tudo. O tanto de vezes que abri os sites da Farm, da Salinas, enchi a sacola virtual e fechei a janela, rs. Da minha mala que voltou dos EUA cheia de presente pros outros. Das tantas parcerias de designer e fast fashions que me fizeram salivar. Do ano de terapia que paguei com dinheiro que antes era destinado ao guarda-roupa. 

Pois é, gente... eu juro que não era maníaca, mas toda vez que o sapato começava a ficar gasto, comprava um novo. Ou quando uma das 5 camisetas brancas que tinha começava a ficar gasta, comprava mais uma. Ou via uma blusinha que ia ficar LINDA com aquela sainha que tem em casa. E assim todo mês tinha uma parcelinha da Zara, da Farm, da Forevis no cartão.

E mais do que a questão financeira: de como aprendi a lidar com moda e consumo de uma forma diferente. Absolutamente tudo que tive vontade de comprar e não comprei, não foi pensando no projeto em si, tipo "não posso quebrar o compromisso". Mas foi por causa do projeto que me questionei 5 vezes antes de passar o cartão: eu preciso disso mesmo? Quantas vezes vou usar? Combina com o que tem lá em casa? Como eu uso isso no frio? E no calor? Não dá pra substituir isso por aquilo que já tenho? Vou dizer que quase sempre tive as respostas que me levaram a não comprar nada. 

Além disso, eu fui ficando cansada das minhas coisas mas ao invés de arrumar coisa nova, encontrei novas formas de usar as roupas velhas. Em algum momento desses 12 meses falei um pouco disso aqui no blog. Usei mais acessórios, aprendi a usar as coisas de jeitos diferentes. Até calça "de trabalho", que nunca usei num final de semana, aprendi uns truquezinhos pra ficar com cara relax e poder variar. Isso tudo, ainda por cima, facilitou meu processo de separar o que levar na mudança. Coisa que eu não usei nesse ano, pode escrever aí que não uso mais, né. Foi pra venda/doação.

Aprendi também a comprar melhor. Tudo que comprei nesse ano foram compras inteligentes: coisas de qualidade, com material mais durável (que teriam me custado mais caro mas não custaram porque comprei absolutamente tudo em promoção), mas que conversam com todo o meu armário, que me vestem bem em diversas ocasiões distintas.

Enfim, eu achei super válido o exercício. Acho que a prática, aliada ao amadurecimento trazido pela idade e tal, me fizeram repensar várias coisas: estilo pessoal, valor das coisas, consumo, sustentabilidade. Estou super feliz com minhas descobertas que esse ano com menos compras me trouxe, e não nego, com a economia que fiz. Roupa no Brasil está ridiculamente caro. Sapatos e bolsas idem. As pessoas perderam a noção. Então, acabei deixando de gastar muito dinheiro. 

Se alguém estiver pensando em se jogar nessa auto descoberta, sugiro que vá com força. É uma jornada interessante, e invariavelmente você vai sair ganhando. 

Fechamentos

Junho foi um mês beeeem diferente de qualquer coisa que já vivi. Como já falei um monte aqui, teve despedidas, mudança, corte de cabelo, "casa nova". Fechar as malas foi meio apavorante, eu tinha certeza que não ia caber tudo que eu queria levar. E quando achava que tinha acabado, abria uma gaveta e pá: uma montanha de papeis e documentos, ou de cremes, ou de tempeiros. Foi tenso. 

Eu tenho certeza que daqui 6 meses, quando estiver bem ambientada na minha vida suíça (oremos, né), eu irei achar que levei coisa demais, que não precisava tanto. Quando fiz um intercâmbio levei uma mala só e meio vazia. A certeza de que ia voltar pra minha vida aqui fazia muito fácil viver sem minhas coisas lá. Quando engatei a vida lá então... nem lembrava de que sapato ou blusa ficaram pra trás. Agora é diferente: saber que o que não vai é simplesmente descarte e TEM que ir pra outro lugar me agoniou. Mas enfim, fizemos as tais malas. Sete malas. 

E fiz também uma malinha para ir ali, passar uma semana honeymooning em Noronha :) Um dia antes de embarcarmos saímos definitivamente do nosso apartamento lindo de Pinheiros, nossa primeira casa juntos. Deixamos nossas coisas na casa de um amigo há 3 quadras dali, onde agora estamos temporariamente hospedados. Na prática, pouca coisa mudou, mas aiiii o coração... Só que nem deu tempo de ficar problematizando muito, porque chegou lua de mel, chegou Noronha e tomou meu coração. T O D I N H O.

Fernando de Noronha é um estilo de vida. É um país pequenino dentro do Brasil, onde não tem violência, as pessoas são muito gentis, os dias, mesmo os chuvosos, são ensolarados. A vida é verde, é simples e a paisagem é sempre bonita. Foram sete dias no paraíso, sete dias que mandaram pra longe todo o medo e tristeza que estavam dentro de mim, sete dias lindos.
Noronha fez tudo ficar mais leve. As dores do passado, a ansiedade presente, o medo do futuro. Isso tudo simplesmente se dissipou, e eu estou aqui. Prontinha. Pro que der e vier. 

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