Adaptando

O processo de mudar de país em definitivo nessa altura da vida não é nem de longe tão simples como as pessoas acham. Eu nunca tive ilusões, mas muita gente acha que é fácil, que é só sair do Brasil e do dia pra noite você fica bem sucedido e feliz. Ouvi muitas coisas do tipo que nada, a vida fora do Brasil é rica, você não vai nem sofrer. Mas o fato é que a gente precisa construir um lar, se sentir em casa, e isso não é simples. Não vem com uma ida na Ikea, assim como não se forma um arco íris em cima da sua cabeça só porque você fincou a barraca em solo europeu. 


Trazer algumas coisas que a gente identifica como de casa ajuda sim. Aquelas fotos queridas, um quadro, um livro que você gosta. Mas tem muitas coisas que só o tempo, e olhe lá, podem te dar. Família, amigos, aconchego, língua. É muito difícil se sentir em casa numa vida em que você não tem amigos, não fala a língua da rua, não sabe nem como comprar uma farinha no mercado pra fazer aquele bolinho de chuva num momento de saudade. É muito difícil pra mim não ter um trabalho, não ter meu dinheiro (eu até tenho, mas ele é finito, rs). Mas faz parte do jogo. Fico me lembrando o tempo todo que faz só dois meses que cheguei aqui.

E nessa ânsia de querer ter a minha própria vida, de ter uma rotina pra chamar de minha, que tem hora que saio me atropelando. Apliquei pra alguns empregos e fiz até uma entrevista de trabalho. Um trabalho que eu não queria, longe pra caramba da minha casa, num momento que, agora eu sei, não me sinto pronta pra trabalhar. Aí fiquei toda nervosa sobre o que fazer caso fosse selecionada. No fim eu consegui conduzir as coisas do jeito certo e me safei de entrar num emprego errado na hora errada. 

Mas a lição foi aprendida: preciso me dar um tempo. Eu preciso agora desse tempo pra me adaptar, eu preciso desse tempo pra me sentir em casa, pra montar meu ninho, pra sentir que essa vida é a minha vida. E mais do que isso, lembrei que eu posso aproveitar esse tempo pra fazer coisas que gosto, que já gostei um dia, que achava que gostaria, e para as quais eu não tinha tempo. Lembrei que estou começando uma vida nova quase do zero, e que posso desenha-la de uma nova forma, sem ser o atropelo em que eu vivia, esperando o final de semana chegar para ter tempo de viver. 

E aos poucos estou começaaaando a encontrar meu caminho. Comecei o curso de alemão e na escola já estou me sentindo um pouco mais próxima de alguns colegas. Por óbvio, estou começando a entender alguma das coisas que me falam na rua. É 0,1% do tanto de alemão a que sou exposta, mas é alguma coisa. Também entrei num grupo do facebook de estrangeiras na suíça, e conheci algumas meninas legais aqui em Berna. Me matriculei nas aulas de ballet, um desejo de anos, e estou espalhando minha descoordenação por aí, adorando ter esses minutos de loucura. As vezes dou umas folheadas no caderno de receita que a minha mãe fez pra mim e me aventuro na cozinha.

São coisas que se eu tivesse trabalhando full time em Zug, a duas horas da minha casa, eu não teria tempo pra fazer. São coisas que, nesse momento da minha vida, eu preciso fazer. Eu preciso aprender a língua, eu preciso fazer amigos, eu preciso me desligar do mundo e dançar fora do ritmo por algumas horas. E mais que isso: eu preciso me sentir a vontade na minha nova vida.

18 comentários:

  1. cara, ninguém que tenha começado do zero bem longe de casa te diria que é fácil. ninguém que deixa a família pra trás, ainda näo fez amigos, näo fala a língua, ninguém vai nunca dizer que é fácil.
    mas vai ficando menos difícil, sim. porque tem o lado bonito da coisa... que é muito lindo.
    entäo te desejo paciência pra continuar a fazer essas pequenas coisas que te fazem bem. e te desejo laços, muitos laços com esse novo lar... que é pro dia-a-dia ficar mais leve, e a saudade bater menos apertada.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. <3 Que assim seja. Quando vejo gente com 10 anos de estrada, feito você, eu sei que é possível.

      Excluir
  2. Gabi, kinda know what u mean, mesmo sem nunca ter me mudado de mala e cuia. Mas é difícil saber o que fazer com a gente quando estamos sem emprego, etc. Mas esse tempo pode ser gostoso também. Pode ser construtivo e acho que você está no caminho certo.
    Boa sorte, querida!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É isso mesmo Paulinha, a gente fica sem saber o que fazer com a gente. Mas estou tentando aprender :) Beijos!

      Excluir
  3. Post mais sincero e verdadeiro ♥
    É engraçado mesmo como as pessoas pensam que quano você automaticamente pisa na Europa a vida vai ficar 100% linda maravilhosa e livre de problemas. Não é fácil começar do zero, não é fácil se adaptar e ter que fazer de um novo destino seu lar, sendo que você ainda não tem amigos, não fala o idioma.. e tantos outros detalhes mais, gente que fala é que realmente não viveu na pele pra saber.. acha que é só mudar e pronto, só maravilhas.

    No começo, quando vir pra Irlanda eu vivia recebendo comentário de coomo minha vida aqui era perfeita (risos), mal sabem que novo lar, novos problemas também, né? :D

    Paciência e muito amor que em breve você vai ir se sentindo mais em casa sim, é sempre importante ir fazendo aquilo que você gosta e também, aos poucos, ir se integrando e fazendo amizes. Boa sorte com tudo, Gabi ♥

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Você falou bem: novo lar, novos problemas. Esses dias ando otimista, parece que estou encontrando o caminho. Espero que a chegada do frio não me tire do rumo haha. Beijos!

      Excluir
  4. Gabi voce falou tudo. Não e facil construir um lar do zero, longe de tudo e todos que eram parte do seu dia a dia, cultura, gostos. Muita gente pensa que adptação e algo facil e acontece rapido, mas leva anos, e como a Tais falou, novo lar novos problemas tambem. Apesar do choque inicial e das perguntas existencias do famoso o que fazer de util com nossa vida, dançar fora do ritmo e necessario pra gente se encontrar, se sentir em casa e se preparar para novos desafios.

    Eu sei que e dificil mas tenta ter paciencia, e lembra que e um processo que aos pouquinhos tudo vai se encaixando. Boa sorte e tenho certeza que daqui um tempo a gente vai ta lendo no seu blog sobre novas experiencias, amigos, emprego e tudo mais.

    Beijinhos

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É, paciência nunca foi meu forte, mas entendi que taí uma coisa que preciso exercitar na nova vida, rs. Espero muito em breve ter coisas boas pra contar, mas ainda que não tenha vou escrever muito, porque aqui é terapia pra mim. Beijos!

      Excluir
  5. Gabi, as vezes é bom desacelerar um pouco, mesmo que isso pareça muito difícil no começo. Você está em um novo país, com muita coisa pra compreender e aprender, não se cobre tanto...vai devagar, até você se sentir a vontade com a sua nova vida. Dê um tempo pra você. Eu achei muito legal que você está fazendo as coisas que gosta neste período, imagina que na correria de São Paulo, isso seria impraticável. Você merece esse mimo :-). Bjs e relaxa!!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Quando você sai da loucura de SP, da loucura em que eu vivia, é difícil até aprender a desacelerar. Mas to no caminho. Aprendendo a ser paciente, e aproveitar o ócio, a fazer coisas que sempre fizeram pra mim. Aos poucos eu chego lá haha. Beijos!

      Excluir
  6. Gabi, sério que faz só 2 meses que vc mudou? Até eu sinto que foi mais! haha
    Mas que bom que vc consegue se auto analisar e perceber que vc pode sim esperar pelo emprego enquanto faz coisas que vc gosta. Essa vida de gente grande vai deixando a gente longe desses hobbies que nos fazem tão bem! Aproveite!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Pois é Ana, o tempo voa, né? Dois meses, acredita? A vida de gente grande deixa a gente longe dos hobbies, e nos transforma nos adultos que nos apavoravam na infância, aqueles que só querem trabalhar, hahaha. Beijos!

      Excluir
  7. Oi Gabi, agora que vi que vc mudou. Olha, primeiro ano é complicado, a gente está ao mesmo tempo em êxtase pelas novidades, a lindeza da Europa, mas também bate aquele desespero de não saber a língua, de vida estagnada, pra quem estava acostumada a trabalhar direto como você e eu também. Vivi tudo isso, uma montanha russa de emoções. Não é fácil mesmo, mas quando a gente tem gana e corre atrás, as coisas lentamente começam a acontecer, tenha paciência e permita ter este tempo. Boa sorte e se precisar de alguma dica pode perguntar lá no blog, já sou veterana e passei por todas as fases, há 14 anos quando a internet ainda era discada :) Hoje pelo menos tem Netflix com som original, eu me desesperava em ter que assisitir TV sem entender lhufas. Beijos Ma (www.seguindoahistoria.blogspot.com)

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Nada como ouvir a voz da experiência haha. 14 anos, UAU! Eu estou botando o pé no breque, e as coisas estão melhorando. Uns dias são melhores, outros nem tanto, mas vida que segue. Acho que estou no caminho :) Obrigada por oferecer ajuda, quem sabe eu precise mesmo hahaha! Beijos

      Excluir
  8. E é por esse e tantos outros posts que o seu blog é um dos meus preferidos. Não sei o que dizer sem repetir o que o pessoal já disse nos comentários, mas desejo muita calma e bons ventos pra você fazer da Suíça um lar!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. <3 Obrigada, Bárbara. Sabe que hoje quando cheguei na estação de Berna me deu um alívio? Uma coisa de estou chegando em casa? Acho que estou no caminho certo :)

      Excluir
  9. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Certamente, aos 18 tudo é mais fácil. Mas a gente vai aos poucos se encontrando. Alias, só de admitir pra si que não é um mar de rosas, que a gente tem que ter paciência e se dar um tempo, já alivia e ajuda. Obrigada pelo comentário querido! Beijos

      Excluir

Follow @ Instagram

Back to Top