A tal diversidade

Desde que entrei no curso de alemão passei a conviver diariamente com uma fauna bem diversificada. Ao longo desses 3 meses passaram pela sala uma sulafricana, um francês, uma americana, uma dominicana, um espanhol, uma colombiana, uma macedônia, uma polonesa, uma grega, um canadense, uma russa. Além desses, tem o grupo que seguiu junto desde o começo: eu, uma italiana, uma suíça que cresceu fora do país, um saudita e 3 iranianos, sendo um par de irmãs e um outro menino. Esses quatro últimos muçulmanos. 


Conviver com essa pluralidade de culturas é muuuito interessante. Ver como se comportam, aprender sobre outras partes do mundo sobre as quais eu pouco pensei, quebrar preconceitos, etc. Aprendi muito! Mas devo confessar que um grupo me despertava mais curiosidade que os demais: os muçulmanos. No Brasil não é uma comunidade muito grande, a gente quase não convive, e o pouco que sei é sobre o que leio, e a gente sabe que nem sempre da pra confiar 100% no que dizem os jornais. 

Pois bem. Desde o primeiro dia as duas iranianas de véu chamaram a minha atenção, porque eu queria muito olhar pra elas e ver como eram suas feiçóes, seus traços, mas morria de medo de parecer que eu estava de alguma forma constrangendo elas. O mesmo com os rapazes... Eu não sabia bem como interagir com eles, não sabia o que era "apropriado" ou não. A verdade é que a intolerância religiosa para com os islâmicos no mundo anda tão feroz, bem como as idéias erradas que nós ocidentais temos, que acho que a princípio ficou todo mundo meio pisando em ovos.

Aos poucos o povo foi se soltando. Eu descobri que o Iran de hoje é um país que tenta aos poucos retomar a efervescência cultural dos anos 70, que Teerã tem uma população com nível altíssimo de escolaridade, e é uma capital vibrante, animada, que tem vida na rua 24h por dia. Descobri uma boa companhia no saudita chamado Mohamed, com quem é uma delícia bater um papo e falar bobagem. E assim fui vendo várias das minhas ideias pré concebidas se moldando à realidade. 

Agora em dezembro não irei pra escola, só volto em janeiro. Com isso, e também com outros planos dos demais, praticamente iremos cada um pra uma turma. E pra celebrar o fim do A1 eu convidei as meninas para um almoço aqui em casa. Viemos depois da nossa prova de nível, todas felizes, eu, italiana, suíça e iranianas. Foi meio estressante pensar no cardápio, mas aprendi um pouco sobre o que eles comem, sobre os cortes Halal, etc. E além disso, eu queria guardar aquele dia num potinho: o primeiro dia que eu enchi a minha sala suíça de gente que conheço e gosto. Foi muito bom ver todo mundo a vontade, conversando, rindo, falando alto. Fiquei impressionada quando elas tiraram o véu, me senti honrada por perceber que se sentiram a vontade na minha casa. 

Papo vai, papo vem, elas acabaram nos mostrando que o Iran - e o universo islâmico - pode não ser exatamente a prisão que muitos de nós achamos, mas pode sim ter seu lado cruel. Pois elas contaram aqui que o terceiro iraniano da sala, um menino bonzinho de 17 anos, que trata todo mundo bem e parece muito inofensivo, é desrespeitoso com elas. Que ele as julga e as intimida com o olhar quando elas conversam - mesmo durante exercícios da aula - com outros homens. Que usa expressões inadequadas em persa com elas. Enfim, que as trata como inferiores. 

Meu queixo foi no chão. Essas meninas são tão educadas, tão discretas, tão estudiosas - as melhores alunas da sala - tão doces, que não entra na minha cabeça como alguém poderia ser rude com elas. Menos ainda um dos seus, e justamente por compartilharem a mesma origem e a mesma fé. E foi aí que eu entendi que eu ainda tenho muito que aprender sobre essa babel que me rodeia, que há muito mais complexidade do que as cores doces com as quais eu tento ver o mundo, que nossos preconceitos podem acabar se materializando de formas inesperadas. Eu tenho muito que aprender. Muito...

4 comentários:

  1. Que post, Gabi! De fato, morar na Europa nos dá essa camada a mais de entendimento de outras culturas que eu pelo menos não tinha no Brasil. Estar rodeada de gente de outros lugares e culturas nos permite refletir tanto não só sobre a nossa cultura, mas também sobre como o mundo funciona - e às vezes a gente não faz ideia mesmo de como é, né? Só dando aula aqui é que fui descobrir que muitas vezes as escolas tem que rebolar pra separar os alunos muçulmanos das muçulmanas, já que haveria atritos caso ambos os sexos estivessem na mesma sala...

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    1. É bem isso, morar aqui nos expõe a uma diversidade ainda maior que no Brasil, e num contexto mais tenso. Estamos num momento em que muitas dessas pessoas mal se sentem bem vindas aqui, né... Então torna tudo mais delicado. Eu vou te falar que mesmo tendo acontecido isso, eu nunca parei pra pensar no lado das escolas. Mas a verdade é que no meu caso aqui, os pais dos envolvidos trabalham juntos - e o Iran, pelo que estou aprendendo, não é tão ortodoxo nas regras sociais. Acho que até por isso ninguém achou que daria problema... Enfim, é um admirável mundo novo pra mim, mas que eu estava achando que era só lindo, sabe? Nenhum dos meus preconceitos havia se confirmado, e eu tava achando tudo maravilhoso. Aí pá.. vem a realidade!

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  2. Que demais esse post, Gabi! Realmente, é um aprendizado sem fim poder conviver com pessoas de outras culturas, ainda mais essas que não estamos familiarizados assim. É um choque e também faz a gente ter uma noção de como esse mundo é imenso. Eu tive poucas vezes contatos com mulçumanos e também sempre fiquei naquelas pisando em ovos. Muito pra aprender por aqui também!

    Beijos :*

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    1. Eu notei que é uma coisa nas duas vias: eles, por saber que hoje muita gente preferia que eles não estivessem aqui, ficam com o pé atrás. E a gente, que está aberto, por saber que qualquer atitude pode ser mal interpretada, também fica. E rolam choques mesmo... Mas eu estava achando tudo lindo, e fui pega de surpresa por dar de cara com o machismo e conservadorismo que eu achava que só existia no imaginário preconceituoso ocidental. Ver ele tão real num ambiente como a sala de aula me chocou. Beijo!

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