10 anos depois...

... Pois é, hoje faz 10 anos que eu embarquei no avião que me levou pela primeira vez para fora do Brasil. Eu embarcava rumo ao Wisconsin sem fazer a menor ideia do que encontrar, de como seriam as coisas e, mais que tudo, de como essa viagem mudaria a minha vida. Mudou minha visão de mundo, do que é importante, de como encarar os problemas, a vida e as pessoas. Foram 7 meses de muito drama, diversão, trapalhadas e muito, muuuito, aprendizado. Eu não tenho dúvidas que minha vida não seria como é hoje não tivesse eu ido lá ver um pouco do mundo com meus olhos. E digo isso porque ao voltar de lá eu entrei numa loucura de querer conhecer culturas, gente, de ajudar pessoas, de me aproximar do diferente, coisas que foram me fazendo ser quem sou hoje, e me trazendo pra onde estou. E sei que sem aquela vivência lá eu não teria coragem para viver o que vivo agora. 
Devils Lake, meu lugar favorito
É engraçado pensar que 10 anos depois estou eu morando em outro país novamente, em mais um lugar gelado, mais uma vez me debatendo com uma língua que não domino, tentando fazer amigos. Dessa vez é tudo bem diferente. Não é um intercâmbio, não é uma situação passageira, o que muda tudo. Quando você vive um intercâmbio você aceita mais os perrengues, passa por cima de problemas, mora mal, mora com gente escrota, porque tudo é temporário.  Agora não. Não há nada de temporário na minha vida, e parece tudo mais complicado. 

Mas o Wisconsin me ensinou várias coisas que hoje estão sendo muito úteis na minha adaptação. Uma delas é lidar com o frio. Parece bobagem, mas uma sujeita do verão como eu sofre muito com o frio e a escuridão. Mas quando essa sujeita já morou a -30, ela vive muito bem a -5, rs. É diferente? É sim. No Wisconsin você dirige pra tudo que é canto, você sai de casa pro carro, do carro pro trabalho, estaciona sempre perto da porta. Na Suíça não tem essa, e eu espero o ônibus na friaca. Mas ao menos é uma friaca de -5.
Geladeira no Wisconsin
Aprendi a falar inglês, né? Eu já tinha estudado anos, mas não falava, muito menos entendia. Estando lá e precisando me virar, eu me soltei, aprendi na marra. Precisei me defender, brigar e causar em inglês. E nessas horas, com a corda no pescoço, a gente fica fluente mesmo. E depois esse inglês me ajudou a conseguir bons empregos, e o mais importante: me deixou conhecer o cara da minha vida. E agora me ajuda na Suíça. Porque se a vida já era dura quando eu morava nos EUA e falava um inglês porco, eu não sei o que seria de mim sem inglês nenhum nessa terra. E todo o meu respeito pra quem sai do Brasil e vai atrás do amor sem falar nenhuma língua além do português. 
Uns quilos a mais, yellow cab e bandeira americana = Clichê do intercâmbio americano
Mas o melhor: naquela época aprendi a lidar com as pessoas que tem uma educação, cultura, diferente da minha. Nada como você ser a estranha para aprender a se por no lugar do outro. Lá, embora estivesse frio, eu trabalhava num parque aquático indoor. E vi pessoas me julgarem pelo tamanho do biquini. Vi pessoas julgarem nós, brasileiras, por beijar na balada. Os ucranianos e poloneses por aproveitarem comida até o fim, comendo restos inclusive. E nessas você vai aprendendo que um dia você é minoria e sofre julgamentos. Outro dia você é maioria e cabe a você quebrar a corrente e fazer a minoria se sentir acolhida. Hoje eu sou mais uma vez imigrante, mais uma vez minoria. Mas convivo com pessoas de todo o mundo, aprendi a respeitar diferenças e aprendi a exigir respeito.

Quando penso que foram 10 anos, parece pouco, porque pra mim parece que aquele tempo foi sonho do qual acordei há muito tempo. Mas por outro lado, nesses 10 anos, acho que quase todos os dias aconteceu algo, ou alguma situação que me fez a lembrar de lá, das histórias, dos amigos, de todo aprendizado. E por isso que sempre que alguém me pergunta se vale a pena se jogar no mundo, eu nem penso pra responder. Há 10 anos eu me joguei no mundo, e nunca mais voltei.

* A primeira foto do Devils Lake é do creative commons.

12 comentários:

  1. Que post mais lindo, Gabi. Esse negócio de se jogar no mundo é mesmo muito maluco, especial, uma oportunidade única da gente aprender coisas, rever conceitos... Tipo, eu nunca imaginei que refletiria tanto sobre o Brasil e a cultura brasileira como faço agora, depois de ter vindo pra Irlanda. Todo dia é uma oportunidade pra gente tentar quebrar a corrente, como você falou, e ver o mundo com outros olhos, se colocar no lugar do outro. Também bato palmas pra quem se muda sem falar inglês, porque cara, eu não teria coragem não! rs

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Acho que estar num país que não é o nosso nos deixa muito mais sensível às dores, as nossas e as dos outros. Por isso refletimos tanto, por isso crescemos tanto. Eu acho sensacional! Agora.. esse povo que muda sem falar lingua nenhuma, respect. Porque olha, se eu chorei de frustração nos EUA e agora na Suíça, falando inglês, imagina sem falar?

      Excluir
  2. Incrível esse post! Me vi em tudo. Viver é isso. É se aventurar, deixar tudo para trás e construir tudo de novo. E o coração que se aguente, pois a sofrência é certa.
    xx

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Haha.. o sofrência! São as famosas dores do crescimento, né? Beijos

      Excluir
  3. cara, acho que näo há experiência mais incrível no mundo do que viver fora. transforma a gente, muda a forma como a gente encara o diferente, muda a forma como a gente vê as nossas raízes. e mesmo com tanto perrengue é engrandecedor.

    p.s.: andava meio off das coisas por aqui. só agora vi a cara nova do blog... adorei!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sim, é engrandecedor justamente porque a gente aprende demais com os perrengues haha. É muito bom, muda nosso olhar pra fora e pra dentro. Você, depois de tantos anos, que o diga.
      Que bom que gostou do layout novo :)

      Excluir
  4. Eu que estou só há 7 meses na Finlândia, já tenho essa sensação de transformação, conhecimentos, uma mudança completa. Continue na força e no foco que tudo continuará maravilhosamente bem!
    Boas festas
    A Bela, não a Fera blog | A Bela, não a Fera Youtube | Converse comigo no Twitter!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. 7 meses num lugar tão diferente do que estamos acostumados parece uma vida, não? Mas é isso, seguimos firmes e fortes!

      Boas Festas!

      Excluir
  5. Gabi, seu blog está uma graça!!
    E sim, morar fora muda a gente de um jeito que só quem viveu entende. Eu também sempre me pego me lembrando de coisinhas que vivi quando estive na Holanda.
    Sair definitivamente do Brasil (ou por tempo indeterminado) como vc fez realmente deve ser uma experiência muuuito diferente. Que bom que vc está se adaptando bem. Tudo leva tempo...
    Beijo!!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eu penso o tanto que aprendi nos EUA, um país que o Brasil tenta copiar em muitos aspectos, e fico tentando imaginar como é ir morar assim, de supetão, quando se é jovem, na Holanda, um país tão mais evoluído culturamente. Deve ser muto fantástico! Feliz de você que teve essa oportunidade, Ana :) Beijos

      Excluir
  6. Que relato mais lindo! Sair do país natal e se jogar no mundo parece louco e é pra quem tem coragem mesmo. Mas, pra mim, é uma das maravilhas de viver. Um dos meus sonhos é fazer intercâmbio e me aventurar desse jeito em terras gringas. Ficar fluente, passar por perrengues, aprender com eles, conhecer uma cultura nova, mudar e crescer, desse jeitinho mesmo. A adaptação pode até ser difícil, mas com o tempo a gente aprende a lidar com ela. Que ótimo que você tá conseguindo sobreviver há tanto tempo assim, Gabi. Que venham muito mais anos de experiências e aprendizados pra você <3

    Com amor,
    Steph • Não é Berlim

    Com amor,
    Steph • Não é Berlim

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Fazer um intercambio é maravilhoso, se tiver a oportunidade vá mesmo! É incrível o tanto que a gente se desenvolve... Aqui a gente vai indo, devagar e sempre :) Beijos!

      Excluir

Follow @ Instagram

Back to Top