Seis meses de Suíça

Pois é... Se passaram somente 6 meses, mas tem horas que eu penso que se passaram anos. Principalmente quando olho pra paisagem branca lá fora, e aquele domingo ensolarado e quente em que chegamos com 7 malas parece tão distante. A vida aqui realmente entrou no eixo. Temos nossa rotina, temos alguns amigos, tenho minhas atividades. E tenho saudades, muitas saudades. Sinto saudade dos meus pais, do meu bebê, dos meus amigos, da comida. Da vida agitada de São Paulo. De não precisar me programar para ir ao mercado, de saber que posso encontrar tudo aberto a qualquer hora, de saber que tenho pessoas queridas a alguns minutos de distância. 

Antes de vir li muito sobre a dor que é partir e ver a vida sem você seguir normalmente. Não tenho sofrido disso. Percebo sim que as coisas acontecem, que as pessoas se reúnem, viagens, festas, e eu acompanho a distância. Mas não tenho me sentido triste por isso. Triste fiquei de não estar ao lado de uma grande amiga em seu casamento, de não ter podido abraçar outra que ficou grávida, de ainda não ter carregado a recém nascida Paola. Mas fico me lembrando que a vida em SP é tão corrida, que outras pessoas que estão por lá ainda não seguraram a Paola no colo, só viram o ultrassom da grávida por foto e não foram ao casamento. Então você percebe que estando aqui ou lá, a vida segue pra todo mundo, e ta tudo bem. 

Agora o que me pegou de jeito mesmo foi ver gente se afastar, aparentemente, por não concordar ou entender minha decisão. Ou não saber lidar com ela. Amigas queridas, próximas, que simplesmente sumiram. Que não perguntam da minha vida, que não demonstram o menor interesse para saber como estou. Que simplesmente me relegaram ao status de conhecida. Mas mais uma vez, pergunto: o que eu posso fazer? Eu tentei manter contato, tentei faze-las partes da minha nova vida. E depois de muito me frustrar, entendi que até as amizades tem ciclos, e as vezes eles se encerram.

Agora olhando pro lado de cá, eu digo que a fase crítica da adaptação já passou, a fase de estranhar as coisas como elas são aqui, de me irritar. Agora, já aprendi a dançar no ritmo. Entendi que tudo fecha pra almoço, que no sábado tudo fecha as 16h, e aos domingos com sorte acho algo aberto na estação central. Aprendi a me programar. Aprendi também a baixar a régua em alguns quesitos. A casa aqui não é tão limpa como era no Brasil, sabe? Mas e qual o problema? Nenhum. Limpo uma coisa aqui hoje, outra ali amanhã, e boa. Não tem casa brilhando nenhum dia da semana. E ok, vida que segue.

Depois de espernear um pouco, acostumei com o fato de que certas mordomias que minha vida de classe média paulistana acabaram. Manicure a cada dez dias? Não. Alias, dado o custo das coisas aqui na Suíça, nem uma vez por mês, nem nunca. Pedir comida em casa? Não. Sair pra restaurante dia sim dia não? Nem pensar. Faxineira? Muito menos. Por outro lado, já me acostumei a outras regalias, rs: andar sozinha a qualquer hora do dia e da noite, não me lembrar como é ficar parada no trânsito, poder usar e abusar do transporte público sem qualquer chateação, não ter que ter um carro. A balança mostra que nesses aspectos todos, por enquanto, estou ganhando mais, muito mais, do que perdendo.

Agora quando olho pra vida de forma geral eu, honestamente, não sei qual o saldo. Algumas vezes, pensando na distância da minha família, quando chorei aqui porque tinha o tempo livre e me faltava amigos pra compartilhar, e mais ainda, quando percebia o tanto que meu baby está crescendo, se desenvolvendo longe de nós, me questionei se isso tudo valia a pena. Quando penso na nossa vida no apartamento de Pinheiros, ainda me questiono. Claro que é fácil agora ficar olhando pra trás e achando tudo perfeito, sendo que não era. Esses 6 meses de Suíça me fizeram olhar a minha vida no Brasil com outros olhos. Mas encaro isso de maneira positiva. Sinto saudades, me questiono, mas entendo isso como um reconhecimento de que era muito feliz, e de que não fugi de nada. Simplesmente recomecei aqui.

Mas to reclamando? Não to não. Como eu disse, a pior fase da adaptação passou, e quando meus olhos desembaçaram das lágrimas, eu comecei a apreciar tudo aqui. Comecei a gostar da nossa tranquilidade, da nossa rotina sossegada, de ir buscar Mati na escola de bicicleta, de andar na montanha, de cozinhar em casa, de tomar nosso bom vinho, de poder viajar sempre que estivermos entediados. Alias, a nossa união só se faz mais sólida a cada dia. Viver todo esse turbilhão de emoções lado a lado, contando um com o apoio do outro, nos fez mais fortes, mais unidos e mais compreensivos.

Hoje, olhando pra esses seis meses que se passaram, e encarando os sabe Deus quantos anos que temos em terras suíças, penso que estou pronta pra ficar. Pra sempre? Não. Posso ficar 3, 6, 16, 30 anos fora do Brasil. Mas é lá que quero ser idosa. Mas enquanto a idade não chega, penso que por ora estamos num lugar muito bom. E por ora, é aqui que queremos ficar.

23 comentários:

  1. Que texto forte, Gabi. Suas reflexões fazem todo o sentido. A vida anda, dá saudades, mas a gente tb fantasia uma vida que nunca existiu; esquecemos que se estivéssemos lá - lá sendo aquele lugar que tanto pensamos, queremos e questionando - as coisas que choramos por ter perdido talvez não tivessem a mesma dimensão que damos por estar aqui. Estou, como vc, apreciando e tentando ser feliz com o que tenho. Isso tb é bênção.
    Um bjo, querida.

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    1. Sim.. acho que o segredo é esse mesmo, Paulinha. Apreciar o que temos, tentar mudar o que pode ser mudado, e ser feliz. So far, so good. Que assim seja pra você :) Beijos!

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  2. Que texto lindo! E também me fez lembrar muito da minha fase inicial aqui na Irlanda. Eu acredito que nada tem que ser pra sempre, assim como acho que não precisamos passar a vida inteira e morrer no local que nascemos, também acho que também podemos mudar do local novo que escolhemos pra ser o lar, seja por quantas temporadas for. Nada precisa se escrito em pedra, como dizem. A Suíça tá fazendo bem pra você agora, então tem que aproveitar mesmo tudo que essa experiência tá sendo pra vocês.
    Também vi muita gente querida se afastar depois que mudei, mas também vi outras que nem passaram pela minha cabeça, que seriam tão próximas de mim um dia. Essa coisa da distância tem suas surpresas!

    Que venham mais 6 meses ou quanto tempo mais de Suíça for necessário pra vocês! <3 Estou amando compartilhar essas suas aventuras por aí, Gabi. E com certeza, precisamos combinar uma viagem juntas! Beijos e feliz 6 meses de Suíça! :*

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    1. Ahh, te marquei em uma tag lá no blog também!

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    2. Pois é, eu penso que precisamos dar o tempo que o lugar pede. Adaptações não são fáceis, ainda mais quando se muda de uma vez - e não gradualmente, tipo.. vou passar 6 meses, aí resolve ficar mais 6 e assim vai indo. O fato de ter mudado de uma vez pra cá faz a gente criar expectativas, querer que a vida normalize em 2 meses, e não é assim. E como você disse, nada é escrito em pedra. Gosto muito dessa analogia, hehe.
      Beijos!

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  3. Nossa Gabi, amei esse texto. E esse parágrafo que você fala sobre a vida lá continuar sem você estar lá me fez pensar muito. Porque a gente fantasia mesmo, fica achando que está perdendo vários eventos, e de fato está, mas ao mesmo tempo, é como você falou: mesmo que estivéssemos lá, na mesma cidade, no mesmo bairro, talvez não estaríamos presentes em todos esses eventos. Então é bom dar uma desencanada, e olha que eu vivo encanadona pensando que tô perdendo coisas. Tenho manter o contato demaissss com todo mundo - o que se torna cansativo de vez em quando, mas acho importante fazer um esforço.

    Beijos e obrigada por mais um post lindo!

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    1. Isso da gente se esforçar pra manter contato é o que eu mais faço, sempre fiz a vida toda. Sempre fui eu a ligar, a marcar as coisas, etc e tal... E continuo fazendo. Mas me lembro sempre que amizade é via de duas mãos, né. E hoje em dia eu tenho muito tempo livre, se deixar passo horas batendo papo com amigos, e foi aí que eu me peguei mais desapontada: estou me sentindo carente de amizades e bem nessa hora algumas pessoas sumiram. Mas paciência, essa é a vida. E a gente vai se acostumando.
      Beijos

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  4. Seu texto me faz lembrar quando minha filha e o marido foram embora definitivamente pra alemanha, 15 anos atrás. As amizades verdadeiras (poucas) permanecem até hoje, outras não estão nem aí pra eles. O nome dessas ditas "amizades" é dor de cotovelo, ou melhor, inveja.
    Aproveite essa oportunidade e seja muito feliz. Sua jornada vai ser linda, tenho certeza.
    Grande abraço

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    1. É, eu diria que é muito difícil pra algumas pessoas aceitar e lidar com o fato de que o que é bom pra eles pode não ser bom pra mim. As vezes, quando você toma uma decisão como essa, tem gente que leva pro pessoal, como se você tivesse dizendo que o modelos dele é ruim. E não é bem assim.. E tem ainda aquelas pessoas que acabam se ressentindo por você ter tido a coragem de tomar um rumo que eles não tiveram. Enfim, eu nem sei se no caso das minhas amizades foi alguma dessas coisas... Uma pena, mas vida que segue.
      Beijos e obrigada pelo carinho, Rose.

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  5. Que bom ouvir que vc está bem! Nossa, seis meses já?! O tempo voa e a gente nunca sabe o que vai acontecer. Temos essa mania de ficar comparando, pensando "como seria se"... eu a credito que no fim nós sempre estamos onde temos que estar. Quando planejamos e desejamos coisas boas, nada de ruim pode acontecer =)
    Beijo!

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    1. <3 só amor por isso: estamos exatamente onde deveríamos estar. Beijos, Ana!

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  6. Gabi, eu também experimentei essa fase de amiga do peito para o departamento de "conhecida" depois que eu passei a morar nos EUA. Os e-mails ficaram mais escassos, os contatos menos frequentes. As pessoas passaram a ter preguiça ou não viram importância de manter contato mesmo assim. Foi uma realidade dura de aceitar, porém, alguns desses, de tempos e em tempos, mandavam um e-mail com o falso pretexto de saber como eu estava,quando o verdadeiro intuito era saber se era possível que eu mandasse algumas coisas daqui para o Brasil já que aqui "era mais barato". Sabe, eu me senti muito usada, estilo meio para o fim. Nessas horas é que você de fato quem sempre foi teu amigo e que não foi.
    Feliz que tudo está fluindo na Suíça!
    Beijos!
    http://vivendolaforanoseua.blogspot.com/

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    1. Verdade, pra quem mora nos EUA ainda tem essa: gente dos bueiros pedindo coisa, né? Uma pena. Eu, honestamente, não vejo nada de maldade. Prefiro pensar que, como eu disse, amizades tem ciclos. E guardo boas memórias do que passou.
      Beijos!

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  7. Um excelente texto, Gabi. Eu não sou do Brasil mas idenfico-me com algumas destas mudanças, há coisas que na Suécia são tão caras que simplesmente não dá para fazer. Há os amigos que se afastam. E bem, aqui t-u-d-o tem de ser programado. E depois há as saudades... É tudo difícil, mas crescemos como pessoas e ganhamos mais do que perdemos. Beijos e continue relatando suas aventuras!

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    1. Disse tudo: enquanto o saldo for positivo, estamos bem. Beijos!

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  8. Eu tenho 19 anos. Um curso de jornalismo chegando na metade e um desejo louco de ser Au Pair quando a faculdade acabar. Das metas do ano, CNH e Passaporte estão listados para já agilizar tudo. Quando vejo posts e vídeos sobre dificuldades de se sair do Brasil - de qualquer parte dele -, eu sei o quão arriscado é sonhar em sair da zona de conforto. Do conhecido, do familiar e convidativo. Mas quando vejo os saldos positivos acaba saindo um sorriso do rosto quase sempre embalando por uma música britânica "felizinha". Acredito - sem experiência nenhuma - que a mudança bagunça a mente, deixa atordoado como se a gente tivesse acabado de rodar por minutos e tivesse parado de repente. Uma sensação que ficar por alguns dias, semanas, meses. Depende de quem sente. Depende de quão repentino foi a "parada". Mas grandes mudanças trazem grandes lições. E findar a vida com um saco cheio delas faz vale a pena o sofrimento.

    Obrigado por esse texto. Sou nova aqui, mas não podia ter post de início melhor. <3

    Beijos do Conto Paulistano

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    1. Ah, que comentário mais lindo! Eu acho que as mudanças trazem muito crescimento, e como qualquer crescimento, alguma dor. Isso não tira o brilho de tudo que a gente aprende e vive nessas jornadas. Se prepara mesmo, e quando chegar a sua hora, se joga. Vai ser uma das melhores épocas da sua vida. Beijos!

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  9. Eu tinha lido esse post no celular e fiquei emocionada. Você usou de muita sensibilidade pra escrevê-lo. Quem encara essa nova aventura de morar longe do Brasil sabe bem do que você tá falando. Me tocou especialmente no quesito amizades. Em algum lugar no meu blog tem um post falando sobre isso. De como muitas amigas se afastaram de mim. Doeu muito no começo, mas acho que agora eu sei lidar bem com isso. Eu casei, engravidei e muitas amigas que era como irmãs pra mim na universidade simplesmente "esqueceram" de me parabenizar. Não é fácil! Mas você vai ver que com o tempo os verdadeiros vão tentar permanecer na tua vida, mesmo com a distância que é cruel. Mas olha, fico feliz por você, com a tua adaptação, de ver que você está vendo beleza nas mínimas coisas. Você é tão querida! Não tenho dúvidas que logo mais estára rodeada de amigos bons! Feliz 6 meses na Suíça e um abraço forte!
    Ana

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    1. Você que é querida, Ana. Muito. A verdade é que, veja só, to percebendo que não fiz justiça nesse post às amigas que estão aí pra mim todos os dias. A amiga que mudou roteiro de férias pra vir passar uma semana aqui comigo. Amigas que me aguentam no whatsapp. É como você falou, há quem permaneça apesar da distância. Que assim seja, com pessoas queridas e que se importam com a gente, né? Beijão e obrigada por seus comentários sempre tão belos.

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  10. Me vi no seu texto Gabi. Esse mês completo 9 meses aqui na Finlândia e parece uma eternidade! Fora o choque de adaptação e saudades do que ficou na terra tupiniquim. Eu li um pouco sobre o transtorno adaptativo e fiz um video que vou por no canal amanhã!
    Felicidades em sua nova jornada!
    Sorteio Coleção percy Jackson e os Olimpianos | A Bela, não a Fera Youtube | Converse comigo no Twitter!

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    1. AH, legal! Vou dar uma olhada no seu vídeo, Bela :)

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  11. Gabi, saudade é uma coisa que sempre vai existir entre os expatriados, né?! Há alguns dias atrás ouvi o audio de uma jornalista aqui da Suíça que deu uma entrevista para a CBN. Eu um dado momento ela disse algo assim: quando vc sai do Brasil, você deixa o país de um jeito, mas o país, assim como as pessoas mudam e você também muda. Quando vc volta nem o país e nem as pessoas estarão mais naquele ponto x que você deixou quando saiu de lá. Isso esclareceu tantas coisas pra mim...na verdade a gente também muda e muito! Não só as pessoas que ficaram né!? Bjs

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    1. É muito verdade, Sandra. Uma vez li um texto que falava que quando você se muda do seu país você nunca mais tem "casa". Você vai sempre sentir saudade do país que deixou pra trás, mas que não é mais o mesmo. POr outro lado você vai amar coisas no seu país novo, e não se adaptar com outras. No fim, na sua cabeça, casa seria aquele lugar que não existe, mas onde você acomodaria somente o lado bom dos dois países onde viveu. Enfim, é complexo, e eu li isso quando voltei dos EUA, e depois de anos de volta ao Brasil eu me senti super em casa. Mas tomou tempo. Aqui, hoje eu me sinto bem, me sinto em casa. Mas é saudade que não acaba, né? Em abril eu vou passar 15 dias no Brasil, e aí veremos quais serão os sentimentos :) Beijos!

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