Fixando residência na Suíça

Como comecei a falar das burocracias da mudança pra Suíça aqui, engrenei e resolvi completar o assunto de como as coisas se seguiram quando eu cheguei aqui. Esse começo demanda muuuuita paciência, porque a gente quer tudo resolvido, quer ter a vida em ordem, e as coisas não andam tão rápido. Como eu contei no outro post, eu cheguei aqui como turista e Mati já com seu visto L no passaporte. Mas somente com o visto você não consegue fazer muita coisa... Para tocar as pendências do dia a dia, como abrir conta em banco, por exemplo, você precisa do Ausweis, que é um cartão de permissão de residência - que será também o seu documento oficial aqui, a prova de sua regularidade no país.

A primeira coisa a se fazer é procurar uma casa, porque o endereço da sua residência que vai determinar a gemeinde - comuna - onde você deve se registrar. Importante falar que reza a lenda que você tem um prazo (acho que de 15 dias, não tenho certeza) da sua chegada para se registrar, mas fomos acalmados pelo RH do Mati que explicou que não é bem assim. Até pela dificuldade de se encontrar apartamento por aqui, esse prazo não é levado ao pé da letra. Sobre a novela de encontrar a casa eu falei aqui. Uma vez que você tem seu contrato de locação em mãos, você deve ir na comuna responsável por aquele endereço se registrar. No nosso caso, a gemeinde é a de Ostermundigen. Fomos até lá com o contrato de locação em mãos, permissão de visto de Mati e passaportes, e nos registramos como residentes. Eu expliquei para a moça que o meu visto ainda não tinha saído, ela fez as anotações necessárias, e explicou os próximos passos. 

Aqui no Cantão de Berna há uma nova legislação de 2015 que determina que após o seu registro você deve participar de uma "integração" e só depois disso você recebe seu cartão de residência. Então ficamos no aguardo, e recebemos uma cartinha marcando a data da integração para um mês depois. No meu caso foi basicamente uma conversa com uma assistente social, eu e Mati em horários separados com a mesma pessoa. Eu achei essa "integração" e o timing dessa lei bem bizarro, porque foi criada durante a explosão da crise de refugiados. Chegando lá ficou bem claro o objetivo da conversa: descobrir se somos o tipo de imigrantes desejados ou não. Em uma entrevista ela perguntou desde o salário de Mati, tamanho do apartamento, hábitos culturais, nível de educação, até meus hobbies, se era feliz no casamento. Também explicou que deveríamos estudar alemão - o que naquele momento eu já estava fazendo, e se pôs a disposição para tirar dúvidas sobre a vida na Suíça. No fim dessa entrevista ela marcou uma nova data para nos encontrarmos e ver como eu estava no alemão. Fez o mesmo com Matt. 

Depois de uma semana da integração chegou aqui em casa o papel para marcarmos um horário para ir colher as digitais. Você pode marcar por telefone, e tem até horário aos sábados. Fomos, fizemos as digitais, tiramos foto e uma semana depois nosso Ausweis estava pronto. Isso já era outubro - o meu ficou pronto junto com a aprovação do visto. Só então pudemos contratar serviço de celular (até então estávamos no pré pago), abrir conta no banco (que até então estávamos pagando tudo no dinheiro e era um porre) e parar de andar com passaporte por aí. Viramos oficialmente residentes na Suíça. 

No fim de novembro eu tive minha segunda entrevista com a ISA, o órgão de integração. Como falei um pouquinho de alemão com ela, levei os comprovantes de que estava matriculada no curso, ela encerrou meu "processo". Isso significa que ela escreveu um relatório falando que eu estou tentando me integrar. Mateus não teve a mesma sorte, rs... Como ele não estuda alemão, fala inglês no trabalho o dia inteiro, e nem teria tempo de estudar pra valer, ela marcou uma nova reunião com ele agora para o fim de março. Ele está estudando um pouquinho em casa e esperamos que dessa vez seu caso também se encerre.

Eu achei meio absurdo essa questão da integração. Eu entendo que é importante que os imigrantes aqui se esforcem para participar da comunidade suíça - ainda mais dado o número altíssimo de estrangeiros no país. Mas eu fiquei pensando a que custo, sabe... Porque o pessoal da integração não tem gerência direta na parte de visto, mas o visto deve ser renovado anualmente. Depois da sabatina em que só faltaram perguntar de que dinastia vem minha família, fiquei com a impressão de que se você não tiver o perfil desejado de imigrante, e tiver dificuldade em se integrar, podem encontrar um motivo para dificultar sua renovação. Acho inclusive que o momento em que esse procedimento foi implantado dá uma pista das reais intenções por trás. Enfim, é um assunto espinhento e que demanda uma reflexão mais profunda, e quando eu me sentir mais preparada irei voltar nessa questão. 


Esse foi o fim da parte burocrática da imigração para a Suíça. Uma coisa que esqueci de falar no outro post, mas que é muito importante, é que muitas regras, leis e procedimentos variam de cantão pra cantão. Tudo isso que relatei nesses dois posts foi a minha experiência no cantão de Berna. 

8 comentários:

  1. Parabéns Gabi! Sei bem esse perrengue burocrático por conta de vistos e residência, mas no final da uma incrível sensação de ter feito tudo certo! O meu segundo visto chegou e agora tenho tempo de respirar, pra depois em dois anos tirar a cidadania! Beijos

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    1. Nossa, deve dar um alívio ter o visto renovado, passaporte de volta em casa, sossego pra vida, né? Aqui jajá começa a novela da renovação, veremos. Beijos!

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  2. Essas questões de imigração são complicadas mesmo. É difícil julgar, mas tem países que realmente dão a entender que se acham 'superiores' a outros. Triste.

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    1. Acho que no fim, todos os países tem um pouco disso. Conheço franceses e um holandês que ficaram ilegais no Brasil e não tiveram nenhum probleminha. Agora vai ver como são tratados bolivianos, peruanos, etc...

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  3. Que doido esse programa aí de integração, ainda mais pela época que foi implantado e como eles levam isso. Realmente como você falou, parece que estão escolhendo a dedo quem tem o direito de migrar pro país, né? Esse programa de integração seria mais interessante e bom pra quem migra se fosse feito de uma forma diferente e sem parecer que é um processo pra selecionar ''os melhores imigrantes'' pra ficar. Espero que na próxima eles já aliviem a barra aí pro Mati (olha eu fazendo a íntima haha)
    Beijos, Gabi :*

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    1. A Suíça tem muito estrangeiro, os percentuais são altíssimos e batem 20%. Então entendo que queiram preservar sua cultura e preferir pessoas que estejam dispostas a se integrar. Mas acho que existe jeitos e jeitos de promover, incentivar e alcançar essa integração. No fim, eu me senti o tipo de imigrante desejada: qualificada, com a vida em ordem, com dinheiro suficiente para bancar curso de alemão, uma vida cultural e tal. Mas e se você não tem isso? E s você ta vindo atrás disso mas ainda não alcançou? Só aí você já leva uma pedrada no joelho, que vai atrapalhar sua caminhada. Enfim... eu ainda vou explorar esse tema, porque tenho muuuito pra falar hahaha. beijos!

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  4. Ufa, que novela! Mas tudo isso faz parte, né? Ainda bem que agora vc tá tranquila por um bom tempo quanto a essa questão do visto!
    Bjo!

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    1. Faz parte, e é menos doloroso do que eu achei. Sempre acabo pondo em perspectiva as coisas nos EUA, porque foi onde já morei e ouvia a história do povo, e é sempre tão pior que só espero merda haha.. No fim aqui nem foi tão ruim. Beijos!

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