Padrão x Qualidade de vida

Eu estou com esse post empacado na minha cabeça há meses. Um dos motivos pelos quais quis criar esse blog foi justamente porque percebi que estava com dificuldade de expressar minhas ideias. Quatro anos depois acho que melhorei, mas ainda sinto dificuldade, ainda mais quando o tema é meio espinhento, como esse. Por isso talvez fique um pouco confuso, mas tenho certeza que vocês pegam o espirito da coisa, rs.  

Quando você fala no Brasil que mora na Europa, ou quando está comentando algo com os amigos brasileiros, a resposta é sempre "que chic!", ou então, "ta reclamando de que? você mora na Europa!!",  ou pior ainda, "mas agora você é rica, mora na Europa". O mesmo serve pra quem mora nos EUA. A real é que...

O pessoal confunde muito padrão e qualidade de vida. Aqui é inquestionável a qualidade de vida. Quase não existe trânsito (e quando tem, é 15 minutinhos e acabou), é tudo muito seguro, o transporte público funciona, as instituições no geral funcionam, as pessoas respeitam as regras e vivem muito bem em sociedade. O grande exemplo disso pra mim é o transporte público, que é auto controlado. Ou seja, você mesmo se controla, não tem catraca, não tem cobrador. Você compra o bilhete e entra no ônibus. Se aparecerem os "checkers" você mostra pra eles, mas se não, não tem ninguém além de você pra saber o que você fez. E devo dizer que quase nunca tem checker. Esse ano por exemplo, estamos no meio de março e eu fui controlada UMA vez aqui em Berna, e olha que pego ônibus ao menos duas vezes por dia. E você vê nos pontos todo mundo compra o bilhete, as pessoas fazem o que é certo.

Essa noção de cidadania, essa sensação de que podemos confiar no nosso vizinho, de que o garçom do bar não vai anotar uma cerveja a mais, de saber que alguém vai encontrar e guardar aquele objeto que perdemos, de que as pessoas preferem ir de ônibus a ir sozinha num carro que só cria volume na rua, isso tudo eu chamo de qualidade de vida. 

Padrão de vida é o que eu tinha no Brasil. Baby tinha babá, tínhamos faxineira uma vez por semana, eu ia ao salão a cada dez dias, o pessoal do prédio recolhia o lixo na porta do apartamento, quando comprava algo era entregue e montado dentro de casa, para qualquer problema era facinho achar alguém que vinha até porta resolver. Sei que isso não é a realidade de 100% dos brasileiros, mas convenhamos que é a realidade de muita gente. Até a babá do Baby tinha uma babá pra cuidar do filho dela. Isso é normal no Brasil. Isso é ser chic aqui. Mas chic num grau que a maioria dos suíços, arrisco dizer, nem gostaria de ser. 

Procurem o denominador comum dessas chiquezas todas. Encontraram? Pois é... o denominador comum é PESSOA. Faxineira. Manicure. Cabelereira. Babá. Entregador. Montador. Porteiro. Todas as pessoas que recebem um salário bem mais ou menos para que nós, classe média, tenhamos um bom padrão de vida. Todas as pessoas que recebem um salário bem mais ou menos de nós.

Aqui na Suíça - e ouso dizer que no hemisfério norte em geral - pessoas custam caro. O trabalho, o tempo de um ser humano, é bem remunerado. E é assim que eu acho que tem que ser. O trabalho de uma faxineira, de uma manicure, não é inferior ao de ninguém e deve ser tão bem remunerado quanto qualquer outra profissão. Isso torna quase que impossível que alguém de classe média aqui possa contar, em um só mês, com manicure, faxineira, babá, etc. 

E mesmo quando podem, muitas pessoas nem querem. Todo mundo aprende desde cedo a limpar a própria casa, a cozinhar a própria comida, montar os próprios móveis, raspar e pintar a própria parede. Quando fui ao Brasil em agosto, um mês após a mudança, e contei a um grupo de amigas as peripécias das montagens dos móveis da Ikea, a primeira pergunta foi: mas porque você não pagou a montagem? O mesmo se seguiu para as minhas reclamações da rotina de limpeza e afins... Mas porque você não contrata uma faxineira?

Eu não vou negar, eu peno aqui pra me adaptar à nova rotina. Eu detesto limpar banheiro, eu quis morrer de carregar aqueles móveis pesados escada acima. Mas eu há muito tempo - muito antes de me mudar, inclusive - deixei de achar que qualquer mundo fora do Brasil é "chic". Há muito tempo aprendi que todas aquelas francesas charmosas e bem vestidas quase não usam esmaltes. Lendo muito, viajando e conversando, entendi que o fato de as pessoas serem valorizadas, bem remuneradas, fazem com que a desigualdade social nessas sociedades seja quase inexistente, e adivinhem? Uma sociedade igualitária, onde ninguém se sente menos - ou mais - que ninguém, onde as diferenças salariais são pequenas a ponto de todo mundo poder ter mais ou menos o mesmo nível de vida, tende a ser mais segura, tende a ser mais civilizada. E é aí eu lhes pergunto: o que você prefere, padrão ou qualidade de vida?

Eu não tenho nem dúvidas. Apesar de toda a minha preguicite, prefiro muito mais limpar meu banheiro e nunca mais passar pela situação que é ficar sob uma mira de arma. 

19 comentários:

  1. Nossa Gabi, falou tudo. Aqui no Brasil ainda temos um pensamento escravocrata, onde as pessoas acham que uma terceira pessoa tem que limpar sua privada, só porque pode pagar por isso.
    Muita gente classe média passa aperto no fim do mes mas não abre mão da empregada, da manicure, da babá. Ninguém quer cuidar dos próprios filhos, da própria privada, das p´roprias unhas....
    Parece que ainda vivemos na época colonial onde havia mucamas seguindo as pessoas ricas para recolherem os penicos pela casa...

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    1. Olha, eu sou suspeita pra falar, porque como eu disse, não nego que gostava de ter certas comodidades. Gostava sim, e sinto falta. Mas existem muitas reflexões que a classe média brasileira simplesmente não faz. Achar que a vida fora é chic é uma besteira imensa, inclusive metade dessas pessoas não dariam conta na adaptação aqui. Já conheci brasileira aqui que anda super "deprimida" com a queda do padrão de vida. E cadê a chiqueza, né?

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  2. Eu acho que, além da confusão entre padrão e qualidade de vida que eu concordo totalmente com você, também existe a ilusão da existência de Pasárgada, aquele lugar onde 'seremos amigos do rei', onde se tem tudo, para todos.

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    1. Sem dúvidas, Mi... a ilusão é se bobear é maior que a confusão.

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  3. Muito bom o seu texto, Gabi! Também prefiro mil vezes ter qualidade de vida do que padrão. Faz uma diferença enorme na sociedade quando todos os empregos são valorizados. Aqui na Europa você sendo babá consegue ter um padrão ok de vida que uma babá no Brasil não teria, é triste isso.
    Adorei que você abordou esse tema, vontade de mandar pra todo mundo que vier com certos papinhos de que tá na Europa tá rica e coisas do tipo.
    Beijos <3

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    1. Eu tenho morrido de preguiça. Não posso reclamar de nada da vida, que alguém vem com "ai, ta reclamando de que? você 'é rica, você mora na Europa". Me poupe gente... Beijos!

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  4. Eu nunca li um texto que deixasse tão em aberto um pensamento que eu mesma já vinha tendo há um tempo. Eu nunca saí do Brasil, mas o que li e vi foi suficiente pra já ter uma opinião formada sobre isso. Ainda sonho em morar um tempo fora do Brasil, mas não sei se conseguiria passar longos períodos, mas aí entra a questão a questão de qualidade de vida, que eu não provei pra saber como é.

    Com carinho,
    Conto Paulistano.

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    1. Morar fora é uma super experiência, Selma, ainda que seja por um curto período. Você passa a ver várias questões do mundo com um olhar muito mais sensível. Essa questão da valorização de pessoas é uma delas, e o tanto que isso impacta na vida da gente. Quem sabe um dia você realiza o seu sonho e fortalece sua opinião com base em fatos e experiências. Beijos!

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  5. "Mas chic num grau que a maioria dos suíços, arrisco dizer, nem gostaria de ser" eu - mesmo näo suíça - me encaixo bem nisso aí. gosto de fazer as minhas coisas, me orgulho até, e depois de tanto tempo acharia estranho pagar alguém pra fazer.
    e carreguei a estranheza pro brasil. essa estória de levar alguém pra servir, mesmo numa casa de veraneio, mesmo quando se está de férias e se tem tempo... num faço mais. fico com vergonha da minha preguiça.
    tem um texto por aí pelas internets de uma brasileira no exterior onde ela fala da relaçäo de limpar o próprio banheiro e poder andar com seu ipad tranquilo pela rua. (uma conclusäo bem parecida com essa aí que você teve... mas num outro foco)

    adorei o texto!

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    1. Ana, eu falei bem do suíço que é o que eu observo no momento, mas sei de muita gente de todo canto que é assim mesmo. Eu ainda estou me adaptando, peno, e tem hora que, confesso, sinto falta de uma mordomia. Mas acho que é um processo longo. Eu já cruzei esse texto na internet, acho que até já mencionei ele em algum post do blog anos atrás, e é muito bom. Beijos!

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  6. Bonito texto :)
    Sou portuguesa e não conheço o Brasil, mas consigo relacionar com as palavras.
    O que levou a escolher a Suíça especificamente para essa mudança? Fiquei muito curiosa :)

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    1. Obrigada pela visita :)
      Imagino que em Portugal, em diferente escala, algumas coisas sejam como no Brasil, até por nossa proximidade cultural. Sobre a minha mudança, na época fiz um post mais detalhado dos porquês heheh.. se quiser dar uma olhada: https://gabinajanela.blogspot.ch/2016/02/faq-da-mudanca.html

      Abraços!

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  7. Aqui e basicamente meu mantra explicar pra todo mundo que qualidade de vida e diferente de ser rico. Eu no inicio senti falta de muitas facilidade do Brasil, mas com o tempo me acostumei e ate acho mais interessante viver desse jeito, pois aqui a mão de obra é mais valorizada e apesar de precisar pagar mais isso significa menos desigualdade social e menos violencia nas ruas.

    Com o tempo percebi que pra uma sociedade como na Suiça ou ate aqui nos EUA funcionar a mentalidade da população precisa ta alinhada. Aqui existe um senso de fazer parte de uma comunidade, e isso leva as pessoas a cuidarem do lugar em que vivem e fazerem as coisas de uma forma mais certa, e as pessoas acabam sendo mais considerativas com o proximo. Por exemplo se voce perder a carteira ou o celular a chance de ser contatada por quem achou é enorme, e o dinheiro vai ta todo la. Enfim, como ja comentaram la em cima, eu não me importo de montar meus moveis, de limpar minha casa e fazer minha unha e cabelo quando preciso, pois em troca eu moro em um lugar com seguranca e onde a desigualdade acaba sendo menos entre todos.

    Bjs.

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    1. Monique, seu comentário é perfeito. Senso de comunidade. E acho que no Brasil somos maus acostumados.. aprendemos a olhar para o outro com diferença desde pequenos. As mordomias fazem falta, mas quando penso no porque de não as ter aqui, prefiro desse jeito. Beijos

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  8. Gabi, como sempre, mandando demais! Eu me considero classe média no Brasil, mas nunca tivemos empregada, babá, nem casa na praia, sabe? Então essa mudança de padrão pra mim não foi um choque e não sinto falta de mordomias pq na verdade nunca as tive. Mas sim, escuto direto de amigas que manicure aqui é caro, que é um absurdo você tem que montar seus próprios móveis, etc. Acho que no fim das contas, qualidade de vida é muito mais importante do que ter um padrão. Quando cheguei aqui viajei loucamente por uns dois anos e sempre recebia uns comentários de "se deu bem na Irlanda", mas eu era babá, limpava fralda, fazia minha comida, lavava minha própria roupa, etc. E mesmo assim, sendo uma mera babá, eu tinha grana pra viajar, e acho que isso não tem preço mesmo.

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    1. Pois é. O raciocínio é que there is no free lunch. Você não vai conseguir "explorar" parte da população e viver numa sociedade saudável. As mesmas pessoas que surtam com a violência de São Paulo são as que surtaram com o e-social, com ter que pagar INSS e FGTS de doméstica. Ou seja...

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  9. Nossa, Gabi, eu concordo muito contigo! A gente tinha que assumir mais esses papéis de trabalhos que "custam caro" ou que as pessoas "não querem mais fazer" e seguir com as nossas vidas. A questão da segurança e do transporte público são o que mais me entristecem na minha cidade, porque realmente essa é a grande diferença... mas o problema somos nós que deixamos as coisas serem assim, temos que lutar por um transporte melhor e correr atrás dos direitos e não sair pra comprar um carro pra resolver o seu próprio problema e encher a cidade com filas imensas e trânsito. Enfim, gostei muito do teu texto :)


    Beijos
    Brilho de Aluguel

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    1. As pessoas ou tem que assumir esses papeis e seguir a vida, ou entender que devem custar caro e pagar sem chorar. Porque essa que é a real... temos uma classe que vive na mordomia e reclama de violência, de falta de cidadania, sem olhar que uma coisa leva à outra, né? Sobre o transporte, tem uma outra questão, que eu acho super válida: seres humanos são, por natureza, imediatistas. Transporte requer medidas que a curto prazo só atrapalham a vida da gente, mas cujos resultados são excelentes a longo prazo. Corredor de ônibus, construções de linhas, ciclofaixas. E claro que no começo, ninguém anda na ciclofaixa. Com o tempo, quando as pessoas sentem as melhorias, elas começam aderir. Agora sabe qual político quer tomar medidas impopulares a curto prazo e que somente surtirão efeito a longo prazo? Nenhum. Quer dizer, o ex prefeito de SP até quis, e você viu o que aconteceu com ele, né? Então fica difícil... Mas é como você disse, precisamos lutar.

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