Sömmer

Que eu sou um ser do sol, calor e verão não é novidade. Já falei várias vezes por aqui que eu quero mais é que o mundo cabe em areia pra eu morrer na praia. Então já faz semanas que eu estou aqui reagindo com muito entusiasmo a cada raio de sol, cada grauzinho que a temperatura sobe, cada calorzinho que me bate na sombra. E essa semana que passou foi evolução nota 10 (ler com voz do narrador da apuração das escolas de samba). Cada dia mais calor, cada dia o sol mais quente. Que culminou num feriadão de muito verão antecipado. 

Convertendo a carteira de motorista na Suíça

Quando chegamos aqui fomos informados que no primeiro ano poderíamos converter nossa carta brasileira em suíça sem grandes problemas. Depois disso o processo fica um pouco mais complicado. No começo a gente tinha muita coisa pra resolver, e deixou isso de lado. Mas em janeiro achamos que era hora de correr atrás antes que fosse deixando passar até perder o prazo. 

A princípio é tudo muito simples. Você vai na sua Gemeinde - ou direto no Strassenverkehr (o "DETRAN" do Cantão) - e pega um formulário para conversão. Para veículo normal a permissão aqui é B, e você preenche tudo com suas informações pessoais e informações da sua carta de motorista do país de origem. Com esse mesmo formulário, você vai em qualquer ótica que faça o exame ocular, e faz um teste de vista específico. Fiz numa ótica aqui do lado de casa e custou 15 francos o exame. Inclusive preenchemos o papel lá na ótica mesmo, porque estava tudo em alemão e a moça de lá foi super fofa e ajudou a gente. Você deve entregar na Gemeinde (ou direto lá no Strassenverkehr) o formulário devidamente preenchido, com o exame de vista assinado pelo especialista e acompanhado da sua carteira de motorista original. Recomendo ir direto no Strassenverkehr, já que a Gemeinde vai mandar pra lá mesmo. Eu não sabia, mas fica a dica.

Uma questão de auto estima

Não é segredo que no Brasil a aparência vale muito. Todo mundo se cuida bastante, tem um salão de cabelereiro/manicure/mini spa em cada esquina, pessoal gasta com roupa, com sapato, com bolsa, em níveis que beiram a falta de noção. A verdade é já fui assim. Nunca fui perua, mas já gastei muuuuito com roupa, com sapato. E mesmo quando parei com isso, a rotina de salão sempre foi uma constante. E ainda que gastando bem menos, sempre gostei de moda, de me vestir bem. Vá lá que já me disseram que eu fazia o estilo mendiga fashion, mas convenhamos que era uma mendiga fashion phyna.

Aí corta pra Suíça. Povo aqui joga muito mais no time do conforto e da praticidade. Percebo que o suíço médio é bem discreto e funcional, provavelmente porque o frio domina a temperatura quase o ano todo, e porque aqui usa-se menos o carro e mais o pé. Salão, como já amplamente discutido nesse blog, is a NO. Caríssimo, coisa que se faz de vez em quando. Saem os sapatos de salto, entram as botas confortáveis, o casaco fofinho. Sai o salão de beleza, entra a gente de vez em quando dando um tapa no visual com receita de youtube. 

E foi aí que eu me senti um peixe fora d'água no Brasil. Ou sendo mais precisa, uma mocreia. Ia encontrar as amigas e todo mundo bem vestido, cabelo bem cuidado, unha feita, e eu me sentindo super desarrumada, rs. Foi inevitável me sentir meio mal. Mas também foi inevitável fazer uma reflexãozinha sobre até que ponto a vaidade vem do meio, e até que ponto vem da gente. Porque assim, eu nunca fui perua, nunca fui de me enfiar em cima de salto pra ir em qualquer lugar, mas sempre gostei de estar bem cuidada.

Aí parei pra pensar que tirando por algumas ocasiões especiais, eu não passava um batom há tempos. O tal do cronograma capilar então... Nem lembrava mais como fazia. E enquanto isso, meu cabelo duro de cálcio (um assunto, alias, que merece post próprio - a água da Suíça). Pensei também que ando numa preguiça imensa de me arrumar, e sei que isso tem a ver com o fato de ser uma desempregada que somente faz viagens quase diárias ao supermercado e vai pra escola. Que tem zero compromisso com chefe, com cliente, com código de vestimenta.

No Brasil a gente sabe que não só o visual importa muito, bem como as pessoas julgam muito também. Em 9 meses de Suíça, eu percebi sim que andava num estilinho, digamos, mais (bem mais rs) desleixada, mas me sentia zero julgada. Agora foi chegar em São Paulo que eu me senti inadequada.

Agora por quê esse assunto ficou tanto na minha cabeça, me gerou tanta reflexão e virou até post? Foi por que um garçom me olhou atravessado em restaurante lá em SP? A princípio sim. Mas a real é que ao voltar pra casa, comecei a pensar mais no assunto, e cheguei a conclusão que nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Eu seguirei sendo sempre mendiga fashion, é meu estilo, mas percebi que precisava resgatar um pouco o cuidado comigo mesma que em algum momento dos últimos meses se perdeu - porque percebi que me faz falta. Passar um pó na cara de manhã, dar uma penteadinha no cabelo, (porque sim, é bem normal me ver muito descabelada por aí), olhar antes de sair de casa se as duas meias são iguais rs.

Acho que cada um sabe de si, não tem essa de mulher relaxada, vai de como cada uma se sente bem. E acho que eu estou vivendo uma liberdade imensa aqui que é sair de casa como me dá na telha, sem me importar at all com o que as pessoas vão pensar, sem me sentir jamais inadequada. Liberdade, que alias, só conquistei nessa plenitude (porque né, sair de casa por 3 dias seguidos sem pentear cabelo e até com as meias trocadas é muita plenitude na vacalhação, rs) porque as pessoas aqui estão cagando baldes pro que eu uso ou deixo de usar. E nada como a gente resolver, por vontade própria, o que fazer da nossa imagem. No momento, como ando com minha auto estima meio em baixa, chegou a hora de gastar um tempinho a mais comigo.

* esse é o primeiro dos posts pós primeira visita ao Brasil. Tenho várias análises do tipo pra fazer, mas antes preciso organizar as idéias e sentimentos. Aos poucos, muito mais mimimi por aqui.

Fête de la Tulipe em Morges

Desde que comecei a prestar atenção na Suíça, ou seja, de fevereiro do ano passado pra cá quando soube que viríamos, fui bombardeada de cidadezinhas e vilinhas e montanhas e passeios incríveis nesse país. Está tudo anotado em algum compartimento do meu cérebro, e de vez em quando eu tenho umas epifanias. Em algum momento, que não sei quando foi, vi algo sobre tulipas, um jardim bem lindo que mataria - ainda que temporariamente - aquele bicho que faz todo mundo querer agendar passagens pra Holanda na primavera.

E aí eu esqueci do assunto, mas outro dia lendo sobre Keukenhof lembrei que em algum momento desses últimos 15 meses eu vi algo sobre tulipas na Suíça e botei o Google pra funcionar. E foi assim que eu descobri Morges, uma cidade pequena, fofíssima, na beira do Lake Geneva. Daqui de Berna dá mais ou menos 1:30 de trem, contando com o tempo que se gasta na conexão em Lausanne. Fomos  nesse sábado, por volta das 13h, e ainda tivemos 7 horas de sol pela frente. 

Chegando em Morges seguimos em direção ao Lago. Eu sabia que por lá a gente ia se achar e achei por bem "deixar a vida levar". E então vimos um pessoal seguindo para o Parque da Independência e fomos atrás. Estão preparados?

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