Livro, cinema e música

Eu sei que to atrasada porque a série foi febre e todo mundo já viu (e eu não), mas esse mês eu li Big Little Lies e fiquei viciada no livro. É uma leitura tão envolvente, uma tensão crescente, uma amizade bonita, mulheres fortes, personagens interessantes, que você não consegue parar de ler. Fiquei curiosa para assistir a série, mas com aquele medinho básico de "estragarem" algum personagem. Acabei lendo algumas coisas na internet e vi que eles mudam um pouco alguns personagens, então mesmo para que já tenha assistido a série na tv, vale muito a pena a leitura. 

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Eu estou bem por fora dos filmes, simplesmente não ando vendo muita coisa. Mas quando você ta dentro dum avião, não sobra muita coisa pra fazer, né? E foi aí que eu assisti Baby Driver e fiquei apaixonada. Já tinha lido ótimas críticas sobre o filme, que é sobre um motorista de fuga e sua relação com a música. A trilha sonora vale o filme inteiro, as sequências de ação são maravilhosas ( e olha que eu não gosto de filme de ação), e o elenco é bem poderoso. Notei também que metade do avião estava vendo o filme haaha.. tanto na ida quanto na volta. 

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Troquei de telefone, e na hora de ajustar minhas contas, Apple id, etc, fiz uma cagada e acabei perdendo todas as minhas listas feitas com o Apple Music. Pois é, eu não usava Spotify, e to querendo usar quando ajustar tudo de novo no telefone. Pergunta: alguém que já usou os dois tem alguma preferência?

Shopping Tips

Que muita gente gosta de ir aos EUA pra fazer compras não é novidade. Eu devo dizer que embora tenha uma Becky Bloom escondida em algum lugar dentro de mim, não sou das que gosta de comprar por horas e horas a fio, ou de fazer viagem de compras. Não tenho paciência. Mas a verdade é que pra quem mora no Brasil - ou na Suíça, ou em qualquer outro lugar meio caro - comprar certas coisas nos EUA pode ser sim muito vantajoso, e se você está de viagem marcada, vale a pena investir algum tempo. 

Pela internet afora você vai encontrar várias dicas sobre os outlets espalhados pelos EUA. Eu devo dizer que as vezes em que fui em outlet foi quando eu morava no Wisconsin, e tinha um na minha cidade. Ou quando eu fui a trabalho pro Michigan algumas vezes, que também tinha um outlet perto da minha empresa. A real é que esses outlets sempre ficam fora da cidade (por exemplo, próximo a NYC, eles ficam em New Jersey), demandam programação, transfer, e eu acho uó perder dia de viagem comprando. Gosto de entrar numas lojas pelo caminho.

Eu nunca gostei de inverno nem de calça comprida, rs. Então tinha pouquíssima roupa de frio, e por isso precisava dar uma turbinada no guarda-roupa, né. Nas minhas últimas idas aos EUA eu me joguei mesmo foi nas famosas discounters, as lojas de departamento que vendem coleções antigas por precinhos amigos. Tem que fuçar bem, as vezes parece um entulho de coisa zoada, mas sério, da pra achar muuuuita coisa boa. 

É a minha favorita. É uma lojona imensa, tem muita coisa boa, trabalha com marcas bacanas. Está espalhada por todo os EUA, e tem uma irmã europeia, a T.K.Maxx. Em Minnesota, que é um estado geladíssimo, encontramos muitas coisas pro frio, tipo casacos North Face, roupas de ski, tudo por 1/3 do preço. Claro, são coleções passadas, mas foda-se, né. Agora em outubro fora de época bombada de compras, a loja estava muito boa, compramos casacos ótimos em Minneapolis, e vimos muita coisa legal na California. Fomos em dezembro na California e a loja tinha sido depenada pro Natal. Ou seja, as vezes você vai encontrar muita coisa, as vezes vai se decepcionar, normal. A seção de casa também é incrível, com lençóis de trocentos milhões de fios por 20 dolares. Alias, tudo vale a pena.. seção de calçados, de casa, de cosmético, de pijamas hahaha...
Um corner organizadinho na TJ 
Marshalls
Digamos que em termos de seleção de produtos está no meio, entre a TJ Maxx e a Ross, que ainda vou falar. Tem muita coisa boa, bem legal. Seção de casa também maravilhosa.

É a versão miserável da TJ Maxx. A vontade de cavucar entulho aqui tem que ser maior, mas na seção de esportes da pra achar muita coisa boa. De novo, vi muita coisa bacana e de qualidade pro inverno. Comprei várias leggings daquelas que por dentro são fleece, por 5 dólares. Tinha muita coisa da Calvin Klein, Under Armour, North Face, Tommy. Comprei também um fone de ouvido Bluetooth super bom por 24 dolares, e tinha outros por 16. Nessa última ida a seção de cosméticos também estava bem boa, comprei várias bath bombs por 2 dólares :)

Designer Shoe Warehouse. Se você tem compulsão por sapato nem passe perto. É uma loja que vende sapatos de coleções passadas com muito desconto. Já vi bota UGG por 70 dólares, por exemplo. Tem tudo que é marca, sapato de todo tipo. Tênis, salto alto, sandália, bota, tudo. Comprei de Natal pra Mati uma bota que aguenta frio de até -35, pra mim uma botinha de salto. É maravilhosa!

Essa é boa porque tem uma bem no vuco vuco em NY, pertinho do World Trade Center. Além das roupas no geral, achei a seleção de bolsas e carteiras muito boa, também de vestido de festa, e mesmo esquema... coisas por até 1/3 do preço comum.
E é bem bonita
Nordstrom Rack
A Nordstrom é a conhecida loja de departamentos phyna e cara. Nordstrom Rack é a nem tão conhecida prima pobre, pra onde vão as peças das coleções passadas. A seleção é animal, afinal de contas, o que tem na Nordstrom é animal. Muita bolsa grifada, sapatos grifados por precinhos ótimos, e muita roupa em todo range de preço. Foi onde quase dei uma pirada, mas chamei a cabeça pra juízo. Mas da pra achar muita coisa legal por preço bacana! Matt comprou tenis, eu já comprei lá carteira, óculos de sol. Por exemplo, nessa última ida, tinha óculos Gucci e Dior por 100 dolares, o que é bem barato.

Não é discounter, mas é mara. É um grande supermercado, na real. Você vai encontrar roupas, sapatos, bicicleta, livros, shampoo, mesa, cadeira, frutas, livros. Você pode entrar homeless e sair de casa mobiliada com geladeira cheia e armário bombado haha. Eles não trabalham com marcas famosas, mas tem bastante coisa de qualidade, inclusive uns pijamas maravilhosos de macios e fofinhos. Tem muita coisa legal pra casa, de decoração, e se você é como eu, uma criança que não sabe se comportar em papelaria, fuja dessa seção.

Estando em NYC, tirando a Century, acho difícil você topar com uma dessas (mas tem uma ou outra). Normalmente essas lojas ficam em bolsões comercias em avenidas do subúrbio. Eu honestamente não acho que valha a pena perder meio dia em NYC pra ir atrás de compras, seja em outlet, seja no subúrbio. Mas se você for pra LA, Miami, Chicago, ou qualquer outra grande cidade, você irá passar na frente de uma dessas sim, e vale muito a entrada.

Por fim, a dica MAIS útil: antes de se enfiar numa loja dessas - ou melhor, antes de ir pros EUA - faça uma lista do que você precisa. É tudo muito mais barato, e por isso mesmo é fácil pirar e sair comprando um monte de coisa que você não precisa, não tem espaço pra guardar e se bobear nem dinheiro pra pagar. Porque de 20 em 20 dólares você pode gastar mil, vai por mim.

Visto para o Canadá

Acabamos de voltar dos EUA. Fomos fazer uma visita express à família de Mati e também ver nosso baby amado. Estávamos com os alertas ligados, e em agosto achamos uma passagem da Air Canadá com um preço ok. Como eu já tinha lido em algum lugar que brasileiros com visto de turista (não residente) para os EUA não precisariam mais do visto burocrático canadense, mandei brasa e compramos. 

E é isso mesmo. Desde maio os brasileiros que tem visto válido de turismo para os EUA (B1/B2) não necessitam mais passar pelo processo de visto para o Canadá, que, alias, é bem chatinho. Hoje em dia para essas pessoas só é necessária uma autorização eletrônica, algo como o ESTA dos europeus pra os EUA. Faltando um mês para a viagem resolvi dar andamento no assunto, porque sabia que o processo do eTA (electronic travel authorization) depende de aprovação, e caso o seu eTA seja reprovado você deve comparecer a um consulado e eu não queria passar por perrengues de última hora - tipo esse, contado pela Dri do DriEverywhere

Entrei no site oficial do governo canadense e é tudo bem fácil. Há inclusive uma página explicando em português do Brasil como preencher o formulário, que é em inglês. Você precisa preencher seus dados pessoais, dados do visto americano e dados do passaporte válido. Depois, responder umas perguntinhas de praxe, tipo se você já cometeu crime em algum país, se já teve visto negado por algum país, etc. Nessa hora fiquei meio agoniadinha porque perguntava lá qual a minha ocupação, e tive que colocar desempregada né rs. Mas ok, segui preenchendo tudo corretamente. Alias, acho que isso é muito importante: por mais que dê vontade de dar uma floreada e deixar as coisas mais bonitas, segure a sua onda e fale sempre a verdade nua e crua. No fim, havia um campo para observações, e eu coloquei lá que estaríamos no Canadá somente para conexão. 

Ao final do preenchimento, você é direcionado para uma página onde deverá efetuar o pagamento de 7 dólares canadense. O pagamento pode ser feito com cartão de débito ou crédito. Como eu paguei no crédito, não sei como funciona no débito, mas estava escrito lá visa eletron. Com a confirmação do pagamento, apareceu uma mensagem na tela me pedindo para salvar o recibo, e depois explicando que a minha solicitação seria avaliada em até 72 horas, e então eu receberia um email ou com a aprovação, ou explicando o que fazer em caso de negação. Importante notar que se for negado, não é que você está proibido de entrar no país, mas terá que tirar o visto normal, burocrático, num Consulado ou Embaixada. A real é que menos de 5 minutos depois recebi a aprovação no meu email, super rápido. 

Na hora do embarque em Zurich o comissário da Air Canadá pediu para ver meus documentos, meu visto americano, checou coisas no computador dele e me liberou. Chegando lá, mesma coisa. É muito prático, porque não precisa apresentar papel nenhum, nada, é tudo eletrônico no sistema. Claro que eu tinha na mão o celular com o email enviado pelo sistema de imigração canadense, no qual constava a aprovação do meu eTA e o número dela. Mas não precisei mostrar em momento algum.

Achei super fácil e simples, e me deu um ânimo extra para incluir o Canadá na minha lista de países a visitar. Não que antes eu não tinha vontade, mas me sobrava preguiça, porque o processo de visto lá era chato, caro, e eu conheço pessoas que tiveram o visto negado. Mas agora já fiquei bem animadinha :) Enfim, para quem estiver pensando no assunto, ou vir uma passagem barata pela AirCanadá, fica aí a dica!

Rota: Berna - Domodossola - Locarno

Desde que começamos o nosso mês de férias sabíamos que queríamos passar uns dias no Ticino, a região da Suíça italiana. Seria o único lugar onde passaríamos noites fora de casa. Por lá o clima é sempre mais quente, e tínhamos ouvido dizer que é mais ou menos uma Italia mais organizada, rs. Fomos meio que empurrando a viagem pro fim do mês, porque o clima pro lado de cá estava muito bom. No fim, acertamos em cheio: deixamos o Ticino para a última semana de julho, quando a temperatura aqui despencou e por lá o verão seguia firme e forte. 

Saímos de Berna em direção a Visp, no Valais, debaixo de chuva e com temperatura de 12 graus. O trem passa em Thun, Spiez, e depois atravessa o Lotschberg para chegar no Valais. O Lotschberg é um dos grandes túneis suíços, são mais ou menos 12 minutos para cruzar a base da montanha de mesmo nome, e quando você sai do outro lado, a paisagem é diferente, e as vezes o clima também. Nesse dia, a chuva já tinha ido embora. Em Visp trocamos de trem e partimos rumo à Domodossola, na Italia. A viagem é bem curta, meia hora somente. E depois de passar em mais um túnel, tcharam.... SOL! Pronto, já estava paga a viagem :) 

Domodossola é uma cidade pequena no norte da Italia, já na região do Piemonte, mas beeem próxima da fronteira, e acho que pela proximidade com a Suíça, é bem comum ver bandeiras do país por lá. Saímos da estação central já super animados e fomos andar pelas ruazinhas, e melhor, já com calor, rs. É uma graça de cidade... vimos mercado de rua, gelaterias e o melhor, um baita clima italiano. 
Pracinha fofinha
E ruas com a Igreja ao fundo
Colunas
E italianos vivendo a vida <3

Depois de andar um pouquinho, e babar com essa praça central, resolvemos encontrar um lugar para comer. Temos uma teoria de que é sempre melhor comer fora da praça, rs... e acabamos achando um restaurantinho agradável numa das ruas transversais. Detalhe: entrada, prato principal, café e água por 10 euros. Infelizmente não anotei o nome na hora e acabei esquecendo :(
Saudades Italia
E a vista da nossa mesa :)
Rodamos por ali mais um pouquinho, e realmente, pela cidade não tinha mais o que ver. Imagino eu que quem queira passar mais tempo por lá deve fazer trilhas nas montanhas que as rodeiam. É uma cidade pequenina, mas que vale muito o passeio, só pelo clima italiano envolvido. Ouvir as pessoas falando essa língua tão linda, comer tão bem, e contemplar a paisagem. 



Pegamos então o trem Domodossola - Locarno. Tínhamos ouvido falar que o passeio é super bonito, e por isso escolhemos essa rota (e não o caminho mais rápido para o Ticino, por Zurich e o Gotthard, outro tunelzão). O trem tem vagões normais e outros panorâmicos, e para quem segue no panorâmico e solicitada uma contribuição no valor de 1 euro ou franco. A viagem segue montanha acima, se embrenhando na mata, passando por vilas minúsculas com construções de pedras, vales, rios e cachoeiras. É absurdamente linda. Eu fiquei tão vidrada na janela que quase esqueci de tirar fotos, mas fiz alguns registros bem ruins com o celular rapidinho rs (e alguns stories na época).


Da pra ter uma ideia da beleza do caminho, né?
A chegada em Locarno é o fim da viagem. Estamos no Ticino, com palmeiras, organização e preços suíços, rs. Em breve, mais dessa região maravilhosa por aqui. 

A tal da integração

Outro dia por algum motivo esse artigo apareceu no meu feed do facebook: Expats in Switzerland like the safety but not the locals. Primeiramente vale dizer que o título é meio sensacionalista. Na pesquisa não é que o povo disse que não gosta dos locais, mas há uma alta avaliação de que, no geral, os suíços são reservados, distantes, tradicionais. Enfim, vale a leitura. E aí que a caixa de comentários era um suco de chorume: a suiçada, que claramente bodeou de ler o texto, xingando muito, rebatendo, e quase em unanimidade, repetindo que se você não for escroto, quiser se integrar e aprender a língua, os suíços são muito amigáveis sim. Diante do meu ano de experiência por aqui, acho que tenho algumas considerações sobre o assunto. 
Alguém falou tradição?
Comecemos pela língua. Se você engrenar num papo com qualquer suíço, essa questão de aprender a língua aparece em menos de 5 minutos: você está aprendendo alemão? Pra eles isso é super - SUPER - sério e importante. E eu entendo. Tanto entendo, que foi das primeiras coisas que fiz quando cheguei aqui, me matricular numa escola. Quero ter condições de me comunicar, de conversar, de ler jornal,  instruções, de socializar no lugar onde vim morar. Mas assim, rola toda uma pressão, e acho que falta compreensão. Por exemplo: amigos nossos chegaram aqui junto com a gente, casal com dois filhos, ambos começando emprego novo, cheio de desafios. Aprender alemão não era uma prioridade nos primeiros meses, quando a prioridade era se ajustar, montar um lar, botar as crianças na rotina, se acostumar com o emprego novo. Tiveram problemas com vizinhos, e na hora da lavação de roupa suja, surgiu a pergunta: por que vocês não gostam da gente, por que nunca nos deram a chance? E os vizinhos responderam o que? Isso mesmo. Porque vocês não estão aprendendo alemão. É ou não é um pouco radical?

Além disso, acho que já comentei por aqui, o dialeto local é BEM diferente do alemão tradicional, que se aprende na escola. Eu terminei o nível B1, já me comunico bem em hochdeutsch (o alto alemão) e entendo nada de suíço alemão. Assim, NADA. E pior: muitas vezes, quando começo a falar alto alemão, os suíços preferem falar inglês comigo do que mudar pra alto alemão (que todos falam, pois é o ensinado nas escolas suíças). Contraditório, não? Devo dizer que conforme meu nível está melhorando, isso vem diminuindo. Mas não é um balde de água fria quando você está começando a aprender uma língua, quer praticar, e os locais preferem falar inglês com você? Por quase um ano aqui, foi assim comigo basicamente todos os dias.  

Aí vem a tal da integração. Falar a língua faz parte da integração, mas não é tudo, né... Lembro quando lia blogs de brasileiras emigradas para a Alemanha, vi muitas coisas sobre uns cursos de integração. Uma amiga que mudou para a Holanda também passou por isso. Aula sobre história, costumes, tradições dos países. Mais ou menos um "como somos e porque somos". Quando fui informada de que aqui seria obrigatório passar por uma integração (com a ISA, departamento de integração do governo) fiquei super animada, porque achei que seria algo do tipo. Já comentei sobre a integração aqui e como não foi nada disso. Como foi uma entrevista futricando a minha intimidade, meu casamento, nossa situação financeira, meu nível cultural e educacional, e como mais parecia uma triagem sobre "bons e maus imigrantes". A única coisa em que bateram o pé é que deveríamos estudar alemão. Só isso. Não mencionaram nada sobre programas culturais ou outras coisas que efetivamente poderiam promover nossa integração, nosso contato com a cultura e o povo suíço. Achei uó. 

Alguns meses atrás a escola em que eu estava estudando alemão nos convidou para uma caminhada e picnic. Eu me inscrevi e no dia fiquei surpresa ao chegar no ponto de encontro e descobrir que a caminhada não era organizada pela própria escola, mas sim por quem? Pois é, pela ISA. Agora me digam, senhoras e senhores, por que diabos a fulana que fez a nossa "integração", se tão interessada estava em que a gente se inserisse na cultura local, não nos informou que o órgão promove eventos? Eu participei, ao longo do verão, de três caminhadas organizadas pela ISA. Ontem recebi um email de uma funcionária de lá, que organiza a caminhada, convidando para uma exposição em Zurich mês que vem. Durante esses passeios, nós falamos alemão, os locais que participam nos corrigem, explicam coisas, é super legal. E não me entra na cabeça que eu tenha tido duas reuniões com o escritório de integração, que Mati tenha tido QUATRO (sendo duas delas com um tom elevado de reprovação e ameaça por ele não estar matriculado numa escola de idiomas), e que nunca tenham mencionado essas atividades. Que tenham batido única e exclusivamente na tecla de que temos que frequentar curso de alemão, e que fiquem repetindo over and over perguntas sobre nossa situação econômica. E não foi só a pessoa que nos atendeu que falhou. Conversei com outras quatro pessoas que passaram por esse processo, nenhuma com a mesma oficial que a gente. Nenhuma ouviu falar dessas atividades.

Além disso, como apontado na pesquisa que mencionei no começo do post, os suíços são bem reservados. Eu frequento as aulas de ballet há mais de um ano. Agora que as outras meninas estão começando a se interessar por mim, a fazer perguntas e ser mais amigáveis. Nesse meio tempo, já aconteceu algumas vezes (que eu me lembre bem, três) de eu encontrar algumas delas pela rua, e sequer ser cumprimentada. E gente, eu, qualquer ser humano, ainda mais em situação imigratória, precisamos de amigos, de calor humano, de contato. E aí, quem é que me dá isso? A comunidade internacional, claro. Minhas amigas aqui vem dos EUA, Italia, Canadá, Holanda, Malásia, Colombia, etc. E isso faz com que mais e mais a gente fale outras línguas que não o alemão, que fiquemos "presos" na tal da bolha. Eu sei que em quase lugar nenhum do mundo o povo é arreganhado como nós brasileiros, rs. Mas porra, um ano, se vendo duas vezes por semana, pro povo vir me perguntar o que estou fazendo aqui, pra começar a sorrir pra mim e me cumprimentar? É difícil, né... 

Ou seja, queridos comentaristas suíços de facebook, melhorem. Antes de dar ataque de pelanca na internet, tenham paciência ao encontrar estrangeiros tentando falar alemão, e ao invés de disparar a falar inglês, tentem entender, tentem se lembrar das palavras de vocês, de que "vocês serão amigáveis com aqueles que querem aprender o idioma". Tentem entender também, que mesmo quando a gente tenta muito se integrar, a gente esbarra em várias barreiras. A língua é uma delas. Mas a ineficácia do governo em efetivamente tentar integrar essas pessoas é outra. E a falta de abertura do povo é outra. 

Eu não queria que esse post tivesse um tom raivoso, mas acabou adquirindo, rs. A real é que a inflexibilidade com essa tal de integração é algo que me deixa bem frustrada aqui, simplesmente porque eu, com todo tempo e vontade do mundo, encontro várias dificuldades. Imagina quem tem um trabalho fulltime pra se ocupar? Aí você fica ouvindo tanto sobre se integrar, e fica parecendo que tudo só depende de você, você aí imigrante, é só querer. E não é bem assim. Me considero pouco integrada. Estou começando a falar a língua, conheço pouquíssimos suíços, e as tradições e particularidades culturais do país que conheço, foi por conta das nossas possibilidades financeiras, que nos permitem viajar e frequentar bastante coisa por aqui. Infelizmente, nem todo mundo tem essa oportunidade, mas praticamente todo mundo tem essa pressão sobre os ombros. Algo a se pensar. 

As dores do regresso

Quando voltei do Brasil comentei aqui que teria várias reflexões a fazer, e no fim, fiz foi nada. A real é que mal processei as coisas, e chegou verão, chegaram viagens, visitas, e ficou tudo meio de escanteio dentro da minha cabeça. Mas aí semana passada recebi uma amiga aqui, e papeamos sobre tantos assuntos, que acho que acabei por tabela organizando vários pensamentos. 

Primeiro que me senti um peixe fora d'água em várias conversas lá no Brasil. A vida passou em um ano, e tirando um grupo com quem falo todo dia, acaba rolando um afastamento. As pessoas perguntam, "e aí, como ta a vida lá?" e tipo... aconteceu tanta coisa mas ao mesmo tempo não aconteceu nada, aí fica naquele, "ta bem, tudo indo, silêncio maldito". Porque realmente, eu não tenho aquela GRANDE novidade. Não to grávida, não arrumei um emprego, e as minhas novidades são ~pequenas insignifcâncias~ do dia a dia, como conseguir entender alemão num papo de elevador, ir num bar diferente, comer um doce bom, conhecer alguém de cultura diferente na escola, cair de bicicleta, fazer alguma merda culturalmente não aceita e tomar xingo de alguma velhinha. E essas coisinhas, se você não compartilha na hora, perdem grande parte do impacto, né? E foi assim que eu simplesmente, depois de quase um ano fora, não tinha nada pra contar, e me senti meio sem assunto com várias pessoas. 

Além disso, percebi que não supri a expectativa da galera, rs. Acho que já falei isso por aqui, mas realmente, o povo acha que você mudou pra Suíça e agora vive montada numa nuvem, tocando harpa enquanto toma lambida do seu unicórnio e se alimenta de algodão doce no shape de arco íris. As pessoas realmente acham que a vida na Europa é linda e sem defeito. Mas não colocam nada em perspectiva. Quando eu comento que faço minha própria faxina, que se der qualquer merda, pegar taxi não é uma opção, todo mundo acha que eu estou exagerando. Acho que no fim, esperavam que eu chegasse lá no Brasil falando "é isso mesmo que vocês acham, a vida lá é perfeita, não temos problemas, acordamos e dormirmos gargalhando todos os dias, e quem não se mandou daqui ainda é imbecil". Aí quando eu falava: sim, a vida é boa sim, mas não é esse mar de rosas aí que vocês acham, a reação imediata era já falar em tom quase agressivo: quer voltar então? É quase um reflexo dos tempos difíceis que vivemos, o diálogo é truncado. Lembro de ter falado pra uma amiga que já tinha soltado uma coisa do tipo pra mim e depois estava reclamando das agruras da maternidade, que era a mesma coisa. Que a maternidade tem as coisas boas, as coisas ruins, e ela reclamar não significa que preferia não ter tido o filho, né?

Mas por essas e outras, mais uma vez, me sentia desconectada. Quando eu dizia que nosso padrão de vida diminuiu, o povo falava que não parecia, que eu viajo pra caramba. Eu até rebatia "mas você foi pro Guarujá, você foi pra Campos do Jordão, foi pra Maresias, foi pra Inhotim, foi pro Rio, viajou também, e mantém a sua rotina de gastos". "Ahhh, mas é diferente, são viagens pequenas". É nada cara pálida. A distância entre Berna e Paris é menor que entre a casa dos meus pais e a dos meus avós, ambas dentro do Estado de São Paulo. A diferença é que aqui pra fazer essas viagens eu tenho que abrir mão de confortos, pedalar morro acima pra economizar um dinheirinho, fazer as contas que depois de 20 dias sem pegar busão eu consigo comprar uma passagem pra algum lugar. E no Brasil, a gente simplesmente não da valor pra essas pequenas viagens porque elas estão dentro do país que a gente ama desprezar. E eu era assim também, não nego. Mas agora ainda por cima o povo culpa a Dilma, o Temer, e o capiroto se precisar, mas não reconhece que eu abro mão de muitas coisas por aqui pra ter esses pequenos luxos. Coisas essas que nunca precisei pensar em renunciar em São Paulo. E veja bem, não to aqui querendo parecer coitada, mas somente mostrar que o pessoal acha que a gente vive aqui a mesma vida que a gente vivia lá, só que num tom mais rosa, e como isso vai tornando a conversa mais difícil. No final, estávamos sempre falando do passado, relembrando histórias de anos atrás, enfim, quando todos falávamos a mesma língua. Deixamos essa coisa de presente, tão complicada, pra lá. 

Fora essas questões existenciais, claro que fiquei meio chocada com o trânsito de São Paulo, o preço das coisas, a pressa das pessoas rs. Mas também fiquei aconchegada com a espontaneidade de tudo, em saber onde encontrar tudo que eu queria, em simplesmente encontrar as coisas, me comunicar, entender e ser entendida no meio da rua, enfim, estar em casa. Foi engraçado que nos primeiros dias, eu ouvia as pessoas falando nas mesas dos lados, no metrô, e pensava, ó, tão falando português, rs, do mesmo jeito que penso quando escuto brasileiros aqui pela rua haha. Demorou pro cérebro registrar que sim, to ouvindo português porque estou no Brasil. E demorou mais ainda pro cérebro registrar, e pro coração aceitar, que eu me sentia muito mais em casa na calçada da Paulista, olhando aquele meu povo incrível e desconhecido, do que na sala da casa de amigas.

E no fim, acho que estou começando a aprender que viver fora é isso. É ser incompreendida, e também talvez não compreender mais tanto assim. É ficar por fora das coisas, se sentir desconectada, mas no fim, olhar praquelas pessoas todas, e saber que sou amada. Amada de um jeito estranho, amada com um tom de nostalgia, porque acho que me amam pelo que já fui, sei lá se pelo que agora eu sou. 

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