A tal da integração

Outro dia por algum motivo esse artigo apareceu no meu feed do facebook: Expats in Switzerland like the safety but not the locals. Primeiramente vale dizer que o título é meio sensacionalista. Na pesquisa não é que o povo disse que não gosta dos locais, mas há uma alta avaliação de que, no geral, os suíços são reservados, distantes, tradicionais. Enfim, vale a leitura. E aí que a caixa de comentários era um suco de chorume: a suiçada, que claramente bodeou de ler o texto, xingando muito, rebatendo, e quase em unanimidade, repetindo que se você não for escroto, quiser se integrar e aprender a língua, os suíços são muito amigáveis sim. Diante do meu ano de experiência por aqui, acho que tenho algumas considerações sobre o assunto. 
Alguém falou tradição?
Comecemos pela língua. Se você engrenar num papo com qualquer suíço, essa questão de aprender a língua aparece em menos de 5 minutos: você está aprendendo alemão? Pra eles isso é super - SUPER - sério e importante. E eu entendo. Tanto entendo, que foi das primeiras coisas que fiz quando cheguei aqui, me matricular numa escola. Quero ter condições de me comunicar, de conversar, de ler jornal,  instruções, de socializar no lugar onde vim morar. Mas assim, rola toda uma pressão, e acho que falta compreensão. Por exemplo: amigos nossos chegaram aqui junto com a gente, casal com dois filhos, ambos começando emprego novo, cheio de desafios. Aprender alemão não era uma prioridade nos primeiros meses, quando a prioridade era se ajustar, montar um lar, botar as crianças na rotina, se acostumar com o emprego novo. Tiveram problemas com vizinhos, e na hora da lavação de roupa suja, surgiu a pergunta: por que vocês não gostam da gente, por que nunca nos deram a chance? E os vizinhos responderam o que? Isso mesmo. Porque vocês não estão aprendendo alemão. É ou não é um pouco radical?

Além disso, acho que já comentei por aqui, o dialeto local é BEM diferente do alemão tradicional, que se aprende na escola. Eu terminei o nível B1, já me comunico bem em hochdeutsch (o alto alemão) e entendo nada de suíço alemão. Assim, NADA. E pior: muitas vezes, quando começo a falar alto alemão, os suíços preferem falar inglês comigo do que mudar pra alto alemão (que todos falam, pois é o ensinado nas escolas suíças). Contraditório, não? Devo dizer que conforme meu nível está melhorando, isso vem diminuindo. Mas não é um balde de água fria quando você está começando a aprender uma língua, quer praticar, e os locais preferem falar inglês com você? Por quase um ano aqui, foi assim comigo basicamente todos os dias.  

Aí vem a tal da integração. Falar a língua faz parte da integração, mas não é tudo, né... Lembro quando lia blogs de brasileiras emigradas para a Alemanha, vi muitas coisas sobre uns cursos de integração. Uma amiga que mudou para a Holanda também passou por isso. Aula sobre história, costumes, tradições dos países. Mais ou menos um "como somos e porque somos". Quando fui informada de que aqui seria obrigatório passar por uma integração (com a ISA, departamento de integração do governo) fiquei super animada, porque achei que seria algo do tipo. Já comentei sobre a integração aqui e como não foi nada disso. Como foi uma entrevista futricando a minha intimidade, meu casamento, nossa situação financeira, meu nível cultural e educacional, e como mais parecia uma triagem sobre "bons e maus imigrantes". A única coisa em que bateram o pé é que deveríamos estudar alemão. Só isso. Não mencionaram nada sobre programas culturais ou outras coisas que efetivamente poderiam promover nossa integração, nosso contato com a cultura e o povo suíço. Achei uó. 

Alguns meses atrás a escola em que eu estava estudando alemão nos convidou para uma caminhada e picnic. Eu me inscrevi e no dia fiquei surpresa ao chegar no ponto de encontro e descobrir que a caminhada não era organizada pela própria escola, mas sim por quem? Pois é, pela ISA. Agora me digam, senhoras e senhores, por que diabos a fulana que fez a nossa "integração", se tão interessada estava em que a gente se inserisse na cultura local, não nos informou que o órgão promove eventos? Eu participei, ao longo do verão, de três caminhadas organizadas pela ISA. Ontem recebi um email de uma funcionária de lá, que organiza a caminhada, convidando para uma exposição em Zurich mês que vem. Durante esses passeios, nós falamos alemão, os locais que participam nos corrigem, explicam coisas, é super legal. E não me entra na cabeça que eu tenha tido duas reuniões com o escritório de integração, que Mati tenha tido QUATRO (sendo duas delas com um tom elevado de reprovação e ameaça por ele não estar matriculado numa escola de idiomas), e que nunca tenham mencionado essas atividades. Que tenham batido única e exclusivamente na tecla de que temos que frequentar curso de alemão, e que fiquem repetindo over and over perguntas sobre nossa situação econômica. E não foi só a pessoa que nos atendeu que falhou. Conversei com outras quatro pessoas que passaram por esse processo, nenhuma com a mesma oficial que a gente. Nenhuma ouviu falar dessas atividades.

Além disso, como apontado na pesquisa que mencionei no começo do post, os suíços são bem reservados. Eu frequento as aulas de ballet há mais de um ano. Agora que as outras meninas estão começando a se interessar por mim, a fazer perguntas e ser mais amigáveis. Nesse meio tempo, já aconteceu algumas vezes (que eu me lembre bem, três) de eu encontrar algumas delas pela rua, e sequer ser cumprimentada. E gente, eu, qualquer ser humano, ainda mais em situação imigratória, precisamos de amigos, de calor humano, de contato. E aí, quem é que me dá isso? A comunidade internacional, claro. Minhas amigas aqui vem dos EUA, Italia, Canadá, Holanda, Malásia, Colombia, etc. E isso faz com que mais e mais a gente fale outras línguas que não o alemão, que fiquemos "presos" na tal da bolha. Eu sei que em quase lugar nenhum do mundo o povo é arreganhado como nós brasileiros, rs. Mas porra, um ano, se vendo duas vezes por semana, pro povo vir me perguntar o que estou fazendo aqui, pra começar a sorrir pra mim e me cumprimentar? É difícil, né... 

Ou seja, queridos comentaristas suíços de facebook, melhorem. Antes de dar ataque de pelanca na internet, tenham paciência ao encontrar estrangeiros tentando falar alemão, e ao invés de disparar a falar inglês, tentem entender, tentem se lembrar das palavras de vocês, de que "vocês serão amigáveis com aqueles que querem aprender o idioma". Tentem entender também, que mesmo quando a gente tenta muito se integrar, a gente esbarra em várias barreiras. A língua é uma delas. Mas a ineficácia do governo em efetivamente tentar integrar essas pessoas é outra. E a falta de abertura do povo é outra. 

Eu não queria que esse post tivesse um tom raivoso, mas acabou adquirindo, rs. A real é que a inflexibilidade com essa tal de integração é algo que me deixa bem frustrada aqui, simplesmente porque eu, com todo tempo e vontade do mundo, encontro várias dificuldades. Imagina quem tem um trabalho fulltime pra se ocupar? Aí você fica ouvindo tanto sobre se integrar, e fica parecendo que tudo só depende de você, você aí imigrante, é só querer. E não é bem assim. Me considero pouco integrada. Estou começando a falar a língua, conheço pouquíssimos suíços, e as tradições e particularidades culturais do país que conheço, foi por conta das nossas possibilidades financeiras, que nos permitem viajar e frequentar bastante coisa por aqui. Infelizmente, nem todo mundo tem essa oportunidade, mas praticamente todo mundo tem essa pressão sobre os ombros. Algo a se pensar. 

7 comentários:

  1. Huuuum...tenso isso, né? Mas acho que concordo que estudar a língua seja primordial pra integracao mesmo.. tudo bem os vizinhos se comunicarem com imigrantes em ingles, por exemplo, uma vez ou outra..mas é pedir demais que eles tenham SEMPRE que se comunicar em ingles com o imigrante que mudou pro país deles e nao quis aprender a lingua. Eu nao me aventurei em paises com lingua que nao falo exatamente por isso, nao estou afim de aprender um quarto idioma ainda e nao quero ser o fulano que só fala ingles no pais X.

    Já sobre essa ISA, deviam deixar as coisas mais claras, ne?

    ENfim, boa sorte!! <3

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    1. Olha, eu entendo que é primordial mesmo, mas acho que falta compreensão... Dureza ser hostilizado por vizinhos 6 meses depois de chegar num país porque não se matriculou num curso. Vizinhos esses que ai prefeririam falar inglês do que alemão com você porque vc não sabe dialeto rs (que é o que acontece comigo)... E eles foram assim, hostis, rudes.. e eu acho que falta empatia. Muitas vezes pra quem ta mudando de cidade, mesmo sozinho, vc tem muitas coisas pra lidar. Ainda mais com crianças. E aqui o povo não manera, sabe... Não ignoro que seja importante, tanto que estou aqui, me matando pra aprender, pra me integrar, mas não concordo com a forma das pessoas abordarem o assunto por aqui.

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  2. Gabi, batendo palmas pro seu post!

    Eu li o artigo que você linkou e achei super interessante - me lembrou um outro artigo que li um tempo atrás sobre os países nórdicos e que como os imigrantes acham difícil fazer amizade com os locais. Acho que é parecido na Suíça.

    Muito contraditório exigirem você falar a língua (o que até entendo, concordo), mas falarem inglês porque você não fala o dialeto. Poxa! Sacanagem!

    E as meninas no balé que demoraram um ano pra se interessar por você? Cara, não entendo isso. Mas é o que você falou: povo que abre as pernas, escancara, faz amizade igual brasileiro, mano, não tem. Aqui você conhece um brasileiro e em 10 minutos já sabe tudo da vida do cara, já faz a maior amizade, sabe? Ok, suíços são reservados. Mas poxa, não adianta esperar só dos outros, eles tem que fazer a parte deles também, ter mais empatia, se colocar no lugar do outro. Mas como o povo suíço não é um povo que emigrou, então acho que eles não tem essa cultura de se colocar no lugar do imigrante. Não que os irlandeses sejam maravilhosos em relação à isso, mas pelo menos como tem todo um histórico de saírem do país, acho que a maioria das pessoas é mais aberta aos estrangeiros.

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    1. Eu lembro desse artigo sobre os escandinavos, e relacionei também com o que acontece aqui. O pessoal é muito fechado, acho que ainda o dialeto piora a situação, porque as pessoas querem falar sua própria língua, e demora anos até que um estrangeiro comece a entender suíço alemão.
      E no fim, a impressão que fica é que eles querem simplesmente que a gente demonstre a vontade de aprender, que se matricule no curso, e não necessariamente que a gente fale, rs. Porque é isso que da pra entender do comportamento, sabe: se você não faz alemão, eles reclamam que você não fala, mas se você ta aprendendo, eles nem querem falar hahaha.. ME POUPE.

      E sim, você tem toda razão, o fato dos suíços não terem tradição emigratória deve afetar no fator abertura, ao contrário dos irlandeses. Hoje em dia vou ao ballet e converso com as meninas, quando vejo elas na rua, elas já dão oi, abanam a mão, e tal... Mas assim.. UM ANO DEPOIS. Teve duas vezes que eu fiquei de cara. Uma eu tava no tram, vi a menina, olhei pra ela, ela olhou pra mim, e quando fui dar oi, ela desviou o olhar e começou a ler jornal. Outra vez foi algo semelhante no mercado, 10 minutos depois de sairmos da aula, sabe... pelamordeDeus.

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  3. Oi Gabi! Acho que na verdade é sò uma dificuldade que esse povo tem de reconhecer que nào é acolhedor. Quando alguèm fala mal do fato de europeus em geral serem fechados e pouco acolhedores a moçada cai de pau, falando que vocé precisa primeiro aprender a lingua, se interessar pela cultura, as tradiçàoes e tudo mais e sò entào vocè vai ser aceito. Mas a integraçao nào pode ser feita unilateralmente. é como se vocè precisasse se anular, esquecer sua història e tradiçòes e virar um europeu. Sò que mesmo depois de todo o esforço, se nào for sua carinha tropical, vai ser seu sotaque que vai te entregar. Nunca vai ser o suficiente quando a integraçào nào for um esforço de todas as partes. Quando esse povo realmente reconhecer que o problema nào sào sò os imigrantes, mas a falta de vontade e de interesse deles mesmos, as coisas talvez mudem. Mas o terror que o "diferente" incute nas pessoas sò faz com que esse comportamento fechado aumente e se camufle nessas exigencia absurdas e irreais. Mas admitir racismo, xenofobia e "narrow-mindedness" assim de graça ninguém quer, né? Tà foda...

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  4. Gabi, antes de morar nos Estados Unidos eu morei na França. Duas vezes, inclusive: a primeira durante 6 meses de intercâmbio na graduação e a segunda por um ano e meio num mestrado. A primeira vez foi extremamente decepcionante: não aprendi a falar bem francês (não sabia nada quando cheguei, não fiz amigos, não praticava o pouco que aprendia nas aulas. Resultado: voltei pro Brasil com um francês porco) e não conheci a fundo a cultura pq não conheci a fundo nenhum francês. Foi uma grande frustração, uma das grandes "derrotas" que eu vivi.
    Mas eu sou cabeça-dura, rs. Continuei estudando francês no Brasil sozinha, lendo só em francês, ouvindo música francesa. E quando voltei pro mestrado, 4 anos depois, já conseguia me comunicar direito, fiz amizades na minha classe e rapidinho cheguei num nível excelente (porque depois que vc começa a praticar avança muito rápido). Um dos momentos "redenção" que eu vivi foi quando um ex-colega da época da graduação entrou em contato via facebook: "Oi, tudo bem? Vi que vc está morando em Paris... Vc gostaria de sair para tomar uma cerveja? Sabe, depois que vocês (as brasileiras) foram embora da escola aquele ano, eu fui estudar por 6 meses no Québec e lá eu descobri o que é ser estrangeiro, como é difícil estar em uma cidade onde não se conhece ninguém. E fiquei lembrando daquela época em que estudamos juntos e pensando em como poderíamos ter sido mais legais com vocês"
    Então acho que não é maldade, mas realmente rola uma falta básica de empatia... que não é geral - conheci franceses incríveis e muito abertos - mas é bem comum...
    Força aí pra quebrar a casca desse povo!

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  5. Oi Gabi, muito bom seu post sobre esse tema!
    É complicado mesmo, querer que você se integre (super compreensivel), mas não fazer com que essa integração seja algo fácil, natural, sem aquela pressão toda. É muito dificil começar a vida assim do zero em um novo país, ainda mais não dominando a lingua nativa, tudo leva o seu tempo.. Da mesma forma que vc tem que fazer sua parte de procurar meios de se integrar e aprender a lingua, tb tem que ter um esforço do outro lado, de ter paciencia quando vc fala errado.. de esperar vc arrumar sua vida por aí e tudo mais. É aquela coisa de que tudo seria muito mais facil se um se poe no lugar do outro, né? E tb fiquei de cara aqui com as gurias do balé de demorarem tanto assim pra serem amigaveis e conversar com vc e tals. EU HEIn hahahaha
    Beijos, Gabi :*

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