As dores do regresso

Quando voltei do Brasil comentei aqui que teria várias reflexões a fazer, e no fim, fiz foi nada. A real é que mal processei as coisas, e chegou verão, chegaram viagens, visitas, e ficou tudo meio de escanteio dentro da minha cabeça. Mas aí semana passada recebi uma amiga aqui, e papeamos sobre tantos assuntos, que acho que acabei por tabela organizando vários pensamentos. 

Primeiro que me senti um peixe fora d'água em várias conversas lá no Brasil. A vida passou em um ano, e tirando um grupo com quem falo todo dia, acaba rolando um afastamento. As pessoas perguntam, "e aí, como ta a vida lá?" e tipo... aconteceu tanta coisa mas ao mesmo tempo não aconteceu nada, aí fica naquele, "ta bem, tudo indo, silêncio maldito". Porque realmente, eu não tenho aquela GRANDE novidade. Não to grávida, não arrumei um emprego, e as minhas novidades são ~pequenas insignifcâncias~ do dia a dia, como conseguir entender alemão num papo de elevador, ir num bar diferente, comer um doce bom, conhecer alguém de cultura diferente na escola, cair de bicicleta, fazer alguma merda culturalmente não aceita e tomar xingo de alguma velhinha. E essas coisinhas, se você não compartilha na hora, perdem grande parte do impacto, né? E foi assim que eu simplesmente, depois de quase um ano fora, não tinha nada pra contar, e me senti meio sem assunto com várias pessoas. 

Além disso, percebi que não supri a expectativa da galera, rs. Acho que já falei isso por aqui, mas realmente, o povo acha que você mudou pra Suíça e agora vive montada numa nuvem, tocando harpa enquanto toma lambida do seu unicórnio e se alimenta de algodão doce no shape de arco íris. As pessoas realmente acham que a vida na Europa é linda e sem defeito. Mas não colocam nada em perspectiva. Quando eu comento que faço minha própria faxina, que se der qualquer merda, pegar taxi não é uma opção, todo mundo acha que eu estou exagerando. Acho que no fim, esperavam que eu chegasse lá no Brasil falando "é isso mesmo que vocês acham, a vida lá é perfeita, não temos problemas, acordamos e dormirmos gargalhando todos os dias, e quem não se mandou daqui ainda é imbecil". Aí quando eu falava: sim, a vida é boa sim, mas não é esse mar de rosas aí que vocês acham, a reação imediata era já falar em tom quase agressivo: quer voltar então? É quase um reflexo dos tempos difíceis que vivemos, o diálogo é truncado. Lembro de ter falado pra uma amiga que já tinha soltado uma coisa do tipo pra mim e depois estava reclamando das agruras da maternidade, que era a mesma coisa. Que a maternidade tem as coisas boas, as coisas ruins, e ela reclamar não significa que preferia não ter tido o filho, né?

Mas por essas e outras, mais uma vez, me sentia desconectada. Quando eu dizia que nosso padrão de vida diminuiu, o povo falava que não parecia, que eu viajo pra caramba. Eu até rebatia "mas você foi pro Guarujá, você foi pra Campos do Jordão, foi pra Maresias, foi pra Inhotim, foi pro Rio, viajou também, e mantém a sua rotina de gastos". "Ahhh, mas é diferente, são viagens pequenas". É nada cara pálida. A distância entre Berna e Paris é menor que entre a casa dos meus pais e a dos meus avós, ambas dentro do Estado de São Paulo. A diferença é que aqui pra fazer essas viagens eu tenho que abrir mão de confortos, pedalar morro acima pra economizar um dinheirinho, fazer as contas que depois de 20 dias sem pegar busão eu consigo comprar uma passagem pra algum lugar. E no Brasil, a gente simplesmente não da valor pra essas pequenas viagens porque elas estão dentro do país que a gente ama desprezar. E eu era assim também, não nego. Mas agora ainda por cima o povo culpa a Dilma, o Temer, e o capiroto se precisar, mas não reconhece que eu abro mão de muitas coisas por aqui pra ter esses pequenos luxos. Coisas essas que nunca precisei pensar em renunciar em São Paulo. E veja bem, não to aqui querendo parecer coitada, mas somente mostrar que o pessoal acha que a gente vive aqui a mesma vida que a gente vivia lá, só que num tom mais rosa, e como isso vai tornando a conversa mais difícil. No final, estávamos sempre falando do passado, relembrando histórias de anos atrás, enfim, quando todos falávamos a mesma língua. Deixamos essa coisa de presente, tão complicada, pra lá. 

Fora essas questões existenciais, claro que fiquei meio chocada com o trânsito de São Paulo, o preço das coisas, a pressa das pessoas rs. Mas também fiquei aconchegada com a espontaneidade de tudo, em saber onde encontrar tudo que eu queria, em simplesmente encontrar as coisas, me comunicar, entender e ser entendida no meio da rua, enfim, estar em casa. Foi engraçado que nos primeiros dias, eu ouvia as pessoas falando nas mesas dos lados, no metrô, e pensava, ó, tão falando português, rs, do mesmo jeito que penso quando escuto brasileiros aqui pela rua haha. Demorou pro cérebro registrar que sim, to ouvindo português porque estou no Brasil. E demorou mais ainda pro cérebro registrar, e pro coração aceitar, que eu me sentia muito mais em casa na calçada da Paulista, olhando aquele meu povo incrível e desconhecido, do que na sala da casa de amigas.

E no fim, acho que estou começando a aprender que viver fora é isso. É ser incompreendida, e também talvez não compreender mais tanto assim. É ficar por fora das coisas, se sentir desconectada, mas no fim, olhar praquelas pessoas todas, e saber que sou amada. Amada de um jeito estranho, amada com um tom de nostalgia, porque acho que me amam pelo que já fui, sei lá se pelo que agora eu sou. 

21 comentários:

  1. Gabi, por isso seu blog é um dos meus preferidos. É bem isso mesmo! Não me senti tão afastada assim de algumas pessoas porque a gente mantém um contato próximo - tão próximo que eles já sabem das minhas novidades, de tudo que tá acontecendo, então é como se eu não tivesse saído. Mas com outras pessoas, claro, rola um afastamento. Principalmente dos meus ex-colegas de trabalho da Cultura. A gente saía sempre junto, ria, se divertia, era uma delícia nos intervalos das aulas e tal, mas agora eu vejo que estou mais longe disso porque claro, não tô inserida naquele contexto. Outra coisa é que muitos mudaram de emprego também, então as pessoas naturalmente vão se afastando.

    E sim, essa coisa agressiva do "volta pra cá então" é como você falou, um reflexo da atual situação política brasileira. É chato ouvir esse tipo de comentário, mas relevo porque sei que é complicado. E a questão de ter dinheiro pra viajar... rs. Eu fazia questão de falar pras pessoas quando trabalhava de babá quanto ganhava e quanto gastava, justamente pra mostrar que o meu dinheiro era todo usado pra viajar mesmo. Que ia pra lá e pra cá de bike, comprava produtos baratos no mercado, etc, etc, pra poder viajar de fim de semana. Com isso nunca rolou problema nem estranhamento de família e amigos no Brasil, ufa! rs

    Por mais posts assim, Gabi, você é foda!

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    1. Eu entendo a situação no Brasil, que é complicado, mas não entendo que o povo não saiba conversar. Que ou é "tudo maravilhoso", ou "volta pra cá então pra você ver". Me deixa puta da vida, ainda mais vindo de gente inteligente rs....
      Que bom que gostou do post, eu bem que queria conseguir filosofar mais hahaha.. Mas eu demoro pra conseguir organizar as ideias e os sentimentos, pra conseguir externar de um jeito mais claro, veja só... passaram-se quase 6 meses e só agora consegui escrever sobre isso tudo que ta na minha cabeça há tanto tempo!

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  2. Gabi, você descreve tudo täo bem. eu tenho essa mesma sensaçäo de estar "errada" no tempo. voltar ao brasil ou receber visitas aqui é sempre uma vida paralela. é no presente, mas ficou em algum lugar do passado. é estranho. ao mesmo tempo que é bom. e acho que nunca mais vai deixar de ser assim... e talvez um dia a gente se acostuma.

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    1. Realmente, eu acho que um dia acostuma mesmo. Essa foi minha primeira ida ao Brasil depois de mais tempo longe, nunca tinha ficado tanto tempo, e acho que rola mesmo um choque. Tanto pra mim quanto pros outros.

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  3. Gabi voce fez um otimo resumo do que e viver no exterior, o que e a nossa realidade x a expectativa que a familia e os amigos tem da nossa vida fora. Quando falo que a gente aprende a se virar nos trinta e voce e responsavel por tudo, por que nao tem o severino quebra galho pra te ajudar, quando a gente precisa cortar gastos pra poder bancar viagems rapidas, o povo cai matando em cima com esses comentarios exdruxulos do tipo, "volta entao", "po##a tu e muito negativa", "nao e possivel que NY e ruim assim"....etc...

    Eu moro em NY e quando abordo como e a vida real aqui x o imaginario popular putz o povo pira, eu odeio essa bipolaridade que ta invandindo o mundo, ou e bom ou e ruim, Direta x Esquerda, to certo x tu ta errado....sabe tem tanto tom de cinza entre o branco e o preto, morar fora nao e ruim mas tambem nao e maravilhoso, requer abrir mao da manicure e salao semanal, abrir mao da menina que limpava nossa casa, (no meu caso) me adaptar a realidade de um real state absurdo e abrir mao do sonho "daquela" casa, aprender a lidar com um novo ritmo de vida e na minha opiniao a pior parte aprender uma nova cultura, nao e so falar a lingua, mas prestar atencao as novas regras sociais, a forma de falar, do que falar e como falar, e tao complexo mas ao mesmo tempo interessante e tem momentos que da vontade de ligar o 'darsi' e brasileirar mesmo....rsrsr.

    Enfim acho que toda(o)s nos vivemos esses mesmos sentimentos, com o tempo a gente aprende a lidar com isso tudo de uma forma melhor...
    Bjs

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    1. Sim, essa questão cultural é outra coisa. As pessoas ficam: ai, mas não da pra se virar em inglês? Dá, claro que dá.. mas to aqui pra viver, e não pra me virar. E pra viver, preciso ser socialmente apta, preciso entender o que é importante pras pessoas daqui, etc... E essa parte muitas vezes o povo acha que é fácil. Enfim, eu acho mesmo que com o tempo a gente se acostuma. Mas a primeira volta é um choque, e eu achava que o grande problema pra mim seria o caos, a bagunça, o trânsito, a segurança, etc... E com isso tudo eu me senti em casa. Porém não achei que me sentiria tão outsider justamente com amigos, e foi aí a grande surpresa. Pra próxima visita estarei mais ajustada em termos do que esperar. E é assim que a gente vai se acostumando...
      Beijos!

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  4. amei as reflexões e sua escrita é tão gostosa. parabéns!

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  5. Sabe q vc tocou em dois pontos que sempre percebi: um é que acho que o brasileiro sempre teve essa coisa de sair do país que só se intensificou com a situação atual..mas já estava lá. Outra é que eu acho que isso faz com que vc, que 'conseguiu' sair perca o 'direito' a reclamar. No meu primeiro ano que foi difícil em muitos aspectos (menos, mto menos amigos, outra língua, sozinha e apesar do trabalho muito menos din din sobrando) cada vez que eu compartilhei um problema eu só ouvia 'mas vc está em NY' ou o famigerado 'mas vc ganha em Dólar', ao q eu sempre adicionei 'e também pago aluguel, bem caro, em dólar'.
    Pra mim é ainda a busca de Pasárgada, do fim do arco íris, uma ilusão q muita gente tem. Mas no fim é como vc disse, tem está todo dia ainda que distante participa, quem não está acaba ficando meio pra trás..e pensando também, acho que tem sido assim desde que saímos da terra do nunca, o mundo muda e algumas pessoas já não fazem mais parte dele..e assim iremos evoluindo.

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    1. Sim, tem a questão do reclamar, e tem a questão da gente ter que ficar suprindo a expectativa dos outros do que é morar fora... Sei bem o que você passou. E é isso, a gente fica lá, no grupo, fofocando o dia inteiro, e apesar de longe, nunca sentimos a distância, vocês acompanham tudo, mas com quase ninguém é assim, então vai ficando mais difícil mesmo...

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  6. Falou tudo, Gabi!
    Cada vez mais me sinto um peixe fora d'água quando vou ao Brasil. Claro que com algumas poucas pessoas consigo conversar, mas a maioria só acha muito "chique" morar nas zoropa, que eu escapei do Brasil, que eu tirei a sorte grande em conhecer um "gringo". Se tem uma coisa que eu odeio é quando as pessoas falam do Rudy como "gringo" e esquecem que eu estamos juntos por muitos motivos e não porque ele é europeu.
    É muito bom poder dividir nossas experiências e saber que alguém que eu nem conheço pessoalmente me entende mais que pessoas que conviveram comigo por tanto tempo. Beijão, Gabi! :*

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    1. Nossa Carol, você tocou em outro ponto: o "gringo". Me incomoda muito a forma como falam de Mateus.
      E realmente, por essas e outras que eu gosto de dividir as coisas aqui, ler outros blogs, porque a gente acaba encontrando pessoas que nos entendem <3 Beijão!

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  7. Adoro tanto seus textos, Gabi! Você consegue elaborar muito bem certos assuntos e me identifico muito também. Nesses tempos de Irlanda só voltei uma vez ao Brasil e também fiquei sentindo aquele negócio esquisito, sabe? Se bem que não passei por algumas situações que você mencionou no texto.. e as pessoas do meu ciclo social e quem me conhece bem sabem que nao vivo vida de luxo no exterior, então foi um alivio não ter que ouvir certas coisas. Mas pra quem só sabe da ''superficie'' percebi aqueles olhares e certas piadinhas de que nossa.. tá bem de vida lá na Irlanda, né? Parece até que se você se muda pra Europa, automaticamente vai acordar em berço de ouro, socorro hahaha

    Beijos <3

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    1. Sabe que meus amigos também sabem que não vivo uma vida de luxo, mas a maioria (principalmente quem nunca morou fora) pensa que a vida que vivemos aqui é a mesma que vivíamos no Brasil. Inclusive, sequer percebem que ter faxineira, empregada todo dia, pegar taxi quando quiser, sair pra jantar fora 2, 3 vezes por semana, coisas tão normais em SP, no Brasil, são luxos. E aí, quando eu vou falando que as coisas não são exatamente assim fora, acho que eu quebro um cristal dentro da pessoa, rs... e ai elas preferem achar que eu que to errada, to exagerando, porque é muito melhor acreditar que há um lugar onde a vida é rosa. Enfim, é uma coisa complicada.

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  8. Amei muito o seu texto, Gabi. Me identifico muito com ele, com a diferença de que já voltei várias vezes para o Brasil desde que moro fora e agora não assusto mais: sei o que as pessoas esperam ouvir e o que verei por lá também. Quando vc diz de pensar "olha, estão falando português" é muito comum comigo também. Engraçado que a gente demora a "pegar no tranco" e eu já até falei em inglês com garçom no Brasil por puro hábito. Aff! hahaha Espero que colha boas experiências disso tudo. Beijo grande

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    1. Realmente, Poli, você tem mais tempo de estrada do que eu, e vai acostumando. Eu acho que acostumarei também! A primeira volta é bem chocante, né... A gente fica pensando, nossa, nem faz tanto tempo, mas tanta coisa mudou. Sobre isso da língua, eu demorei uma semana pra achar normal gente falando português perto de mim hahaha.. Beijos!

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  9. É assim mesmo. Toda vez que vou, é a mesma história. O povo falha em entender perspectiva. Sem contar que sinto que nmg se interessa em saber mesmo como anda a vida do lado de cá...sempre tenho que escutar tudo de todo mundo, mas poucos param e me perguntam sobre mim - pq já assumem que esta tudo lindo pq estou 'na Europa'.

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    1. Adorei que todo mundo aqui adicionou um ponto novo que eu não tinha pensado, mas fato é que um monte de gente não pergunta como vc está, só quer falar de si, porque assume mesmo que a vida é linda e ryca de instagram!

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    2. Minha experiência foi exatamente essa! É todo mundo tão auto-centrado que muitos nem se interessam em perguntar sobre a experiência de viver em outro país. Eu já desconfiava disso pq a maioria das pessoas que eu conheço na vida real nem sequer lêem meu blog. Como eu sempre fui de escutar mais do que falar, acabou que ficou tudo na mesma.

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  10. Gabi, que saudade de ler seu blog!!! Resolvi aparecer aqui pra ver as novidades.
    Ai, a velha história das pessoas acharem que a vida se torna muito mais excitante e interessante morando na Europa...acham que lá não há problemas, que tudo é lindo, e nem fazem ideia que pra um imigrante se adaptar à língua, costumes e rotina diferentes é sim motivo de as vezes se sentir triste ou frustrada e de reclamar de vez em quando...
    O jeito é saber balancear a saudade, os perrengues com o que a Suiça tem de bom pra oferecer. E acho que vc tá lidando bem com isso, né?
    Beijo!

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    1. Obrigada pela visita, Ana!
      É isso mesmo, o povo esquece que vida é vida em qualquer lugar: que tem dias chatos, que tem dor de barriga, que tem as mesmas coisas cotidianas que em qualquer outro lugar, mas com o agravante que vc tem que lidar com elas em outra língua, etc...
      Eu me viro bem, diria que cada dia melhor rs...

      Beijo!

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