Sexta em Moscou

Ao acordar para o nosso efetivo primeiro dia inteiro em Moscou, dei de cara com uma paisagem toda branquinha. Pois é, começou a nevar bastante na cidade, e quer saber... eu gostei! O frio não estava implacável - girando na casa dos 0, -1 - e Moscou no inverno eu espero toda nevada mesmo. Então não achei ruim. Me empacotei de roupa, e saímos felizes.

Cook'Kareku
Começamos nosso dia numa casa de brunch que oferece simplesmente opções de café da manhã do mundo quase inteiro. É possível comer café mexicano, americano, vietnamita, sulafricano, e o que mais você quiser. Claro que é possível comer o típico café da manhã russo também. Mas confesso que depois de 18 dias na Tailândia, eu estava querendo uma comidinha conforto, e fui de americanisses rs. 

Praça Vermelha
Finalmente, nos dirigimos para o cenários dos sonhos russos rs. Eu estava ansiosíssima para esse momento, e ele foi tão glorioso quanto eu achei que seria. Botar os olhos na Catedral de São Basílio me fez dar uma pensada na vida... Em tudo que eu já sonhei em conhecer, e o tanto que me senti grata por estar ali. A Praça Vermelha não é só um desbunde de linda, como é também cheia de história. O Memorial de Lenin, as estátuas, construções, tudo. Eu nem sabia por onde começar... O Memorial de Lenin, onde seu corpo embalsamado pode ser visitado, só abre em alguns dias e horas específicos, e na sexta-feira é fechado, então resolvemos ir diretamente pra igreja.

Um overview da Praça Vermelha

Onde Lenin descansa
Para entrar na Catedral custa 500 rublos (em torno de R$30 reais), e é possível visitar todas as salas. O que me chamou muita atenção é que não há um salão grande, principal, como normalmente há nas igrejas católicas romanas. São vários pequenos salões, nenhum muito amplo, e acho que nessa acaba faltando uma cena de impacto lá dentro. Mas de forma alguma se pode negar que ela é linda... As paredes são todas pintadas de padronagens maravilhosas, e há muitas explicações sobre os significados, vídeos sobre a expansão da igreja e da praça, é muito interessante. Ela é bem menor do que parece em fotos, mas ainda assim, passamos coisa de uma hora lá dentro, e demos sorte ainda de assistir um coral ortodoxo se apresentando numa das salas.

Duas das torres, vistas por dentro

E as paredes mais lindas que já vi
Quando saímos da Catedral, nossa intenção era ir para o Kremlim, logo ao lado, mas a fila para comprar o ticket estava imensa. Nós chegamos em Moscou nos dias que antecedem o Natal Cristão Ortodoxo, religião oficial russa, e por isso, é feriado. E eu achava que Moscou estaria mais vazia por isso... ledo engano. De fato, os moradores de Moscou viajam de férias (eu poderia dizer que vão tudo pra Phuket, porque só tinha russo lá rs), mas os moradores do interior, da Sibéria, e outras partes, gostam de passar os feriados na capital. Moral da história: o Centro de Moscou estava bombando rs.

Mural do Kobra
Eu queria muito ver esse mural do Kobra, muralista brasileiro pop rs. E então resolvemos ir caminhando pelas ruas de Moscou, vendo os entornos, para chegar nele. Passamos em frente ao Bolshoi, e eu lamentei muito não ter programado para ver um espetáculo. Vai ficar pra próxima :( Seguimos andando por ruazinhas, e eu cada vez mais achando Moscou muito morável, sabe... Coisa que eu jamais imaginava. É tão charmosa que da mesmo vontade de morar. Até que chegamos no espaço dedicado a Maya Plisetskaya, um dos grandes ícones do ballet russo. Ela foi a "prima balerina absoluto" no Bolshoi em 1960, e no moral retrata um dos momentos solos no 4o ato do Lago dos Cisnes. Maya foi uma das poucas personalidades retratadas pelo Kobra ainda em vida. Ali na praça há também uma escultura dela. Mas a verdade é que eu morro de orgulho quando do de cara com uma arte brasileira pelo mundo... Não só brasileira, mas paulistana. Eu morava em Pinheiros, bairro todo "decorado" pelo Kobra, e me dá uma nostalgia, um sentimento bom, e acima de tudo, um orgulho imenso de ver ele pelo mundo.
<3

Café Pushkin
Seguimos do Kobra para esse restaurante que é muito tradicional e phyno rs. Infelizmente não tirei fotos, mas roubei duas do site deles para ilustrar que vale muito a visita (e vale também tentar fazer reserva, porque é bem cheio. No verão tente sentar na varanda, no inverno, peça uma mesa na biblioteca). O Café Pushkin serve comida tradicional russa, num ambiente lindo, parece coisa de filme antigo, sabe? Eu fiquei me imaginando saindo toda bem vestida do Bolshoi e indo lá na sequência jantar com os amigos das artes hahaha.. olha as viagens... Mas é isso. Lugar bom é aquele que te transporta, que te faz viajar no tempo e na maioneses hahaha.. e isso o Café Pushkin fez com louvor. Pedimos várias coisas, como pelimenis, sopas, peixes, vodka e fomos todos dividindo, provando de tudo um pouco. Eu estava esperando uma conta bem salgada, porque o lugar é FINO, sabe?! Mas no fim, a conta saiu em torno de 150 reais por casal. Se você pensar que Moscou é uma cidade cara, isso num restaurante bacanudo, não é muito não. Pense numa casa chique em SP, e quanto você deixaria por lá... Enfim, recomendo MUITO.
Pelimenis <3
E as mesas na Biblioteca, ambiente maravilhoso!
Sauna Russa (ou Banya para os mais íntimos rs)
Os russos levam a sauna muito a sério rs... O pessoal gosta muito, e entende que o processo faz muito bem pra saúde, com benefícios para a pele, circulação, respiração, etc. Há saunas públicas e privadas por toda a Rússia, e é um costume de todas as classes. E por que não, né? Nós fomos pra casa dos pais da minha "cunhada" (porque esposa do primo-irmão é cunhada, né?!) e lá me explicaram direito como funcionava. Você pode fazer sauna em grupos só de mulheres, ou só de homens, ou tudo junto e misturado, pelado, com roupa, como preferirem rs. Nós fomos tudo junto de biquini mesmo. Você fica lá cozinhando por um bom tempo, com as temperaturas podendo chegar aos 90 graus. Nós não fomos tão longe, e ficamos em torno dos 60, que já dá um belíssimo suador. Pra seguir a tradição deve-se usar um chapeuzinho de feltro pra proteger a cabeça da quentura. Quando estiver bem cozinhadinha, alguém pega uns ramos secos de eucalipto, e começa a "bateção". Basicamente uma pessoa bate na outra com os ramos, membros, torax, cabeça, num ritual que visa melhorar a circulação e a pele. Depois da bateção, vem o ápice: você pode simplesmente jogar um balde de água gelada na cabeça, ou melhor ainda, se jogar na neve. Foi o que fizemos... De biquini, pelado, como estiver, você vai lá e se joga, rola na neve, porque o seu corpo está tão quente, que você nem sente, é MARAVILHOSO. Aqui um vídeo meio tosquinho ilustrando melhor o processo:

Baladinha
Depois de umas vodkas pra aliviar a quentura/gelo da sauna, nós resolvemos que pra fechar esse dia incrível, e comemorar a reunião familiar, deveríamos pegar uma baladinha. Fomos num lugar chamado Mendeleev, que fica no subsolo de um takeway de noodles rs. Fazia muito tempo que eu não passava por um face control haha.. mas como eu disse no outro post, a Russia é lugar de montação e carão, e nós definitivamente não estávamos vestidos de acordo. Mas de qualquer forma, entramos. Tomamos uns bonsdrinks, dançamos, fizemos um bom people watching, e quando passava das duas da manhã, o corpo acusou o golpe. Era hora de ir dormir.
Mas antes passamos pra dar uma olhadinha nessa belezura a noite :)

De volta pra escola

Em julho do ano passado, quando descobri que o tal do visto L que eu tinha (e com o qual é muito difícil trabalhar) seria renovado para mais 12 meses, minha reação inicial foi chorar e xingar. Muito. Porque eu sou assim... Quando a bomba cai, eu preciso primeiro desopilar, pra depois botar a mão na massa. E passado o primeiro choque, eu pensei... ok, o que eu vou fazer com todo esse tempo que eu tenho? Porque uma das coisas que estava me agoniando era o fato de ter um gap grande no currículo, e como isso afetaria a minha futura recolocação no mercado. 

Uns tempos atrás eu fui conversar com a Rh do trabalho do Mati, e pedir a ela dicas de como deixar meu cv um pouco mais "suíço". Uma das coisas que me incomodou muito foi a reação dela aos nomes do meu cv. Minha faculdade, as empresas em que trabalhei, esses nomes significavam NADA pra ela, e nem despertaram curiosidade. E no fim do dia, ela é uma profissional de rh, é uma suíça com experiência internacional, e eu me liguei que a reação dela reflete a reação que meu cv teria no mercado por aí. Resolvi que além das aulas de alemão, precisava usar meu tempo para algo a mais. Precisava de um nome suíço no meu currículo, uma universidade. 

Comecei a pesquisar vários cursos - a maioria dissociados do direito, pois acho que já comentei aqui que tenho interesse em abrir os horizontes - e encontrei algumas coisas. O grande empecilho era (e segue sendo) o financeiro. A educação superior aqui na Suíça pode ser bem cara. Se você vai fazer um mestrado acadêmico, é beeem mais em conta. Mas eu estava procurando educação executiva, e aí o céu é o limite. Acabei encontrando um programa interessante na Universidade de St. Gallen, a mais bem conceituada business school da suíça, e uma das grandes da Europa. E o que eu estou estudando?

Estou fazendo um CAS (Certificate of Advanced Studies) em General Management, que é mais ou menos como uma pós graduação. As aulas do CAS normalmente são módulos de um MBA. Em algumas escolas você pode ir fazendo os diferentes CAS e no futuro transformar num DAS (Diploma of Advanced Studies), ou ainda num MBA. No caso de St. Gallen, o MBA tem requerimentos mais específicos, então eu não poderei transformar esse meu CAS num MBA, mas posso sim no futuro fazer mais módulos e transforma-lo num DAS, que é a minha idéia. Meu curso abrange tópicos gerais de administração, como finanças, marketing, rh, planejamento estratégico, etc. É bem o que eu queria, para ir dando uma aprofundada nos meus conhecimentos fora do jurídico. 

Um outro ponto interessantíssimo, é que o grupo em que estou é voltado para mulheres que querem se reinserir no mercado de trabalho. Então além das aulas, eles oferecem coaching, e tem parcerias com empresas para garantir um networking, tão importante aqui na Suíça (há um dado de que 75% das vagas não são postadas, e preenchidas na base do networking. Ou seja... é fundamental conhecer gente). Pra facilitar, a maioria das aulas não é no campus da universidade, mas sim dentro de empresas, que contribuem com palestras, painéis e petit comites.

As aulas começaram essa semana, e eu passei dois dias em Basel, tendo aulas no campus da Novartis. Foi um belíssimo começo, conhecendo mulheres super interessantes, e principalmente, cheio de conhecimento. O módulo inicial foi sobre administração estratégica, e o professor era muito bom. Meu cérebro parecia um balão enchendo rs... fiquei muito feliz de sentir a cabeça trabalhando e também de ver algo maior tomando forma dentro de mim. Acho que estou encontrando meu caminho.

Moscou - A chegada

Meus posts sobre Moscou estão empacados desde janeiro, e eu acho que está difícil pra eu contar sobre a cidade porque a nossa estada lá fui muito curta, porém muito impactante. Fizemos muitas coisas em pouco tempo, e acima de tudo, fomos MUITO surpreendidos. Eu imaginava Moscou uma cidade cinza, meio sombria, meio feia, suja, certamente caótica. E o que eu encontrei lá foi um belo tapa na minha cara. Moscou é linda!

Depois de tanto quebrar a cabeça pra pensar em como contar tudo que fizemos por lá, resolvi que valia a pena dividir por dia. Fizemos coisas suficientes pra encher três posts ;)

Depois de nove horas de voo saindo de Bangkok, chegamos no aeroporto de Sheremetyevo, e meu primo, que é casado com uma russa e visita o país com frequência, já tinha me alertado que a gente precisava ser duro na queda, porque ali o golpe é certo rs. De Sheremetyevo é possível pegar um trem até uma estação central, e então trocar pra metrô. Acho que com acesso a internet, paciência e tempo, é possível. A gente estava bem cansado, e queria "chegar" logo. Optamos por taxi. Meu primo disse que a nossa corrida não deveria dar mais que 1800 rublos (divide por 17 e dá o valor em reais). Devo dizer que a primeira oferta de taxi queria cobrar 7500 !!!!!! Sério gente... é FODA. Eu fiquei bastante frustrada, porque estava exausta, estava frio (e eu vindo da Tailandia), e nenhum taxista queria ligar taxímetro. E muita gente rodeando, um caos. Isso estava acontecendo pra provar meu preconceito de que estávamos adentrando um território de bagunça, rs. Depois de muita negociação, encheção e frustração, cedemos e combinamos um taxi a 2400. Fica aí essa dica... Seja firme na negociação, tenha paciência e força, rs.

No caminho para a cidade, comecei a perceber as grandes lojas, grandes marcas, todas com seus nomes em cirílico: Leroy Merlin, Burger King, McDonalds, etc. O bom humor foi voltando ao meu sistema, e chegamos no nosso hotel, um Ibis na praça Kyevskaya. Meu primo já estava esperando a gente, e saímos rapidinho pra conhecer a cidade. Passando de carro eu já percebi que Moscou não era bem a zona que eu imaginava: avenidas largas, limpas, prédios históricos e edifícios modernos se misturando, uma empolgação crescendo dentro de mim.
Sim, sim claro...
Nossa primeira parada foi a Arbat, a principal rua turística de Moscou. É tipo um boulevard, fechado somente para pedestres, cheios de lojas de souvenir, artistas de rua. Por ali tem também várias redes, inclusive um Shake Shack hahaha. Ficamos passeando, olhando as lojinhas, e curtindo um clima Natalino (!!!). Chegamos em Moscou na quinta-feira que antecede o Natal ortodoxo, e a cidade estava toda no clima, bem delicinha.

Os contrastes de Moscou
De lá seguimos para um dos famosos rooftops de Moscou, o White Rabbit. Ele fica no topo de um edifício comercial, no centro de Moscou. A ideia era tomar uns drinks e apreciar a vista, que é belíssima. Uma das iguarias típicas de Moscou é o caviar, e ali resolvemos iniciar os trabalhos, rs: comemos um blini de caviar. O blini é tipo um crepezinho típico russo, e estava bem gostoso. Pra beber: shot de vodka, claro. O ambiente era todo chic, e eu percebi que não tenho roupa pra frequentar a Rússia hahaha. A mulherada é absurdamente produzida, maquiada, chic de doer, e os garçons e hostess realmente de medem de cima abaixo.

Fomos dormir passando das duas horas da manhã, e eu estava muito, muuuito feliz de estar em Moscou, de estar com meu primo. Foi um dia de reunião familiar, e de celebração. Moscou já estava ganhando meu coração <3

* as fotos desse post são poucas e umas belas porcarias rs... mas é que estava de noite, cansados, somente com o celular, e eu doida pra botar a conversa em dia com a meu primo, mal lembrei de fotografar, sorry. Prometo melhores para os próximos posts.

Machismo nosso de cada dia

Estou no nível B2 de alemão, e nesse nível o normal das aulas é ter discussões. Estamos aprendendo a montar frases mais elaboradas, longas, usar conectores, etc, e pra isso, o material é meio que todo propondo discussões sobre os mais diversos temas. Já tivemos aula falando sobre padrão de beleza, sobre mercado de trabalho, sobre questões suíças, entre outras coisas, tudo que leva a colocações como "eu acho que, eu penso que, na minha opinião, discordo porque, etc". E é claro que nessas conversas sempre surgem as mais diversas opiniões, alguns confrontos, tudo normal. Somos uma turma bem diversa - eu brasileira, uma polonesa, uma macedônia criada na Itália, um mexicano, um sírio e uma síria, uma bósnia, um italiano, uma chinesa, uma americana, uma albanesa, um romeno e uma paraguaia - e é claro que essa variedade de culturas, de educação, de contexto histórico rende boas conversas. Masssss... sempre tem o MAS. E é do MAS que eu vim falar aqui hoje. 

Tivemos uma lição há algumas semanas que falava sobre o padrão de beleza. O tema era "die Normalenfrauen", que numa tradução livre significa "mulheres reais de Dove" haha. Antes de mandar o real significado da coisa, a professora se dirigiu aos quatro rapazes da sala e perguntou: o que são mulheres normais? Porque sim, antes de mais nada, o "real" da Dove, em alemão é dito "normal". Aí o romeno falou: mulheres femininas. Rolling eyes. Aí o italiano resolveu tomar a palavra e palestrar sobre como "mulheres normais são aquelas que se vestem com saias, vestidos, que usam maquiagem, que gostam de ser mulheres". Sério, gente... SÉRIO. Como eu já sou meio conhecida na sala por ser meio bocuda, rs, achei por bem só fazer cara de paisagem e deixar a discussão pra quem tem estômago. Ou seja, ninguém hahaha. Menção honrosa vai para o colega mexicano, que olhou pra ele e fez aquele sinalzinho com a mão, tipo, para
Exatamente assim
Alguns dias depois estamos lá, vendo um videozinho, que falava sobre zumba. Ai a professora pergunta por que não há quase homens fazendo zumba, porque o público esmagador das aulas são mulheres, sendo que é tão divertido, alto astral, etc. Nosso querido Matteo (irei chamar nosso italiano de Matteo, ta?!) pede licença pra vomitar fala: porque não é coisa de homem, é pra mulher. Aqui devo fazer uma inserção de que a professora é uma senhora muito da porreta, cheia de opinião e tal, e que eu já percebi que é chegada em fazer o circo pegar fogo rs. Ela, ao me ver com a cara contorcida, resolveu pedir minha opinião. E eu, honestamente, não estava afim... 

Pior: ele e o romeno começaram a fazer graça e a dizer que na zumba, o homem só assiste. E ficaram nessa, fazendo piadinha de "mulheres gostosas". Nesse dia cheguei em casa descaralhada da cabeça. Eu não concordo, eu não passo pano, mas eu ~entendo~, com muitas ressalvas, que o romeno fale umas merdas. Ele é mais velho, trabalha em construção, e a gente sabe que não é um campo onde exatamente os homens são feministos, né. E embora ele também fale merda, é sempre mais contido nas suas colocações. Mas não consigo dar respiro pro Matteo rs. Não mesmo. O cara tem 29 anos, nascido e criando no centro da Europa, num país dito desenvolvido, frequentou universidade, já era pra estar mais esperto. E embora eu saiba que a Itália é sim um país machista, eu tinha a doce ilusão de que as gerações mais jovens tivessem mais noção. Porque é isso, falta noção. Numa sala com nove mulheres, o cara tem nem vergonha de ser absurdamente machista. Alias, digo que nem percebe que é. 

Aí há uns dias aconteceu um caso trágico em Zurich. Um italiano matou a sua esposa e em seguida se matou. Alguns jornais disseram que ele estava em depressão, desempregado, e não aceitava que a mulher fosse mais bem sucedida que ele. Enfim, uma merda e tals. Não sei do que estávamos falando em aula, quando a professora trouxe esse caso pra roda. E então, afirmou: isso tem acontecido tanto, cada vez mais, sempre o homem matando a mulher. Se virou então aos homens da sala e perguntou: por que?

E é CLARO que nosso amigo Matteo tinha que relinchar opinar. "Eu acho que isso é coisa da mídia. Morrem tantos homens quanto mulheres, mas a imprensa somente noticia os casos de morte das mulheres". A perplexidade foi tanta, que o sírio mandou em inglês mesmo: man, you are so wrong, that's so fucked up. HAHAHA. Eu tive que rir, porque a gente acha que no oriente médio que reina o machismo, e me vem o sírio, e resume bem resumidinho em uma frase o rebosteio. Ninguém falou nada, a cara da sala inteira estava meio que assim...

A professora então perguntou se alguém queria opinar, e depois de tanto fazer a phyna, eu achei que tava na hora de honrar minha fama de bocuda rs. "Então, né.. realmente muitos homens morrem todos os dias. Por causa de acidente de trânsito, de tráfico de drogas, de briga de bar. Agora eu gostaria que você me falasse UM caso em que a mulher assassinou o marido porque ele tinha mais sucesso que ela. Você consegue?" Claro que Matteo nessa hora tava com cara de cu. "Não. E alias, praticamente todos os maridos ganham mais, tem mais reconhecimento que a mulher, né... Mas você conhece algum caso de mulher matando homem porque não concordou com o fim do relacionamento? Porque acha que o homem é propriedade dela?" Ai ele.. "não, mas eu estou falando de morte no geral".  - Entendi... Na hora que interessa você não entende alemão, né? 

*CLIMÃO*

Enfim... essa semana teve dia 8 de março, Dia Internacional das Mulheres. A professora perguntou pra todo mundo como é celebrado o dia da mulher no nosso país, e deixou a parte da Italia pra outra italiana da sala, rs. E é esse o tal do MASSS que eu queria comentar. Esse debate multi cultural pode ser muito legal. Mas quando se trata de machismo, ter esse tanto de gente diferente na sala de aula só me mostra que mulher é menos em qualquer canto do mundo. Que no fim, a gente vai ser ofendida, diminuída, onde for. Que o caminho é longo, que a luta não tem fim, e que a gente tem que aprender a falar "VAI SE FUDER" em tudo que é língua pra sobreviver nesse mundo. 

Sleding em Bussalp

Grindelwald bem linda
Sábado eu e umas amigas pegamos o trem em Berna e seguimos rumo às montanhas. Trocamos de trem em Interlaken, e no fim, chegamos ao nosso destino, Grindelwald. É uma das charmosas vilas alpinas suíças, e das mais famosas: Grindelwald fica na região de Jungfrau, e quem sobe no Topo da Europa acaba passando por lá. É também a base de várias estações de esqui, como Wengen e First. Então, nessa época do ano, por lá é só badalo. Mas a gente não foi esquiar, e dessa vez o plano era descer a maior pista de sled da Europa. E como eu nem sabia o que era sled até me mudar de mala e cuia pra esse país, esclareço que nada mais é que descer a montanha num trenózinho rs. 

Chegamos em Grindelwald e algumas das meninas não estavam com roupas apropriadas pra rolar se divertir na neve. Então fomos numa loja logo em frente a estação alugar, e depois pegamos o ônibus em direção a Bussalp. Foi nessa hora, inclusive, que começou a nevar BEM. Com o ônibus você sobe a montanha até o ponto final, onde é possível alugar os sleds. Para os mais animados, de lá é possível fazer uma caminhada de 2h até o topo da montanha, e aí siiim você desce a pista mais longa completa. Mas a gente já estava tomando um vinhozinho, rs, e ficamos na preguiça. Decidimos descer ali de Bussalp mesmo. Mas antes, porque não fazer snowtubing? Lá é possível pegar boias de graça e subir a pé um pouquinho, e depois escorregar, tipo tobogã de parque aquático, só que na neve haha.. Foi muito divertido. 
Subindo
Fazendo tipo rs
E descendo
Depois pegamos nosso trenó e aí sim começou a brincadeira. A partir de Bussalp o trajeto é de 8 km montanha abaixo, mas confesso que eu nem vi passar, de tão divertido e rápido que foi hahaha. Basicamente você controla o troço com o pé, brecando e forçando as curvas. Agora imagine que você faz isso numa estrada por onde sobem os ônibus, aqueles mesmo em que você subiu rs... Aí de repente você ta a milhão na garupa do trenó e escuta uma sirene e tcharam: é o ônibus. Quem tem controle para. Eu no caso me joguei no meio do mato. Outra coisa legal é que no meio do caminho tem vários huts com música, vinhozinho, agitação. Da pra ir parando de cabana em cabana e se divertindo. A gente se acabou! Agora o melhor mesmo é a paisagem. Você está lá, cara a cara com uma natureza maravilhosa. A gente deu muita sorte, estava nevando muito, e embora a visibilidade não estivesse das melhores, estava tudo lindo de doer.  

Tem que tomar um negocinho pra esquentar e dar coragem rs
Mas aí a gente desce...
E essas paisagens? Uma cachoeira congelada...


E a chegada
Você acaba voltando todo o trajeto até Grindelwald de trenó. E foi assim que umas duas horas depois a gente chegou no ponto de onde partimos haha. Fomos então procurar um lugar pra comer um fondue e encerrar o dia maravilhoso. Foi tudo tão legal, tão divertido, que eu fiquei na loucura de repetir, e acho que irei com Mati esse próximo fim de semana. Importante aproveitar antes que a temporada acabe, né?
Aproveitar essa paisagem enquanto dá <3
Informações importantes:
- o valor do trem até Grindelwald vai depender do seu ponto de partida. Aqui de Berna saí 40 francos por trecho, e demora uma hora e meia. Quem tem halbtax, como eu, paga meia. Quem tem o SwissPass, ta incluso. Uma vez fomos para lá com amigos, acabamos indo de carro, pois valia mais a pena. Tem bastante estacionamento na cidade; 
- o ônibus pra Bussalp custa 24 francos e é privado, e por isso não entra no SwissPass. Mas quem tem SwissPass ou halbtax paga meia, 12 francos. O legal é que uma vez que você paga, você pode subir quantas vezes quiser, e desejando, passar o dia inteiro descendo morro abaixo de trenó; 
- tem que ir vestido como se fosse esquiar, com roupa impermeável e quentinha. Recomendo também capacete e máscara. O capacete por razões óbvias (você está descendo uma montanha sobre duas lâminas rs), mas a máscara porque voa neve na sua cara. Óculos de sol já ajuda. Sapato tem que ser impermeável. Eu, bem desavisada, ia de Ugg Boots. Ainda bem que Mati me alertou que seria o último passeio delas, e que elas iam morrer depois hahaha.. Você usa o sapato pra brecar, então chafurda o pé na neve. Sapato impermeável, period. 
- o aluguel do trenó para o dia inteiro custa 14 francos, você aluga lá em cima da montanha, e tem vários pontos onde você pode deixa-los quando acabar de usar. Vai ter uma placa com um trenó pendurado rs. 
- é possível fazer com crianças - alias, tem vááárias crianças com um trenózinho diferente, de plástico. E também adultos com crianças na garupa. Há rotas mais leves, para família. 

Quem anima?

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