Machismo nosso de cada dia

Estou no nível B2 de alemão, e nesse nível o normal das aulas é ter discussões. Estamos aprendendo a montar frases mais elaboradas, longas, usar conectores, etc, e pra isso, o material é meio que todo propondo discussões sobre os mais diversos temas. Já tivemos aula falando sobre padrão de beleza, sobre mercado de trabalho, sobre questões suíças, entre outras coisas, tudo que leva a colocações como "eu acho que, eu penso que, na minha opinião, discordo porque, etc". E é claro que nessas conversas sempre surgem as mais diversas opiniões, alguns confrontos, tudo normal. Somos uma turma bem diversa - eu brasileira, uma polonesa, uma macedônia criada na Itália, um mexicano, um sírio e uma síria, uma bósnia, um italiano, uma chinesa, uma americana, uma albanesa, um romeno e uma paraguaia - e é claro que essa variedade de culturas, de educação, de contexto histórico rende boas conversas. Masssss... sempre tem o MAS. E é do MAS que eu vim falar aqui hoje. 

Tivemos uma lição há algumas semanas que falava sobre o padrão de beleza. O tema era "die Normalenfrauen", que numa tradução livre significa "mulheres reais de Dove" haha. Antes de mandar o real significado da coisa, a professora se dirigiu aos quatro rapazes da sala e perguntou: o que são mulheres normais? Porque sim, antes de mais nada, o "real" da Dove, em alemão é dito "normal". Aí o romeno falou: mulheres femininas. Rolling eyes. Aí o italiano resolveu tomar a palavra e palestrar sobre como "mulheres normais são aquelas que se vestem com saias, vestidos, que usam maquiagem, que gostam de ser mulheres". Sério, gente... SÉRIO. Como eu já sou meio conhecida na sala por ser meio bocuda, rs, achei por bem só fazer cara de paisagem e deixar a discussão pra quem tem estômago. Ou seja, ninguém hahaha. Menção honrosa vai para o colega mexicano, que olhou pra ele e fez aquele sinalzinho com a mão, tipo, para
Exatamente assim
Alguns dias depois estamos lá, vendo um videozinho, que falava sobre zumba. Ai a professora pergunta por que não há quase homens fazendo zumba, porque o público esmagador das aulas são mulheres, sendo que é tão divertido, alto astral, etc. Nosso querido Matteo (irei chamar nosso italiano de Matteo, ta?!) pede licença pra vomitar fala: porque não é coisa de homem, é pra mulher. Aqui devo fazer uma inserção de que a professora é uma senhora muito da porreta, cheia de opinião e tal, e que eu já percebi que é chegada em fazer o circo pegar fogo rs. Ela, ao me ver com a cara contorcida, resolveu pedir minha opinião. E eu, honestamente, não estava afim... 

Pior: ele e o romeno começaram a fazer graça e a dizer que na zumba, o homem só assiste. E ficaram nessa, fazendo piadinha de "mulheres gostosas". Nesse dia cheguei em casa descaralhada da cabeça. Eu não concordo, eu não passo pano, mas eu ~entendo~, com muitas ressalvas, que o romeno fale umas merdas. Ele é mais velho, trabalha em construção, e a gente sabe que não é um campo onde exatamente os homens são feministos, né. E embora ele também fale merda, é sempre mais contido nas suas colocações. Mas não consigo dar respiro pro Matteo rs. Não mesmo. O cara tem 29 anos, nascido e criando no centro da Europa, num país dito desenvolvido, frequentou universidade, já era pra estar mais esperto. E embora eu saiba que a Itália é sim um país machista, eu tinha a doce ilusão de que as gerações mais jovens tivessem mais noção. Porque é isso, falta noção. Numa sala com nove mulheres, o cara tem nem vergonha de ser absurdamente machista. Alias, digo que nem percebe que é. 

Aí há uns dias aconteceu um caso trágico em Zurich. Um italiano matou a sua esposa e em seguida se matou. Alguns jornais disseram que ele estava em depressão, desempregado, e não aceitava que a mulher fosse mais bem sucedida que ele. Enfim, uma merda e tals. Não sei do que estávamos falando em aula, quando a professora trouxe esse caso pra roda. E então, afirmou: isso tem acontecido tanto, cada vez mais, sempre o homem matando a mulher. Se virou então aos homens da sala e perguntou: por que?

E é CLARO que nosso amigo Matteo tinha que relinchar opinar. "Eu acho que isso é coisa da mídia. Morrem tantos homens quanto mulheres, mas a imprensa somente noticia os casos de morte das mulheres". A perplexidade foi tanta, que o sírio mandou em inglês mesmo: man, you are so wrong, that's so fucked up. HAHAHA. Eu tive que rir, porque a gente acha que no oriente médio que reina o machismo, e me vem o sírio, e resume bem resumidinho em uma frase o rebosteio. Ninguém falou nada, a cara da sala inteira estava meio que assim...

A professora então perguntou se alguém queria opinar, e depois de tanto fazer a phyna, eu achei que tava na hora de honrar minha fama de bocuda rs. "Então, né.. realmente muitos homens morrem todos os dias. Por causa de acidente de trânsito, de tráfico de drogas, de briga de bar. Agora eu gostaria que você me falasse UM caso em que a mulher assassinou o marido porque ele tinha mais sucesso que ela. Você consegue?" Claro que Matteo nessa hora tava com cara de cu. "Não. E alias, praticamente todos os maridos ganham mais, tem mais reconhecimento que a mulher, né... Mas você conhece algum caso de mulher matando homem porque não concordou com o fim do relacionamento? Porque acha que o homem é propriedade dela?" Ai ele.. "não, mas eu estou falando de morte no geral".  - Entendi... Na hora que interessa você não entende alemão, né? 

*CLIMÃO*

Enfim... essa semana teve dia 8 de março, Dia Internacional das Mulheres. A professora perguntou pra todo mundo como é celebrado o dia da mulher no nosso país, e deixou a parte da Italia pra outra italiana da sala, rs. E é esse o tal do MASSS que eu queria comentar. Esse debate multi cultural pode ser muito legal. Mas quando se trata de machismo, ter esse tanto de gente diferente na sala de aula só me mostra que mulher é menos em qualquer canto do mundo. Que no fim, a gente vai ser ofendida, diminuída, onde for. Que o caminho é longo, que a luta não tem fim, e que a gente tem que aprender a falar "VAI SE FUDER" em tudo que é língua pra sobreviver nesse mundo. 

15 comentários:

  1. Cara, eu fiz umas aulas de línguas na minha vida que eram muito mornas. Mandavam a gente discutir a melhor viagem que já tínhamos feito, a casa ideal em que gostaríamos de morar ou eleger personalidades que admirávamos, justificando. No máximo, pra estimular discussões em que tivéssemos que defender pontos de vista, nos davam situações hipotéticas pra tomar decisões. Sempre coisas meio rasas, tipo: temos 3 candidatos com tal idade e tal formação, qual vc contrataria pra tal posição? Poucas vezes em aulas de línguas tive a oportunidade de ter debates de verdade, conectados com a vida real, com a minha vida. Sua aula parece ser bem mais legal e deve dar mais resultado também...
    Coragem e paciência com o italiano tosco. Rs

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    1. Hahaha nesse sentido minha aula é mais divertida mesmo, mas é cada raiva que eu passo. E sério, é TODO santo dia. Eu só contei os casos mais emblemáticos, pro post não ficar imenso.

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  2. Só de ler o post já fui revirando os olhos com esses teus colegas de classe, socorro!
    Quando eu tava fazendo as aulas de inglês também eram assim, tinham uns topicos que geravam umas discussões mais acalorosas. Mas não lembro de nenhum absurdo relacionado ao machismo assim. É cada coisa que temos que lidar que realmente aprender a mandar ir se fuder em várias línguas é muito útil. Que tristeza.

    Lembrando de discussões em sala de aula (mas que não tá relacionado com machismo), teve uma vez que o topico era sobre crueldade animal e tals.. e dai eu falei que eu não ia em zoologico, aquários, ou coisas do tipo.. E dai tinha uma menina nova na sala, brasileira mesmo.. foi super grossa comigo, falou na minha cara o quanto eu era hipócrita e todo mundo da sala tb por ficar nesse mimimi todo de proteger os animais, sendo que as pessoas comem carne (ela inclusive e por isso ela não ficava no mimimi).. risos. Todo mundo da sala que já me conhecia, inclusive o professor, começaram a rir.. Ela ficou sem entender nada e o professor falou: cuidado com suas palavras e você escolheu a pessoa errada da sala pra falar isso, a Taís e a única vegetariana aqui. A menina não sabia onde enfiar a cara, socorro hahaha
    Beijos :*

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    1. É foda, porque nessa a turma vai variando, e tal, e você tem nem intimidade pra falar "para de cagar pela boca fulano" hahahaha.. na faculdade, depois segundo ano, isso já rolava direto hahaha..

      E meu, que micão da menina hahaha...

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  3. Sabe que toda semana tem um lá que adora 'manxplain" as coisas pra mim; no começo achei que era porque eu era nova, mas aí percebi que ele não faz o mesmo com o outro cara, que por sinal sabe menos que eu na maioria dos assuntos. Mas eu aprendi q tem q abrir a boca toda vez, porque é isso aí, todo dia uma batalha

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    1. Nossa... sério.. mansplaining. Haja olhos pra revirar, socorro! Ainda mais no trabalho.

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  4. Nossa Gabi, identifiquei demais aqui. Quando fiz alemào aqui na italia era eu a barraqueira que sempre problematizava as generalizaçoes mais banais sobre qualquer coisa. Numa dessas discussoes sobre moda o "Matteo" da minha sala veio com essa coisa de roupa que homem nao pode usar senào fica parecendo gay e espumei tanto que comecei minha resposta com "estamos em 2017, pelo amor de deus!!!" E o problema é que nào sào sò os homens aqui que sào machistas, mas as mulheres também. é uma sociedade muito conservadora, haja estomago pras discussoes bestas de curso de lingua...

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    1. Pois é, no geral, a mulherada também é machista. Alias, no Brasil, infelizmente, é o que mais tem. As vezes você umas conversas na internet, e aí vai ver e os comentários mais pavorosos são de mulhers, e isso me corta o coração. É muito triste :(

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  5. Me dá um aperto no coração quando a gente vê pessoas tão novas que continuam propagando estes conceitos tão limitantes e que não param para pensar no que estão dizendo. O mundo é muito machista :(

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    1. Eu tenho esse aperto no coração também, principalmente quando vem de mulher o comentário machista. Agora sério, com o tanto de discussão que se tem hoje em dia, quando vejo homem jovem falando bobagem, tenho é raiva mesmo.

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  6. cara, respirei muito forte em vários momentos desse texto... e ó... também num tenho estômago pra essas coisas näo (com os meus pirralhos eu até pedagogizo a coisa). e sim, embora eu veja uma diferença de anos-luz se comparo o brasil com a alemanha, a gente se fode em alemäo também.
    mas... polianizando a coisa... quero te parabenizar por entrar em discussöes desse tipo em ALEMÄO. olha como voce tá arrasando na coisa, moça!

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    1. hahaha adorei a polianada! pra tudo tem um lado bom, não é?!

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  7. Antes de chegar no seu comentário sobre a professora ser porreta eu já estava pensando "essa professora é das minhas, gosta de ver uôco", daí logo depois cheguei no teu comentário hahahahha mas aquela coisa neh, ainda temos muitas batalhas pra enfrentar e seguimos na luta. eu poderia escrever um livro sobre esse assunto porque já ouvi muita babaquice ao longo da vida... que bom que você tem a capacidade de responder e ainda em por cima numa língua que não é a sua nativa. passei por uma situação aqui onde a resposta veio na minha cabeça em português, mas não veio a tempo em inglês e eu perdi o timing e fiquei muito puta comigo mesmo depois. affe!

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    1. Devo dizer que não é sempre que eu consigo responder não, nem em português. As vezes fico tão, mas tão passada, que as palavras me somem. Mas eu tava numa que não conseguia nem olhar na cara de Matteo haha.. meu cérebro já tava pronto pra sapatear na cabeça dele a qualquer momento rs... E no fim, ainda fiz a phyna, e fui contida na minha resposta, porque o resto do grupo não merecia barraco rs. Eu ODEIO qdo eu engulo o sapo e não consigo responder a altura.. a gente fica puta com a gente mesmo haha. normal!

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