Adeus solidariedade

Interrompemos a programação normal para entr... ops.. sem essa. A programação normal aqui é eu falar do que eu bem quiser, e no momento quero falar de algo que anda me deixando bem desgostosa com a vida. Imagino que numa crescente desde 2013, o Brasil foi se dividindo muito, cada vez mais. Primeiro entre manifestantes e paneleiros, depois entre coxinhas e mortadelas, depois entre petralhas e tucanos, e por aí vai. Eu sempre achei isso tudo uma MERDA, porque essa polarização sempre impediu as pessoas de olharem para frente, para o melhor do país. Virou um fla x flu desgraçado, e se um partido dava uma boa ideia, o outro votava contra porque "eu não compactuo com ELES". Sempre essa coisa entre "nós" e "eles". Seja lá de que lado você esteja. Eu sempre fiquei desconfortável com isso tudo, afinal de contas, eu sou uma pessoa que simpatiza com as pautas da esquerda, mas que nunca votou no Lula. Sou alguém que votou (e se arrepende, tá), no Aécio, mas que era absolutamente contra o impeachment. Da pra entender? Eu nunca curti esse nós e eles, porque meu caminho sempre foi outro. 

Só que no momento, vejo uma polarização entre gente e bicho. Me dói dizer uma coisa dessa, mas é a real. Marielle foi assassinada. Foda-se, gente, F O D A S E o partido que ela representava, foda-se as ideias que cultivava, foda-se. Era uma mãe, uma filha, uma esposa, uma amiga, era alguém, e teve a vida ceifada, com sei lá quantos tiros na face, foi enterrada num caixão lacrado, toda desfigurada. Tem como alguém ficar indiferente a isso? Eu achava que não. Mas teve gente que achou "bem feito, defende bandido, tem que se fuder mesmo". TIRO. CARA. CAIXÃO LACRADO. DESFIGURADA. Como que alguém consegue falar bem feito, como?

Ontem um prédio ocupado por sem tetos pegou fogo e desabou em São Paulo. No momento, são em torno de 45 pessoas desaparecidas. Esse prédio é da União, está abandonado há mais de uma década, numa região que sempre foi negligenciada. Na gestão anterior houve uma tentativa de revitalizar o centro criando moradias populares em prédios abandonados, iniciativa essa que encontrou várias barreiras, como desapropriação e até problemas com invasão. Não preciso dizer que a nova gestão do Caco Antibes Dória não fez absolutamente nada para dar andamento nisso, e diante da tragédia, mais que depressa, tratou de botar a culpa em quem? Nas vítimas, claro. E ele não é uma alucinação de mau gosto não... ele representa o que boa parte da classe média brasileira pensa. A maioria das pessoas não conseguem se colocar no lugar de quem NÃO TEM ONDE MORAR. Não conseguem pensar o que fariam se não tivessem nascido em condições privilegiadas, se não pudessem se candidatar à uma vaga de emprego por simplesmente não ter um endereço, se a única alternativa à rua fosse morar num prédio abandonado. Simplesmente ignoram tudo isso, e saem falando coisas que soariam menos escrotas se elas morassem aqui na Suíça, e não num país assolado pela desigualdade como o Brasil.  

E é isso que anda quase me tirando o sono. Ver o tanto que a nossa sociedade se descolou do bom senso, da generosidade, da empatia, da solidariedade. Eu fico envergonhada em ver que se colocar no lugar do outro é coisa do passado. Alias, eu fico chocada em ver o tanto de gente que sequer conhece a história brasileira, que sequer entende a realidade fora do muro do condomínio, e pior, que não quer entender. Não quer ver o tamanho do abismo que existe no Brasil para não se sentir mal pelos privilégios que tem. E eu não to falando de posições políticas, de agenda, de nada... Eu to falando somente de ler que uma pessoa foi assassinada, e simplesmente sentir compaixão. Não to falando que todo mundo tem que sentir a mesma raiva, tem que vestir o mesmo luto, nada. Só to dizendo isso... de sentir compaixão sem emendar um "MAS" depois. Perdemos a habilidade de ser solidários. Somos uma sociedade doente, que já foi dividida em muitas coisas, mas que hoje se divide entre quem ainda sente e que deixou de sentir. E acho que há poucas coisas piores do que isso. 

14 comentários:

  1. Eu achava que o brasileiro era solidário, até que surgiu a internet e com ela uma corja de comentaristas sem noção. Te juro, me dá um nó na garganta de ler certos comentários, que eu estou até evitando. O engraçado é que muitos viajam para a Europa e enchem a boca de elogios de como se pode viver bem aqui. O negócio é que, digam o que quiserem, eu acho a sociedade daqui bem mais humanista em relação a política social do que o Brasil.
    Se colocar no lugar do outro tornou-se, infelizmente, tarefa impossível para a maioria dos brasileiros.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sempre me pergunto se a gente sempre foi assim e a internet deu a chance das pessoas se mostrarem, ou se ficamos assim por conta da internet... no fim, acho que a internet proporciona o efeito manada mesmo, e as pessoas tem cada vez mais vontade de se mostrarem agressivas, revanchistas, e desumanas.

      Excluir
  2. Sobre essa polarização inconsequente em 100% dos temas o Marcelo Freixo diz uma coisa com a qual eu concordo muito: defender ou não os Direitos Humanos não é uma pauta que divide as pessoas entre Direita e Esquerda, mas uma pauta que divide civilização e barbárie. Acho que tem muitas pautas assim no Brasil hoje (Preocupação com o funcionamento das instituições democráticas? Ficar assustado quando as pessoas atiram em militantes de outros partidos políticos? Achar positivo que o número de acidentes de trânsito nas marginais caia com a diminuição da velocidade máxima permitida?), que são questão de civilização e de humanidade, mas que incrivelmente não conseguem sensibilizar todo mundo (ou uma ampla maioria).

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olga, perfeita sua colocação. Eu ia dar como exemplo também a questão dos tiros na caravana do Lula e no acampamentos em Curitiba, porque eu fiquei horrorizada com a repercussão disso, mas não queria alongar o texto. Mas é isso, tem tanta pauta que é coisa de ser "gente", de ser civilizado, e agora virou "coisa de esquerda". Eu não me conformo!

      Excluir
  3. Concordo demais com o comentário da Olga aqui. Não tem sido fácil ler notícias sobre esse Brasil nos últimos tempos... e fico me perguntando: sempre fomos assim e a internet só deu a chance de nos expormos como realmente somos ou a internet nos deixou assim?
    Honestamente, como pode alguém ficar nessa merda de briguinha de partido, briguinha ideológica, quando tem coisas muito maiores, mais importantes por trás? É o que você falou mesmo, Gabi, trata-se de humanidade, solidariedade. Outro dia tava falando de fotos históricas com meus alunos de pré-intermediário falou rindo algo relacionado à prisão do Lula, tipo "ah, igual a foto do Lula preso, né? super bom, blá blá blá". Então é assim que vai acontecendo essa polarização, essa divisão besta. Bons eram os tempos de fla-flu, pelo menos era só futebol!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. *...com meus alunos de pré-intermediário e um falou rindo...

      Excluir
    2. Eu acho que a internet proporcionou o efeito manada, sabe.. as pessoas saem falando merda sem nem pensar, e sem vergonha alguma, afinal tem mais gente falando. Além do que tudo virou questão de ódio. É ódio contra pessoas, contra partidos, contra idéias, tudo é ÓDIO. Eu nunca imaginei viver num ambiente assim, mas é como é. As pessoas tem ódio e intolerância, desaprenderam a conversar, e parece que estamos empacados numa realidade paralela horrorosa.

      Excluir
  4. Concordo muito com o comentário da Olga também! Está absurdo demais! EU sempre digo que precisamos apertar o reset pq o mundo deu errado. Eu não chamo mais de falta de solidariedade não, eu chamo de falta de humanidade. É demais o pessoal achar que algo justifique esta falta de humanidade, esta irracionalidade exarcebada. E o pior é ouvi o pessoal dizer "mas o bandido n tem pena de ninguém." Eu não entendo essa lógica que as pessoas têm de justificarem suas barbáries de pensamento e atitudescom base na ação de criminosos. Esse execução da Marielle só mostra quanto nossa sociedade está doente e a galera ainda se acha o pessoal de "bem." Bjs

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Nossa, eu fico doida com essas coisas também.. "mas o bandido isso", "mas o bandido aquilo". Filho, e se você não é bandido, não tem que ser igual, simples assim. Na hora da lacração no facebook a pessoa mais que depressa acha bem OK agir e pensar que nem bandido, que nem animal.
      E sim, pra mim a execução da Marielle foi a gota d'água, foi quando senti mais nojo da internet, da raça humana, e tudo mais. A forma como mais que de pressa foram linkando ela a notícias falsas, e geral "acreditando", porque é fácil acreditar que preto e favelado ta envolvido com tráfico e afins, a forma como enfiaram um MAS depois de cada consideração triste sobre o caso.. me enojou demais.

      Excluir
  5. cara, o brasil chegou num nível de absurdo que é täo absurdo que eu näo consigo nem escrever uma frase pq näo inventaram palavra pra tamanha absurdidade. eu leio as coisas que eu leio e eu fico täo absurdamente PUTA da vida... e é täo extremo que ao mesmo tempo me bate uma desesperança, sabe?!
    "No fundo eu julgo o mundo Um fato consumado E vou-me embora" ... eu sempre julguei essa letra de djavan... mas hoje entendo tanto.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Sim, é de ficar bem puta mesmo... Eu DETESTO esse feeling, mas tem hora que até penso ainda bem que não to lá. Mas aí me odeio por isso rs...

      Excluir
  6. Cara, pouco depois que me mudei, parei de acompanhar FB. Era uma questão de saúde sabe? Acho que a internet facilitou essa desumanização das pessoas e elas perderam a capacidade de se colocar no lugar do outro e ainda têm coragem de se definir como cidadão de bem... Essa coisa da bolha também, dos algorítimos e tal é muito nociva e vira um reforço positivo de comentários podres. Aí as pessoas acham que tá tudo bem ser extremista porque tem outras pessoas concordando com ela nas redes sociais. Sinceramente, prefiro viver no meu fantástico mundo de Bob.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Concordo Ale. Principalmente na parte dos algorítimos e das bolhas extremistas. Realmente, não sei onde vamos parar e como. Eu ando muito desconfortável com postura de amigos, as vezes de família... Sabe quando você não quer acreditar que o povo anda se perdendo na humanidade? To assim

      Excluir
    2. Entendo perfeitamente esse sentimento e a gente se sente impotente diante dessa situação porque a gente está longe e certos papos ficam meio complicados via whatsapp, skype, etc. Fico feliz que você consiga enxergar, talvez seja justamente o fato da gente estar distante, vendo de fora da bolha, vivendo uma outra realidade que faz a gente enxergar melhor, não sei. Quando encontro umas pessoas da família e me deparo com certos comentários, jogos umas perguntas para fazer o cérebro da pessoa funcionar. Às vezes funciona e elas percebem a incoerência do próprio comentário quando apenas param para pensar na resposta. Às vezes é só uma questão de apresentar uma outra perspectiva que a pessoa nem tinha se dado o trabalho de pensar. Sei que não vou fazer uma grande revolução, mas posso pelo menos jogar uma sementinha, vai que nasce um pé de humanidade neh?

      Excluir

Follow @ Instagram

Back to Top