Dois anos de Suíça: pequenas mudanças

Daqui um mês faço dois anos de Suíça, mas como o blog ficou fechado por uns dias achei legal voltar com um post comemorativo :) Ano passado falei aqui das minhas impressões sobre os suíços. Esse ano resolvi falar um pouco das mudanças que esses dois anos provocaram em mim. Voilà!

Os minutos agora contam
Acho que via de regra, todo mundo arredonda hora, né? Se são 12:12, você diz meio dia e quinze, ou meio dia e dez. A gente não costuma dar trela pros miúdos, rs. Mas acho que essa foi uma das mudanças mais significativas da vida na Suíça: aqui cada minuto conta. Todo mundo sabe que o transporte do país é referência em pontualidade, e essa questão dos minutos entra aí. Por exemplo: perguntei pra minha amiga americana visitando que horas eram. Ela respondeu 13:15. Aí eu: mas é 13:15 mesmo, qual o minuto? Ela tinha arredondado e achou muito engraçado ahhaha.. Mas é que pra pegar o trem que passa aqui às 13:17, se fosse 13:12 dava tempo. Se fosse 13:15 já não dava mais. E isso é uma constante, estamos sempre de olho nos minutos. 
Evitamos essa cena lamentável hahaha
Atividade: check!
Me tornei uma pessoa muito mais ativa. Não temos carro, fazemos tudo de bicicleta ou de transporte público. Tem dia que vou à cidade e volto na bike umas três vezes rs. A Suíça é o país das trilhas, e chegando aqui é impossível não ficar um pouco "verde". As trilhas são muito bem sinalizadas, estão em todo lugar, e normalmente proporcionam paisagens lindas, não tem como não se render. No inverno, tem o esqui, e no verão a gente nada no rio e nas piscinas públicas. Praticamente desde que cheguei sigo no ballet, firme e forte. Péssima bailarina, devo dizer, mas me divirto, é uma delícia de momento. E pra finalizar, inventei de correr. Esse mês finalizei a minha primeira prova, modestos 5km. Mas pra quem passava o dia inteiro sentada no carro ou no escritório, não dá pra negar que eu to ativa demóóóóis, né?!

Olhar o preço das coisas
Não me orgulho, mas também não nego que em SP a vida era ir no mercado e pegar os produtos das marcas que a gente conhece. Simples assim: sabão em pó OMO, amaciante Comfort, macarrão Barilla, etc. Eu fazia o mercado em 15 minutos sem dar muita atenção aos preços, porque simplesmente estava acostumada com essas marcas desde criança, e porque "é assim que tem que ser". Chegando aqui até tem algumas dessas marcas, mas tem várias outras que eu não conheço, também os preços do mercado na Suíça são puxados e nós vivemos de um salário. Além disso, eu tenho um artigo valiosíssimo que antigamente não tinha: tempo. E aí comecei a comparar muitos preços, preços de marcas, de mercados, e hoje em dia penso no preço das gramas, sei de cor o que é mais barato comprar onde, e frequento três mercados diferentes na semana para comprar coisas diferentes.

Falando em preço... 
Ainda numa variante do tema acima, é importante lembrar que em SP tínhamos uma vida confortável de classe média, e claro que pensávamos nos gastos, mas focávamos menos nos detalhes. Hoje vivemos somente com um salário, e eu diria que o diabo mora justamente nos detalhes. Precisamos prestar atenção no destino de nosso dinheiro, e com isso vamos menos a restaurantes, pensamos mais no que consumimos nos bares, as vezes acabo recusando programas triviais pra economizar (coisa impensável há alguns anos), compramos coisas de segunda mão, nos programamos por meses para fazer algumas compras maiores (que olhando bem, nem são tõ grandes assim). Fazer trocas virou parte da rotina: quero comprar uma blusinha nova? Tira o ônibus da vida por duas semanas, pedala dia e noite, noite e dia, debaixo de chuva e tals, e pronto, taí o dinheiro da brusinha hahaha... Não foi um processo fácil, mas me fez enxergar como eu gastava dinheiro com bobagem, e perceber que no fim, não é nem questão de "poder", mas de comodidade. A gente se acomoda numa vida de pequenos gastos desnecessários, e não presta atenção na conta que eles somam no fim do ano. Nesses dois anos de budget apertado, cortar esses pequenos gastos significou fazer viagens e experimentar coisas que um salário só jamais permitira em nossa antiga vida. 
Como as pessoas pensam que é a minha vida na Suíça...

... e como a vida por aqui realmente é hahaha
Agora eu tenho agenda
Eu sempre fui a rainha da espontaneidade rs... Acho que ter sido criada numa cidade pequena, onde você pode combinar de encontrar uma amiga num bar e chegar lá 10 minutos depois, me fez desgostar um pouco de planos com muita antecedência. Em SP a vida já demandava um planejamento um pouco melhor, por questões de trânsito e tal, mas nada compara com as coisas aqui. Tudo é planejado com muita antecedência, as pessoas programam festas e jantares mais de um mês antes, e eu acabei precisando me adaptar pra não sair por aí marcando coisas no mesmo dia, esquecendo de eventos, e afins. Hoje em dia tenho uma agenda pra vida pessoal, e acho meio uó hahahaha.. Mas ao menos tenho me organizado e evitado furos.

I don't look perfect, and it is ok
A questão da beleza já foi tema por aqui. Quando cheguei na Suíça, em pouquíssimo tempo eu tinha virado um relaxo só hahaha.. As pessoas aqui ligam muito menos pra aparência, prezam pelo conforto, e rola todo um contraste com nossa cultura de salão toda semana no Brasil. Mas depois de um tempo eu percebi que esse relaxo todo também não me fazia 100% feliz. Eu precisava encontrar um meio termo que me permitisse sentir bem comigo mesma, mas sem criar paranóias de "tem que ter/ser". E acho que cheguei nesse ponto aí... Gosto de me olhar no espelho antes de sair de casa e me sentir bonita, mas não deixo de vestir saia num dia de sol porque a depilação não está em dia. Saber que ninguém está olhando, e muito menos julgando, é efetivamente libertador. Inclusive, em conversas com amigas de vários lugares, percebi que o "meio termo" de cada uma varia muito, e isso é maravilhoso. Cada um segue no ritmo que lhe apetece, eu também.

Deve ter ainda outras coisas que eu nem percebi, ou talvez coisas que no longo prazo eu vá sentir mais. No momento, acho que essas são as que mais me impactaram. Post a ser atualizado no futuro ;)

19 comentários:

  1. Gabi, parabéns pelos dois anos de Suíça, parece que ''foi ontem'' que nos encontramos em SP antes de você mudar, caramba esse tempo boa!
    É tão legal colocar na balança e ver o quanto a gente mudou, como desde detalhes até coisas mais profundas dentro da gente uma mudança de país faz, né?
    E eu ri aqui com o lance de contar os minutos e com um transporte tão eficiente assim realmente faz sentido, cada minuto conta! haha
    E ainda bem que o blog voltou \o/
    beijos!

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    1. Parece que foi ontem mesmo, Taís... eu tinha saído do estúdio de tatuagem, lembra?! Hahaha.. que loucura! Aquela cervejinha gostosa no Atenas, precisamos repetir.
      E meu, essa história dos minutos é a mais engraçada mesmo, porque toda vez que temos visitas, e temos bastante, ela aparece hahaha..Beijos!

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  2. se o povo BR desse só um pouquinho mais de importância a essa coisa do horário eu já tava bem feliz. tô meio traumatizada de marcar rolê (algo que eu quase nunca faço!) e a pessoa se atrasar por HO-RAS e nem ao menos se sentir mal por isso. pedir desculpas? nem sabem o que é! eu fico doida! HAHAHAHA minha irmã mesmo é campeã. uma vez marquei um almoço e a desgraçada chegou as 18h. tanto que se por uma loucura eu ainda marque algo com ela sei que ela basicamente vai chegar numa margem de 24hs HAHAHA amo mas tenho vontade de encher de tabefe!

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    1. Eu nunca gostei de me atrasar, mesmo em SP onde todo atraso é aceitável... Quando muito, atrasava 15 minutos. Acho uma folga sem fim com o outro. Mas a real é que é cultural, e nós brasileiros achamos super OK chegar as 18h num almoço hahahaha.. É um absurdo!

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  3. fascinante como a gente muda a partir do contexto em que estamos inseridos, não é? a beleza de ser um expatriado... parabéns pelos dois anos. xx

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    1. Certamente, a gente muda mesmo. Beijos Paulinha!

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  4. Que bom que voce nao fechou seu blog pra "sempre" tava ate meio triste quando outro dia tentei entrar e nao consegui...he he he.

    Realmente a vida de expatriado faz a gente repensar muitas coisas, a que mais gosto e a liberdade de nao ser julgada pela aparencia. A depilacao atrasou e ta calor? Nada com que se preocupar em colocar as pernas pra fora. Mas tenho uma pergunta, voce acha que voce ficou mais introvertida morando na Suica? Eu sempre fui bem comunicativa e bastante outgoing mas desde que mudei pra ca percebi que isso mudou por que as pessoas sao mais fechadas e as pessoas tem um grande bubble em volta delas. To curiosa pra saber como e por ai.

    Bjs

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    1. Sabe que eu acho que não fiquei mais introvertida não, MAS.. ando me sentindo muito inadequada. Conversei sobre isso com Mati outro dia. No Brasil a gente fala alto, a gente gesticula, a gente faz piada de tudo, e muito disso além da brasilidade ta também na minha personalidade, eu sou extremamente extrovertida. E percebi que aqui não é muito apreciado não rs... me senti inadequada muitas vezes, as vezes acho que até canso umas pessoas, e tenho tentado segurar um pouco a minha onda por isso :(

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  5. Gabi, tão interessante ver o quanto a cultura local têm um peso nas mudanças das pessoas. Achei super interessante os itens e como vc os relacionou com a sua realidade atual e o quanto desta realidade é diferente pelos costumes diferentes. Muito bacana ver esse seu antigo você e o novo encontrando um meio termo.

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    1. Foi uma reflexão muito gostosa de fazer :)

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  6. Como sempre o Gabi na Janela sendo um dos meus blogs preferidos! :) Parabéns pelos dois anos de Suíça, pelas mudanças, pelos aprendizados. Eu não tinha agenda também, marcava as coisas no celular às vezes e até tentei ter um bullet journal e não deu certo, mas hoje, que apareci no médico tendo consulta marcada só pra amanhã, me fez ver que acho que nessa idade precisamos mesmo das benditas agendas! rs
    Sobre viver só com um salário, é isso mesmo que você disse: a gente tem esses pequenos luxos de salão de beleza, cervejinha, comer fora, e quando vai ver, gastou um dinheirão que se tivesse sido juntado, daria numa bela aquisição/viagem. Beijos!

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    1. Eu cedi à agenda depois de um dos acontecimentos mais vergonhosos da vida social: marquei duas coisas no mesmo dia, no mesmo horário, e só me liguei quando uma amiga estava a caminho da minha casa, dentro do busão e tal, e a outra me manda mensagem: te esperando aqui em casa. Ai imagina a minha caraaaa! Foi uma merda, eu quis morrer de vergonha de ter que cancelar com uma delas (pq não dava pra juntar tudo numa coisa só), e resolvi que era hora de ter controle da agenda rs...

      E sim, não tem jeito. Tem que se reprogramar, porque esses pequenos gastos são hábitos: tomar cafézinho todo dia a tarde é um hábito que pode consumir bastante dinheiro, consumir sempre certa marca apesar do preço, outro, etc... Eu me reprogramei, a vida exigiu e eu respondi. E faz parte, fui bem recompensada :)

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  7. Grande parte das suas mudanças estão relacionadas com a cultura dos países... aqui na Alemanha posso confirmar o mesmo em todos os aspectos... Atraso hoje considero falta de respeito, o tempo dos outros não vale menos que o nosso.. Com relação a esporte: estou na mesma que no BR já que nunca tive carro :) e dinheiro: no BR era mais quebrada que aqui então tinha que prestar atenção antes de comprar qualquer coisa, a diferença é que aqui ninguém acha estranho se vc leva seu lanchinho/café da manha e come no trem... faz picnic ou leva o lanche no Biergarten em Bayern (é normal). E com relação a "me arrumar" --> me sinto muito melhor aqui pq posso ser minha versão do brasil (não consigo nem quero me vestir como uma barbie) sem ser freak :) E viva a integração para nos tornarmos melhores!

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    1. Essa de ninguém sentir vergonha de farofar acho que é a minha parte favorita. As pessoas aqui levam lanchinho em todo lugar, e eu acho fantástico!

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  8. Me identifiquei muito com todas as mudanças! (e aqui nos comentários me veio mais uma, a questão da introspecção... acho que me deu uma ideia de post!) <3

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  9. Menina, adotei a agenda na minha vida e tô achando maravilhoso. Eu era bem mais organizada no Brasil, mas aqui estava meio vida loka e estava perdendo as rédeas da vida. E eu amo a pontualidade, mas ainda me atraso um pouquinho de vez em quando. Nunca fui o nível extreme do Brasil, até pq tenho uma mãe pontual E virginiana e fui treinada desde cedo. Quanto ao dinheiro, aqui foi o caminho contrário pq na Ucrânia eu sou rica. Mas essa boa vida está chegando ao fim e terei que voltar a calçar as sandálias da humildade. Não que isso seja um problema, a gente dança conforme a música.

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    1. Vai me dizer que agora vc vem morar aqui? Hahaha.. to aguardando ansiosa por esse plot twist!

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    2. hahahahaha Mistéééério... Vai ser na Europa Ocidental, mas ainda não sei com certeza onde. De qualquer forma, será bem diferente de morar no leste europeu.

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