Reflexões de Twitter

Esse foi um dos twits que mais me fizeram pensar nesses meus 10 anos de twitter rs. Ao ler, comecei a tentar lembrar meus sonhos de criança. A verdade é que não consegui lembrar de nada rs, talvez ir pra Disney era um. Ai mudei pros sonhos de adolescência, e lembro basicamente de "ser juíza, ser diretora jurídica da Votorantin, viajar". Lembrei nessa ordem e já fiquei incomodada... tipo, que saco, uma adolescente já sonhando com carreira rs. 

Mas logo comecei a pensar por que, tendo nascido onde nasci, eu entendi bem cedo que precisava "ganhar dinheiro" pra realizar outros sonhos. Acabou sendo o campo onde eu projetei mais coisas sobre o futuro. Eu nasci e cresci em Pariquera-Açu. Fui à melhor escola que poderia, mas segue sendo a região mais pobre do Estado de São Paulo, com poucos recursos, poucas empresas, poucas indústrias. Até a conselheira vocacional da escola não sabia explicar o que certas profissões faziam. Design por exemplo, só fui entender o que era depois dos 20 já na faculdade. Relações Públicas? Idem. Ali, naquele ambiente limitado, quem era de humanas fazia direito, quem era de exatas engenharia, e quem era rico medicina rs. Claro que tinha a galera da adminitração, e tal. Mas assim, tudo bem tradicional, você nem consegue vizualizar outras carreiras. E foi assim que eu, de humanas né haha.. fui parar (e odiar) o Direito. 

Lá pro terceiro ano de faculdade eu queria muito largar o curso, porque já odiava o rolê, mas não sabia bem o que fazer. Meus pais insitiram pra eu terminar, porque eu nem sabia o que fazer depois, e porque "agora que começou termina, se forma, vai ganhar dinheiro e depois paga você mesma pra estudar outra coisa". E foi aí que eu achei que a vida era essa merda  de acordar, ir lá fazer um troço que você odeia, ganhar um salário no fim do mês, e ir sobrevivendo. Os meus dois últimos anos de faculdade foram um suplício. Fui muito infeliz, e acho que por isso que, do Mackenzie, só sinto saudade das minhas amigas mesmo. A galera é toda saudosista, vai lá passear na Maria Antonia, e eu quero é distância dessa época que eu chorava no busão. 

Pois bem. Hoje eu tenho uma visão completamente diferente. Eu hoje gosto do que faço, curto meu trabalho e tal, mas assim... Eu trabalho mesmo pra ganhar um salário no fim do mês, e com ele bancar o que realmente me faz feliz. E se lá pra 2008 essa possibilidade de "trabalhar só pelo salário" me deprimia, hoje vejo as coisas com outras lentes. Em algum momento do fim da minha adolescência, eu sonhava com aquela vida de mulher mega ultra bem sucedida sem tempo pra nada, correndo pra lá e pra cá, "diretora jurídica da Votorantim". Hoje eu olho pra essa vida aí, e deus me dibre. 

E é aí que entra a reflexão maior: eu percebi que essa caída na minha "ambição" se deu com a minha vinda pra Europa. Eu percebi que muitas das minhas aspirações de criança e adolescente eram focadas onde eu precisava chegar pra ser alguém na vida, ser respeitada, pra poder viajar, pra poder ter conforto, poder devolver um pouco dos meus pais me proporcionaram. Aqui eu não preciso ser gerente, nem diretora, nem nada, pra ter um salário digno, uma vida confortável e fazer tudo isso, inclusive investir no que me faz feliz fora do horário comercial.

Uma vez conversando com um executivo da empresa onde trabalho, ele disse que o filho dele queria ser jardineiro. E não disse isso com nenhuma conotação, ou julgamento. Era um fato. O menino de 16 anos quer ser jardinheiro. E ele pode ser que não vai passar fome, não vai ser tratado como subalterno ou alguém menor na sociedade, nada disso. E ai fico pensando que em dado momento da nossa vida no Brasil, a gente já nem consegue mais saber qual é o nosso sonho genuíno. Eu lembro que láááá nos idos da minha infância, falava de ser professora, e todo mundo, inclusive meus pais (que são educadores), falavam que é uma profissão muito bonita mas que não da dinheiro. Você logo cedo aprende a nortear suas escolhas pelo que paga as contas, e começa a esquecer quais são os seus reais sonhos.

Então o que aconteceu é que esse twit, e todas as reflexões a que ele me levou, me mostraram de maneira clara que o Brasil mal deixa a gente sonhar rs... Não gosto da ideia de que sonhos sejam resumidos a trabalho. E ai fico pensando na tristeza que é ver crianças, adolescentes, que quando podem escolher o que fazer, acabam escolhendo a partir do que pode dar dinheiro, do que põe comida na mesa.

8 comentários:

  1. Escorreu uma lágrima aqui, xô limpar antes de comentar.

    Mana, que real isso. Eu acho que dei sorte na vida, pq minha mãe nunca projetou nada em mim. Ela veio de uma família com tão pouco que só o fato de eu gostar de estudar, ler, tirar notas boas foi o suficiente pra ela. Sempre falei de ser jornalista, escritor, professor, 'homem de escritório' e nunca tive meus sonhos destruídos....porém ela sempre soltava um 'para de sonhar e pensa no agora'. Não estou onde achei que estaria nos 30, mas como vc disse, sair do Brasil me permitiu encontrar o que gosto de fato e hoje vivo uma vida feliz... mas concordo contigo, minha satisfaçaão nao vem soó do trabalho, mas o qe o salario pode proporcionar hahah

    e continuo pobre e feliz.

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    1. Eu acho que se tivesse decidido ser jornalista, meus pais não teria impedido, sabe. Mas sempre faziam esse comentário, de que não dá dinheiro. E né.. quem quer, deliberadamente, ser pobre? Ninguém. Resumindo, já vai podando as escolhas. Eu hoje não vivo a vida privilegiada que vivia no Brasil, mas honestamente, vivo a vida que sempre quis viver. Me sinto feliz. E ainda tem isso... eu li esse twit, as respostas, e fiquei triste, porque eu queria que todo mundo se sentisse como a gente, essa coisa ai de "pobre" (com muitas aspas) e feliz, realizando pequenos sonhos, de pouquinho em pouquinho.

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  2. Sim, a realidade do Brasil é bem triste. Quando era criança eu quis ser chacrete, professora, cantora, secretária, estilista, jornalista, publicitária, jornalista de novo, fiz vestibular antes de terminar o ensino médio, vi que não ia passar e mudei pra Pedagogia pq queria entrar na UnB. Entrei, amei, fiz estágios e cheguei à conclusão dos seus pais. Quando peguei o diploma já tinha decidido dar um outro rumo pra minha vida e dois dias depois prestei meu primeiro concurso. Pq em BSB o que dá dinheiro é ser servidor público. Fiquei nessa vida por uns bons muitos anos e não quero nunca mais voltar.

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    1. Gente.. que dureza! A pessoa pensava em ser chacrete e foi parar em repartiçào pública, é esmurrar muito os sonhos das crianças hahaha.. Brincadeiras a parte, é uma pena qye a gente tenha que se guiar tanto por finanças. Pena maior ainda é que professores e pedagogos tenham que sair da área pra não passar fome :(

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  3. Gabi, saudades das suas reflexões aqui, adoro! haha
    Super concordo, é díficil demais sonhar no Brasil, nossa realidade já vem meio que moldada pra seguir num caminho só. Aqui também ouço de crianças coisas como, ''quero ser professora de yoga quando crescer'', ''quero ser dj quando eu crescer'', ''quero ser uma artista que pinta quadros e morar em San Francisco'' .. coisas assim que fico arrepiada, refletindo muito também sobre essas questões.. e vendo como elas são livres pra sonhar sem alguém vir dizer que isso não dá dinheiro. Hoje também quando penso nos meus caminhos pra decidir uma carreira, faculdade e tals, com certeza teria feito diferente.

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    1. Eu não sei se teria feito diferente, pq fiz o que deu com as condições e informaçÕes que tinha. Só lamento muito que a gente decida nessas condições, que, como vc disse, a gente não seja livre nem pra sonhar.

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  4. eu nunca fui essa criança ou adolescente que sabia o que queria ser quando crescer. lembro que foi no começo da adolescência eu sonhava em ir embora, embora näo sonhasse mais do que isso (ir embora pra onde? fazer o que? porque?). sofri a pressäo de ser a melhor aluna, mas sempre fui muito confusa, entäo nunca sonhei com uma carreira, eu só queria saber o que eu queria mesmo fazer. e vou tentando até descobrir (e se eu errei de novo, eu tento de novo). por um lado eu penso um pouco como você: trabalho pra pagar pelas coisas que me däo prazer. e é só um trabalho, näo é o sonho da minha vida. por outro lado, preciso achar prazer no dia-a-dia, e por isso foi täo difícil continuar a trabalhar com o que eu trabalhava.

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    1. Olha, se bobear é melhor assim mesmo, sem saber, indo tentando, do que alguém que resolve lá com 15 anos o que quer, sem saber nada da vida, e depois fica atrelada a essa escolha. Tipo eu rs.

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