A (minha) vida na Suíça em tempos de corona virus

No fim de fevereiro eu comentei por alto algumas mudanças trazidas pelo corona para a Suíça. Mas ainda falávamos de 20 e poucos casos, e uma situação sob controle. Eu tinha alguns planos para março e tava tudo mantido. Encontrar uma casa em Zurich, passar um fim de semana em Paris, me preparar para receber a minha mãe aqui para comemorar meu aniversário. Tinha também um banheiro em obras me tirando do sério. Pois bem. De lá pra cá foram 3 semanas bem doidas, então vamos lá:

1a semana de março
Muita preocupação com a vizinha Italia, mas no geral a vida aqui caminhando bem "normal". Tirando a prateleira de macarrão e molho de tomate, que estava mais desfalcada, o mercado estava abastecido. No trabalho  rolou um "ensaio" de home office coletivo. Cada dia da semana algumas funções se revezeram trabalhando de casa. Para quem não estava acostumado, a ideia era testar VPN, ferramentas, e ver se estávamos todos preparados caso tivéssemos que trabalhar de casa full time. A minha função ficou em casa na terça, e eu fiquei meio descaralhada das idéias que ninguém da obra do banheiro apareceu. Mandei um email bem puto tipo "e ai galera, faz só um mês que eu to de quebra quebra no banheiro e vocês ai se dando ao luxo de disperdiçar um dia?!?!?!". Spoiler: eles disperdiçaram a semana inteira e não apareceram aqui nenhum dia. Senti que meus nervos estavam esquentando rs. Naquela sexta-feira os casos da Suíça foram de 80 para 180 e a empresa anunciou um rodízio para a próxima semana. Falei com minha mãe, que precisávamos ficar de olho na situação, e que talvez não fosse possível voar. Fomos passar um fim de semana em Zurich e fomos a restaurantes, esquiamos, visitamos apartamentos, e tudo que fazíamos era caprichar no álcool em gel e lavagem de mãos.
Corona, que corona? 
2a semana de março 
A segunda-feira começou passando dos quatrocentos casos e o aumento exponencial de uma chacoalhada na galera. Eu fui ao escritório três vezes na semana, e as pessoas estavam realmente espalhadas, inclusive na cantina. Galera se evitando rs. Nos dois dias que trabalhei de casa quase fui a loucura com o quebra quebra, bate bate e poeira voando. Essa obra precisa acabar, era tudo que eu conseguia pensar.
5 semanas de obra e o banheiro assim...
Eu ainda visitei apartamentos em Zurich, e já comecei a me incomodar de estar na casa de pessoas estranhas, com tanta gente. Na quinta-feira fiz um happy hour com as amigas (e no bar tinha bastante gente sem noção como a gente), e no fim nos despedimos: sabíamos mesmo que não nos veríamos nas próximas semanas. Eu conversei com a minha irmã, pra ela começar a me ajudar na missão de convencer a minha mãe que não seria uma boa vir pra cá messe momento. Ela é teimosa, e não estava afim de desmarcar não.
Eu, minhas amigas e minha mãe rs
Na sexta-feira tínhamos passagens de trem para passar o fim de semana em Paris, e deixamos até o último minuto pra resolver se íamos ou não, mas o juízo (e o medo de ficar quarentenados num hotel, ou de fronteiras fecharem e não conseguir voltar pra casa) falou mais alto e ficamos em casa. A semana terminou com os membros do Conselho Federal da Suíça decretando o fechamento das escolas até o dia 3 de abril. No sábado eu ainda fui dar uma volta na cidade, e lojas, bares, todos lotados num dia ensolarado. No mercado no entanto o medo do suíço deu as caras: prateleiras vazias de tudo. Domingo fomos a um parque natural para fazer uma trilha e começar nosso pseudo isolamento: isolados na natureza.

3a semana de março 
No domingo a noite chegou mensagem do CEO: todos os funcionários de home-office. O desespero bateu. Eu ficando todos os dias em casa não iria conseguir visitar apartamentos em Zurich, e a gente tem data pra saír daqui (aqui falo mais de como é o processo de alugar casa na Suíça e como você TEM que visitar pessoalmente os apartamentos). Além de tudo, a M A L D I T A obra. Fui ao mercado e o abastecimento estava de volta.
Escritório montado
Logo na segunda-feira teve mais uma coletiva do governo, e eles decretaram o fechamento de todas as lojas, bares, restaurantes e tudo mais que não fosse essencial, taté o dia 19 de abril. Remarcamos a viagem da minha mãe para novembro, e eu fiquei bem arrasada. Fui a uma loja comprar uns acessórios pra fazer exercício em casa, e acabamos indo no bar favorito de Mati porque eles estavam vendendo as cervejas que já estavam na pressão com desconto. Nessas alturas, eu já tava olhando todos os desconhecidos na rua e pensando: será que eles me contaminam ou eu contamino eles?! Paranóia crescendo.
Paranóica porém bem linda pra ir no único programa possível: mercado
A semana foi horrível, pra ser bem sincera. O banheiro que não ficava pronto, a sujeira, a crescente tensão e ansiedade de estar vivendo uma pandemia, a preocução com os meus no Brasil. Pra piorar: o pedreiro lacrou o banheiro e não avisou. Para cada xixi, mesmo no meio da noite, teríamos que descer pro terceiro andar (moramos no quinto), onde tinha um banheiro pra gente usar. Foi o dia que eu comecei a duvidar da minha sanidade rs. Chorei pencas, o dia inteiro. Eu entrava em video call com os colegas, e quando saia só fazia chorar. Foi quando senti o isolamento pesando na minha. Outra coisa que me deixou meio desnorteada foi a ideia das fronteiras fechando. É muito simbolismo na minha cabeça e eu fiquei triste. Na sexta-feira eles finalmente terminaram a obra do banheiro, SEIS SEMANAS depois. A casa foi completamente limpa, e ao acordar no sábado, eu percebi que mais da metade do meu sofrimento vinha da casa estar completamente zoneada, zero aconchegante e suja. Saímos dirigindo por aí, e mais de 300km depois, eu estava bem feliz. Dirigir me deu uma sensação de normalidade, e por uns momentos eu meio que esqueci de tudo. Mas em nossas paradas mantivemos distância de tudo e todos. Encerramos a semana com sete mil casos de corona na Suíça.
A serenidade de quem sobreviveu ao caos inicial
Iniciamos a quarta semana de março, a segunda de quarentena. Aqui ainda é permitido sair de casa para caminhar, correr, pedalar, desde que mantendo distância mínima de 2 metros de outras. Sendo a Suíça um país de tantos espaços verdes, é possível manter uma distância muito maior. É o que tem me segurado bem: poder sair uma vez por dia e correr, pedalar. Voltar pra minha casa agora arrumadinha e aconchegante também ajuda rs. Compramos um quebra cabeça de mil peças, livros de colorir, estamos assistindo séries, fazendo facetime com amigos, falando com Baby com maior frequência. Sigo procurando apartamentos, mas ainda estamos vendo como vai ser a questão das visitas. A real é que com o fim da obra, eu já nem vejo mais problema em ficar aqui, e estou considerando conversar com o landlord pra gente ficar mais tempo, até a situação normalizar. A Suíça no momento tem mais de 8 mil casos confirmados. Os testes só são feitos em pacientes graves ou grupo de risco, o que significa que são muito mais do que isso. Embora seja o segundo maior índice de contaminação per capita, a mortalidade segue baixa. Vamos acompanhar o que vai acontecer daqui pra frente.

3 comentários:

  1. Ainda bem que a obra do banheiro terminou. Com certeza uma casa aconchegante e limpa faz toda a diferença para quem precisa ficar em casa. A teimosa da sua mãe... Estou aqui na luta desde que fecharam tudo por aqui para fazer a minha entender, mas parece que a ficha do povo no Brasil ainda não caiu. Ontem ela queria ir no posto de saúde tomar vacina da gripe... Haja meditação para manter a sanidade nesses tempos.

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    1. E assim seguimos... já três semanas de quarentena, e não é que super sã? Realmente, era esse banheiro acabando comigo hahaha agora passou :)

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