Mais de Bern

To bem sem assunto, pra falar a verdade. Estamos aqui preparando a mudança para o próximo fim de semana, tenho trabalhado bastante e tivemos um feriado no meio do caminho. Apesar da vida aos poucos ir se encaminhando para a "normalidade", não tem muito o que contar por aqui. E foi assim que eu resolvi fazer meu tributo final a essa cidade que vai ser sempre tão importante na minha história. Selecionei algumas das minhas fotos favoritas nesses anos, e deixo aqui, uma declaração definitiva do meu amor e gratidão por Bern. 

A piscina de Munsingen, e uma das minhas primeiras imagens do verão Suíço

Os telhados mágicos de Bern e a Munster

A vista mais bonita da cidade, diretamente do terraço do Parlamento

Food Festival na Grosse Schanze, um dos meus programas favoritos

Bern diretamente do Rosengarten, de tirar o fôlego nas quatro estações do ano

Old town, onde eu deixo um pedacinho do meu coração

Quase quatro anos depois...

... eu resolvi olhar esse post aqui, meu primeiro sobre a minha então vida de recém chegada na Suíça, e em Bern. Eu estou entrando num momento bem nostálgico, que é deixar nossa vida em Bern pra trás. Tanta coisa mudou desde que chegamos aqui, e acho que é bem interessante olhar o que eu achava quando estava aqui há somente uma semana. Vamos lá!

- as pessoas misturam as línguas
Misturam médio. Na verdade, o suíço alemão rouba muitas palavras do francês, mas na época eu não sabia (e nem notava algumas diferenças), então fiquei achando que era uma mega mistureba. Por exemplo, eles falam Saliiiii (bem cantado) quando encontram alguém. É claro que é uma referência ao Salut francês, mas é diferente. Mesma coisa o adieu, que eu mencionei no texto da época. É na verdade ade. Tem várias palavras aqui que são usadas em francês: poulet pra frango (Hähnchen em alemão da Alemanha), velo pra bicicleta (Fahrrad), spital para hospital (Krakenhaus), etc. Agora o italiano, embora seja língua oficial no país, só aparece mesmo pro ciao haha. 

- o transporte de uma cidade tão pequena é maravilhoso
É mesmo. Não tenho um pingo pra criticar. O transporte de Bern é incrível, super conectado, pontual, capilar, chega em qualquer lugar. Aos finais de semana tem o Moonliner, que é o transporte noturno. A estação de trem é uma das principais do país, então tem trem para todo canto, muitas conexões, e é tudo prático. Não sei se comentei, mas no verão passado compramos um carro, para fazer viagens, principalmente pra fora do país. E até começar a crise do corona, realmente só usamos o carro pra isso. Aqui em Bern o carro nunca foi uma necessidade, tirando ir na Ikea rs (mas até lá você chega de transporte tranquilamente). 
Os charmosos trams de Bern

- bikes everywhere 
Mais uma percepção verdadeira. A galera de Bern pedala muito, ainda mais se considerar que metade da cidade é pirambeira rs. No inverno claro que as bikes reduzem, mas ainda assim, tem bastante. A grande diferença mesmo se vê em dias de chuva ou neve, é quando tem menos bike na rua. O frio não assusta os berninos (?!?!), mas a água é outra história rs. Claro que tem gente que se aventura na água, mas é bem menos. E claro que Bern não se compara com Amsterdam ou Copenhagen, mas de novo... essas cidades são flat né? 

- Suíços simpáticos no verão 
Mais uma meia verdade. A real é que embora no verão a Europa inteira fique mais feliz, como eu vim a aprender, o bernino (adotei a denominação rs) é simpático o ano inteiro. As pessoas aqui dão bom dia para desconhecidos no mercado, no transporte, nas trilhas, em qualquer lugar. Não, eles não querem ser seu amigo, e não querem nada mais do que isso: ser simpático, ser agradável, ser educado. Algumas semanas depois que escrevi aquele post, eu comprei um livro chamado Swiss Watching, escrito por um inglês morando em Bern há anos, e ele falava disso, como o povo aqui era mais simpático do que os suíços em média. E é uma verdade que não se aplica só no verão. 
Simpáticos e aglomerados num verão pré corona

- o interior é logo ali
BEM verdade. Inclusive eu falei de Worb, mas não precisa ir nem 25 minutos do centro pra achar roça e cheiro de merda de vaca rs. Quandoa  gente morava a 10 minutos do centro de Berna, tinha pasto e vaca quase do lado de casa. Hoje eu vivo no centro da cidade, mas o cheirão de bosta bate forte aqui de vez em quando rs... 
Pedalando e no meio do mato, mas a 10 minutos do centro

- a cidade e o país são caros 
Continua sendo verdade, mas minha perspectiva mudou um pouco. A Suíça é um país sabidamente caro, isso é indiscutível. Mas os salários aqui são muito bons. Acredito que em qualquer lugar do mundo, é difícil para duas pessoas viverem bem com um salário, a menos que tenha riqueza, herança, ou salários extraordinários envolvidos. Aqui não é diferente. Acho que quando se chega na Suíça com padrões de qualquer outro lugar do mundo, fica difícil não se assustar com os preços. Mas é o mesmo com remuneração: a princípio, você cai pra trás com qualquer oferta de salário. Porque no fim, é isso, um país que paga bem e por isso cobra mais. Claro que para quem ta vindo fazer turismo, pra quem não ganha salário daqui, é uma paulada. E isso vai ser assim... mas como residente, eu passei a aceitar esse custo. Inclusive, passei a consumir mais aqui (antes eu consumia muito mais em nossas viagens ao EUA), porque entendo que eu só recebo o salário que recebo, para girar essa economia aqui, que cobra esses preços. Inclusive, passei a observar que, proporcionalmente, minha vida era mais cara no Brasil. Me acompanhem aqui no raciocínio: imagine que você ganha 2.500 reais. Uma blusinha na Zara custa entre 100 e 250 reais. Agora aqui, imagine que você ganha 2.500 francos. Uma blusinha na Zara custa entre 40 e 80 francos (eu poderia ir além e falar de restaurante, de aluguel, e de tudo mais, porque essa conta se aplica. Mas fiquei com brusinha da Zara porque é meu tipo de moeda rs). Uma outra questão é que com o tempo você aprende a consumir melhor: hoje a gente conhece sites de coisas usadas que vendem bicicletas (pra ficar no exemplo que dei em 2016) por valores muito menores do que pagamos na época, aprendemos onde é mais fácil achar coisa em conta, etc.

Uma coisa que aprendi a valorizar: lojas de segunda mão 

- os restaurantes são ruins
Retiro parcialmente o que disse. Realmente, não se acha comida boa em cada esquina, como em São Paulo por exemplo, rs. Mas quando você aprende a navegar a cidade (e ganha uns dinheiros também rs), começa a ficar mais fácil achar coisas boas. Começamos a achar restaurantes mais escondidos, fora do centro, e fora das rotas convencionais, e lugares com comida boa. Acho também que a nossa régua baixou, não nego, principalmente porque gostamos do social, e resolvemos não desistir diante das primeiras decepções. Mas a verdade é: a maioria dos bons restaurantes são comandados por imigrantes: libanês, tailandês, tamil, etíope, etc. Tem sim lugares de comida boa, inclusive eu achei uma MOQUECA (cara, claro) em Bern e fiquei feliz de comê-la. 

- confiança e segurança
Bern segue sendo o lugar mais seguro onde já morei, mas é claro que o fato da minha casa ter sido saqueada quebrou um pouco da magia suíça rs. Eu sigo achando o máximo você, numa capital de país, poder pendurar a conta, falar que volta depois, não registrar coisas em formulário. A confiança vale muito e eu estava certinha quando cheguei. Se hoje eu deixaria uma chave esperando debaixo do tapete? Nem a pau. Sei que fomos azarados... conheço gente que mora em Bern há 7 anos e nunca trancou a casa. Mas pra mim, esse navio partiu rs... 

Tenho lido meus posts do primeiro ano de Suíça, e achado tudo bem fofo rs. Eu estava muito encantada com tudo aqui, mas hoje vejo que também bem realista. Eu sinto que talvez tivesse sido até mais feliz se tivesse me deslumbrado mais rs. Acho bacana perceber que quase todas as minhas percepções, na primeira semana, eram reais, e eu estava tão atenta a minha volta. Não sei quantos anos mais estaremos pela Suíça, mas acho que vai ser sempre gostoso reler as aventuras do começo. E dos recomeços :) 

O que passou, e o que temos pela frente

Abril foi um mês bem estranho. Talvez o mais estranho da minha vida. Em março por quase metade do mês ainda estávamos sem saber do tamanho do buraco em que se enfiou a humanidade rs. Mas abril... parece até que coube um ano dentro de um mês. Além de passar por todos os estágios do luto pelo mundo como ele foi um dia, eu fiz aniversário, nós dirigimos de carro Suíça afora, curtimos muito nossa casa que amamos tanto, eu trabalhei que nem uma doida, e senti saudade da vida normal como a conhecíamos. Mas em momento algum deixei de me sentir grata por, nesse momento tão difícil, ter saúde, ter emprego, ter uma casa aconchegante pra morar, estar num país onde foi possível manter alguma liberdade, e mais do que nunca, reconheci meus privilégios. Abril foi um mês que talvez tenha me mudado pra sempre... 
Churrasco de aniversário na varanda
E aquela festinha online maravilhosa!
Fim do dia no lago de Biel
E sábado de Páscoa fazendo social distancing no Lago de Genebra, em Nyon
A fofíssima Solothurn
E as coisas lindas do bairro que vai deixar muita saudade

Mas eis que maio chegou e junto com ele, a proximidade cada vez maior do tal "new normal". O governo suíço começou o plano de reabertura gradual, e no dia 11 de maio muitas coisas vão abrir, inclusive restaurantes, museus, etc. Tudo, claro, com regras de higiene e distanciamento. Na empresa em que trabalho, no entanto, eles não estão com pressa para voltar ao escritório, e não há previsão de voltarmos pelo menos até julho. Apesar de sentir saudades do contato humano, das interações e tal, agora que me adaptei BEM adaptada a trabalhar de casa todos os dias, não to com pressa também. 

Estou amando viver minha casa linda em sua plenitude, e ainda mais, poder pedalar e curtir Berna na luz do dia, sem ter que gastar horas do meu dia em transporte, e aos poucos, ir me despedindo dessa cidade que foi nossa primeira morada na Suíça, e que nos acolheu tão bem. Mais do que isso: Berna me fez viver a vida suíça com muito mais intensidade, e sem dúvidas, me integrei muito mais ao país por estar vivendo aqui. Tínhamos viagens programadas para esse mês, e foi tudo devidamente cancelado, mas eu nem liguei muito. Esse mês será de organizar a mudança, fazer aquele exercício cansativo e necessário de olhar pra cara de tudo que acumulamos desde a última mudança, ver o que precisa ficar, doar o que deve ser doado, vender o que deve ser vendido, empacotar tudo que vai, e no dia 30 de maio, levantar acampamento. 

Sinto que maio será o mês dos recomeços. Que seja bom pra vocês! 

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