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| Interrompemos a programação de férias para dizer que.... |
... hoje faz um ano que chegamos com nossas sete malas de 32kg, duas malas de mão, duas mochilas nas costas, coração apertado e muita vontade de fazer tudo dar certo. As vezes penso que os anos passam de pressa e os dias passam devagar. Porque se por um lado parece que foi ontem que me mudei, por outro parece que faz anos que estou aqui me debatendo com a língua, com a casa, com a nova vida. Acho que um ano é pouco e ainda preciso de muito mais tempo para descobrir a Suíça e decifrar o povo suíço, rs. Mas resolvi, para celebrar essa data, listar aqui algumas impressões que tenho hoje sobre o país. Hoje bem grifadinho, porque elas podem mudar.
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É um país absurdamente plural para o seu tamanho
Dizer que o Sul e o Norte do Brasil são como países diferentes, em termos de cultura, sotaque, clima, etc, é chover no molhado. Mas para pra pensar: para ir do sul ao norte do Brasil precisa-se de 6 horas de voo - o Brasil tem dimensões continentais e falar de Porto Alegre e Manaus, em distância, é como falar de Londres e de Istambul. Agora pensa que eu to aqui, de boa na minha casa, entro no trem que passa aqui na porta, desço 50 quilômetros pra frente num lugar em que as pessoas falam outra língua - sim, língua, e não dialeto - tem outra religião dominante, tem outros feriados, outras regras sociais. Pois é. Embora eu soubesse disso, é bem surreal quando você vive a coisa. A impressão que eu tenho da Suíça é que os tais cantões que se juntaram e formaram a Confederação Helvética somente o fizeram por proteção e conveniência mesmo, porque unidade é algo que por enquanto só vi no Feriado Nacional e durante as Olimpíadas rs. Os dialetos de uma cidade para outra se diferem, de um cantão pro outro nem se fala. As vezes quando viajamos por aí parece que estamos mudando de país, porque de repente tudo fica diferente - o sotaque, o cardápio, a arquitetura, o estilo de vida dos moradores. Mas na verdade só saímos de um Cantão pra outro. E é por isso também que muito do que eu vou dizer nesse post se refere a Berna - e quem vive em Genebra talvez tenha uma experiência bem diferente da minha.
As pessoas são muito simpáticas mas não amigáveis
Aqui em Berna você chega num ponto de ônibus e todo mundo se cumprimenta. Quando você está fazendo trilha, ou caminhada, todo mundo que se cruza, se cumprimenta. No mercado o caixa sempre te deseja um bom dia, uma boa noite, dependendo do horário. O motorista de ônibus também. E é assim... Todo mundo faz um small talk, uma simpatia gratuita. Agora ser amigo? Ah, isso os suíços estão bem de boas. Eu confesso que tenho pouco contato com suíços. Como não trabalho, meu contato se resume aos professores de alemão, às colegas de ballet e a alguns parceiros de colegas de Mati. Os professores são abertos na medida que um professor acha ok se abrir com alunos, normal. Os parceiros dos colegas de Mati são sim mais abertos, a começar porque seus pares são estrangeiros e né... é um grupo, colegas de trabalho e tal, claro que o pessoal vai ser mais amigável. As meninas do ballet? Depois de quase 10 meses nos vendo toda semana, eu tenho um telefone aqui na agenda, consegui sair fora da aula com uma delas, e no último mês duas delas resolveram perguntar um pouco mais da minha vida, só. Fora a minha experiência, eu escuto cada história... A melhor delas foi de uma moça romena que trabalhava todo dia com uma suíça, e as duas apaixonadas por plantas, sempre batiam papo sobre o assunto. Depois de três anos, a suíça perguntou pra ela: você gostaria de ver minhas plantas? Ela ficou toda animada achando que seria convidada para a casa da colega, né... Pois recebeu um CD com fotos das plantinhas hahaha. Não é lenda. Essa história eu ouvi da boca da colega frustrada. Dizem que é difícil fazer um amigo suíço, mas quando você faz, é pra vida. Eu ainda estou esperando pra ver.
Faz calor na Suíça
O brasileiro em geral acha que neva o ano inteiro na Suíça, rs. Isso é um fato. Já recebi trocentas mensagens de como vai o frio aí, enquanto to aqui suando em bicas. Mas a verdade é que mesmo sabendo que existe verão e tal, eu não esperava uma estação tão marcada. Desde junho os dias estão quentes, e as noites as vezes também. O normal é dar uma caída na temperatura quando escurece, e logo de manhãzinha, o que é pra mim a descrição de dia perfeito: fresco enquanto durmo, calor enquanto estou acordada. Mas estou mesmo surpresa com o tanto de dias em que a temperatura passa pra cima dos 25 graus, alguns dia até dos 30. Isso é algo que eu realmente não esperava da Suíça. Sabia que teria dias quentes, mas não sabia que seria uma característica do verão - um verão efetivamente quente. Dizem que antigamente não era assim... mas taí, o aquecimento global é real, e eu sinto um pesinho na consciência por amar os dias aqui como eles são. Portanto, se for fazer as malas pro verão na Suíça, lembre que aqui faz calor sim.
É um país eficiente
O transporte é dos sonhos, exatamente como imaginamos. Os trens quase sempre estão na hora - quando atrasam a previsão vem sempre escrita no painel. As conexões são curtas, e é tudo programado para que você chegue de A a B sem maiores transtornos. Nevou cântaros? Sem problemas. As máquinas passam, os trilhos aguentam, sei lá o que eles fazem, mas tudo funciona. Véspera de vencimento do visto? Recebemos a cartinha aqui em casa pedindo para levarmos a documentacão na Gemeinde (tipo a prefeitura) e logo recebemos visto novo. Seu filho ta em idade de começar a ir pra escola? Você vai receber uma carta com instruções sobre o que fazer. E esses são alguns exemplos, mas a real é que, repito, tudo funciona. As vezes a passos meio lentos, verdade, mas funciona.
Vizinhos são o grande problema da sociedade suíça
Logo quando chegamos um amigo nos sugeriu que procurássemos um prédio que não tivesse somente moradores suíços. Recebemos esse conselho 10 minutos antes de receber a ligação avisando que tínhamos conseguido nosso apartamento e aí já era tarde demais. Acabou que aqui no meu prédio tem um só apartamento de suíço, sendo meus outros vizinhos portugueses, turcos e kosovares. E acho que isso explica o total de zero tretas que tivemos até agora, mesmo com uma festinha barulhenta que demos no meu aniversário. Eu realizei que o problema era sério de verdade quando na aula de alemão tivemos uma lição sobre briga entre vizinhos. E é sério mesmo. Já ouvi caso de quem tomou puxão de orelha porque limpou a casa num domingo, de gente que tomou xingo do vizinho porque conversava enquanto comia as 23h da noite, e tivemos o caso extremo de amigos que se mudaram porque era tanto problema que não dava mais. Depois de um ano somente. E sabe que tipo de problema? Receber um SMS as dez e meia da noite dizendo "não acredito que vocês estão tomando banho a essa hora". Ou ainda "não gosto de você porque você não está estudando alemão". Pois é. Por essas e outras que eu penso que não me mudo do meu apartamento por nada hahaha.
O outfit oficial do suíço
Antigamente se alguém me perguntasse o que eu imaginava da moda suíça, acho que diria roupas discretas e elegantes arrematadas por relógios caros. Não fica muito longe disso, pessoal aqui é bem básico no dia a dia. Mas hoje, se tivesse que descrever um estilo, um look, para resumir como o povo suíço se veste, eu diria que assim:
O suíço ta sempre pronto pra fazer um hiking hahaha. É incrível como o povo ta sempre pela rua com sua botinha, com seu aparato da Jack Wolfskin, da North Face, os mais velhos com seus sticks, e assim vai. Até as crianças. No inverno você troca esse short aí por uma calça e de resto fica tudo igual. A botinha, a jaquetona, a pinta de quem vai entrar no meio da floresta, armar a barraca, fazer um fogo direto da lasca da pedra hahaha. Eu diria que o estilo suíço é o estilo escoteiro.
É um bom país para se mudar
Principalmente se você for marinheiro de primeira viagem na vida de mudanças internacionais, como eu era. Se por um lado o suíço não parece exatamente querer fazer muitos amigos, por outro devo dizer que é um país relativamente fácil para ser estrangeiro. Pra começar que o tanto de gente que fala inglês aqui é absurdo, ainda mais se comparado com o Brasil. Nas cidades, nas áreas centrais, basicamente todo mundo fala. Outra que tem muito, muito estrangeiro aqui. O número oficial gira em torno de 24% da população do país, chegando a 40% em algumas cidades. Eu discordo um pouco desse número porque nele entram filhos, netos de estrangeiros que imigraram pra ca há 50 anos, e que nasceram aqui, são integrados, mas não tem o passaporte. Mas ainda assim, é um número altíssimo. Ou seja, se você não fizer nenhum amigo suíço, no big deal... Há toda uma comunidade de estrangeiros para socializar, gente que passa pelos mesmos perrengues que você, que sofre nas aulas de alemão com você, que ta longe de casa, que ta na luta e que está a procura da sua turma.
Foi um ano. Não sei se o primeiro de muitos, ou o que. Mas me sinto orgulhosa de tudo que realizamos, de como passei do choro diário, da saudade, da frustração absurda, de me sentir turista na minha própria casa, ao aconchego, à sensação de quase pertencimento. É uma jornada mesmo, e é longa. Sinto que ainda estamos no começo. E que venha o segundo ano na Suíça!





