Puppy blues: eu tive

Em algum post aqui atrás, contando sobre a chegada de Carlito, eu falei de brincadeira sobre o puerpério canino que me acometeu. A real é que não foi bem brincadeira, e eu descobri então que existe um negócio chamado puppy blues. 

Os primeiros dias da chegada de Carlito foram só festa. Meu sonho de ter um cachorro vem desde que eu não me lembro, acho que eu tinha uns 4 ou 5 anos. Lembro de ter trazido vários animais de rua pra casa, que sempre foram sumariamente proibidos pela minha mãe. Ao longo dos anos, eu sempre fiquei pensando quando seria a hora de realizar esse sonho. Mati sempre teve cachorro com os pais, então desde a nossa união, esse papo também foi recorrente. E chegando na Suíça, que é um país extremamente pet friendly, a gente acertou que era questão de tempo. Ou seja, o cachorro foi mais do que planejado.

Depois de uns dois dias dias de Carlito aqui, eu comecei a sentir uma agonia, uma ansiedade, que foi aumentando exponencialmente. Eu não vou entrar em muitos detalhes, porque sei que foi também uma crise inflamada por outras questões, mas Carlito acabou sendo o gatilho de um breakdown nervoso depressivo que eu nunca tinha tido, e jamais teria imaginado. Por 10 dias, eu não consegui sentir alegria por te-lo na casa, e morria de culpa por isso. Eu chorei provavelmente uma semana sem parar, eu tive dias de não conseguir sair da cama, eu tive que faltar no trabalho porque simplesmente eu chorava tanto que não conseguia pensar, e diante do desespero de achar que eu passaria a vida daquele jeito, pensei seriamente que se isso não passasse eu teria que devolvê-lo. Por dias a fio, eu achava que só devolvendo ele eu iria restaurar a paz na minha vida. Claro que eu não ia devolver um cachorro assim, depois de uma semana. Claro que eu ia tentar fazer funcionar, mas naquele momento eu tinha poucas esperanças de que ia dar certo. 

Veja bem, ele é um cachorro super sossegado, não causou tumulto, não comeu móveis, nem sapatos, teve pouquíssimos acidentes de fazer as necessidades dentro de casa, é super amoroso, ou seja, é muito melhor do que a gente tinha imaginado. Eu tinha me preparado pra um furacão, e le chegou super tranquilo. Mas mesmo assim, sendo bem realista, eu me senti extremamente infeliz. Eu sabia das mudanças todas que um cachorro traria pra nossa vida, e eu estou há muito tempo me sentido pronta pra elas. Mas eu achava que a alegria que seria ter ele iria se sobrepor a essas mudanças. E chegou na hora, o sentimento faltou. Eu não me senti feliz, eu não conseguia sentir um segundo de felicidade, toda a alegria que eu imaginava não chegou, e então todas as mudanças perderam o sentido, e eu fiquei a deriva, só com um buraco no peito que eu nem conseguia explicar. Em algum momento, vendo meu marido incrédulo diante da depressão que eu sentia, eu tentei explicar: é como se a luz que eu tinha dentro de mim tivesse apagado.  

Infelizmente, dividindo a angústia com amigos, em muitos momentos me senti incompreendida. Eu não queria ouvir que "ahh não fique assim, cachorro é tudo de bom". Ou ¨que estranho", ou ainda "mas o problema é cuidar dele?". Uma porque não era, outra porque pra diagnóstico eu já tinha entrado em contato com a minha psicologa no Brasil. Eu queria era me sentir ouvida, compreendida. A reafirmação contínua de que a minha reação toda era estranha, fez eu me senti irresponsável de ter pegado um cachorro, que eu fiz tudo errado, que todo mundo fica feliz com o cachorro, e se eu não estava, é porque eu tinha feito merda. Depois de ficar cavando coisas pela internet (porque não é possível que com esses 7 bilhões de gente no mundo, eu seja a única a sentir algo assim), eu achei alguns relatos no reddit, como esse aqui, que pareciam ter sido escritos por mim, e isso me trouxe uma calma tremenda. Saber que isso é normal, que acontece, me fez sentir mais tranquila, menos ET. Indo atrás, eu descobri que existe sim uma coisa chamada puppy blues, em clara referência ao baby blues, que é aquele período pós parto em que a mãe tem variações de humor, sofrência, e principalmente, em que solidão trazida por um bebê recém nascido se impõe. 

Eu não vou ficar falando aqui que as pessoas tem que aguentar firme, que isso passa. Foi uma barra. Realmente, passou pra mim. Hoje fez um mês que Carlito chegou, e eu não vejo mais a nossa casa sem ele. Depois de uns 10 dias de sofrimento, as coisas começaram a se acalmar, e eu comecei a criar uma relação com ele, e a sentir a tal alegria que eu imaginei desde sempre. Estamos felizes, em harmonia, e tudo certo. Mas eu achei que valia a pena colocar esse relato aqui, por alguns motivos: 

1- eu nunca tinha ouvido falar disso. Talvez você também não. Então se você estiver lendo isso porque esta se sentindo assim, porque o google te trouxe aqui, sinta-se abraçado

2- numa outra oportunidade, irei tentar focar no medo do julgamento alheio. Eu há muito tempo não ligo muito pro que as pessoas pensam, e ainda assim, pela primeira vez em anos, eu me senti desesperada. A ideia de devolver o cachorro era péssima inteira, não era uma solução completa, principalmente porque ele ia sofrer, mas sendo bem honesta, eu me peguei com medo do que as pessoas iriam falar. Eu estava com minha saúde mental em frangalhos, e me sentindo prestes a virar um alvo da fúria da galera do bem da internet. Acho que tem material aqui pra um post meu, mas também pra uma reflexão de todos nós

3- vamos escutar mais as pessoas que se abrem com a gente. Não é de hoje que eu percebo - e eu sou culpada de fazer isso também - que todos desabafos e conversas com amigos são sucedidos de conselhos, opiniões, idéias do que fazer. Ninguém mais escuta por escutar, pra ouvir, pra acolher. Ta todo mundo meio ouvindo e meio já pensando na resposta que vai dar, em como dar comandos praquela pessoa resolver, e falar o que o outro tem que fazer. Isso anda me irritando cada vez mais, e nesse caso específico, me fez sentir muito solitária 

E com isso, fica aqui a minha experiência. De novo, eu não tenho nenhum objetivo específico com esse post além de colocar pra fora algo que aconteceu comigo e que no fim, é mais comum do que eu supunha. Não vou falar pra ninguém segurar firme que vai passar, não vou botar shame em quem, vivendo algo semelhante, devolveu o animal, não vou, agora que tudo passou, diminuir o sofrimento que senti. Talvez, além dos três pontos acima, eu gostaria de dizer: cuidemos da nossa saúde mental. Tem muito mais armadilha por aí do que a gente sabe. E a gente está muito mais vulnerável a elas do que imaginamos. 

Adotando um cachorro na Suíça

Desde que eu postei as primeiras imagens de Carlito no meu instagram, choveu mensagem de gente perguntando que raça, quantos anos e onde eu comprei ele. Primeira coisa: há pelo menos uns 10 anos, tomando consicência da causa animal, e do tanto de cachorro abandonado mundo afora, comprar um cachorro de raça de canil ficou pra mim fora de questão. E foi assim que, mesmo morando num país em que não há animais de rua, eu resolvi que adotaria um cãozinho, e de preferência mais viralatudo. 

(Gabriela, como assim não tem animal de rua na Suíça? Pois é, não tem. Aqui há leis e regras regulamentando o relacionamento com animais, e abandono é crime. Todos os cachorros e gatos são chipados, e se o seu cachorro for encontrado vagando nas ruas por abandono, você está encrencado. Ainda há sim quem abandone o animal de estimação por N motivos, mas esse processo normalmente é feito diretamente nos abrigos) 

A adoção
Voltando, dado que a Suíça tem pouca oferta de animais para adoção, muitos abrigos aqui fazem parcerias com abrigos de outros países onde o abandono é bem comum, como Italia, Espanha, Hungria, Romenia, Grécia. Os abrigos daqui intermediam o processo. Nós estamos há anos planejando a ideia do cachorro, já chegamos a aplicar pra um cachorro há dois anos, e sempre procuramos por essa data base, TierOnline, que é um portal que agrega os animais disponíveis nos abrigos da Suíça, e também desses abrigos parceiros em outros países que se dispõe a enviar o animal pra cá. 

Os dois processos pelos quais passamos (o de dois anos atrás e o de agora) foram bem rigorosos - e foi por isso, inclusive, que em 2018 a nossa tentativa não vingou. Eles querem saber a rotina da família, disponibilidades, expectativas, infra estrutura da casa, e tudo relacionado ao bem estar do animal e a vontade de fazer dar certo. O nosso questionário tinha coisa de 6 páginas, com todo tipo de pergunta que você pode imaginar: quantas horas as pessoas passam fora, planos para o lazer do cachorro, o que fazer em caso de viagem, nível de experiência com cachorros, o que fazer em caso de divórcio. Uma vez aprovado, é feito um home check. No nosso caso, por conta da pandemia, esse home check foi adiado, e aí como veio a nossa mudança, nós pedimos para eles aguardarem e fazerem isso já no lar novo, onde o animal efetivamente moraria. Quando a data chegou, as regras de distanciamento já estavam mais relaxadas e veio uma pessoa aqui, conferiu se tudo que a gente reportou no questionário com relação ao espaço e condições era verdade, e também fez outras perguntas. Com o green light dela, Carlito começou a ser preparado para viajar. 

O cachorro pode ser entregue para a família, normalmente castrado e chipado. Se não houver a chance de fazer a castração antes, no contrato vem essa cláusula de que os novos tutores irão castrar o animal assim que possível. 
Depois da castração, com o cone of shame

Mas no nosso caso, Carlito estava na Hungria. E aí entra outro processo, que é o de trazer um cachorro de outro país para a Suíça (e nem vou entrar no mérito de que, na semana em que nós fomos aprovados, foi declarada a situação de emergência pelo corona, e nós tivemos que esperar 3 meses por ele). 
Carlito em sua última consulta antes da viagem
E aqui já embarcado, pronto pra viajar da Hungria para a Suíça

A imigração
O cachorro foi chipado, e então emitiram um passaporte europeu pra ele. No passaporte, além de ficar registrado os dados dele e dos futuros tutores, também ficou registrado o número do chip, e então das vacinas obrigatórias, acho que é a anti rábica somente. Eu pedi ainda que aplicassem as outras vacinas recomendadas, mas não obrigatórias. 

No dia da viagem, nós deveríamos fazer a imigração dele na Suíça. Então encontramos com o motorista que o trouxe na fronteira com a Áustria, antes da entrada na Suíça. Com ele já no carro, paramos na aduana Suíça e fizemos a declaração e entrada dele. O valor a ser pago é de acordo com o valor do animal. No nosso caso, Carlito é um viralata, mix de puli com alguma coisa, e a taxa do abrigo (para cobrir as despesas médicas, de emissão de passaporte, e pelos cuidados) foi de 245 euros, então a nossa taxa imigratória foi com base em animais que custam até 500 francos. Pagamos 39 francos. No caso de um animal de raça, cujo valor padrão seja de mais de 500 francos, a taxa vai ser outra. Eu vi uma tabela na tela da polícia, mas não me atentei aos outros valores.
O nosso encontro, e eu inchada por motivos de: chorei para caraleooo

A regularização na Suíça
Chegando na Suíça, o tutor tem 10 dias para registrar o animal no Amicus, que é uma database nacional. Esse registro deve ser feito com o acompanhamento de um veterinário obrigatório. Então o procedimento é: ligar no Hundekontrolle (ou veterinäramt) do seu cantão de residência, e pedir o número de identificação do seu cachorro. Aqui em Zurich esse procedimento pode ser feito online aqui, e eu recebi o número por email coisa de 20 minutos depois, bem rápido. Com esse número, você marca vai ao veterinário e ele faz o registro no Amicus. 

E aí, sendo Suíça, os procedimentos estão todos feitos e só sobra as contas rs. Pagamos 180 francos de taxas federais, estaduais e municipais, que recebemos por email junto com o número de idenitificação. Sei que a federal é uma vez só, justamente por conta desse registro no Amicus. As taxas municipais e cantonais, que no nosso caso, de um cachorro pequeno, foram juntas de 50 francos, são anuais. Além da manutenção dessa "vigilância sanitária", esse imposto também paga pelos saquinhos de coco de cachorro espalhados pelo país, que eu acho muito bom. 

Com isso, seu cachorro está devidamente adotado e regularizado. 

Opcionalmente, eu fiz também um seguro saúde para ele. Para o dia a dia e consultas, os preços aqui são bem razoáveis. Mas em caso de acidentes, cirurgias, internações, os valores podem escalar bem rapidinho. Tendo ouvindo de amigos que gastaram 3 mil francos com um problema canino, eu optei por fazer o plano. Tem algumas possibilidades, e o meu eu fechei com a Animalia, um braço da Vaudoise. 

E aqui um Carlito relax com seu penteado de verão :)

Espero que esse post seja válido para alguém que esteja pensando em adicionar um animal à família. Não compre, adote <3

Follow @ Instagram

Back to Top