Outubro na Sicilia

Todo ano eu sofro pencas com o fim do verão e fico pensando em como evitar a chegada do inverno ao máximo rs. E foi com isso na cabeça que eu decidi que iríamos pra Sicília em outubro, quando marido tem as férias de outono. A ilha é imensa, e muita gente dá a volta nela em 2 ou 3 semanas. Pra gente esse plano não fazia sentido, porque só tínhamos uma semana, e com criança. Então resolvi que focaríamos em um lado só da ilha. Optamos por voar para Catania, pois esse lado da ilha tem bastante cidades interessantes, e as praias são mais pedregosas. O lado de Palermo, pelo que entendi, tem praias de areias claras e finas, perfeitas para uma criança fazer castelos e brincar na água rs. Dominic à época estava com 9 meses, ou seja, muito cedo pra isso. Ficaria perfeito explorar um lado agora, com calma, e deixar o outro para um futuro ensolarado não muito distante. 

Para visitar as cidades que queríamos, optamos por passar 4 noites em Noto, e depois outras 3 em Taormina. Assim poderíamos visitar bastante coisa, mas sem fazer trajetos muito longos de carro. Nessa época Domi já estava mais acostumado com o carro, mas ainda assim não dormia, e definimos que o ideal seria não passar mais de 1h no carro em cada trajeto. 

Noto 

Nosso apartamento em Noto era bem central, belíssimo, espaçoso, bem equipado. Os donos, um casal de aposentados muito simpáticos, deixaram uma cadeirinha de criança e um berço, perfeito. Logo em frente tinha um café onde todos os dias tomamos nosso capuccino com corneto enquanto decidíamos o que fazer. O corneto lotado de creme, do jeitinho que eu gosto. Acabou que a parte mais interessante de Noto, o centro, é bem compacto. Em nosso primeiro dia andamos por ali com bastante calma. Entramos nas igrejas, observamos o vai e vem de gente, as lojinhas, almoçamos muito bem no Anche gli Angeli, um restaurante bem kitsch. Quando saímos, estava chovendo e voltamos pra descansar em casa. No fim do dia resolvemos dirigir até Avola, um nome muito familiar por conta do vinho Nero d'Avola, que eu amo. Spoiler: a cidade não valeu a viagem rs. Embora seja costeira, é uma vila bem sem graça. Pra completar, era domingo, tudo fechado. Como o bebê estava dormindo no canguru, aproveitamos para andar um pouco com a vista do mar, e voltamos embora. Andamos mais um pouco pelas ruas de Noto, mas percebemos que fora ali do centrinho ela não tem muito a oferecer. 

Capuccino com corneto e tetê de todo dia

Pelas ruas de Noto


Mercadinho de antiguidades

E o por do sol em Avola


Ortigia 

Uma ilha muito charmosa na cidade de Siracusa. A princípio eu tinha feito reserva pra gente se hospedar em Ortigia, mas depois acabamos mudando de ideia e fomos pra Noto. Ortigia definitivamente é mais mais animada - e também mais turística, tem lugares com cara de tourist trap, muita loja de quinquilharia, mas uma vibe muito solar e festiva. Nós passamos um dia inteiro andando pelas ruínhas, almoçamos, tomamos um gelato delicioso, e quando cansamos de andar, encontramos um Beach Club. Ortigia em si tem uma praia bem pequena, o melhor mesmo é explorar as praias no entorno de Siracusa, que são bem bonitas. Mas a temporada meio que se encerra no fim de setembro, a maioria dos restaurantes e clubes de praia fecham, e a gente não quis se arriscar com uma criança num lugar onde talvez não tivesse o que comer rs. Então nos contentamos com o Beach Club de Ortigia, que tava vazio, mas com música boa e vista mais do que boa rs. Ficamos lá até o pôr do sol, que foi bem bonito, e então passamos num mercadinho, compramos umas pastas e voltamos pra casa. Embora não dê pra dizer que deu praia, só de ter ficado ali tomando um solzinho de biquini, eu senti que tinha sucedido no meu plano de estender o verão. 







Ragusa 

Uma surpresa. Eu queria passar o dia em Marzamemi, uma praia rs. Marido achou que seria furada, e que devíamos ir pra Ragusa. E que bom que fomos. Já no caminho a gente teve uma vista bem pitoresca, das duas partes de Ragusa encrustada em rochas, com um vale no meio. A cidade é super antiga, datada do Império Romano, e tem duas partes, que se separam pelo vale. A cidade baixa fica a 300 metros, e é a parte antiga. Se você cruzar o vale, e subir muitos degraus, você chega numa cidade alta, que é mais nova. Nós acabamos ficando só pela cidade baixa, porque subir o tanto de degraus que precisaríamos subir não estava nos nossos planos. 

Ragusa antiga é um desbunde. As ruas, as igrejas, as vistas. É muito bonita! Mas tem que ter perna, viu.. é cheia de escadas rs. Aliás, um parêntese:

(pra essa viagem achamos uma passagem com horários melhores saindo de Basel. Optamos por dirigir até lá e deixar o carro num estacionamento de longo prazo. Enquanto estávamos colocando as coisas no carro, eu coloquei nosso carrinho de viagem do lado.. e   e s q u e c i. Pois é, eu simplesmente esqueci o carrinho do bebê. Só percebi quando chegamos em Basel e começamos a tirar as coisas do carro rs. E na hora eu fiquei muito puta, mas já comecei a olhar no facebook marketplace de Noto e redondezas rs.. Achei uns por 80 euros, ia comprar e na hora de ir embora daria pra alguém no aeroporto, no achados e perdidos, sei lá. Acabou que nos primeiros dias a gente não conseguiu combinar com a mulher a hora da entrega, e aí eu percebi que a Sicília é tão cheia de escada, que o carrinho ajudava mas não muito. Optamos por seguir só de canguru. Dominic tinha 9 meses, então foi possível. E no fim, em Ragusa e Taormina o carrinho teria sido um aborrecimento, de tanta escada que tem. Mas não é o cu da cobra?! A pessoa compra um carrinho de viagem, e na hora de viajar esquece)

Andamos por todas as ruazinhas de Ragusa antiga, e sentamos no I Bianchi, um restaurante muito gostoso, com mesas na calçada, comida deliciosa, e até uma lojinha para você levar uns produtos deles pra casa. 


Ragusa lindíssima e as cabeças sicilianas



Taormina 

No meio da nossa semana, levantamos acampamento e seguimos em direção a Taormina. No caminho, paramos para dar uma volta e almoçar em Catania. Passamos pouco tempo pela cidade, e o pouco que vimos, achei uma cidade bem agitada, vibrante e divertida. Numa próxima oportunidade eu dedicaria um tempinho a mais. 



Mercado e entorno de Dumo de Catania


Chegamos em Taormina debaixo de muita chuva, mas já deu pra ver a beleza da cidade, que fica no topo de uma rocha. De Taormina nós fizemos uma única day trip, até Linguaglossa, uma cidade aos pés do Monte Etna. Foi um dia chuvoso, então não conseguimos avistar bem o vulcão, mas achei bem curioso que a cidade tem até lojas de esqui. Eu não fazia ideia, mas no inverno as pessoas esquiam no Etna, uma loucura! Com um bebê, optamos por não subir o vulcão, o que é possível fazer por trilhas, carro, e também uma gôndola (que seria a nossa opção). Em Linguaglossa eles produzem vinhos da região, que são bem bons. Almoçamos, tomamos um vinho, e aproveitamos um dia que estava bem sorumbático. 

Em Linguaglossa, nesse lugar aí, lá no fundo, num dia claro se vê o Etna



De volta a Taormina, nossos dias se resumiram a andar pela vila linda, comer coisas MUITO gostosas, observar as pessoas indo e vindo, e praia! Sim, demos muita sorte com o tempo num dos dias. Abriu um sol delícia, e nós aproveitamos para passar o dia inteirinho na beira do mar. Da cidade dá pra pegar um funicular e descer até a beira da água (da pra ir a pé também rs), e assim fizemos. 








Taormina tem também um anfiteatro romano belíssimo, e as vezes tem óperas, concertos, e deve ser lindo assistir algo assim lá. Enquanto a gente estava lá, teve um show, mas não estávamos em momento de ir rs. Aliás, outro parêntese:

(O que o instagram não mostra rs. Dominic começou a ter febre muito alta logo na nossa primeira noite em Taormina. Depois de dar anti térmico, e esperar 24h que a coisa se resolvesse por conta própria, como a febre não baixava e ele estava bem derrubado, tivemos que encontrar um pediatra para examina-lo. Resultado: bebê com faringite e otite. Apesar de estar bem amuado, ele não estava choroso, nem nada, só estava mais quieto do que seu estado de caos permanente de costume rs. Continuamos nossos passeios com ele no canguru normalmente, e no dia que passamos na praia, ele só fez dormir, o que na verdade foi bem conveniente rs.)

Agora, impossível ignorar as hordas de turistas, em grupos, em bandos, sem bandos, muitos, que dominam Taormina, ainda mais durante o dia. Acho que a cidade em si já tinha um apelo fortíssimo, pois é mesmo linda, tem uma vista de tirar o fôlego, e ainda por cima teve White Lotus, né rs. Eu acho que no verão deve ser um caos insuportável. 

Sei de gente que já foi pra Sicília até em novembro e pegou, sol, calor e praia. A gente não pode reclamar, mas não pegamos esse tempo fabuloso não. E ainda assim, A M E I! Não vejo a hora de voltar, e curtir o outro lado, as praias de areia fina, e a comida siciliana maravilhosa. A Itália não decepciona nunca!


 

A mãe do Dominic

Quase todos os dias a noite, depois que meu filho dorme, eu olho as fotos que tirei dele no dia, ou volto a galeria lá atrás quando ele era muito pequeninho, ou um dia que ele fez algo engraçado, ou quando eu vesti ele de abóbora para o Halloween. Ele vai dormir, e eu finalmente tenho tempo pra não fazer nada, pra ficar de perna pra cima, e o meu fazer nada é ficar olhando pra ele rs.. a versão dele que dá pra olhar deitada de perna pra cima, que é a versão em foto e vídeo rs. 


Eu escuto muitas pessoas falando que a melhor parte da maternidade é o tal do maior amor do mundo, do amor incondicional e puro que só uma criança tem, amor amor amor. E, realmente, tem, sim, um amor avassalador. Eu tenho muita preguiça desse discurso de que só uma mãe conhece o verdadeiro amor, o maior amor do mundo e não sei o quê, e eu discordo, mas isso é assunto pra outro post. 


O que eu queria mesmo falar é que pra mim, a melhor parte da maternidade é assistir o Dominic existir. Assistir, assim, de tão perto, um ser humano se desenvolver, desabrochar, aprender, é algo para o qual eu não estava preparada. A gente sabe que a criança vai aprender a andar, a falar, a se expressar... e mesmo assim, quando o processo começa a se desenrolar na frente dos seus olhos, naquela criança que saiu das duas entranhas, é mágico, e é deslumbrante. Dominic, com um ano e cinco meses, está com o cérebro em franca expansão. Todos os dias eu fico embasbacada ao perceber novos aprendizados, palavras, habilidades, um olhar atento pra algo. E enquanto estava deitada vendo um jogo xoxo da Copa, intercalando entre olhar a tv e olhar a carinha dele no meu telefone, me deu vontade de vir aqui falar sobre a minha maternidade. 


Eu falei aqui sobre os primeiros seis meses, num momento em que eu estava começando a relaxar, a me encontrar como mãe. Embora eu tenha amado meu bebê desde que soube que ele estava na minha barriga, e tenha sentido esse sentimento superlativo, doido, imenso, no momento em que ouvi o choro dele, eu não me senti mãe desde o começo não. Mas me sentindo ou não, eu virei mãe, a mãe do Dominic. 


E eu lembro que, ainda grávida, eu pensava muito, manifestava muito, que eu queria viver uma maternidade leve. Eu queria não deixar meus medos, meus traumas, dominarem a forma como eu me relacionava com meu filho e o apresentava para o mundo. Mas ali, naquelas primeiras semanas e meses, eu já caí do cavalo porque foi tudo menos leve rs. Eu tive um baby blues pesadíssimo, muito perto de virar uma depressão. Eu me sentia amedrontada, quase paralisada, incapaz de cuidar do meu filho e de entender suas necessidades. O meu estado de absoluto alerta, as dores pós cesária, a cesária em si, impactaram a minha amamentação, e eu entrei numa pira que durou até outro dia aí rs. E ai eu lembrava que eu queria viver isso tudo com leveza, e sentia mais ainda o peso de estar completamente enlouquecida, chorava mais, uma bola de neve. 


Eu não sei exatamente quando a chavinha virou, mas num dado momento, acho que quando ele deixou de ser um recém nascido, eu percebi que eu estava mais tranquila. O bebê começa a dar risada, olhar pra você como quem te vê, e eu comecei a curtir a companhia do meu filho, em vez de me sentir intimidada por ele. Também comecei a colocar muitas coisas mais em perspectiva, e aquele medo de estragar a criança pra sempre foi se dissipando... Comecei a pensar mais na relatividade de tudo, e entender que, quando você ta no olho do furacão, dormir mal por noites a fio é terrível, mas um dia você acorda e lá tem um pré adolescente na sua casa rs. Simplesmente resolvi aceitar que meu filho gostava de canguru e andei por essa cidade inteira com ele. Com a volta ao trabalho, desencanei total de tentar devolver ele pro berço depois de acordar de madrugada, levava pra minha cama e pronto. Aliás, desencanei também da consultoria do sono que eu tinha pago quando a gente tava sofrendo com uma dessas regressões do sono. Comecei a ouvir mais os meus instintos, fazer do jeito que eu queria, e dar com os burros n´agua por idéias minhas e não idéias dos outros rs.


E assim tem sido desde então. E não, não é um mar de rosas. Muitas vezes eu me pego ali no meio do caos e fico com vontade de arrancar a calcinha pela cabeça. Mas sempre acontece alguma coisa que me faz dar risada e aproveitar o momento. Outro dia fui com meus pais para Madrid. Marido se juntou, mas chegou depois da gente e voltou antes. E por isso a função aeroporto, voo e afins foi nas minhas costas. O menino tocou o zaralho no avião, daquele jeito andando pra cima e pra baixo, querendo puxar o cabelo dos passageiro da frente, cuspindo a comida, querendo fugir do cinto de segurança na hora da turbulência, e eu ali, entre suor e lágrima, pensando o que que eu fiz da minha vida, o que eu to fazendo aqui, socorroooooo, eu nunca mais vou voar com essa criança. Mas a gente chega onde tem que chegar, vê esses olhinhos se ajustando a tudo, dando conta do mundo em torno de si, e você logo pensa: o que são horas de perrengue diante de dias de alegria? 


E quando eu penso na minha maternidade no momento, ela é 100% baseada em perspectiva. Ontem fomos jantar fora. Eu tava precisando de ar, precisando sentir que a vida não é só casa-trabalho-casa. Queria comer tacos, tomar uma cerveja, fomos num restaurante mexicano, e não tinha nada pro menino comer. Não aceitou nada do que a gente ofereceu, e jantou um pote de batata frita. E eu fiquei só pensando.. p e r s p e c t i v a. O menino come super bem, arroz, feijão, proteína e legume todo dia rs. Ele nunca nem tinha comido batata frita. Ele amou. Não é lindo?  hahaha.. se em algum momento eu perceber que a vida dele é comer batata frita, aí a gente se preocupa. Mas eu comi meu taco, tomei minha cerveja, pintei inúmeros desenhos, e vim embora feliz. Ontem foi ontem, e hoje é um novo dia, cheio de comida saudável pela frente rs. 


E isso também serve para aquele eu que ficou meio perdido pós-maternidade. Eu me lembro que no auge do puerpério, eu me sentia completamente desconectada de mim mesma. Eu repetia pro meu marido: parece que eu to suspensa no ar, olhando a minha vida sendo revirada, e sem poder nenhum sobre ela. Passadas as primeiras semanas, eu tava menos apocalíptica, mas ainda me sentia perdida. Lembro da primeira vez que saí de casa, por 3 horas, sem o Dominic, quando ele tinha 2 meses e meio. Fui numa despedida de colegas que saíram do trabalho. Enquanto eu estava lá, eu tomei uma tacinha de vinho, conversei com pessoas, lembrei de quem eu era, senti um alívio e uma saudade. Mas assim que eu tomei o rumo de casa, fui me enchendo de culpa, me sentindo uma pessoa horrível por ter saído sem ele. Veio um choro descompensado e, quando me dei conta, eu estava correndo pelas ruas, desesperada pra chegar em casa. Uma grande viagem na maionese. 


Com o tempo passando, voltar a ter vida fora de casa, voltar a ter afazeres além do meu papel de cuidado foi voltando a ser normal, e eu fui me acostumando. As vezes sinto mais falta da liberdade de simplesmente sair por aí sem lenço nem documento nem um carrinho e uma sacola de tralha, sem hora pra voltar, sem pensar na rotina, no sono, no que será a manhã seguinte. E as vezes nada disso me faz falta nenhuma. Eu acordo de manhã e fico ali brincando com ele, olhando a carinha dele e pensando como esse tempo, em que ele é tão pequeno, tão dependente, tão meu, é curto, é passageiro. E como talvez a minha mãe deve lembrar de quando eu era igualzinha a ele, e pensar que num piscar de olhos estou aqui.. com 40 anos, com minha família, com a minha vida, e tão longe dela. E eu tenho vontade de congelar esse tempo, e aproveitar muito o meu menino. 


E esse entendimento de que nada é definitivo, que nada é pra sempre, tem me dado muita tranquilidade pra ir navegando as noites difíceis quando tem dente nascendo, as birras, as crises, os saltos de desenvolvimento, e também as coisas que ficaram mais difíceis e complicadas, como uma saída a noite. E hoje, entre momentos felizes, momentos de culpa, e tantos momentos, eu me sinto vivendo a tal maternidade leve que eu tanto quis. É pra sempre?  Não sei. To aqui, vivendo um dia depois do outro, apreciando toda a beleza do caos que existe neles. 



Abraçando o caos pra viver os bons momentos <3 

Mas lembrando que é caos, é MUITO CAOS



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