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Lyon: uma belíssima surpresa francesa

Esses dias eu me peguei lendo um post mais antigo que eu contava com mais detalhes algumas viagens, e foi muito gostoso reviver. Resolvi que era hora de voltar com esse hábito por aqui. E como acabamos de voltar por uma roadtrip pela França, nada melhor do que a memória fresquina, né? Voilà.

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 Lyon não é exatamente uma cidade desconhecida, todo mundo ouve falar, sabe que está entre as grandes cidades francesas, mas pense aí: você consegue pensar em algo que te remeta a Lyon? Eu não. E ao longo dos anos, aqui e ali, alguém falava que Lyon era uma cidade a visitar, mas nunca fiquei muito com o porquê registrado. E isso acabou por anular qualquer expectativa que eu pudesse ter, e simplesmente me permitir ser impactada por essa cidade. Planejamos esse rolê algumas vezes, sempre cancelado por motivos pandemicos. Mas acho que aconteceu na hora certa: um fim de semana de muito sol, calor, e ventinho gostoso. 


Chegamos em Lyon na sexta a noite, uma viagem de quatro horas e meia de Zurich. Você vai ate Genebra e de lá é mais uma hora e meia. Nos hospedamos na região da Gare Perrache, que tem bastante opção de hotéis, bares e restaurantes, e foi uma indicação de amigos que já moraram na cidade. Na Gare tem ainda estacionamento, o que facilita também se tiver de carro (o custo é 23 euros por 24h, e a recepcionista do hotel disse que é dos mais baratos da cidade). Por já estar passando das 8 da noite, fomos dar uma volta pelas redondezas e achar um lugar pra jantar. Acabamos na Brasserie Georges, a brasserie mais antiga de Lyon. É enorme, não precisa reservar, tem um menu grande, atende bem crianças, tem parabéns pra você com muita cantoria, e o garçon prepara um steak tartare na mesa que é delícia. Recomendo! 

Sábado andamos meio a ermo pela cidade. Começamos pela beira do Ródano, que é linda, de babar, e nessas eu já estava encantadíssima por Lyon. Andamos pelas ruazinhas, sentamos no Anahera pra um café bem gostoso e entramos em algumas lojas de vintage. Alias, uma amiga um dia comentou que não se achava nem um chai latte em Lyon rs.. e não é verdade. A gente gosta de café, e tomamos vários muito bons, e Mati recomenda o chai latte do Anahera haha. Que é um ambiente bem aconchegante, vende umas coisinhas legais, e tem bolinhos muito gostosos! Fomos andando até o Mercado Municipal, de lá de volta pra beira do rio, sentamos para um, dois, alguns drinks, brincamos com Carlito pelos parques, jantamos muito bem num restaurante de comida latina, e finalizamos a noite nas vielas lotadas de uma parte mais antiga da cidade. Voltamos exaustos pro hotel, com 20 mil steps na conta. 
Beira do Ródao, lindíssima

Piscina pública

Um mural de Paul Bocuse em frente ao Mercado Municipal



Carlito pelos parques


Muitas intervenções pelas paredes de Lyon


Night agitada


Domingo seguimos de metrô rumo a uma outra área da cidade, no topo de um morro. Tomamos um café da manhã reforçado num lugar lá que não amamos então nem vou por link, rs.. mas de lá fomos atrás das passagens secretas de Lyon, as Traboules. A cidade no passado era um centro de comércio de seda, e para transportar o tecido em dia de chuva, criaram várias passagens cobertas por dentro de prédios. Hoje elas seguem abertas, cheias de arte. Alias, Lyon tem MUITA arte de rua, é muito vibrante. Voltamos andando até a beira do Saône, o outro rio que corta Lyon (o centro da cidade fica numa ilha entre o Ródano e o Saône). Essa área da cidade é mais rosada, mais cor de sépia, muito fotogênica, e muito bonita. O rio me parece menos limpo que o Ródano, mas igualmente belo e interessante. Andamos até o centro antigo, passamos por mais traboules, tomamos mais drinks, comemos snacks, e depois subimos até a Sacre Cour de Lyon. Finalizamos o dia comendo um sushi numa portinha de takeaway. 
Começando o dia no Croix-Rousse, um bairro alto

Uma traboule


E mais uma...

A beira do Saône

Pelas ruas da cidade velha

Mais traboule



Lyon lindíssima!


Na segunda feira, depois de tomar um café da manhã DELÍCIA no Dust Café (recomendo muito!), pegamos estrada e dirigimos outras quatro horas e meia até Paris. Deixamos Lyon com a certeza que voltaremos, e não vai demorar. Fiquei com a impressão que são várias cidades em uma, ora mais nova, ora mais antiga, ora mais solar, ora mais escura, sempre com uma pegada artística e cultural. Sabe aquela cidade pra morar? Foi isso que senti. Um gostinho do que poderia ser Paris se não fossem os milhões de turistas, a sujeira e afins. Além de tudo, Lyon tem uma gastronomia riquíssima, sendo um polo gastronômico na França. Se come muito bem, e tem muita opção de Michelin, inclusive com preços decentes. Comemos muitíssimo bem, mas não fomos aos restaurantes que temos no topo da nossa lista, simplesmente porque era o começo de uma viagem mais longa, e com mais controle no orçamento rs. Mais um motivo pra voltar.  


Pra finalizar, algumas informações práticas: 
  • Como chegar: Lyon é bem conecatada por trem a Paris e Genebra, e a viagem é bem rápida. De Paris, com o TGV, são somente duas horas. De Genebra é similar. A cidade conta também com um aeroporto, que fica cerca de 20km do centro. Pelo que vim, Lufthansa, Austrian, Air France, KLM, BA, Easy Jet, tem voos pousando lá. Nós fomos de carro, e foi uma boa opcão saindo aqui de Zurich. 
  • Transporte na cidade: Lyon é uma cidade grande, mas dentro da área de interesse para quem está visitando, é possível fazer muita coisa a pé. Usamos metrô algumas vezes, e a malha é bem capilar, tem bastante ônibus, achei bem servida de transporte público, que tem o preço bem em conta. Outra opcão são os serviços de bicicleta pública e até patinentes elétricos, que vimos muita gente usando. Como estávamos com Carlito, dessa vez não testamos esses meios rs. 
  • Hospedagem: tem de tudo, para todos os bolsos, né? Mas achei bem em conta, se comparado com outras áreas da França, como Paris e região de Champagne. Como disse, dessa vez ficamos na área de Perrache, e gostei bastante - bem conectada de transporte, com bastante coisa por perto. 
  • Com cachorro: gostamos bastante. A cidade é limpa, tem saquinho para coco em várias lixeiras, tem vários parques, e Carlito foi bem aceito em todos os restaurantes e bares por onde passamos. Quase todos os hotéis que me interessei também aceitavam, e com uma taxa bem em conta para limpeza (acho que em torno de 8 a 10 euros por dia, o que é o mais baixo que já paguei). 

Suíça com doguinho

 Quando eu contei da adoção de Carlito, eu mencionei também que um dos fatores decisivos pra gente dar andamento nesse plano foi o fato de a Suíça ser super dog friendly, de um jeito que seria mais fácil integrá-lo nos nossos programas e embora sim, tenhamos limitações, elas são menores. Agora que já temos alguns meses de experiência, acho que rola dar um pouco mais de detalhe. 

Transporte Público

Cachorros podem tranquilamente usar o transporte público na Suíça inteira. Os de porte maior pagam meia tarifa, mas no caso de Carlito, que pode ir no nosso colo, ele anda de graça inclusive. É bem tranquilo. Já peguei transporte cheio com ele, e levo ele no colo.


Fotos que retratam 2020: transporte bem vazio (e por isso Carlito não está no colo) e máscara 

Bares, cafés e restaurantes 

Cachorros são aceitos em 99,9% dos estabelecimentos do tipo. Nesses quase três meses que se passaram eu saí muito pra bares e restaurantes, e Carlito é sempre muito bem recebido. Teve um episódio em que fui esperar um amigo num bar de hotel, e eles não permitiam. Era um hotel executivo, então é bem fora do perfil mesmo, mas foi o único caso. No começo eu liguei em alguns lugares pra confirmar, porque não queria perder viagem, mas a regra é mesmo aceitar e receber o cachorro com tranquilidade. Inclusive, acho que ao menos metade dos estabelecimentos em que fomos, eles colocaram um potinho com água pra ele se refrescar. Quando fui procurar fotos, percebi que só temos foto dele quando sentamos pra fora (até mesmo porque fica mais fácil de ele aparecer na foto), mas é tranquilo também pra sentar pra dentro. Carlito - e todos os cachorros que vemos por aí - se acomodam embaixo da mesa e tudo certo. 



Carlito em suas incursões por restaurantes e cafés

Lojas

A maioria esmagadora dos mercados não aceita cachorros, lojas menores acho que aceitam de boa (os pequenos mercadinhos onde vou no bairro eu entro com ele, mas não nos mercados de rede), mas quando estou com ele e resolvo comprar algo, deixo ele amarrado na porta. Em lojas de roupas e afins não tive problemas para entrar com ele, mas é claro que se eu saio de casa para IR numa loja dessas, eu não levo o cachorro né rs... mas já aconteceu sim de estar andando com ele e entrar em alguma loja. Também já vi, ao longo desses 4 anos, vários cachorros dentro de lojas, com seu rabo saindo pra fora do provador hahaha. 

Hotéis

Desde que Carlito chegou nós fizemos algumas viagens curtas, de fim de semana, férias de verão, e nunca foi problema achar hotel que aceitasse ele aqui na Suíça. Inclusive, vários hoteis que vi nem cobram taxa extra pelo cachorro, como por exemplo nosso hotel em Gersau. Em um momento do verão achamos que seria possível dirigir até Amsterdam, e acabamos fazendo reservas em vários hoteis pelo caminho de ida e volta (tive que cancelar tudo depois rs) e também não foi problema achar opções em Luxemburgo, Bruxelas, Colonia e Heildeberg. A única diferença foi que todos os hotéis que vi nessas cidades cobravam uma taxa diária, entre 10 e 20 euros, que se justifica pela potencial limpeza extra que um hóspede canino pode demandar.

Em nosso apartamento em Lugano

Serviços

Locais como correio, repartições públicas, etc... não né? Eu já entrei no correio aqui com Carlito, confesso, mas tem a placa (que eu não vi) falando que não são permitidos. Ninguém falou nada até mesmo porque ele é tão quieto que acho que o povo do Correio não percebeu que ele estava lá. Mas eu dei um google depois e descobri que ele não poderia ter entrado. Então evitem rs.  

Banhos públicos (as badis)

Aqui na cidade de Zurich cachorro não entra em nenhum dos banhos públicos, que são como pequenos clubes na beira do lago e rio. Então quando eu quero ir pra um deles, Carlito fica em casa. Quando queremos levar ele, vamos nas áreas abertas, e tanto na beira do lago como do rio tem um monte. Mas em outros lugares, foi possível entrar com ele, como em Gersau, e na Lido San Domenico, em Lugano. Em ambos os casos, a gente ligou antes pra se informar e evitar perrengue.

Carlito e Bonnie curtindo a beira do lago em Gersau

E quem quer outra vida? 

Comparando com São Paulo, onde cachorro não entra em café, restaurante, bar, ônibus, e basicamente é mal recebido por tudo, é uma tranquilidade sem fim ter cachorro na Suíça. É claro que é importante que o cachorro seja sociável, que não fique latindo que nem doido dentro do restaurante por exemplo, ou faça xixi no ônibus. Antigamente treinamento de cachorro era obrigatório na Suíça inteira. Hoje é para algumas raças e em alguns cantões. A gente optou ainda assim por fazer um treinamento com Carlito, justamente pra gente ter um pouco mais de controle e garantir que consigamos integrar ele na nossa vida e rotina. Ta dando certo :) 

Adotando um cachorro na Suíça

Desde que eu postei as primeiras imagens de Carlito no meu instagram, choveu mensagem de gente perguntando que raça, quantos anos e onde eu comprei ele. Primeira coisa: há pelo menos uns 10 anos, tomando consicência da causa animal, e do tanto de cachorro abandonado mundo afora, comprar um cachorro de raça de canil ficou pra mim fora de questão. E foi assim que, mesmo morando num país em que não há animais de rua, eu resolvi que adotaria um cãozinho, e de preferência mais viralatudo. 

(Gabriela, como assim não tem animal de rua na Suíça? Pois é, não tem. Aqui há leis e regras regulamentando o relacionamento com animais, e abandono é crime. Todos os cachorros e gatos são chipados, e se o seu cachorro for encontrado vagando nas ruas por abandono, você está encrencado. Ainda há sim quem abandone o animal de estimação por N motivos, mas esse processo normalmente é feito diretamente nos abrigos) 

A adoção
Voltando, dado que a Suíça tem pouca oferta de animais para adoção, muitos abrigos aqui fazem parcerias com abrigos de outros países onde o abandono é bem comum, como Italia, Espanha, Hungria, Romenia, Grécia. Os abrigos daqui intermediam o processo. Nós estamos há anos planejando a ideia do cachorro, já chegamos a aplicar pra um cachorro há dois anos, e sempre procuramos por essa data base, TierOnline, que é um portal que agrega os animais disponíveis nos abrigos da Suíça, e também desses abrigos parceiros em outros países que se dispõe a enviar o animal pra cá. 

Os dois processos pelos quais passamos (o de dois anos atrás e o de agora) foram bem rigorosos - e foi por isso, inclusive, que em 2018 a nossa tentativa não vingou. Eles querem saber a rotina da família, disponibilidades, expectativas, infra estrutura da casa, e tudo relacionado ao bem estar do animal e a vontade de fazer dar certo. O nosso questionário tinha coisa de 6 páginas, com todo tipo de pergunta que você pode imaginar: quantas horas as pessoas passam fora, planos para o lazer do cachorro, o que fazer em caso de viagem, nível de experiência com cachorros, o que fazer em caso de divórcio. Uma vez aprovado, é feito um home check. No nosso caso, por conta da pandemia, esse home check foi adiado, e aí como veio a nossa mudança, nós pedimos para eles aguardarem e fazerem isso já no lar novo, onde o animal efetivamente moraria. Quando a data chegou, as regras de distanciamento já estavam mais relaxadas e veio uma pessoa aqui, conferiu se tudo que a gente reportou no questionário com relação ao espaço e condições era verdade, e também fez outras perguntas. Com o green light dela, Carlito começou a ser preparado para viajar. 

O cachorro pode ser entregue para a família, normalmente castrado e chipado. Se não houver a chance de fazer a castração antes, no contrato vem essa cláusula de que os novos tutores irão castrar o animal assim que possível. 
Depois da castração, com o cone of shame

Mas no nosso caso, Carlito estava na Hungria. E aí entra outro processo, que é o de trazer um cachorro de outro país para a Suíça (e nem vou entrar no mérito de que, na semana em que nós fomos aprovados, foi declarada a situação de emergência pelo corona, e nós tivemos que esperar 3 meses por ele). 
Carlito em sua última consulta antes da viagem
E aqui já embarcado, pronto pra viajar da Hungria para a Suíça

A imigração
O cachorro foi chipado, e então emitiram um passaporte europeu pra ele. No passaporte, além de ficar registrado os dados dele e dos futuros tutores, também ficou registrado o número do chip, e então das vacinas obrigatórias, acho que é a anti rábica somente. Eu pedi ainda que aplicassem as outras vacinas recomendadas, mas não obrigatórias. 

No dia da viagem, nós deveríamos fazer a imigração dele na Suíça. Então encontramos com o motorista que o trouxe na fronteira com a Áustria, antes da entrada na Suíça. Com ele já no carro, paramos na aduana Suíça e fizemos a declaração e entrada dele. O valor a ser pago é de acordo com o valor do animal. No nosso caso, Carlito é um viralata, mix de puli com alguma coisa, e a taxa do abrigo (para cobrir as despesas médicas, de emissão de passaporte, e pelos cuidados) foi de 245 euros, então a nossa taxa imigratória foi com base em animais que custam até 500 francos. Pagamos 39 francos. No caso de um animal de raça, cujo valor padrão seja de mais de 500 francos, a taxa vai ser outra. Eu vi uma tabela na tela da polícia, mas não me atentei aos outros valores.
O nosso encontro, e eu inchada por motivos de: chorei para caraleooo

A regularização na Suíça
Chegando na Suíça, o tutor tem 10 dias para registrar o animal no Amicus, que é uma database nacional. Esse registro deve ser feito com o acompanhamento de um veterinário obrigatório. Então o procedimento é: ligar no Hundekontrolle (ou veterinäramt) do seu cantão de residência, e pedir o número de identificação do seu cachorro. Aqui em Zurich esse procedimento pode ser feito online aqui, e eu recebi o número por email coisa de 20 minutos depois, bem rápido. Com esse número, você marca vai ao veterinário e ele faz o registro no Amicus. 

E aí, sendo Suíça, os procedimentos estão todos feitos e só sobra as contas rs. Pagamos 180 francos de taxas federais, estaduais e municipais, que recebemos por email junto com o número de idenitificação. Sei que a federal é uma vez só, justamente por conta desse registro no Amicus. As taxas municipais e cantonais, que no nosso caso, de um cachorro pequeno, foram juntas de 50 francos, são anuais. Além da manutenção dessa "vigilância sanitária", esse imposto também paga pelos saquinhos de coco de cachorro espalhados pelo país, que eu acho muito bom. 

Com isso, seu cachorro está devidamente adotado e regularizado. 

Opcionalmente, eu fiz também um seguro saúde para ele. Para o dia a dia e consultas, os preços aqui são bem razoáveis. Mas em caso de acidentes, cirurgias, internações, os valores podem escalar bem rapidinho. Tendo ouvindo de amigos que gastaram 3 mil francos com um problema canino, eu optei por fazer o plano. Tem algumas possibilidades, e o meu eu fechei com a Animalia, um braço da Vaudoise. 

E aqui um Carlito relax com seu penteado de verão :)

Espero que esse post seja válido para alguém que esteja pensando em adicionar um animal à família. Não compre, adote <3

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