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Morar na Suíça: o que mais gosto

 Esses dias estava eu na minha bicicleta, indo para uma consulta médica, quando me dei conta de que eu adoro essa vida: ter a bike como meu efetivo meio de transporte. E ai pensei em outras coisas, e cheguei a conclusão que, morando na Suíça há quase 5 anos, tendo mudado de cidade, tendo enfrentado várias coisas, tava na hora de por num papel o porquê que eu gosto tando de morar aqui. 

1- Viver A cidade

Isso é na verdade algo bem europeu, e não exclusivo da Suíça. As cidades são planejadas para ser vividas e aproveitadas pelos cidadãos: muito comércio de rua, pouco shopping center, muitos predinhos individuais com lojinhas embaixo, poucos complexos residenciais. Fazer muito da vida a pé, ou de bicicleta, ou ainda de tram, olhando o que acontece em volta. Descobrir lojinhas de rua, cafés novos, sentar pra tomar sol numa calçada. Eu adoro isso demais. Gostava muito de ter um pouco disso em São Paulo, sempre morei em lugares propícios a essa vida "de bairro", como Vila Mariana e Pinheiros, mas elevar isso num nível maior, sair do bairro, e ter essa vida como o normal, é algo que eu valorizo demais. Aproveitar os espaços, e parque,  congregar em torno de rios e lagos limpos. A relação com o entorno é MUITO diferente de quando se faz tudo de carro e se frequenta lugares herméticos. 



2- Grandes acidentes geográficos em pequenas distâncias 

A Suíça tem 350 km de largura por 280 km de altura rs. Mas nesse pequeno espaço, tem MUITO acidente geográfico, o que proporciona uma surra de paisagens incriveis: Alpes, placa tectonica, lagos, formações geológicas. E tudo isso é relativamente fácil de ver, visitar e aproveitar. Muitas belezas estão há menos de uma hora de onde quer que você more. E mesmo quando algo é "longe", não será mais do que 3 horas dentro do carro (é o que se demora por exemplo pra cortar o país de norte a sul, passando por lugares muito cenográficos). Então é muito fácil sair pra um rolêzinho de domingo e se deparar com paisagens de cair o queixo, se admirar e voltar pra casa renovado. 

Um passeio de domingo com essas vistas...

3- Qualidade de vida 

Nesse momento pandemico, qualidade de vida ta meio comprometida em qualquer lugar do mundo, inclusive na Suíça, mas a real é que a qualidade de vida aqui é sim bem alta: um respeito maior da vida profissional para com a pessoal, incidência solar, saláros dignos, segurança, civilidade. O fato de trabalho ser uma parte da vida, e não a razão dela (traumas de ex faria limer rs), me permite ter tempo para viver e cuidar de mim. Eu consigo sair de bicicleta na hora do almoço para um mergulho no lago, ou terminar o dia mais cedo para tomar um sol. A segurança me permite andar por qualquer lugar a qualquer hora. Não gastar horas de vida num trânsito lascado diminui o stress. Ter uma rede de seguridade social que, mesmo num momento tenso como o que vivemos, me assegura certos benefícios, tudo isso traz paz. E viver em paz não tem preço.

Eu e a bike, rodando a cidade toda

E voltando pra casa a pé, depois da meia noite, pra lá de bagda rs, e sem me sentir insegura 

4- Simplicidade

Se por um lado aqui a vida custa caro, e faz achar que todo mundo que mora na Suíça é rico, por outro, acho que é de longe o lugar menos ostentação onde já morei. Sim, as pessoas consomem coisas caras, mas num país em que os salários são dignos e o poder aquisitivo da população é relativamente alto, ninguém precisa "mostrar" que tem dinheiro. As pessoas aqui são bem casuais, e é muito comum você ver gente vestida de forma bem simples frequentando lugares tidos como chiques. Alias, Berna era ainda mais casual do que Zurich. Mas as pessoas não tem que se envolver num certo símbolo para demonstrar poder aquisitivo, não tem que ostentar, não tem que deixar claro a sua classe social, para ser respeitadas, tratadas com dignidade. Eu lembro que nos longinquos anos de Daslu em SP, saíram várias reportagens falando como não havia uma entrada para pedestre, e como toda a high society chegava lá de motorista. Aqui eu estaciono a minha bicicleta na frente do Jelmoli, uma loja de departamento do mesmo estilo no centro da cidade. Entro lá de havaiana e shorts, e sem a menor vergonha de ficar olhando as coisas. Não sou olhada com desdem ou "curiosidade" pelo staff da loja. Da mesma forma, num dia ensolarado, é super normal ver o povo sentado comendo marmita nas calçadas. Nas pistas de esqui, comendo sanduiche trazido de casa na área de picnic de restaurantes - sim, os restaurantes tem mesas em que você pode comer a comida levada de casa, no maior estilo farofa, e todo mundo faz. Uns anos atrás eu postei um texto aqui de como no Brasil as pessoas tem pavor de parecer pobre. Aqui, num país mais igualitário, isso não é um assunto, e eu acho maravilhoso. 


5- As estações do ano bem marcadas 

Não é segredo que eu sou um bicho do verão rs. Sou apaixonada por sol, calor, e foi uma agradável surpresa chegar aqui e descobrir que a Suíça tem um verão de respeito, com temperaturas passando constantemente dos 25 graus, inclusive chegando aos 40 rs. A gente curte demais os dias longos na beira dos rios, dos lagos. Eu finalmente tenho a vida de praia que eu sempre quis. AQUI, num país sem oceano. Depois dos melhores dias do ano vem o outono com seu festival de cores: as árvores vão avermelhando, mudando de cor, a luz vai ficando cada vez mais dourada, as paisagens ficam aina mais lindas. Tudo isso devidamente acompanhado de uma sopa de abóbora, risotto de abóbora, doce de abóbora, tudo de abóbora rs. Quando chega o inverno, vem o frio, vem a neve, e vem os dias de esqui na montanha. O melhor do inverno é justamente curtir a parte mais gelada dele, pro lado de fora, na natureza. Deus me livre morar num lugar em que só me resta o frio e a chuva, sem a neve. E então a primavera, MUITO florida, as vezes demais e cheia de alergias rs. Mas o crescente do dia, das temperaturas. A gente efetivamente vive as quatro estações do ano e eu adoro isso. 

Verãozão maravilhoso

Outono colorido

Esse inverno <3

E a primavera

Esses, como eu disse, são os highlights PRA MIM. Uma coisa bem pessoal mesmo, e as pessoas tem necessidades e prioridades diferentes. Não sei se eu tenho leitoras (porque isso aqui ta bem morno rs), e muito menos leitoras da Suíça. Mas se tiver alguém aí, e tiver opinião diferente, adoraria ouvir. 

As férias que eu não planejei, mas que eu precisava

Nem preciso entrar em detalhes do porquê não fomos para a casa dos meus sogros na California neste fim de ano, né... Mas é isso, lá pro meio de dezembro cancelamos os nossos vôos, nos resignamos a passar o fim de ano em casa, e eu me obriguei a tirar as duas semanas de férias conforme programado. Porque a gente fica muito tentada a ficar guardando férias pra fazer viagem, pra visitar família. E pra mim, com um marido que tem 12 semanas de férias por ano, qualquer acúmulo de dias já me faz ficar muito ouriçada rs. Mas eu estava MUITO cansada, e precisava esquecer de trabalho, de prazo, de projeto, de tudo. Eu precisava desligar, e pra isso, uma semana só não é suficiente. 

Passamos os primeiros 10 dias de férias em casa, sem fazer nada. Meus dias se resumiram a passear com Carlito, cozinhar, comer, assistir The Crown, dormir. Andamos bastante por Zurich em nossas longas caminhadas pela tarde, e num dia menos cinza, pegamos um barco que sai aqui da Bürkliplatz no centro da cidade, e vai até Rapperswil, já no cantão de St. Gallen. Foram 2 horas de silêncio, paisagens, vento na cara, e um solzinho quando ele aparecia.
Zurich segue sendo uma atração pra mim


Um cachorro feliz <3

O barco saindo de Zurich


E pelas ruas tranquilas de Rapperswil
No dia 24 o foco foi criar uma memória feliz nesse ano tão atípico. Embalamos presentes, eu procurei as receitas que queria fazer para nossa ceia, também planejamos o cardápio dos próximos dias, já que aqui 25 e 26 de dezembro são feriado e aos domingos tudo fecha normalmente. Colocamos a trilha de sonora natalina pra rodar, umas roupas bonitas, e passamos o nosso Natal comendo bem, bebendo champagne, assistimos Esqueceram de Mim, abrimos presentes, falamos com as famílias, nos abraçamos e beijamos muito, e nos enchemos de amor. 
O espírito natalino
A nossa ceia teve arroz com passa sim <3 E palmito também, e purê, e molho de cramberry, e tudo mais que me deu na telha rs
E a sobremesa foi um cheesecake Romeu & Julieta incrível, de mascarpone com geleia de goiabada

No dia 28, de coração partido, deixamos Carlito na creche, e seguimos para as montanhas. A idéia era passar 5 dias respirando ar puro, esquiando um pouco e dormindo muito. Fomos para Wengen, na região de Jungfrau, nas terras altas do cantão de Berna. A escolha por Wengen foi puramente financeira mesmo rs... foi onde achamos um hotel decente com preço pagável, em cima da hora, mas a vila é bem icônica dos alpes suíços. Acabamos intercalando dias de esqui com outras atividades. Tiramos um dia pra fazer sledging (descer a montanha de trenó) e também um dia fomos caminhar em Lauterbrunnen, a vila alpina mais linda, na minha humilde opinião. O nosso ano novo foi comendo pizza no quarto e bebendo champagne, vendo fogos da janela e jogando jogos. 
A vista incrível da nossa varanda
Preparada pra tomar uns tombos

Passagem de ano: descabelados, comendo pizza com a mão e bebendo champagne no quarto

Começando o ano em Lauterbrunnen
Voltamos para casa dia 2 de energia renovada, e eu sem nem lembrar a senha do computador do trabalho. Exatamente o que eu precisava. Finalilzamos as férias como começamos: fazendo uma longa caminhada por Zurich, cozinhando, comendo e assistindo The Crown. Acho que nunca me senti tão descansada desde que voltei a trabalhar. Definitivamente não foram as férias que planejei, mas foram sim as férias que eu precisava demais. To me sentindo com as baterias recarregadas e feliz!

Suíça com doguinho

 Quando eu contei da adoção de Carlito, eu mencionei também que um dos fatores decisivos pra gente dar andamento nesse plano foi o fato de a Suíça ser super dog friendly, de um jeito que seria mais fácil integrá-lo nos nossos programas e embora sim, tenhamos limitações, elas são menores. Agora que já temos alguns meses de experiência, acho que rola dar um pouco mais de detalhe. 

Transporte Público

Cachorros podem tranquilamente usar o transporte público na Suíça inteira. Os de porte maior pagam meia tarifa, mas no caso de Carlito, que pode ir no nosso colo, ele anda de graça inclusive. É bem tranquilo. Já peguei transporte cheio com ele, e levo ele no colo.


Fotos que retratam 2020: transporte bem vazio (e por isso Carlito não está no colo) e máscara 

Bares, cafés e restaurantes 

Cachorros são aceitos em 99,9% dos estabelecimentos do tipo. Nesses quase três meses que se passaram eu saí muito pra bares e restaurantes, e Carlito é sempre muito bem recebido. Teve um episódio em que fui esperar um amigo num bar de hotel, e eles não permitiam. Era um hotel executivo, então é bem fora do perfil mesmo, mas foi o único caso. No começo eu liguei em alguns lugares pra confirmar, porque não queria perder viagem, mas a regra é mesmo aceitar e receber o cachorro com tranquilidade. Inclusive, acho que ao menos metade dos estabelecimentos em que fomos, eles colocaram um potinho com água pra ele se refrescar. Quando fui procurar fotos, percebi que só temos foto dele quando sentamos pra fora (até mesmo porque fica mais fácil de ele aparecer na foto), mas é tranquilo também pra sentar pra dentro. Carlito - e todos os cachorros que vemos por aí - se acomodam embaixo da mesa e tudo certo. 



Carlito em suas incursões por restaurantes e cafés

Lojas

A maioria esmagadora dos mercados não aceita cachorros, lojas menores acho que aceitam de boa (os pequenos mercadinhos onde vou no bairro eu entro com ele, mas não nos mercados de rede), mas quando estou com ele e resolvo comprar algo, deixo ele amarrado na porta. Em lojas de roupas e afins não tive problemas para entrar com ele, mas é claro que se eu saio de casa para IR numa loja dessas, eu não levo o cachorro né rs... mas já aconteceu sim de estar andando com ele e entrar em alguma loja. Também já vi, ao longo desses 4 anos, vários cachorros dentro de lojas, com seu rabo saindo pra fora do provador hahaha. 

Hotéis

Desde que Carlito chegou nós fizemos algumas viagens curtas, de fim de semana, férias de verão, e nunca foi problema achar hotel que aceitasse ele aqui na Suíça. Inclusive, vários hoteis que vi nem cobram taxa extra pelo cachorro, como por exemplo nosso hotel em Gersau. Em um momento do verão achamos que seria possível dirigir até Amsterdam, e acabamos fazendo reservas em vários hoteis pelo caminho de ida e volta (tive que cancelar tudo depois rs) e também não foi problema achar opções em Luxemburgo, Bruxelas, Colonia e Heildeberg. A única diferença foi que todos os hotéis que vi nessas cidades cobravam uma taxa diária, entre 10 e 20 euros, que se justifica pela potencial limpeza extra que um hóspede canino pode demandar.

Em nosso apartamento em Lugano

Serviços

Locais como correio, repartições públicas, etc... não né? Eu já entrei no correio aqui com Carlito, confesso, mas tem a placa (que eu não vi) falando que não são permitidos. Ninguém falou nada até mesmo porque ele é tão quieto que acho que o povo do Correio não percebeu que ele estava lá. Mas eu dei um google depois e descobri que ele não poderia ter entrado. Então evitem rs.  

Banhos públicos (as badis)

Aqui na cidade de Zurich cachorro não entra em nenhum dos banhos públicos, que são como pequenos clubes na beira do lago e rio. Então quando eu quero ir pra um deles, Carlito fica em casa. Quando queremos levar ele, vamos nas áreas abertas, e tanto na beira do lago como do rio tem um monte. Mas em outros lugares, foi possível entrar com ele, como em Gersau, e na Lido San Domenico, em Lugano. Em ambos os casos, a gente ligou antes pra se informar e evitar perrengue.

Carlito e Bonnie curtindo a beira do lago em Gersau

E quem quer outra vida? 

Comparando com São Paulo, onde cachorro não entra em café, restaurante, bar, ônibus, e basicamente é mal recebido por tudo, é uma tranquilidade sem fim ter cachorro na Suíça. É claro que é importante que o cachorro seja sociável, que não fique latindo que nem doido dentro do restaurante por exemplo, ou faça xixi no ônibus. Antigamente treinamento de cachorro era obrigatório na Suíça inteira. Hoje é para algumas raças e em alguns cantões. A gente optou ainda assim por fazer um treinamento com Carlito, justamente pra gente ter um pouco mais de controle e garantir que consigamos integrar ele na nossa vida e rotina. Ta dando certo :) 

Adotando um cachorro na Suíça

Desde que eu postei as primeiras imagens de Carlito no meu instagram, choveu mensagem de gente perguntando que raça, quantos anos e onde eu comprei ele. Primeira coisa: há pelo menos uns 10 anos, tomando consicência da causa animal, e do tanto de cachorro abandonado mundo afora, comprar um cachorro de raça de canil ficou pra mim fora de questão. E foi assim que, mesmo morando num país em que não há animais de rua, eu resolvi que adotaria um cãozinho, e de preferência mais viralatudo. 

(Gabriela, como assim não tem animal de rua na Suíça? Pois é, não tem. Aqui há leis e regras regulamentando o relacionamento com animais, e abandono é crime. Todos os cachorros e gatos são chipados, e se o seu cachorro for encontrado vagando nas ruas por abandono, você está encrencado. Ainda há sim quem abandone o animal de estimação por N motivos, mas esse processo normalmente é feito diretamente nos abrigos) 

A adoção
Voltando, dado que a Suíça tem pouca oferta de animais para adoção, muitos abrigos aqui fazem parcerias com abrigos de outros países onde o abandono é bem comum, como Italia, Espanha, Hungria, Romenia, Grécia. Os abrigos daqui intermediam o processo. Nós estamos há anos planejando a ideia do cachorro, já chegamos a aplicar pra um cachorro há dois anos, e sempre procuramos por essa data base, TierOnline, que é um portal que agrega os animais disponíveis nos abrigos da Suíça, e também desses abrigos parceiros em outros países que se dispõe a enviar o animal pra cá. 

Os dois processos pelos quais passamos (o de dois anos atrás e o de agora) foram bem rigorosos - e foi por isso, inclusive, que em 2018 a nossa tentativa não vingou. Eles querem saber a rotina da família, disponibilidades, expectativas, infra estrutura da casa, e tudo relacionado ao bem estar do animal e a vontade de fazer dar certo. O nosso questionário tinha coisa de 6 páginas, com todo tipo de pergunta que você pode imaginar: quantas horas as pessoas passam fora, planos para o lazer do cachorro, o que fazer em caso de viagem, nível de experiência com cachorros, o que fazer em caso de divórcio. Uma vez aprovado, é feito um home check. No nosso caso, por conta da pandemia, esse home check foi adiado, e aí como veio a nossa mudança, nós pedimos para eles aguardarem e fazerem isso já no lar novo, onde o animal efetivamente moraria. Quando a data chegou, as regras de distanciamento já estavam mais relaxadas e veio uma pessoa aqui, conferiu se tudo que a gente reportou no questionário com relação ao espaço e condições era verdade, e também fez outras perguntas. Com o green light dela, Carlito começou a ser preparado para viajar. 

O cachorro pode ser entregue para a família, normalmente castrado e chipado. Se não houver a chance de fazer a castração antes, no contrato vem essa cláusula de que os novos tutores irão castrar o animal assim que possível. 
Depois da castração, com o cone of shame

Mas no nosso caso, Carlito estava na Hungria. E aí entra outro processo, que é o de trazer um cachorro de outro país para a Suíça (e nem vou entrar no mérito de que, na semana em que nós fomos aprovados, foi declarada a situação de emergência pelo corona, e nós tivemos que esperar 3 meses por ele). 
Carlito em sua última consulta antes da viagem
E aqui já embarcado, pronto pra viajar da Hungria para a Suíça

A imigração
O cachorro foi chipado, e então emitiram um passaporte europeu pra ele. No passaporte, além de ficar registrado os dados dele e dos futuros tutores, também ficou registrado o número do chip, e então das vacinas obrigatórias, acho que é a anti rábica somente. Eu pedi ainda que aplicassem as outras vacinas recomendadas, mas não obrigatórias. 

No dia da viagem, nós deveríamos fazer a imigração dele na Suíça. Então encontramos com o motorista que o trouxe na fronteira com a Áustria, antes da entrada na Suíça. Com ele já no carro, paramos na aduana Suíça e fizemos a declaração e entrada dele. O valor a ser pago é de acordo com o valor do animal. No nosso caso, Carlito é um viralata, mix de puli com alguma coisa, e a taxa do abrigo (para cobrir as despesas médicas, de emissão de passaporte, e pelos cuidados) foi de 245 euros, então a nossa taxa imigratória foi com base em animais que custam até 500 francos. Pagamos 39 francos. No caso de um animal de raça, cujo valor padrão seja de mais de 500 francos, a taxa vai ser outra. Eu vi uma tabela na tela da polícia, mas não me atentei aos outros valores.
O nosso encontro, e eu inchada por motivos de: chorei para caraleooo

A regularização na Suíça
Chegando na Suíça, o tutor tem 10 dias para registrar o animal no Amicus, que é uma database nacional. Esse registro deve ser feito com o acompanhamento de um veterinário obrigatório. Então o procedimento é: ligar no Hundekontrolle (ou veterinäramt) do seu cantão de residência, e pedir o número de identificação do seu cachorro. Aqui em Zurich esse procedimento pode ser feito online aqui, e eu recebi o número por email coisa de 20 minutos depois, bem rápido. Com esse número, você marca vai ao veterinário e ele faz o registro no Amicus. 

E aí, sendo Suíça, os procedimentos estão todos feitos e só sobra as contas rs. Pagamos 180 francos de taxas federais, estaduais e municipais, que recebemos por email junto com o número de idenitificação. Sei que a federal é uma vez só, justamente por conta desse registro no Amicus. As taxas municipais e cantonais, que no nosso caso, de um cachorro pequeno, foram juntas de 50 francos, são anuais. Além da manutenção dessa "vigilância sanitária", esse imposto também paga pelos saquinhos de coco de cachorro espalhados pelo país, que eu acho muito bom. 

Com isso, seu cachorro está devidamente adotado e regularizado. 

Opcionalmente, eu fiz também um seguro saúde para ele. Para o dia a dia e consultas, os preços aqui são bem razoáveis. Mas em caso de acidentes, cirurgias, internações, os valores podem escalar bem rapidinho. Tendo ouvindo de amigos que gastaram 3 mil francos com um problema canino, eu optei por fazer o plano. Tem algumas possibilidades, e o meu eu fechei com a Animalia, um braço da Vaudoise. 

E aqui um Carlito relax com seu penteado de verão :)

Espero que esse post seja válido para alguém que esteja pensando em adicionar um animal à família. Não compre, adote <3

Quase quatro anos depois...

... eu resolvi olhar esse post aqui, meu primeiro sobre a minha então vida de recém chegada na Suíça, e em Bern. Eu estou entrando num momento bem nostálgico, que é deixar nossa vida em Bern pra trás. Tanta coisa mudou desde que chegamos aqui, e acho que é bem interessante olhar o que eu achava quando estava aqui há somente uma semana. Vamos lá!

- as pessoas misturam as línguas
Misturam médio. Na verdade, o suíço alemão rouba muitas palavras do francês, mas na época eu não sabia (e nem notava algumas diferenças), então fiquei achando que era uma mega mistureba. Por exemplo, eles falam Saliiiii (bem cantado) quando encontram alguém. É claro que é uma referência ao Salut francês, mas é diferente. Mesma coisa o adieu, que eu mencionei no texto da época. É na verdade ade. Tem várias palavras aqui que são usadas em francês: poulet pra frango (Hähnchen em alemão da Alemanha), velo pra bicicleta (Fahrrad), spital para hospital (Krakenhaus), etc. Agora o italiano, embora seja língua oficial no país, só aparece mesmo pro ciao haha. 

- o transporte de uma cidade tão pequena é maravilhoso
É mesmo. Não tenho um pingo pra criticar. O transporte de Bern é incrível, super conectado, pontual, capilar, chega em qualquer lugar. Aos finais de semana tem o Moonliner, que é o transporte noturno. A estação de trem é uma das principais do país, então tem trem para todo canto, muitas conexões, e é tudo prático. Não sei se comentei, mas no verão passado compramos um carro, para fazer viagens, principalmente pra fora do país. E até começar a crise do corona, realmente só usamos o carro pra isso. Aqui em Bern o carro nunca foi uma necessidade, tirando ir na Ikea rs (mas até lá você chega de transporte tranquilamente). 
Os charmosos trams de Bern

- bikes everywhere 
Mais uma percepção verdadeira. A galera de Bern pedala muito, ainda mais se considerar que metade da cidade é pirambeira rs. No inverno claro que as bikes reduzem, mas ainda assim, tem bastante. A grande diferença mesmo se vê em dias de chuva ou neve, é quando tem menos bike na rua. O frio não assusta os berninos (?!?!), mas a água é outra história rs. Claro que tem gente que se aventura na água, mas é bem menos. E claro que Bern não se compara com Amsterdam ou Copenhagen, mas de novo... essas cidades são flat né? 

- Suíços simpáticos no verão 
Mais uma meia verdade. A real é que embora no verão a Europa inteira fique mais feliz, como eu vim a aprender, o bernino (adotei a denominação rs) é simpático o ano inteiro. As pessoas aqui dão bom dia para desconhecidos no mercado, no transporte, nas trilhas, em qualquer lugar. Não, eles não querem ser seu amigo, e não querem nada mais do que isso: ser simpático, ser agradável, ser educado. Algumas semanas depois que escrevi aquele post, eu comprei um livro chamado Swiss Watching, escrito por um inglês morando em Bern há anos, e ele falava disso, como o povo aqui era mais simpático do que os suíços em média. E é uma verdade que não se aplica só no verão. 
Simpáticos e aglomerados num verão pré corona

- o interior é logo ali
BEM verdade. Inclusive eu falei de Worb, mas não precisa ir nem 25 minutos do centro pra achar roça e cheiro de merda de vaca rs. Quandoa  gente morava a 10 minutos do centro de Berna, tinha pasto e vaca quase do lado de casa. Hoje eu vivo no centro da cidade, mas o cheirão de bosta bate forte aqui de vez em quando rs... 
Pedalando e no meio do mato, mas a 10 minutos do centro

- a cidade e o país são caros 
Continua sendo verdade, mas minha perspectiva mudou um pouco. A Suíça é um país sabidamente caro, isso é indiscutível. Mas os salários aqui são muito bons. Acredito que em qualquer lugar do mundo, é difícil para duas pessoas viverem bem com um salário, a menos que tenha riqueza, herança, ou salários extraordinários envolvidos. Aqui não é diferente. Acho que quando se chega na Suíça com padrões de qualquer outro lugar do mundo, fica difícil não se assustar com os preços. Mas é o mesmo com remuneração: a princípio, você cai pra trás com qualquer oferta de salário. Porque no fim, é isso, um país que paga bem e por isso cobra mais. Claro que para quem ta vindo fazer turismo, pra quem não ganha salário daqui, é uma paulada. E isso vai ser assim... mas como residente, eu passei a aceitar esse custo. Inclusive, passei a consumir mais aqui (antes eu consumia muito mais em nossas viagens ao EUA), porque entendo que eu só recebo o salário que recebo, para girar essa economia aqui, que cobra esses preços. Inclusive, passei a observar que, proporcionalmente, minha vida era mais cara no Brasil. Me acompanhem aqui no raciocínio: imagine que você ganha 2.500 reais. Uma blusinha na Zara custa entre 100 e 250 reais. Agora aqui, imagine que você ganha 2.500 francos. Uma blusinha na Zara custa entre 40 e 80 francos (eu poderia ir além e falar de restaurante, de aluguel, e de tudo mais, porque essa conta se aplica. Mas fiquei com brusinha da Zara porque é meu tipo de moeda rs). Uma outra questão é que com o tempo você aprende a consumir melhor: hoje a gente conhece sites de coisas usadas que vendem bicicletas (pra ficar no exemplo que dei em 2016) por valores muito menores do que pagamos na época, aprendemos onde é mais fácil achar coisa em conta, etc.

Uma coisa que aprendi a valorizar: lojas de segunda mão 

- os restaurantes são ruins
Retiro parcialmente o que disse. Realmente, não se acha comida boa em cada esquina, como em São Paulo por exemplo, rs. Mas quando você aprende a navegar a cidade (e ganha uns dinheiros também rs), começa a ficar mais fácil achar coisas boas. Começamos a achar restaurantes mais escondidos, fora do centro, e fora das rotas convencionais, e lugares com comida boa. Acho também que a nossa régua baixou, não nego, principalmente porque gostamos do social, e resolvemos não desistir diante das primeiras decepções. Mas a verdade é: a maioria dos bons restaurantes são comandados por imigrantes: libanês, tailandês, tamil, etíope, etc. Tem sim lugares de comida boa, inclusive eu achei uma MOQUECA (cara, claro) em Bern e fiquei feliz de comê-la. 

- confiança e segurança
Bern segue sendo o lugar mais seguro onde já morei, mas é claro que o fato da minha casa ter sido saqueada quebrou um pouco da magia suíça rs. Eu sigo achando o máximo você, numa capital de país, poder pendurar a conta, falar que volta depois, não registrar coisas em formulário. A confiança vale muito e eu estava certinha quando cheguei. Se hoje eu deixaria uma chave esperando debaixo do tapete? Nem a pau. Sei que fomos azarados... conheço gente que mora em Bern há 7 anos e nunca trancou a casa. Mas pra mim, esse navio partiu rs... 

Tenho lido meus posts do primeiro ano de Suíça, e achado tudo bem fofo rs. Eu estava muito encantada com tudo aqui, mas hoje vejo que também bem realista. Eu sinto que talvez tivesse sido até mais feliz se tivesse me deslumbrado mais rs. Acho bacana perceber que quase todas as minhas percepções, na primeira semana, eram reais, e eu estava tão atenta a minha volta. Não sei quantos anos mais estaremos pela Suíça, mas acho que vai ser sempre gostoso reler as aventuras do começo. E dos recomeços :) 

A (minha) vida na Suíça em tempos de corona virus

No fim de fevereiro eu comentei por alto algumas mudanças trazidas pelo corona para a Suíça. Mas ainda falávamos de 20 e poucos casos, e uma situação sob controle. Eu tinha alguns planos para março e tava tudo mantido. Encontrar uma casa em Zurich, passar um fim de semana em Paris, me preparar para receber a minha mãe aqui para comemorar meu aniversário. Tinha também um banheiro em obras me tirando do sério. Pois bem. De lá pra cá foram 3 semanas bem doidas, então vamos lá:

1a semana de março
Muita preocupação com a vizinha Italia, mas no geral a vida aqui caminhando bem "normal". Tirando a prateleira de macarrão e molho de tomate, que estava mais desfalcada, o mercado estava abastecido. No trabalho  rolou um "ensaio" de home office coletivo. Cada dia da semana algumas funções se revezeram trabalhando de casa. Para quem não estava acostumado, a ideia era testar VPN, ferramentas, e ver se estávamos todos preparados caso tivéssemos que trabalhar de casa full time. A minha função ficou em casa na terça, e eu fiquei meio descaralhada das idéias que ninguém da obra do banheiro apareceu. Mandei um email bem puto tipo "e ai galera, faz só um mês que eu to de quebra quebra no banheiro e vocês ai se dando ao luxo de disperdiçar um dia?!?!?!". Spoiler: eles disperdiçaram a semana inteira e não apareceram aqui nenhum dia. Senti que meus nervos estavam esquentando rs. Naquela sexta-feira os casos da Suíça foram de 80 para 180 e a empresa anunciou um rodízio para a próxima semana. Falei com minha mãe, que precisávamos ficar de olho na situação, e que talvez não fosse possível voar. Fomos passar um fim de semana em Zurich e fomos a restaurantes, esquiamos, visitamos apartamentos, e tudo que fazíamos era caprichar no álcool em gel e lavagem de mãos.
Corona, que corona? 
2a semana de março 
A segunda-feira começou passando dos quatrocentos casos e o aumento exponencial de uma chacoalhada na galera. Eu fui ao escritório três vezes na semana, e as pessoas estavam realmente espalhadas, inclusive na cantina. Galera se evitando rs. Nos dois dias que trabalhei de casa quase fui a loucura com o quebra quebra, bate bate e poeira voando. Essa obra precisa acabar, era tudo que eu conseguia pensar.
5 semanas de obra e o banheiro assim...
Eu ainda visitei apartamentos em Zurich, e já comecei a me incomodar de estar na casa de pessoas estranhas, com tanta gente. Na quinta-feira fiz um happy hour com as amigas (e no bar tinha bastante gente sem noção como a gente), e no fim nos despedimos: sabíamos mesmo que não nos veríamos nas próximas semanas. Eu conversei com a minha irmã, pra ela começar a me ajudar na missão de convencer a minha mãe que não seria uma boa vir pra cá messe momento. Ela é teimosa, e não estava afim de desmarcar não.
Eu, minhas amigas e minha mãe rs
Na sexta-feira tínhamos passagens de trem para passar o fim de semana em Paris, e deixamos até o último minuto pra resolver se íamos ou não, mas o juízo (e o medo de ficar quarentenados num hotel, ou de fronteiras fecharem e não conseguir voltar pra casa) falou mais alto e ficamos em casa. A semana terminou com os membros do Conselho Federal da Suíça decretando o fechamento das escolas até o dia 3 de abril. No sábado eu ainda fui dar uma volta na cidade, e lojas, bares, todos lotados num dia ensolarado. No mercado no entanto o medo do suíço deu as caras: prateleiras vazias de tudo. Domingo fomos a um parque natural para fazer uma trilha e começar nosso pseudo isolamento: isolados na natureza.

3a semana de março 
No domingo a noite chegou mensagem do CEO: todos os funcionários de home-office. O desespero bateu. Eu ficando todos os dias em casa não iria conseguir visitar apartamentos em Zurich, e a gente tem data pra saír daqui (aqui falo mais de como é o processo de alugar casa na Suíça e como você TEM que visitar pessoalmente os apartamentos). Além de tudo, a M A L D I T A obra. Fui ao mercado e o abastecimento estava de volta.
Escritório montado
Logo na segunda-feira teve mais uma coletiva do governo, e eles decretaram o fechamento de todas as lojas, bares, restaurantes e tudo mais que não fosse essencial, taté o dia 19 de abril. Remarcamos a viagem da minha mãe para novembro, e eu fiquei bem arrasada. Fui a uma loja comprar uns acessórios pra fazer exercício em casa, e acabamos indo no bar favorito de Mati porque eles estavam vendendo as cervejas que já estavam na pressão com desconto. Nessas alturas, eu já tava olhando todos os desconhecidos na rua e pensando: será que eles me contaminam ou eu contamino eles?! Paranóia crescendo.
Paranóica porém bem linda pra ir no único programa possível: mercado
A semana foi horrível, pra ser bem sincera. O banheiro que não ficava pronto, a sujeira, a crescente tensão e ansiedade de estar vivendo uma pandemia, a preocução com os meus no Brasil. Pra piorar: o pedreiro lacrou o banheiro e não avisou. Para cada xixi, mesmo no meio da noite, teríamos que descer pro terceiro andar (moramos no quinto), onde tinha um banheiro pra gente usar. Foi o dia que eu comecei a duvidar da minha sanidade rs. Chorei pencas, o dia inteiro. Eu entrava em video call com os colegas, e quando saia só fazia chorar. Foi quando senti o isolamento pesando na minha. Outra coisa que me deixou meio desnorteada foi a ideia das fronteiras fechando. É muito simbolismo na minha cabeça e eu fiquei triste. Na sexta-feira eles finalmente terminaram a obra do banheiro, SEIS SEMANAS depois. A casa foi completamente limpa, e ao acordar no sábado, eu percebi que mais da metade do meu sofrimento vinha da casa estar completamente zoneada, zero aconchegante e suja. Saímos dirigindo por aí, e mais de 300km depois, eu estava bem feliz. Dirigir me deu uma sensação de normalidade, e por uns momentos eu meio que esqueci de tudo. Mas em nossas paradas mantivemos distância de tudo e todos. Encerramos a semana com sete mil casos de corona na Suíça.
A serenidade de quem sobreviveu ao caos inicial
Iniciamos a quarta semana de março, a segunda de quarentena. Aqui ainda é permitido sair de casa para caminhar, correr, pedalar, desde que mantendo distância mínima de 2 metros de outras. Sendo a Suíça um país de tantos espaços verdes, é possível manter uma distância muito maior. É o que tem me segurado bem: poder sair uma vez por dia e correr, pedalar. Voltar pra minha casa agora arrumadinha e aconchegante também ajuda rs. Compramos um quebra cabeça de mil peças, livros de colorir, estamos assistindo séries, fazendo facetime com amigos, falando com Baby com maior frequência. Sigo procurando apartamentos, mas ainda estamos vendo como vai ser a questão das visitas. A real é que com o fim da obra, eu já nem vejo mais problema em ficar aqui, e estou considerando conversar com o landlord pra gente ficar mais tempo, até a situação normalizar. A Suíça no momento tem mais de 8 mil casos confirmados. Os testes só são feitos em pacientes graves ou grupo de risco, o que significa que são muito mais do que isso. Embora seja o segundo maior índice de contaminação per capita, a mortalidade segue baixa. Vamos acompanhar o que vai acontecer daqui pra frente.

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