O mês de julho

Sigo firme e forte no propósito de ir registrando os meses por aqui, então, mesmo que com um grande atraso, senta que vem resumão de julho. 

O mês começou no auge da crise emocional que contei num post anterior. Pra piorar tudo, Mati fez uma viagem que era importante, e eu estava sozinha em casa. Apesar de todas as dificuldades envolvidas, acho que esse tempo sozinha foi importante pra elevar minha relação com Carlitinho, criar a conexão que precisávamos, e também me dar mais segurança em como lidar com ele. Também teve a participação dos amigos, que não deixaram a peteca cair. Alguns amigos vieram visitar e foi muito bom me distrair e pensar em outra coisa além do serzinho que agora dependia tanto de mim. 

E Mati chegou dia 10, e com ele, uma quarentena forçada. O governo suíço impôs (corretamente, no meu entendimento) quarentena obrigatória para aqueles chegando de países considerado de risco, inclusive os EUA, de onde veio o digníssimo Matinho. E a gente tinha se preparado para ele se isolar aqui dentro de casa, usando quarto e banheiro separado. Mas ainda assim, o cantão de Zurich demandou que as outras pessoas da casa também quarentenassem, e embora tenha sido um SACO, eu acho foi a coisa certa a fazer.  Então por 10 dias, ele não colocou os pés nem no corredor do prédio, dormiu num quarto separado, usou banheiro e varanda separada, e nos convivemos em casa a distancia. Eu, por minha vez, somente saí com o cachorro 3 vezes por dia, por 10 ou 15 minutos, para ele fazer as necessidades. Para que ele pudesse se divertir um pouco, uma pet sitter pegou ele aqui alguns dias, e ele pode se divertir numa fazenda. 

E depois de 10 dias, veio novamente a liberdade rs... E liberdade no verão suíço. Eu sou a doida do verão, e comecei a ir pro lago e rio e tudo mais que água todos os dias depois do trabalho, e alguns dias até na hora do almoço. A Suíça está com a vida relativamente normal. Os casos de corona flutuam, mas a situação está sob controle, e eu acho que no inverno a coisa tende a piorar. Então estou vivendo esse verão adoidado.
Na beira do lago, no meu banho público favorito
E na beira do Limmat
E roubado do stories to Instagram: melhor jantar que tivemos em Zurich. Moudi, anota aí

Num fim de semana, fomos encontrar amigos queridos, nossos ex vizinhos de Berna. A gente queria passar um tempo gostoso em algum lugar bonito, e isso não é difícil de achar na Suíça, então a gente fuçou e achou um lugar lindo nas beiras do Vierwaldstettensee, que também é conhecido como lago de Lucerna, e fomos passar um fim de semana na pacata Gersau. A cidade é mini, porém gracinha, entre o lago e a Rigi, uma das montanhas famosas da região central do país. Apesar da previsão do tempo marcando chuva, os deuses da água questavam do nosso lado rs. Foram dias muito muito ensolarados e quentes, de noites frescas, um fim de semana que valeu muito pra recarregar as baterias, botar a conversa em dia, e lembrar que não precisamos ir muito longe pra nos sentir viajando por aí. A foto que abre esse post é de lá, e ilustra bem o clima do fim de semana. 
Em outra vida acho que fui um peixe, porque sou muito mais feliz dentro da água

E foi assim que julho terminou num tom BEM mais alegre do que começou rs... Pra melhorar tudo, dia 31 foi meu último dia de trabalho antes das férias. O plano inicial era tirar duas semanas e visitar os sogros na California, mas é claro que o corona mudou tudo e por aqui ficamos. Tentamos fazer ainda outros planos que também foram sacrificados, e resolvemos curtir as férias pela Suíça. Se a inspiração vier, esses posts saem antes do resumo de agosto rs. 

Agora é curtir o que resta das férias e do verão :)

Puppy blues: eu tive

Em algum post aqui atrás, contando sobre a chegada de Carlito, eu falei de brincadeira sobre o puerpério canino que me acometeu. A real é que não foi bem brincadeira, e eu descobri então que existe um negócio chamado puppy blues. 

Os primeiros dias da chegada de Carlito foram só festa. Meu sonho de ter um cachorro vem desde que eu não me lembro, acho que eu tinha uns 4 ou 5 anos. Lembro de ter trazido vários animais de rua pra casa, que sempre foram sumariamente proibidos pela minha mãe. Ao longo dos anos, eu sempre fiquei pensando quando seria a hora de realizar esse sonho. Mati sempre teve cachorro com os pais, então desde a nossa união, esse papo também foi recorrente. E chegando na Suíça, que é um país extremamente pet friendly, a gente acertou que era questão de tempo. Ou seja, o cachorro foi mais do que planejado.

Depois de uns dois dias dias de Carlito aqui, eu comecei a sentir uma agonia, uma ansiedade, que foi aumentando exponencialmente. Eu não vou entrar em muitos detalhes, porque sei que foi também uma crise inflamada por outras questões, mas Carlito acabou sendo o gatilho de um breakdown nervoso depressivo que eu nunca tinha tido, e jamais teria imaginado. Por 10 dias, eu não consegui sentir alegria por te-lo na casa, e morria de culpa por isso. Eu chorei provavelmente uma semana sem parar, eu tive dias de não conseguir sair da cama, eu tive que faltar no trabalho porque simplesmente eu chorava tanto que não conseguia pensar, e diante do desespero de achar que eu passaria a vida daquele jeito, pensei seriamente que se isso não passasse eu teria que devolvê-lo. Por dias a fio, eu achava que só devolvendo ele eu iria restaurar a paz na minha vida. Claro que eu não ia devolver um cachorro assim, depois de uma semana. Claro que eu ia tentar fazer funcionar, mas naquele momento eu tinha poucas esperanças de que ia dar certo. 

Veja bem, ele é um cachorro super sossegado, não causou tumulto, não comeu móveis, nem sapatos, teve pouquíssimos acidentes de fazer as necessidades dentro de casa, é super amoroso, ou seja, é muito melhor do que a gente tinha imaginado. Eu tinha me preparado pra um furacão, e le chegou super tranquilo. Mas mesmo assim, sendo bem realista, eu me senti extremamente infeliz. Eu sabia das mudanças todas que um cachorro traria pra nossa vida, e eu estou há muito tempo me sentido pronta pra elas. Mas eu achava que a alegria que seria ter ele iria se sobrepor a essas mudanças. E chegou na hora, o sentimento faltou. Eu não me senti feliz, eu não conseguia sentir um segundo de felicidade, toda a alegria que eu imaginava não chegou, e então todas as mudanças perderam o sentido, e eu fiquei a deriva, só com um buraco no peito que eu nem conseguia explicar. Em algum momento, vendo meu marido incrédulo diante da depressão que eu sentia, eu tentei explicar: é como se a luz que eu tinha dentro de mim tivesse apagado.  

Infelizmente, dividindo a angústia com amigos, em muitos momentos me senti incompreendida. Eu não queria ouvir que "ahh não fique assim, cachorro é tudo de bom". Ou ¨que estranho", ou ainda "mas o problema é cuidar dele?". Uma porque não era, outra porque pra diagnóstico eu já tinha entrado em contato com a minha psicologa no Brasil. Eu queria era me sentir ouvida, compreendida. A reafirmação contínua de que a minha reação toda era estranha, fez eu me senti irresponsável de ter pegado um cachorro, que eu fiz tudo errado, que todo mundo fica feliz com o cachorro, e se eu não estava, é porque eu tinha feito merda. Depois de ficar cavando coisas pela internet (porque não é possível que com esses 7 bilhões de gente no mundo, eu seja a única a sentir algo assim), eu achei alguns relatos no reddit, como esse aqui, que pareciam ter sido escritos por mim, e isso me trouxe uma calma tremenda. Saber que isso é normal, que acontece, me fez sentir mais tranquila, menos ET. Indo atrás, eu descobri que existe sim uma coisa chamada puppy blues, em clara referência ao baby blues, que é aquele período pós parto em que a mãe tem variações de humor, sofrência, e principalmente, em que solidão trazida por um bebê recém nascido se impõe. 

Eu não vou ficar falando aqui que as pessoas tem que aguentar firme, que isso passa. Foi uma barra. Realmente, passou pra mim. Hoje fez um mês que Carlito chegou, e eu não vejo mais a nossa casa sem ele. Depois de uns 10 dias de sofrimento, as coisas começaram a se acalmar, e eu comecei a criar uma relação com ele, e a sentir a tal alegria que eu imaginei desde sempre. Estamos felizes, em harmonia, e tudo certo. Mas eu achei que valia a pena colocar esse relato aqui, por alguns motivos: 

1- eu nunca tinha ouvido falar disso. Talvez você também não. Então se você estiver lendo isso porque esta se sentindo assim, porque o google te trouxe aqui, sinta-se abraçado

2- numa outra oportunidade, irei tentar focar no medo do julgamento alheio. Eu há muito tempo não ligo muito pro que as pessoas pensam, e ainda assim, pela primeira vez em anos, eu me senti desesperada. A ideia de devolver o cachorro era péssima inteira, não era uma solução completa, principalmente porque ele ia sofrer, mas sendo bem honesta, eu me peguei com medo do que as pessoas iriam falar. Eu estava com minha saúde mental em frangalhos, e me sentindo prestes a virar um alvo da fúria da galera do bem da internet. Acho que tem material aqui pra um post meu, mas também pra uma reflexão de todos nós

3- vamos escutar mais as pessoas que se abrem com a gente. Não é de hoje que eu percebo - e eu sou culpada de fazer isso também - que todos desabafos e conversas com amigos são sucedidos de conselhos, opiniões, idéias do que fazer. Ninguém mais escuta por escutar, pra ouvir, pra acolher. Ta todo mundo meio ouvindo e meio já pensando na resposta que vai dar, em como dar comandos praquela pessoa resolver, e falar o que o outro tem que fazer. Isso anda me irritando cada vez mais, e nesse caso específico, me fez sentir muito solitária 

E com isso, fica aqui a minha experiência. De novo, eu não tenho nenhum objetivo específico com esse post além de colocar pra fora algo que aconteceu comigo e que no fim, é mais comum do que eu supunha. Não vou falar pra ninguém segurar firme que vai passar, não vou botar shame em quem, vivendo algo semelhante, devolveu o animal, não vou, agora que tudo passou, diminuir o sofrimento que senti. Talvez, além dos três pontos acima, eu gostaria de dizer: cuidemos da nossa saúde mental. Tem muito mais armadilha por aí do que a gente sabe. E a gente está muito mais vulnerável a elas do que imaginamos. 

Adotando um cachorro na Suíça

Desde que eu postei as primeiras imagens de Carlito no meu instagram, choveu mensagem de gente perguntando que raça, quantos anos e onde eu comprei ele. Primeira coisa: há pelo menos uns 10 anos, tomando consicência da causa animal, e do tanto de cachorro abandonado mundo afora, comprar um cachorro de raça de canil ficou pra mim fora de questão. E foi assim que, mesmo morando num país em que não há animais de rua, eu resolvi que adotaria um cãozinho, e de preferência mais viralatudo. 

(Gabriela, como assim não tem animal de rua na Suíça? Pois é, não tem. Aqui há leis e regras regulamentando o relacionamento com animais, e abandono é crime. Todos os cachorros e gatos são chipados, e se o seu cachorro for encontrado vagando nas ruas por abandono, você está encrencado. Ainda há sim quem abandone o animal de estimação por N motivos, mas esse processo normalmente é feito diretamente nos abrigos) 

A adoção
Voltando, dado que a Suíça tem pouca oferta de animais para adoção, muitos abrigos aqui fazem parcerias com abrigos de outros países onde o abandono é bem comum, como Italia, Espanha, Hungria, Romenia, Grécia. Os abrigos daqui intermediam o processo. Nós estamos há anos planejando a ideia do cachorro, já chegamos a aplicar pra um cachorro há dois anos, e sempre procuramos por essa data base, TierOnline, que é um portal que agrega os animais disponíveis nos abrigos da Suíça, e também desses abrigos parceiros em outros países que se dispõe a enviar o animal pra cá. 

Os dois processos pelos quais passamos (o de dois anos atrás e o de agora) foram bem rigorosos - e foi por isso, inclusive, que em 2018 a nossa tentativa não vingou. Eles querem saber a rotina da família, disponibilidades, expectativas, infra estrutura da casa, e tudo relacionado ao bem estar do animal e a vontade de fazer dar certo. O nosso questionário tinha coisa de 6 páginas, com todo tipo de pergunta que você pode imaginar: quantas horas as pessoas passam fora, planos para o lazer do cachorro, o que fazer em caso de viagem, nível de experiência com cachorros, o que fazer em caso de divórcio. Uma vez aprovado, é feito um home check. No nosso caso, por conta da pandemia, esse home check foi adiado, e aí como veio a nossa mudança, nós pedimos para eles aguardarem e fazerem isso já no lar novo, onde o animal efetivamente moraria. Quando a data chegou, as regras de distanciamento já estavam mais relaxadas e veio uma pessoa aqui, conferiu se tudo que a gente reportou no questionário com relação ao espaço e condições era verdade, e também fez outras perguntas. Com o green light dela, Carlito começou a ser preparado para viajar. 

O cachorro pode ser entregue para a família, normalmente castrado e chipado. Se não houver a chance de fazer a castração antes, no contrato vem essa cláusula de que os novos tutores irão castrar o animal assim que possível. 
Depois da castração, com o cone of shame

Mas no nosso caso, Carlito estava na Hungria. E aí entra outro processo, que é o de trazer um cachorro de outro país para a Suíça (e nem vou entrar no mérito de que, na semana em que nós fomos aprovados, foi declarada a situação de emergência pelo corona, e nós tivemos que esperar 3 meses por ele). 
Carlito em sua última consulta antes da viagem
E aqui já embarcado, pronto pra viajar da Hungria para a Suíça

A imigração
O cachorro foi chipado, e então emitiram um passaporte europeu pra ele. No passaporte, além de ficar registrado os dados dele e dos futuros tutores, também ficou registrado o número do chip, e então das vacinas obrigatórias, acho que é a anti rábica somente. Eu pedi ainda que aplicassem as outras vacinas recomendadas, mas não obrigatórias. 

No dia da viagem, nós deveríamos fazer a imigração dele na Suíça. Então encontramos com o motorista que o trouxe na fronteira com a Áustria, antes da entrada na Suíça. Com ele já no carro, paramos na aduana Suíça e fizemos a declaração e entrada dele. O valor a ser pago é de acordo com o valor do animal. No nosso caso, Carlito é um viralata, mix de puli com alguma coisa, e a taxa do abrigo (para cobrir as despesas médicas, de emissão de passaporte, e pelos cuidados) foi de 245 euros, então a nossa taxa imigratória foi com base em animais que custam até 500 francos. Pagamos 39 francos. No caso de um animal de raça, cujo valor padrão seja de mais de 500 francos, a taxa vai ser outra. Eu vi uma tabela na tela da polícia, mas não me atentei aos outros valores.
O nosso encontro, e eu inchada por motivos de: chorei para caraleooo

A regularização na Suíça
Chegando na Suíça, o tutor tem 10 dias para registrar o animal no Amicus, que é uma database nacional. Esse registro deve ser feito com o acompanhamento de um veterinário obrigatório. Então o procedimento é: ligar no Hundekontrolle (ou veterinäramt) do seu cantão de residência, e pedir o número de identificação do seu cachorro. Aqui em Zurich esse procedimento pode ser feito online aqui, e eu recebi o número por email coisa de 20 minutos depois, bem rápido. Com esse número, você marca vai ao veterinário e ele faz o registro no Amicus. 

E aí, sendo Suíça, os procedimentos estão todos feitos e só sobra as contas rs. Pagamos 180 francos de taxas federais, estaduais e municipais, que recebemos por email junto com o número de idenitificação. Sei que a federal é uma vez só, justamente por conta desse registro no Amicus. As taxas municipais e cantonais, que no nosso caso, de um cachorro pequeno, foram juntas de 50 francos, são anuais. Além da manutenção dessa "vigilância sanitária", esse imposto também paga pelos saquinhos de coco de cachorro espalhados pelo país, que eu acho muito bom. 

Com isso, seu cachorro está devidamente adotado e regularizado. 

Opcionalmente, eu fiz também um seguro saúde para ele. Para o dia a dia e consultas, os preços aqui são bem razoáveis. Mas em caso de acidentes, cirurgias, internações, os valores podem escalar bem rapidinho. Tendo ouvindo de amigos que gastaram 3 mil francos com um problema canino, eu optei por fazer o plano. Tem algumas possibilidades, e o meu eu fechei com a Animalia, um braço da Vaudoise. 

E aqui um Carlito relax com seu penteado de verão :)

Espero que esse post seja válido para alguém que esteja pensando em adicionar um animal à família. Não compre, adote <3

A nova vida que Junho me trouxe

Dia 30 de maio chegamos em Zurich com mala e cuia, mais 55 caixas e todos os móveis. Foi um dos dias mais cansativos de que tenho memória, e que me fez pensar que eu não mudo tão cedo desse apartamento simplesmente porque não tenho saúde pra isso. Os primeiros dias do mês foram de adaptação contínua: estamos num bairro super gostoso, mas badalado rs. Badalado o suficiente pra eu, caipira de Berna, ter passado meus primeiros dias meio overwhelmed, e questionando a nossa "escolha". Com muitas aspas, porque não foi bem uma escolha, foi o apartamento que a gente conseguiu, nesse mercado imobiliário doido que é Zurich. 

Passamos os primeiros dias arrumando a casa, deixando tudo com cara de lar, mesmo que com muitos ajustes. Eu não consigo sossegar enquanto não tiver o mínimo de organização em volta de mim. O caos e a bagunça me tiram do centro, e então em coisa de 3 dias, a nossa casa já estava bem organizadinha, e toda a bagunça restante devidamente escondida no quarto de visitas com a porta fechada rs. 

Também começamos a dar umas voltas e explorar Zurich como moradores. Eu conheço um pouquinho mais a cidade, por estar vindo aqui diariamente há quase dois anos, mas Mati conhecia bem pouco. Então passamos alguns dias caminhando pelo nosso bairro, e dando uns roles de bike, o tipo de coisa que a gente adora. Fizemos várias rotas por lugares que nenhum de nós conhecia, e tivemos aquele feeling de descobrir a cidade juntos. O verão chegando trouxe dias lindos propícios pra isso, inclusive.

O lago de Zurich num fim do dia em Kusnacht, na costa dourada 

Diversão no Limmat com a cidade antiga ao fundo

E por aqui também tem diversão na bóia

E então, dia 22, acordamos bem cedinho e fomos até a fronteira com a Áustria buscar o novo integrante da família, que veio sendo planejado há anos. Junho trouxe também Carlito, o cachorro mais fofo e amoroso que se tem notícias rs. Em um post separado eu vou contar sobre o processo de adoção por aqui. Mas já adianto que apesar da fofisse, nem tudo são rosas, e confesso que nunca ninguém me avisou que poderia rolar um puerpério canino rs... só que rolou. De qualquer forma, por ora vamos superando tudo. 

E foi assim que Junho de 2020 foi um mês de grandes mudanças: novo normal com tudo, cidade nova, casa nova, e um novo habitante. Terminei o mês na melancolia de uma crise existencial, que também explorarei mais pra frente, quando eu mesma tiver plena claridade do que tem passado na minha cabeça e acontecido no meu corpo. 2020, o ano das dificuldades inesperadas. 

Que julho traga sol, calor, amor e paz, porque eu to precisando. 

Maio e o "novo normal"

Maio foi um mês bem especial. Enquanto o corona seguia assombrando boa parte do mundo, a vida começou a retomar alguma normalidade aqui na Suíça. O mês começou com uma pequena abertura para salões e lojas de diy, e terminou com bares, restaurantes e parques abertos ao público. Se a princípio eu fiquei meio ressabiada, no final eu já tava bem a vontade rs... Fomos em vários restaurantes, e aproveitamos ai vinte dias pra nos despedir de Berna. Enquanto a gente ia se entendendo com os dilemas de 2020 - encontrar ou não amigos? Precisa vestir máscara? Ir ou não ir no bar? - uma primavera linda ia florescendo na Suíça. 
Primeira escapada em semanas
Nas despedidas de Bern, conhecendo Schwellenmätteli, um restaurante na beira da água

Ainda no clima de mudança, resolvemos fazer um passeio pela região do Jura, uma área que é mais próxima de Berna, mas já na fronteira com a França. O destino foi Le Locle e La Chaux de Fonds, as duas cidades que, juntas, são a sede da famosa relojoaria suíça. A gente sabia que não tem muito o que fazer por lá, e que depois de mudados, teríamos dificilmente motivo para dirigir mais de 2 horas até lá. E realmente... Além de passar pelos prédios de marcas famosas, como Rolex, Tag Heuer, Tissot, Cartier, etc, não tem muito o que fazer. Le Locle, a 8 quilômetros da França, é especialmente sem graça, rs.. La Chaux de Fonds ainda tem um centro antigo bonitinho. O ponto turístico da região, um mirante sobre o rio Doubs, a divisa entre a Suíça e a França, estava fechado por conta da pandemia. Então pra gente sobrou comer um kebab na praça, pensar nos relógios que nunca compraremos, e dirigir pra casa. Mas no caminho tinha Neuchatel, e de lá eu gosto muito. Pra completar, estava ensolarado. Resumindo, paramos por lá e curtimos um fim de tarde maravilhoso na beira do lago. 
As casinhas coloridas na beira do lago em Neuchatel
Fazendo jus a blogueirisse rs

Maio é também o mês dos feriados: aqui na Suíça é celebrada a ascenção de Cristo e o Pentecostes, feriados do calendário cristão, que variam conforme carnaval e Páscoa. E com esses feriados veio a lembrança dos planos que a pandemia não concretizou: iríamos dirigir até Nice e passar um feriado no Riviera Francesa. Mas não aconteceu, e resolvemos fazer acontecer por aqui mesmo. Durante o feriado teve picnic na beira do rio, teve encontro - a distancia - com amigos queridos, e demos uma volta de bike em que bati meu novo recorde: 29 quilômetros, vendo Berna quase que de cabo a rabo rs. Foi bonito terminar nosso último fim de semana em Berna sentados na varanda do Sternen, o hotel em que ficamos por uma semana na nossa chegada. 
Pedalando brom Bremgarten bei Bern

E pelos campos de Sttetlen

Na beira do Aare

<3

E foi assim, com uma vibe lá em cima, num clima de verão, de vida recomeçando, de esperança pela luz no fim do túnel, que a gente encerrou esse capítulo da vida na Suíça. Berna, valeu, foi bom, adeus :) 

Mais de Bern

To bem sem assunto, pra falar a verdade. Estamos aqui preparando a mudança para o próximo fim de semana, tenho trabalhado bastante e tivemos um feriado no meio do caminho. Apesar da vida aos poucos ir se encaminhando para a "normalidade", não tem muito o que contar por aqui. E foi assim que eu resolvi fazer meu tributo final a essa cidade que vai ser sempre tão importante na minha história. Selecionei algumas das minhas fotos favoritas nesses anos, e deixo aqui, uma declaração definitiva do meu amor e gratidão por Bern. 

A piscina de Munsingen, e uma das minhas primeiras imagens do verão Suíço

Os telhados mágicos de Bern e a Munster

A vista mais bonita da cidade, diretamente do terraço do Parlamento

Food Festival na Grosse Schanze, um dos meus programas favoritos

Bern diretamente do Rosengarten, de tirar o fôlego nas quatro estações do ano

Old town, onde eu deixo um pedacinho do meu coração

Quase quatro anos depois...

... eu resolvi olhar esse post aqui, meu primeiro sobre a minha então vida de recém chegada na Suíça, e em Bern. Eu estou entrando num momento bem nostálgico, que é deixar nossa vida em Bern pra trás. Tanta coisa mudou desde que chegamos aqui, e acho que é bem interessante olhar o que eu achava quando estava aqui há somente uma semana. Vamos lá!

- as pessoas misturam as línguas
Misturam médio. Na verdade, o suíço alemão rouba muitas palavras do francês, mas na época eu não sabia (e nem notava algumas diferenças), então fiquei achando que era uma mega mistureba. Por exemplo, eles falam Saliiiii (bem cantado) quando encontram alguém. É claro que é uma referência ao Salut francês, mas é diferente. Mesma coisa o adieu, que eu mencionei no texto da época. É na verdade ade. Tem várias palavras aqui que são usadas em francês: poulet pra frango (Hähnchen em alemão da Alemanha), velo pra bicicleta (Fahrrad), spital para hospital (Krakenhaus), etc. Agora o italiano, embora seja língua oficial no país, só aparece mesmo pro ciao haha. 

- o transporte de uma cidade tão pequena é maravilhoso
É mesmo. Não tenho um pingo pra criticar. O transporte de Bern é incrível, super conectado, pontual, capilar, chega em qualquer lugar. Aos finais de semana tem o Moonliner, que é o transporte noturno. A estação de trem é uma das principais do país, então tem trem para todo canto, muitas conexões, e é tudo prático. Não sei se comentei, mas no verão passado compramos um carro, para fazer viagens, principalmente pra fora do país. E até começar a crise do corona, realmente só usamos o carro pra isso. Aqui em Bern o carro nunca foi uma necessidade, tirando ir na Ikea rs (mas até lá você chega de transporte tranquilamente). 
Os charmosos trams de Bern

- bikes everywhere 
Mais uma percepção verdadeira. A galera de Bern pedala muito, ainda mais se considerar que metade da cidade é pirambeira rs. No inverno claro que as bikes reduzem, mas ainda assim, tem bastante. A grande diferença mesmo se vê em dias de chuva ou neve, é quando tem menos bike na rua. O frio não assusta os berninos (?!?!), mas a água é outra história rs. Claro que tem gente que se aventura na água, mas é bem menos. E claro que Bern não se compara com Amsterdam ou Copenhagen, mas de novo... essas cidades são flat né? 

- Suíços simpáticos no verão 
Mais uma meia verdade. A real é que embora no verão a Europa inteira fique mais feliz, como eu vim a aprender, o bernino (adotei a denominação rs) é simpático o ano inteiro. As pessoas aqui dão bom dia para desconhecidos no mercado, no transporte, nas trilhas, em qualquer lugar. Não, eles não querem ser seu amigo, e não querem nada mais do que isso: ser simpático, ser agradável, ser educado. Algumas semanas depois que escrevi aquele post, eu comprei um livro chamado Swiss Watching, escrito por um inglês morando em Bern há anos, e ele falava disso, como o povo aqui era mais simpático do que os suíços em média. E é uma verdade que não se aplica só no verão. 
Simpáticos e aglomerados num verão pré corona

- o interior é logo ali
BEM verdade. Inclusive eu falei de Worb, mas não precisa ir nem 25 minutos do centro pra achar roça e cheiro de merda de vaca rs. Quandoa  gente morava a 10 minutos do centro de Berna, tinha pasto e vaca quase do lado de casa. Hoje eu vivo no centro da cidade, mas o cheirão de bosta bate forte aqui de vez em quando rs... 
Pedalando e no meio do mato, mas a 10 minutos do centro

- a cidade e o país são caros 
Continua sendo verdade, mas minha perspectiva mudou um pouco. A Suíça é um país sabidamente caro, isso é indiscutível. Mas os salários aqui são muito bons. Acredito que em qualquer lugar do mundo, é difícil para duas pessoas viverem bem com um salário, a menos que tenha riqueza, herança, ou salários extraordinários envolvidos. Aqui não é diferente. Acho que quando se chega na Suíça com padrões de qualquer outro lugar do mundo, fica difícil não se assustar com os preços. Mas é o mesmo com remuneração: a princípio, você cai pra trás com qualquer oferta de salário. Porque no fim, é isso, um país que paga bem e por isso cobra mais. Claro que para quem ta vindo fazer turismo, pra quem não ganha salário daqui, é uma paulada. E isso vai ser assim... mas como residente, eu passei a aceitar esse custo. Inclusive, passei a consumir mais aqui (antes eu consumia muito mais em nossas viagens ao EUA), porque entendo que eu só recebo o salário que recebo, para girar essa economia aqui, que cobra esses preços. Inclusive, passei a observar que, proporcionalmente, minha vida era mais cara no Brasil. Me acompanhem aqui no raciocínio: imagine que você ganha 2.500 reais. Uma blusinha na Zara custa entre 100 e 250 reais. Agora aqui, imagine que você ganha 2.500 francos. Uma blusinha na Zara custa entre 40 e 80 francos (eu poderia ir além e falar de restaurante, de aluguel, e de tudo mais, porque essa conta se aplica. Mas fiquei com brusinha da Zara porque é meu tipo de moeda rs). Uma outra questão é que com o tempo você aprende a consumir melhor: hoje a gente conhece sites de coisas usadas que vendem bicicletas (pra ficar no exemplo que dei em 2016) por valores muito menores do que pagamos na época, aprendemos onde é mais fácil achar coisa em conta, etc.

Uma coisa que aprendi a valorizar: lojas de segunda mão 

- os restaurantes são ruins
Retiro parcialmente o que disse. Realmente, não se acha comida boa em cada esquina, como em São Paulo por exemplo, rs. Mas quando você aprende a navegar a cidade (e ganha uns dinheiros também rs), começa a ficar mais fácil achar coisas boas. Começamos a achar restaurantes mais escondidos, fora do centro, e fora das rotas convencionais, e lugares com comida boa. Acho também que a nossa régua baixou, não nego, principalmente porque gostamos do social, e resolvemos não desistir diante das primeiras decepções. Mas a verdade é: a maioria dos bons restaurantes são comandados por imigrantes: libanês, tailandês, tamil, etíope, etc. Tem sim lugares de comida boa, inclusive eu achei uma MOQUECA (cara, claro) em Bern e fiquei feliz de comê-la. 

- confiança e segurança
Bern segue sendo o lugar mais seguro onde já morei, mas é claro que o fato da minha casa ter sido saqueada quebrou um pouco da magia suíça rs. Eu sigo achando o máximo você, numa capital de país, poder pendurar a conta, falar que volta depois, não registrar coisas em formulário. A confiança vale muito e eu estava certinha quando cheguei. Se hoje eu deixaria uma chave esperando debaixo do tapete? Nem a pau. Sei que fomos azarados... conheço gente que mora em Bern há 7 anos e nunca trancou a casa. Mas pra mim, esse navio partiu rs... 

Tenho lido meus posts do primeiro ano de Suíça, e achado tudo bem fofo rs. Eu estava muito encantada com tudo aqui, mas hoje vejo que também bem realista. Eu sinto que talvez tivesse sido até mais feliz se tivesse me deslumbrado mais rs. Acho bacana perceber que quase todas as minhas percepções, na primeira semana, eram reais, e eu estava tão atenta a minha volta. Não sei quantos anos mais estaremos pela Suíça, mas acho que vai ser sempre gostoso reler as aventuras do começo. E dos recomeços :) 

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