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10 anos depois...

... Pois é, hoje faz 10 anos que eu embarquei no avião que me levou pela primeira vez para fora do Brasil. Eu embarcava rumo ao Wisconsin sem fazer a menor ideia do que encontrar, de como seriam as coisas e, mais que tudo, de como essa viagem mudaria a minha vida. Mudou minha visão de mundo, do que é importante, de como encarar os problemas, a vida e as pessoas. Foram 7 meses de muito drama, diversão, trapalhadas e muito, muuuito, aprendizado. Eu não tenho dúvidas que minha vida não seria como é hoje não tivesse eu ido lá ver um pouco do mundo com meus olhos. E digo isso porque ao voltar de lá eu entrei numa loucura de querer conhecer culturas, gente, de ajudar pessoas, de me aproximar do diferente, coisas que foram me fazendo ser quem sou hoje, e me trazendo pra onde estou. E sei que sem aquela vivência lá eu não teria coragem para viver o que vivo agora. 
Devils Lake, meu lugar favorito

O purgatório

Acabada a novela americana do intercâmbio (capítulos 1, 2 e 3), começou a novela mexicana do retorno. Minha gente... Se vocês pensam que é triste dar tchau pros pais no aeroporto na ida, queiram nem saber a merda que é o dia seguinte da volta. Por que assim, você chega, ta todo mundo te esperando, é uma maravilha reencontrar pai, mãe, tios, amigos, beber 5 litros de Guaraná Antarctica e comer 5 pães franceses, uma salada de palmito fresco, só alegria. Daí você deita pra dormir, e é tudo muito esquisito... Parece que tudo que você viveu mal existiu. De novo, a história da realidade paralela.

Começando que lá eu estava num lugar muito seguro. Deixava a janela do carro aberta e tudo de ruim que acontecia era uma criança abestada ligar meu farol, me deixando sem bateria. Era também um oasis de civilização: embora não tivesse muito pedestre dando sopa, era só um por o pé na rua que os carros paravam. Ao lado da minha última casa tinha um ponto de manutenção de postes da Verizon (a Telefonica deles), e em vários dias de sol eu me esticava de biquini no jardim (lembrem que naquelas terras não tem muros), e não ouvia um fil fil. Os brutamontes de macacão entravam e saiam o dia inteiro, e não davam a mínima pra minha bunda de biquini. Uma paz. 

Ai você dorme, e acorda em São Paulo... caos rolando, semi atropelamento, tentaram bater minha carteira no metrô, aquela maravilha. Vá lá que tinha uns (vários) probleminhas nos EUA também, mas nessas horas a gente não lembra, né. E aí eu, que ganhava alguns mil dolares mensais pra ser salva vidas, virei "mão de obra qualificada". Estagiava por 8h em escritório renomado, e ganhava uma coisinha... E ainda por cima, eu estava apaixonada, meus amigos.. eu estava crentíssima que tinha encontrado o amor da minha vida. E ele não estava no mesmo hemisfério que eu... 

Pronto, tava feita a merda. Chorei dias e noites, tardes e madrugadas, nonstop. Eu dormia na aula, eu chegava no escritório e ia pro fórum, chorava no caminho de ida, no caminho de volta, e entre um processo e outro, chorava na escada de incêndio do João Mendes. Eu era a Maria do Bairro, eu era um trapo de gente. Eu sofri tanto, MAS TANTO, que eu ouvi da minha mãe que aquele intercâmbio foi o dinheiro mais mal gasto da vida dela. Não a julgo, rs... no lugar dela, pensaria a mesma coisa. Eu queria que o Direito explodisse, eu queria que o Mackenzie explodisse, eu queria ser salva vidas pro resto da minha vida, eu queria me afogar em Long island Iced Tea, eu queria meu amor, meus parques, minha liberdade, eu queria nunca mais ter que pedir dinheiro pros meus pais. Eu devo ter semi vegetado por uns 6 meses, só sabia pesquisar qual era o modo mais rápido de sair do Brasil ou, usando as minhas palavras da época, "fugir dessa desordem". Quis ser au pair, quis migrar pra Dinamarca, quis trabalhar em navio, quis fazer qualquer coisa. Só não queria estar onde estava.

Mas, como dizem por aí, não há mal que dure para sempre. Aos poucos a vida foi engrenando. Aos poucos, eu fui encontrando espaço para a Gabriela que voltou. O estágio foi ficando cada vez mais e mais interessante, as melhores amigas do mundo me ajudaram, a gente saía muito, a gente ria muito, a gente aprontava todas, e eu fui vivendo. Revivendo. Entre 2008 e 2010 eu vivi uma fase incrivelmente divertida, complicada, cheia de altos e baixos, cheia de VIDA, da melhor vida que você pode ter, aquela que é bem vivida. Em julho de 2010 eu me formei, eu passei na OAB, eu estava livre para ir para onde eu quisesse. 

E pra onde eu quis ir? Isso mesmo, pra lugar nenhum. 

E aqui ainda estou. Gostaria ainda de morar fora um dia? Sim. Mas nada grave... Não explodi o Direito, muito menos o Mackenzie, não me afoguei num copo de cerveja, não virei au pair, não voltei a ser lifeguard. Eu amo São Paulo, amo meu caos, e não amo o que eu achei que era amor. Eu simplesmente aprendi que a vida se encarrega de levar a gente pra onde a gente deve ir. A nossa única obrigação é perceber pra onde o vento está soprando.

E por que eu estou contando isso? Porque na época da loucura desenfreada de EU PRECISO IR EMBORA DESTE LUGAAARRRRR, ou seja, segundo semestre de 2007, por aí, eu comecei a acompanhar blogs de brasileiros e portugueses pelo mundo. Eu queria ver o mundo pelos olhos dessas pessoas, queria aprender sobre lugares pra onde eu talvez pudesse ir, e mais do que tudo, queria me alimentar de esperanças de que havia luz no fim do túnel. Acompanhei muitas dessas pessoas por anos, "vi" famílias lindas serem construídas, histórias malucas pelo mundo, retornos melancólicos, recomeços esperançosos. A vontade de fugir passou, mas eu continuava adorando ver a vida pelo mundo. Dessa leva de blogueiros que comecei a ler em 2007, acompanho ainda uns 2 ou 3. Mas fui pingando de blog em blog, "conhecendo" muita gente, torcendo pelas vitórias, ficando feliz com as conquistas, como se fossem amigos meus. E acho que de alguma forma são sim, amigos que as vezes nem me conhecem, mas que me ajudaram de alguma forma a sair das trevas, haha.

Obrigada, blogosfera, você fez do meu purgatório um lugar muito mais habitável <3

Wisconsin Tales - Final Chapter

A gente sabe que primavera, temperaturas mais altas, dias mais longos, tudo isso traz um ânimo extra pra vida. Ainda mais quando se está saindo de um inverno em que as temperaturas chegaram aos bizarros -32°.
Lifeguard on duty
A cidade foi ficando cada dia mais cheia. Estudantes de todo canto do mundo chegando, turistas do midwest inteiro. Ser salva vidas tinha grandes responsabilidades, mas era um prato cheio pra socializar e dar umas risadas. O resort tinha vários parques dentro, e o trabalho era mais pesado em alguns deles, e mais zueira em outros. Preciso nem dizer que tomei mais alguns tombos andando no piso molhado por aí, e também fiz uns salvamentos engraçados de marmanjos metidos a super nadadores na piscina com ondas.

As festas começaram a pipocar, e parecia um spring break sem fim. Vantagem é que lá tudo acabava às 2h da manhã, então dava pra ficar novinha pro dia seguinte. Foi quando eu fiquei fluente pra valer e me senti com a missão cumprida. Mas eu tinha muito mais pra aproveitar... Tirando os 3 amigos que eu tinha desde o começo e continuavam lá, foi também nessa época que eu fiz minhas melhores amizades, que perduram até hoje.O mundo sorri na primavera :)

É incrível como nesses lugares frios, a vida se transforma com a chegada de calor. As pessoas se abrem, o riso fica fácil, tem luz até tarde, é uma alegria. Todo dia tinha alguma coisa pra fazer. Era passeio no parque, mergulho no lago, era viagem pra alguma cidade por perto, era comprinha em outlet, era aproveitar o próprio resort nas horas de folga. Todo dia eu e meus amigos nos enfiávamos no possante e saíamos cantando Gwen Stefani pelas estradas... Outra coisa interessante foi passar o 4th July por lá. Apesar de não ser nada demais, tem fogos, tem um clima tipo o nosso ano novo, sabe? 
The Big Wave
Um comentário necessário: quando saí do Brasil, meu discurso era "não quero andar com brasileiro, não quero andar com brasileiro, não quero andar com brasileiro". Nessa ordem aí, rs... Chegando lá, ao ver o tanto de brasileiro que tinha, senti um desespero. Pura bobagem! Realmente tem gente que só se relaciona com brasileiro, e volta pra cá com o mesmo inglês que foi, assimila tanto da cultura como assimiliaria se não tivesse ido. Mas é bobagem achar que precisa se isolar. O segredo é ter os seus bons amigos conterrâneos, pra poder surtar bem surtadinho no idioma em que você se sente confortável pra xingar de A a Z, mas se abrir pro mundo. Fiz grandes amigos de todos os cantos, e já contei por aqui do reencontro que fizemos, anos depois, pra celebrar essa amizade.

Como nem tudo são flores, tinha que ter bad trip no meio do caminho. Algumas colegas ucranianas, durante o trabalho, por serem novas e não estarem habituadas à dinâmica da coisa, acabaram falhando. Aquele tipo de falha que vai te acompanhar pra vida toda. Um menininho de 4 anos se afogou em um dos parques do complexo. Foi muito tenso. O trabalho ficou bem mais puxado depois disso, por que né... quem é que quer viver com uma coisa dessa nas costas? A história é menos simples do que to contando, teve irresponsabilidade de todos os lados, e foi um momento em que a realidade, mais uma vez, se mostrou muito dura. 

Eu nunca me sentia preparada pra voltar.. Alias, não sei se já comentei, mas sou péssima pra despedidas. E pra fechar a equação, me apaixonei, o que só fez mais difícil a partida. Mas meu visto estava pra vencer, não tinha jeito, a vida, a faculdade, a família estavam me chamando. Dia 17 de julho, no auge da bagunça de verão, eu entrei no avião de volta. Chorei as 16 horas de vôo sem parar, conexão incluída. Eu me senti passando pelo portal imaginário que te leva de uma dimensão pra outra. Eu me senti saindo de uma realidade paralela... E foi meio que isso mesmo. A vida nunca mais foi a mesma. 

Guardo as melhores lembranças, as grandes amizades, os grandes causos. Dou risada de muitas coisas, e me sinto meio bittersweet por tantas outras. Hoje sei de todos os gostos que descobri quando estava lá sozinha, percebo quanto me tornei independente, como aprendi a dar valor ao dinheiro fruto do trabalho dos meus pais, dar valor a ter o meu dinheiro, vejo como amadureci com relação às diferenças, como deixei de lado tantos preconceitos... Foram meses que valeram por anos, e todas as historinhas que eu vivi lá me ajudaram a ser quem eu sou hoje.  Por isso, se eu puder te dar um conselho, só unzinho, seria esse: faça suas malas!

Devils, by Gabriela Milan

Wisconsin Tales - Chapter 2

Passado o desespero inicial, dia 31 de dezembro me mudei para minha casinha. 231 E. Adams Street, o lendário endereço. Eu tava feliz da vida, ia passar meu feriado favorito acomodada, sem preocupações. Era na rua do trabalho, eu já tinha conhecido pessoas que moravam no prédio, tudo dando certo. O esquema basicamente era: uma polaca era dona desse prédio, de outro que não está na foto e de uma casinha que fazia parte do conjunto. Ela alugava os apartamentos para estudantes mediante contrato, cobrava aluguel semanal por pessoa e vivia infernizando a vida de geral feito uma bedel da escola - my property, my rules. Apesar da encheção da maluca, que entrava na sua casa a hora que desse na telha, pegando gente sem roupa e tals, era um bom negócio pelo combo preço/praticidade. Por ali moravam brasileiros, peruanos, argentinos, eslovacos, poloneses, mexicanos, etc.
Casa n° 3. Foto do Cumpadi Washington Leo
Eu morava com mais 5 pessoas, e foram meses muito felizes por ali. Começamos a sacar a cidade, aprendemos qual baladinha ir na sexta, o que fazer no sábado, onde se comia bem e barato, onde encontrar locais, essas coisas. Esse momento é muito delícia... quando você começa a se confrontar com os hábitos locais, a aprofundar os relacionamentos, a sentir que não é uma viagem de férias, mas que você está morando ali. Eu estava encantada de conviver com gente de todo canto. Óbvio que também rolou muito drama de convivência, porque né, aparece aquele coleguinha que não tem o hábito de banho diário e nunca viu desodorante na vida, bem na hora que você ta batendo um pratão de macarrão,  é dramático mesmo. Alias, é meio que isso, você ta fora de casa, tudo adquire uma proporção exagerada. É tudo o melhor e o pior da sua vida.  

Por outro lado, o emprego, apesar de muito divertido, não era tudo aquilo que vendiam por aqui, não. Passadas as festividades de Natal e Ano Novo, a cidade estava super slow e eu estava trabalhando pouquíssimas horas por semana. Isso é um problemão pra galera que faz Work and Travel, porque as horas de trabalho não são garantidas. Quem ta indo pra Estação de Ski não terá problemas no inverno, mas... Lembra daquela história que o Chapolim nos ensinou? Pro Tio Sam, time is money. Se você trabalha pouco tempo, ganha pouco. Começou então a loucura dos applications. Eu precisava trabalhar um pouco mais, o dinheiro que tinha levado daqui não ia muito longe. O frio estava apertando, em final de janeiro todo dia rolava neve até as canelas, e temperaturas em torno dos -12°. Andar pro trabalho era um suplício sem fim, por mais que fosse sei lá, 1 km.
Wilderness - mais uma fotinho do Leo
Arrumei então um emprego de hostess num restaurante dentro de outro resort, o Kalahari, que era longe da minha casa, coisa de 5 km. Assim, acabei precisando comprar um carro, porque fazer ski cross country a -25° não é minha praia, e transporte público era inexistente. Depois de passar uma cantada violenta num vendedor, consegui comprar meu carrinho por 680 dolares AND parcelados em 2x pra não afetar meu caixa. De dia trabalhava pouco no Wilderness, e de noite ia lá receber as famílias felizes para jantar no Great Karoo. Esse emprego foi muito legal, porque eu conversava muito com os turistas... Contava do Brasil (eles não faziam muita ideia do que rolava por aqui), ouvia histórias dos confins de Ohio e pintava desenhinhos com crianças fofas. Fiz mais uns bons amigos nesse restaurante, e também engordei uns bons quilinhos comendo cheesecake escondida na câmara fria. Nesse meio tempo rolou a nevasca mais louca de todos os tempos, e foi bem engraçado euzinha com toda minha desenvoltura brasileira desatolando carro de sapatilha na neve, com o cabelo congelado.
Snow, by Gabriela Milan

Lá por março, o povo começou a se movimentar pra ir embora, mas eu ia ficar. Foi ai que o caldo engrossou com a polaca. Ela resolveu que, não interessa o que eu quisesse, ela ia enfiar mais 8 - isso mesmo, OITO - tailandeses para morar comigo no apartamento onde já era apertado morar em 6. Preciso nem dizer que depois de muito barraco, ela me expulsou do condomínio. Quis reter o meu depósito caução, e diante da minha ameaça de chamar a polícia, enfiou o rabo no meio das pernas, me devolveu o dinheiro e a terra abriu aos seus pés, tendo ela retornado para as profundezas do mármore do inferno e eu fiz minhas malinhas. Homeless, de novo. Fui acolhida pela minha amiga Laura, com quem fiquei em Baraboo (uma cidade ali perto) por uns dias, roupinhas no porta mala, noites mal dormidas. O mais importante: quando falava com meus pais no telefone, ou por câmera via MSN (tô veia, heim), soltava os pulmões para dizer que tava tudo muito bom, muito bem, maravilhoso, problema nenhum Mãe, magina.
Pack, by Gabriela Milan
Com as tralhas pra mudança número 1259 - atenção especial pra bola do Quico
Curiosidade: esses programas de intercâmbio são caros aqui no Brasil, mas são baratos na Europa. Muita gente do leste europeu faz o Work pra juntar uma grana e pagar os estudos, mas tem também tem um pessoal que acaba ficando nos EUA de forma ilegal, principalmente um pessoal mais pobre e que fala pouco inglês. Infelizmente, tem gente lá prontinha pra tirar vantagem dessas pessoas. Faz contratos abusivos, cobra multas, retém depósito na cara dura, porque sabe que ninguém vai ter coragem de brigar, arrumar encrenca. Mas comigo não, farroupilha, comigo não.

Alguns amigos acabaram saindo do predinho, e lá fomos nós dividir um quartinho no Pine Air, de novo. Nessas alturas, o tempo estava mudando, temperatura esquentando, e eu só ficava pirando nos comentários de que Dells no verão era a maior loucura. Entre um sonho de verão e outro, caia umas neves nervosas na nossa cabeça. A gente ia fazendo os passeios que dava, as comprinhas que dava, o inglês mostrando a que veio - eu já conseguia até ir ao cinema e *SURPRISE* entender o filme todo!!! Nessas alturas já nem me lembrava mais que estudava Direito, só queria saber de dançar Hips don´t Lie na balada e tomar banho de Long Island Iced Tea. Pela primeira vez na vida eu estava pagando minhas contas, resolvendo meus problemas, tava me sentindo o ser mais independente do mundo, coitada...

Em abril eu inaugurei outra fase da vida americana. Eu mudei pra minha última e mais maravilhosa casa. Fiz um curso de salva vidas, e voltei a trabalhar integral no Wilderness, dessa vez como lifeguard. Tinha sido dada largada para a melhor parte daquela viagem que já era maravilhosa. A primavera tinha chegado!
By the Lake, by Gabriela Milan

Wisconsin Tales - Chapter 1

Outro dia falei um pouco aqui sobre a experiência maravilhosa que é fazer um intercâmbio. Meio por alto, também contei um pouquinho das loucurinhas que vivi pelo maravilhoso Wisconsin. Como eu sou uma pessoa muito saudosa, adoro uma nostalgia, contar uma historinha, e tals... resolvi escrever um pouquinho sobre o "meu" intercâmbio. Como eu gosto de falar, minha vida se divide entre AW e DW (antes e depois do WI), então acho bem válido contar um pouquinho do durante. Voilà. 

***

Eu sempre sonhei em passar um tempo fora do país. Com 20 anos, segundo ano de faculdade, achei que era hora. Aqueles intercâmbios pela faculdade não rolavam, porque não pode trabalhar e eu não tinha condição de só estudar. Então fui numa agência e optei por fazer um intercâmbio no esquema Work and Travel, nos EUA. Você tem que ser estudante, mas ganha um visto de trabalho sem restrição de horas. Participei da Job Fair, fui entrevistada, arrumei um empreguinho em St Louis/Misouri. Maravilha. Passagens compradas, malas prontas, ansiedade a milhão e PÁ! Primeira emergência, menos de 48h antes de entrar no avião: meu empregador cancelou a minha vaga. Foi assim, no desespero de não querer adiar a viagem, que eu olhei pras vagas que tinham e, entre um McDonalds no Alabama e outras coisaso do tipo, escolhi trabalhar em um resort em Wisconsin Dells, no desconhecido Estado de Wisconsin sobre o qual eu tinha ouvido falar o total de zero vezes. A cidade era pequena, menos de 5 mil habitantes, mas que os americanos com sua habilidade de criar atrações onde não tem, transformaram na capital mundial dos parques aquáticos, recebendo milhões de turistas anualmente. 
Fotinho do amigo Google pra vizualizar
Com um timing de 48 horas pra pesquisar sobre o novo destino (depois de meses de pesquisa pro outro lugar), não consegui assimilar muito além da estimativa de frio de -20° durante o inverno. Ou seja, cheguei no aeroporto de Chicago, dia 21 de dezembro de 2006, às 22h, com duas folhinhas de pesquisa com possíveis lugares para me hospedar até achar housing, horário do busão de Chicago pra lá e o endereço do resort em que eu iria trabalhar, o Wilderness. No dia seguinte, após trapalhadas dignas de sessão da tarde, tipo chegar na rodoviária e ver o ônibus indo embora, chorar, puxar uma mala por quarteirões, morrer de frio, arrumar uma passagem de trem para dali 6h e descer numa estação no midwest para encontrar somente um taxista de bigode de trancinha, a realidade me bateu com força: cidades pequenas americanas são um sem fim de rodovias, com distâncias enormes, e eu teria que me virar a pé por aquele lugar durante os meses gelados.

Fui direto ao Pine Air, motelzinho das minhas folhinhas de pesquisa que o motorista das trancinhas me disse que era mais próximo ao resort e onde alguns estudantes moravam. Lá, depois de me esgoelar de chorar por ver que o preço não cabia no orçamento, consegui negociar 2 noites de estadia por um preço pagável. Eu tinha 48 horas pra achar uma casa pra chamar de minha. 

Casinha n° 1 (e n°5 também)
Nesse meio tempo, fui ao resort, entendi qual seria meu trabalho de housekeeping, conheci umas pessoas, encontrei brasileiros que se tornariam grandes amigos, já sabia qual era o caminho pro trabalho, tava dando pra se virar. Ao final das 48h, eu não tinha achado uma casa, mas estava com algumas coisas engatilhadas. A solução foi me mudar para outro motelzinho, daqueles tipo o do Psicose, onde eu consegui um desconto bom e pesadelos horríveis.  
Casinha n°2
Historinha: Gabriela chegando lá feliz da vida com sua malona, véspera de Natal, vizinho simpático se oferece para ajudar. Gabriela fica grata, abre um sorriso de orelha a orelha e fala com toda cortesia brasileira, apontando o dedinho: thank you for helping, if you need anything, that is my room. 
Pois bem, segunda noite, o tal vizinho bate na porta, se oferece para me fazer companhia, ou quem sabe, cook something. Polidamente, falei oi, não thanks, to de pijama e tals, obrigada de nada. Noite seguinte, de novo. Sujeito bate na porta e eu, me aproveitando dos aprendizados em filme, abri mas não soltei a correntinha. O cara ofereceu pra eu ir ver filme com ele, e you know, maybe cook something. Potz, to cansada, trabalhei, tals, não vai rolar. Outra noite, outra batidinha na porta. Gabriela não abre a porta, e responde lá de dentro noooo thaaaanks! Nessa hora ai, entrei de baixo da coberta, e morri de medo de sair e dar de cara com o maluco. O cagona mode estava ativadíssimo. Outra noite, sono profundo, batida na porta: hey lady, I want to see you naked, I need to see you naked, come to get a taste of my dic.. GET OUT OF MY DOOR YOU FUCKING PERVERT! Chorei largada... 

Mas dia 31 chegou, e eu tinha minha casa. Não só tinha minha casa, mas já tinha perspectivas de roomates. Eu tinha sobrevivido a 10 dias fora do Brasil, eu estava trabalhando, eu tinha feito amigos, eu ia ter uma geladeira e um fogão. Juntei todas as tralhas e caí fora do motel. Eu tinha sobrevivido ao Psicose.

Sobre as voltas da vida

Hoje um amigo que está pensando em ir passar um tempo fora me ligou pedindo dicas. Eu disse pra ele que já não sabia mais muito sobre "intercambios", que jajá vai fazer 8 anos que eu voltei. E então ele soltou a frase: "você chegou mas nunca voltou, né?"

E sim, é verdade... eu cheguei, mas nunca voltei. A pessoa que foi praquela viagem nunca mais voltou, porque ela nem existe mais. E essa é a beleza de fazer um intercâmbio, de ir morar fora, de ir embora: se abrir pra um novo mundo, pra novos pensamentos, pra uma nova vida. Quando você está lá, sozinho, longe das coisas e das pessoas que você conhece, é que você descobre quem você realmente é, do que você realmente gosta, a força que você tem e como você é longe da influência de outras pessoas, como pai, mãe, grupo de amigos, etc. Quando você percebe, já está ouvindo outras músicas, vestindo outros estilos, fazendo novos planos, convivendo - e adorando - com pessoas com outra visão de mundo.

Quando eu olho pra trás e vejo tudo que eu aprontei naquele Wisconsin, eu sinto um orgulho imenso da minha pessoa (e várias vergonhas também, rs). Eu cheguei lá crente que falava muito inglês... Precisei nem de 5 minutos em solo americano (ainda no primeiro aeroporto) pra descobrir que eu falava muito menos do que achava e pior: não entendia absolutamente nada.

Eu tive que mudar de "casa" 6 veses, eu passei uma semana com minhas roupas no porta mala de um carro - alias, eu tive que ensinar o conceito de parcelamento pra um gringo, pra poder adquirir meu carro, hahaha -, eu me dei muito bem com a neve e tomei 9 tombos em 4 meses de inverno (o primeiro 12 horas depois de por o pé no Wisconsin), eu me apaixonei por um cara e quebrei a cara, eu me apaixonei perdidamente por outro e fui muito feliz, eu briguei com uma polaca que queria me roubar, eu chorei de medo um psicopata bêbado batendo na janela do meu quarto de madrugada e falando obcenidades, eu virei salva vidas de parque aquático, eu vi uma colega deixar uma criança morrer afogada, eu fiz amigos e vi eles irem embora, eu fiz novos amigos e então fui embora. 

Eu acredito que não teria feito metade disso aqui no Brasil. Na segunda mudança de casa, inclusive, teria ligado aos prantos pra minha mãe, teria pedido colo e teria me sentido amada. Mas lá eu não tinha essa opção, então respirei fundo e enfiei, seis vezes, minha viola no saco. E eu me senti forte feito um touro por isso. 

É maravilhoso aprender a se comunicar, se virar, se defender numa nova língua. É maravilhoso entender como a vida anda em outro hemisfério, como os hábitos mudam, como é incrível ter sol depois das 9 horas da noite, como a escuridão do inverno deprime, como a neve é fofa na primeira hora, e mortalmente escorregadia a partir da segunda. É bizarro ver como sabem pouco sobre o Brasil fora daqui, como pensam que podemos ser subestimados por sermos imigrantes.

Mas intercambio é maior do que isso. Um intercambio é menos sobre o lugar pra onde você vai, e mais é sobre como você vai e, principalmente, como você volta. Ou você não volta... como aquela Gabriela que saiu daqui em dezembro de 2006, achando que só queria aprender inglês e voltar pra casa, e nunca mais voltou. 

Redneck's heart

Quem me conhece sabe que a minha vida se divide em AW/DW: antes do Wisconsin, e depois do Wisconsin.


Essa mudança toda não se deve a esse pedaço vermelho no mapa em si, mas às pessoas que eu conheci lá, aos interesses que eu passei a ter, à forma de ver o mundo e as pessoas, enfim, à pessoa que eu me tornei lá. Até então, eu sabia que eu gostava de viajar, mas nunca tinha viajado muito propriamente dito, haha. Acho que eu viajava mais na maionese do que pelo mundo. Eu tinha saído há pouco tempo de Pariquera, e ainda era crua aqui em São Paulo... ainda não tinha conhecido as pessoas que de fato eram diferentes de mim, pensavam diferente, tinham sido criadas de outra forma.E cheguei no Wisconsin e conheci aquela gente toda. Americanos, eslovacos, peruanos, poloneses, ucranianos, jamaicanos, russos, chilenos, lituanos, etc... Eu fiz amigos do CAZAQUISTÃO. Além da adaptação à uma (não) cultura diferente e todo o processo de ficar sozinha pelo mundo.

E não interessa se esse crescimento todo poderia ter sido em qualquer outro lugar: na Flórida, na California, em Pequim, Roma ou no próprio Cazaquistão. Foi no Wisconsin. E é por isso que eu amo aquele lugar.

Desde que voltei, todo americano que eu encontro e conto que morei no WI me olha com cara de "WTF?!".  Eu sempre tento explicar, mas mal começo e já desanimo, porque nunca faz total sentido.

Mas toda vez que eu lembro dele, dos lagos, das maçãs, da minha casa, meus amigos, meu carro, os parques, baladas e histórias (felizes ou não), ainda que 6 anos depois, me da uma nostalgia, e aí eu penso: Wisconsin, ninguém precisa entender, mas eu quero que você, com tudo o que tem dentro, fique pra sempre no meu coração.

*Escrito ouvindo: Tame Impala

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