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A (minha) vida na Suíça em tempos de corona virus

No fim de fevereiro eu comentei por alto algumas mudanças trazidas pelo corona para a Suíça. Mas ainda falávamos de 20 e poucos casos, e uma situação sob controle. Eu tinha alguns planos para março e tava tudo mantido. Encontrar uma casa em Zurich, passar um fim de semana em Paris, me preparar para receber a minha mãe aqui para comemorar meu aniversário. Tinha também um banheiro em obras me tirando do sério. Pois bem. De lá pra cá foram 3 semanas bem doidas, então vamos lá:

1a semana de março
Muita preocupação com a vizinha Italia, mas no geral a vida aqui caminhando bem "normal". Tirando a prateleira de macarrão e molho de tomate, que estava mais desfalcada, o mercado estava abastecido. No trabalho  rolou um "ensaio" de home office coletivo. Cada dia da semana algumas funções se revezeram trabalhando de casa. Para quem não estava acostumado, a ideia era testar VPN, ferramentas, e ver se estávamos todos preparados caso tivéssemos que trabalhar de casa full time. A minha função ficou em casa na terça, e eu fiquei meio descaralhada das idéias que ninguém da obra do banheiro apareceu. Mandei um email bem puto tipo "e ai galera, faz só um mês que eu to de quebra quebra no banheiro e vocês ai se dando ao luxo de disperdiçar um dia?!?!?!". Spoiler: eles disperdiçaram a semana inteira e não apareceram aqui nenhum dia. Senti que meus nervos estavam esquentando rs. Naquela sexta-feira os casos da Suíça foram de 80 para 180 e a empresa anunciou um rodízio para a próxima semana. Falei com minha mãe, que precisávamos ficar de olho na situação, e que talvez não fosse possível voar. Fomos passar um fim de semana em Zurich e fomos a restaurantes, esquiamos, visitamos apartamentos, e tudo que fazíamos era caprichar no álcool em gel e lavagem de mãos.
Corona, que corona? 
2a semana de março 
A segunda-feira começou passando dos quatrocentos casos e o aumento exponencial de uma chacoalhada na galera. Eu fui ao escritório três vezes na semana, e as pessoas estavam realmente espalhadas, inclusive na cantina. Galera se evitando rs. Nos dois dias que trabalhei de casa quase fui a loucura com o quebra quebra, bate bate e poeira voando. Essa obra precisa acabar, era tudo que eu conseguia pensar.
5 semanas de obra e o banheiro assim...
Eu ainda visitei apartamentos em Zurich, e já comecei a me incomodar de estar na casa de pessoas estranhas, com tanta gente. Na quinta-feira fiz um happy hour com as amigas (e no bar tinha bastante gente sem noção como a gente), e no fim nos despedimos: sabíamos mesmo que não nos veríamos nas próximas semanas. Eu conversei com a minha irmã, pra ela começar a me ajudar na missão de convencer a minha mãe que não seria uma boa vir pra cá messe momento. Ela é teimosa, e não estava afim de desmarcar não.
Eu, minhas amigas e minha mãe rs
Na sexta-feira tínhamos passagens de trem para passar o fim de semana em Paris, e deixamos até o último minuto pra resolver se íamos ou não, mas o juízo (e o medo de ficar quarentenados num hotel, ou de fronteiras fecharem e não conseguir voltar pra casa) falou mais alto e ficamos em casa. A semana terminou com os membros do Conselho Federal da Suíça decretando o fechamento das escolas até o dia 3 de abril. No sábado eu ainda fui dar uma volta na cidade, e lojas, bares, todos lotados num dia ensolarado. No mercado no entanto o medo do suíço deu as caras: prateleiras vazias de tudo. Domingo fomos a um parque natural para fazer uma trilha e começar nosso pseudo isolamento: isolados na natureza.

3a semana de março 
No domingo a noite chegou mensagem do CEO: todos os funcionários de home-office. O desespero bateu. Eu ficando todos os dias em casa não iria conseguir visitar apartamentos em Zurich, e a gente tem data pra saír daqui (aqui falo mais de como é o processo de alugar casa na Suíça e como você TEM que visitar pessoalmente os apartamentos). Além de tudo, a M A L D I T A obra. Fui ao mercado e o abastecimento estava de volta.
Escritório montado
Logo na segunda-feira teve mais uma coletiva do governo, e eles decretaram o fechamento de todas as lojas, bares, restaurantes e tudo mais que não fosse essencial, taté o dia 19 de abril. Remarcamos a viagem da minha mãe para novembro, e eu fiquei bem arrasada. Fui a uma loja comprar uns acessórios pra fazer exercício em casa, e acabamos indo no bar favorito de Mati porque eles estavam vendendo as cervejas que já estavam na pressão com desconto. Nessas alturas, eu já tava olhando todos os desconhecidos na rua e pensando: será que eles me contaminam ou eu contamino eles?! Paranóia crescendo.
Paranóica porém bem linda pra ir no único programa possível: mercado
A semana foi horrível, pra ser bem sincera. O banheiro que não ficava pronto, a sujeira, a crescente tensão e ansiedade de estar vivendo uma pandemia, a preocução com os meus no Brasil. Pra piorar: o pedreiro lacrou o banheiro e não avisou. Para cada xixi, mesmo no meio da noite, teríamos que descer pro terceiro andar (moramos no quinto), onde tinha um banheiro pra gente usar. Foi o dia que eu comecei a duvidar da minha sanidade rs. Chorei pencas, o dia inteiro. Eu entrava em video call com os colegas, e quando saia só fazia chorar. Foi quando senti o isolamento pesando na minha. Outra coisa que me deixou meio desnorteada foi a ideia das fronteiras fechando. É muito simbolismo na minha cabeça e eu fiquei triste. Na sexta-feira eles finalmente terminaram a obra do banheiro, SEIS SEMANAS depois. A casa foi completamente limpa, e ao acordar no sábado, eu percebi que mais da metade do meu sofrimento vinha da casa estar completamente zoneada, zero aconchegante e suja. Saímos dirigindo por aí, e mais de 300km depois, eu estava bem feliz. Dirigir me deu uma sensação de normalidade, e por uns momentos eu meio que esqueci de tudo. Mas em nossas paradas mantivemos distância de tudo e todos. Encerramos a semana com sete mil casos de corona na Suíça.
A serenidade de quem sobreviveu ao caos inicial
Iniciamos a quarta semana de março, a segunda de quarentena. Aqui ainda é permitido sair de casa para caminhar, correr, pedalar, desde que mantendo distância mínima de 2 metros de outras. Sendo a Suíça um país de tantos espaços verdes, é possível manter uma distância muito maior. É o que tem me segurado bem: poder sair uma vez por dia e correr, pedalar. Voltar pra minha casa agora arrumadinha e aconchegante também ajuda rs. Compramos um quebra cabeça de mil peças, livros de colorir, estamos assistindo séries, fazendo facetime com amigos, falando com Baby com maior frequência. Sigo procurando apartamentos, mas ainda estamos vendo como vai ser a questão das visitas. A real é que com o fim da obra, eu já nem vejo mais problema em ficar aqui, e estou considerando conversar com o landlord pra gente ficar mais tempo, até a situação normalizar. A Suíça no momento tem mais de 8 mil casos confirmados. Os testes só são feitos em pacientes graves ou grupo de risco, o que significa que são muito mais do que isso. Embora seja o segundo maior índice de contaminação per capita, a mortalidade segue baixa. Vamos acompanhar o que vai acontecer daqui pra frente.

A colheita

Se por um lado parece que foi ontem que eu estava em êxtase por voltar a trabalhar, por outro parece que couberam 6 anos nesses 6 meses. Por questões estratégicas, por feeling, por um monte de coisas que eu poderia contar outra hora em outro post, optei por aceitar a vaga temporária de estagiária que me ofereceram, mesmo tendo uma oferta de emprego permanente e bem remunerado na outra mão. Eu sempre tomei decisões estratégicas na minha carreira, decisões que algumas pessoas não compreendiam muito, mas que pra mim faziam sentido no longo prazo. Não foi diferente dessa vez.

Só que pra um estágio fazer sentido nessas alturas da vida, eu tinha que fazer ele render muito. Eu tinha que me mostrar muito, mostrar tudo que aprendi nessa vida, e que eu era uma estagiária "diferenciada". Depois daquela primeira semana que é sempre meio marasmo, eu comecei a me jogar de cabeça no trabalho. Me enfiar em tudo que é reunião, puxar qualquer coisa pra mim, botando a cara no sol rs... Acabei ganhando um projeto de presente, e aos poucos fui criando meu espacinho. Comecei a mostrar para as chefes (sim, ainda tem isso, entrei numa equipe feminina muito incrível :) que eu conseguia fazer muita diferença. E começou a dar certo.

Terça-feira encerrei meu estágio com um contrato de especialista assinado :) Ainda não é uma vaga permanente de emprego, mas um contrato atrelado ao projeto que estou liderando, até dezembro. Se tudo correr como previsto, e o projeto decolar, a gente vê como fica depois. Mas eu estou com um orgulho que não cabe em mim. Por ter seguido minha intuição mais uma vez (e num ambiente tão desfavorável, vamos combinar), por ter conseguido provar meu valor, por estar de volta com tudo nesse mundo corporativo do qual tanto falo mal mas ao qual sou bem apegada rs. Some-se tudo isso que eu estou curtindo muito a empresa, sou liderada por mulheres inspiradoras, aprendo muito, conheço muita gente interessante. 

E por fim, mas não sou hipócrita de dizer que é menos importante: financeiramente entramos numa nova fase aqui. Não que a gente vá ficar rico, porque eu ainda sou empregada, não a dona da empresa hahaha, mas vamos ter um respiro. Nos dois anos em que não trabalhei nos descapitalizamos muito. A Suíça é cara, nós temos Baby que mora em outro país, e tínhamos economias em Reais. A gente não sabia desse problema do visto quando viemos (uma cortesia do RH do emprego de Mati, que nos informou incorretamente), e estávamos preparados para uma eventual demora para eu encontrar emprego, mas pensávamos em coisa entre 6 meses e um ano, mas não dois anos sem poder nem procurar. Eu encontrar um emprego o quanto antes (depois da novela do visto) era imperativo para continuarmos na Suíça. Tínhamos alguns planos B, C, etc, que ao invés de dar conforto, me tiravam o sono à noite. A verdade é que eu gosto muito, mas muito mesmo, de morar aqui e sair desse país sem ao menos ter tido a oportunidade de experimentar o mercado de trabalho era um cenário que me deixava deprimida. E ainda que o estágio não me pagasse um baita salário, ele já possibilitou que a gente refizesse um pouquinho as nossas economias. E agora, voltando a exercer um cargo de profissional graduada, a gente meio que entra numa "vida normal", como seria no Brasil, ou em qualquer outro lugar em que estivéssemos. 

Entre um contrato e outro eu pedi férias. Va lá que são não remuneradas rs, porque um contrato terminou e o outro não começou. Mas tudo bem. Passei os últimos dias dando um tapa na casa nova, que ta uma ligeira bagunça rs, e sábado vamos para uma semana de férias nas montanhas. Na volta eu ainda tenho um tempo para curtir minha Berna, relembrar meus dias de absoluta folga por essa cidade (dos quais, não nego, sinto certa saudade, porque o ser humano é um bicho complicado mesmo), tomar todos os cafés com minhas amigas, para retornar ao trabalho zerada. O futuro, ele chegou :)

O elefante na sala

Estou desde outubro com esse post entalado rs. Eu ainda não superei a eleição desse ser para a presidência do nosso país, e superei menos ainda o fato de que um monte de gente que eu conheço, de quem já fui muito próxima, com quem divido sangue e afeto, votou nele. Eu nem vou entrar no mérito do "outro candidato", porque já votei em várias merdas porque não curtia o outro candidato... já votei em Alckmin, em Aécio, e o escambau, porque não queria votar no outro candidato. E até então nem tinha tido outro candidato que defendia tortura. Então eu não aceito. Também não vou falar os infinitos motivos que tenho pra só chamar o presidente eleito de merda, porque quem sabe, sabe. Quem não sabe, sei nem o que ta fazendo aqui. 

O que vim resmungar aqui é do desconforto que essa eleição criou. Porque eu to que nem ando afim de conversar com gente que até então era próxima. Abriu-se um buraco dentro do meu peito que eu não consigo nem olhar foto de instagram de certos amigos, tamanho o ranço. Eu também dei graças a deusa que eu acabei tendo um motivo muito verdadeiro pra não participar do amigo secreto da família, do qual eu vinha participando por skype desde que saí do país. Eu não tenho vontade de conversar com alguns parentes, e se por acaso tirasse um deles, acho que eu ia dar uma banana. 

"Ai, não seja radical", dizem uns. Mas sabe, radical o cacete. O cara diz que mulher merece ganhar menos que homem, que gay tem que apanhar, que não tem mudança climática, exalta torturador em plenário, ameaça outra de estupro, enfia tudo que é filho, irmão, primo e caseira no cabide de emprego, e ainda por cima, como não bastasse ser um ser humano horrível e deplorável, ainda por cima é um grande dum burro e despreparado. E aí, vem gente dita instruída procurar motivo pra fazer esse cara presidente do Brasil, e eu que sou radical de querer que vá todo mundo pro inferno? 
Enfim, eu disse que não ia falar porque diabos o merda é um merda, e acabei falando. Mas o grande X da questão desse post é o seguinte: como faz pra viver sem odiar quase todo mundo nesses tempos? Alguém sabe? Depois do Natal passa? Ou piora? Me ajudem. 

A internet, a exposição e o que vem depois

Uns tempos atrás deixei o blog fechado por dez dias, e o motivo me fez refletir bastante sobre o quanto nos expomos voluntariamente na internet. Não estou falando de exposição como se fosse algo ruim, mas simplesmente como um fato. É isso, hoje em dia a gente mostra muito mais de nós, a gente se expõe, e isso tem impactos de várias formas. 

O impacto imediato - e o melhor - é a rede de conexões que criamos. Aqui pelo blog conheci várias pessoas - várias que também tem blogs - e por ler seus comentários aqui (bem como seus blogs), criei uma identificação. Segui-las em outras redes acabou revelando ainda mais coisas em comum, ou coisas que acho interessante, relevante, o que me fez gostar muito delas, pessoas essas que nunca nem vi. Alias, algumas até conheci :) Enfim, resultado é que conheci pessoas incríveis e fiz algumas amizades, laços esses que são puro impacto da exposição, minha e delas, na internet. E isso é fantástico!

Por outro lado, veja só... Eu me candidatei pra uma vaga de emprego bem interessante aqui na Suíça, o processo começou a andar e, depois de algumas entrevistas por telefone, fui convidada a ir à sede da empresa fazer uma entrevista pessoalmente com quatro pessoas. Quando me passaram os nomes, rapidamente, notei que um deles era brasileiro. Ao vivo percebi que uma das outras três pessoas, um gringo, era MUITO "xereta". Ele foi checando meio ao vivo tudo que eu ia falando. Abriu o site das empresas em que eu trabalhei ali na lata, fez perguntas sobre, abriu o google maps para discutir o meu commute, até o site do projeto onde faço voluntariado ele abriu e notou que eu não estava na foto de capa. Ao sair de lá me deu um certo pânico de que o cara achasse o blog e desse pro brasileiro traduzir. E veja bem, eu não falo nada demais aqui, não há nada de que eu me envergonhe, mas falo da minha vida, deixo claras algumas opiniões políticas, falo palavrão, falo merda, enfim... sou quem eu sou fora do horário comercial (e dentro dele quando acho que cabe rs). A real, é que eu não sei qual é a das pessoas, e não quero que elas saibam qual é a minha antes da hora, sabe?! 

Enfim, por isso fechei o blog enquanto esse processo se desenrolava, e a ideia era deixar fechado até que acabasse. Depois de uns dias eu comecei a relaxar, porque é isso, o blog mostra em estado bruto o que sou, não tem muito como fugir. Se for pra me negarem um emprego por causa disso, paciência. Reabri o blog antes de saber o que tinha rolado com o emprego (confesso que ter pintado outra vaga no horizonte ajudou nessa relaxada). 

Nessa reflexão sobre minha auto exposição, percebi que hoje em dia é meio que inevitável ter um extenso footprint na internet. Por exemplo: isso tudo aconteceu na mesma semana que uns imbecis fizeram um vídeo ultra misógino na Rússia assediando uma moça, vocês devem se lembrar. Os caras foram super expostos, alguns perderam emprego, enfim... E não postaram o vídeo no instagram, nem facebook, nada. Esse vídeo foi enviado para amigos "do mundo real" por whatsapp, e vejam a proporção que tomou. Quantas vezes isso não aconteceu? A nossa vida hoje em dia não se divide mais entre on e offline. Ta tudo junto, ações do mundo offline reverberam no online para então sofrer consequências na vida offline. 

Não consegui chegar à uma conclusão, mas pensei muito e tenho certeza que não tenho vontade de fechar o blog e deixa-lo somente para "convidados". Nos últimos meses eu recebi vários emails de pessoas que se mudaram, ou que moram na Suíça, e que tinham algumas dúvidas. Achei muito legal poder ajudar de alguma forma, tirar dúvidas, dar umas ideias. Alias, mais engraçado: um parente distante me encontrou aqui enquanto procurando subsídios para a cidadania italiana dele, e eu pude ajudar também. Não é muito bacana?!

Por essas e outras, por hora tenho sim consciência de que devo prestar atenção no "oversharing" (aqui, em todas as redes e na vida), mas que a experiência no geral é muito positiva. O blog é meu hobby favorito, é onde eu registro as mudanças da vida, o que meus olhos veem, e muito do que meu coração sente. De quebra, é onde conheci pessoas muito legais, e onde nesses dois anos de Suíça ainda me senti fazendo alguma diferença. Não quero nem vou abrir mão disso aqui por uma privacidade online que acho que nem existe mais. 

Links

Outro dia indiquei aqui um artigo da Nina Lemos. Fiquei de divagar sobre ele em outro momento, mas ainda não organizei as idéias (gente, eu sou muito lerda pra concatenar meus pensamentos rs). Mas eu gostei de ver os comentários, da identificação, etc e tal. E por isso achei legal compartilhar algumas coisas que andei lendo, porque podemos criar um debate bem produtivo ;) 

 * * * 
Dona Emilia, minha amiga querida, embalada por um vídeo, faz uma análise muito certeira sobre "Millennials" (ou seja, sobre nós rs) e o mundo corporativo. Os pontos abordados são muito interessantes, e levando a coisa ainda pra outro rumo, me fez pensar em outras conversas sobre outros assuntos que andei tendo por aí. Por exemplo: uma conhecida "não acredita na palavra não". Ela educou sua filha, hoje com 12 anos, sem falar NÃO. Preciso nem dizer que a menina é um tanto quanto arisca (pra ficar num vocabulário aceitável sobre crianças) rs... Mas me pergunto: como que essa pessoa vai encarar o mundo adulto, o mercado de trabalho, sem nunca ter ouvido um não? Porque a gente sabe, que o que mais se encontra nessa vida, é não. Já falei da influência da criação aqui no blog em outras oportunidades (aqui e aqui por exemplo), mas sempre com um viés "sobre a elite". E de repente você se da conta que nem é mais questão de elite, é uma geração inteira. 

* * *

Esse texto do Buzzfeed sobre as belezuras de passar dos 30. Tem várias coisas bem dramáticas, porém engraçadas. Mas o que eu gostei mesmo foi desse trecho que peço licença pra colar aqui:
"Eventually you realize that you are not compatible with people who are draining your energy with their shenanigans. The best part is that you start to be able to identify this quality in a person before you get into a complicated friendship or relationship with them." E gente, como isso é real. Como bate uma canseira de gente que é chegada num drama. Eu sempre fui uma pessoa prática, mas acho que com a idade vem uma "serenidade" pra cada vez mais matar os problemas no peito. E isso, é claro, vai da personalidade da pessoa. Tem gente que tem mais facilidade, outras menos, ok, normal... mas só reclamar, só se vitimizar, só dramatizar, só entulhar o ouvido dos outros com os problemas que o sujeito não move uma palha pra resolver?! Thanks but no thanks. 


* * *

Um artigo interessante sobre a política de dress code da GM, instituída pela Mary Barra, CEO da companhia. Vocês já pararam para pensar em como essa coisa de dress code de trabalho é mais um problema para as mulheres? É mais uma coisa para pensar e gastar tempo? Que homem só segue uma linha básica: precisa de terno? Precisa de gravata? Pode usar calça jeans? E pronto, com essas três perguntas os caras meio que resolvem a questão do dress code, e se bobear, usam a mesma roupa todos os dias e ninguém nem repara. Enquanto isso, nós mulheres, temos que pensar se tem muita pele a mostra, se a blusa é adequada, se o comprimento é ok, se a calça é muito justa, se o vestido é muito sensual, se a maquiagem está muito forte, se o esmalte é chamativo. E repetir várias vezes? Nem pensar. Enfim... Mais do que dress code, o artigo fala sobre gerência responsável. Sendo Mary Barra uma mulher que começou no chão de fábrica e chegou onde chegou, achei bem interessante os dois centavos dela sobre o assunto. 



* * *

Esse Ted Talk sobre línguas. Eu ando muito interessada sobre o assunto. Primeiro porque direto a Bárbara, especialista, escreve posts interessantes que apontam em direções que eu nunca tinha considerado. Segundo porque desde que comecei a aprender alemão comecei a reparar mais sobre como língua influencia todo um povo. Vejamos: no alemão é quase impossível começar uma frase se você não souber exatamente como vai termina-la. Isso porque o verbo tem que ir, normalmente, no final. Cada palavra tem um lugar para estar: o não para discordar, o adjetivo, etc. Não existe começar a falar e ir improvisando rs... Aí eu começo a achar que um povo que precisa pensar antes de falar, que precise organizar cada frase que fala, seja mesmo mais organizado e mais racional. Enfim, são viagens da minha cabeça, e eu adorei ver esse vídeo e pensar mais sobre o assunto :)

Alguém achou algo interessante? Alguma epifânia vinda dos links? Vamos conversar? 

Coisa de pobre

Com licença, hoje eu vim aqui desabafar.

Lá em 1990 e poucos apareceu o Sai de Baixo, e com ele o Caco Antibes. Na época o único dia que eu podia ficar acordada até mais tarde era domingo, eu podia assistir o Sai de Baixo e eu morria de dar risada com o Caco e suas tiradas pobrefóbicas. Hoje, com um olhar mais maduro, eu vejo que o Caco Antibes era uma alegoria acertadíssima do brasileiro médio. O brasileiro que não tem um centavo na carteira, mas "odeia pobre". Que odeia tudo que tem cara de pobre. Que gasta o que tem e o que não tem para parecer que pertence à elite. E pior: o brasileiro que ganha 5 mil, e se considera mais próximo de quem ganha 100 mil, do que de quem ganha mil. Esse brasileiro aí só esqueceu que o Caco Antibes era engraçado na TV. Na vida real é bem patético. 

E por que eu to aparecendo com essa conversa agora, nesse tom quase amargo? Porque toda hora aparece algo pra me lembrar porquê somos um povo endividado, porquê somos um povo que vive de aparências. Eu já comentei aqui de quando eu tinha um carro popular 1.0 bem simplão, e de como os colegas de trabalho simplesmente zoavam, na caruda, o meu carro. Tinha gente com o mesmo salário que eu que comprava BMW usada e gastava fortunas em seguro e manutenção, mas tirava maior sarro do meu Clio riscado rs. Porque carro popular é coisa de pobre. Outra, dessa mesma galera, foi tirar onda porque eu andava com as bikes do Itaú "credo, você não tem vergonha?! Compra uma bicicleta em vez de ficar andando com essas coisas velhas, eu ía morrer de vergonha". Juro que ouvi essa frase. E andar de transporte público em Paris e NYC? Legal. Mas em SP é coisa de pobre. 

E repetir roupa em casamentos? Coisa de pobre, né gente... E é aí que a coisa andou me pegando esses dias. Vi umas três blogueiras comentando com certo desdém o fato da Kate Middleton ter usado um vestido repetido no casamento, que era displicente, que o evento "pedia mais". E é aí que eu pergunto: pedia mais por que? Pedia nada. A ocasião pedia que Kate estivesse bem vestida e elegante, e isso ela estava. Period. Todo o resto é coisa da nossa cabeça que acha que a vida é "o diabo veste Prada" e que todo mundo tem que andar por aí numa montação escandalosa e inédita todo dia.

Alias, digo mais: o advento das blogueiras de moda e lifestyle, do instagram catapultou a classe média brasileira para Marte. Porque a viagem que o povo anda vivendo é coisa de outro mundo. Vejo a galera pirando nos looks do dia, indo montada até na padaria. Vejo umas festas de criança que mais parecem bodas de ouro da minha vó, de tanta flor e coisa e tal. Virou um delírio coletivo de tudo ter que ser tão lindo e ryco e instagramável como a vida da Lalá Rudge. Amiga minha cotou festa de quatro anos do filho, e saia nada por menos de 10 mil reais. OI?!?!?! Porque tem que ter buffet, tem que ter brinquedo, lembrancinha personalizada, tem que ter uma mesa esplendorosa, tem que ter tudo. E o que aconteceu com as decorações de cartolina que a mãe fazia em casa? Com as vizinhas enrolando brigadeiro na mão uma semana antes da festa? Coisa de pobre né. O que sei é que ando vendo nas redes festa de criança com trocas de roupas, em salões caros e fico aqui pensando... e errada mesmo é a princesa?!?! Cê jura? Num país em que metade da população vive com menos de um salário mínimo todo mundo acha ok gastar 10 mil em festinha, trocar de carro e de iphone todo ano, e ir em cada festa com um vestido novo?

E eu digo que é delírio coletivo, porque é facinho pra você ir caindo nessa também, não to aqui pagando de superior não. Eu já comprei muito vestido de festa que, analisando friamente, não precisava não. Mas também já botei muitas vezes o pé no freio pra entender qual é a minha realidade, e qual é a minha necessidade. Nunca que eu gastei dinheiro que não tinha pra sair bonita no instagram.

Agora quão paradoxal é você andar nas ruas da Suíça, e ver que o povo não tem carro porque prefere andar de transporte público? E que a galera faz uma farofa nervosa por onde passa? Levam sanduíche, fruta e o escambau pra montanha, nos passeios, pra praia, e pra onde mais forem? Alias, o povo come marmita onde der vontade de comer. No ônibus, na rua, e se não tiver plaquinha proibindo, come marmita até em mesa de restaurante rs... Vai dizer o que? Que é coisa de pobre? Pois é. Com esse post, além de reclamar e desentalar essa irritação que estava presa na minha garganta hehe, eu também quero deixar essa pergunta no ar: e vocês, o que acham mais elegante, heim? Lady Kate repetindo vestido ou essa galera imprimindo riqueza, ostentando o que tem e o que não tem num país todo corroído pela pobreza? 

Deixo esse resmungo gigantesco por aqui. 

Adeus solidariedade

Interrompemos a programação normal para entr... ops.. sem essa. A programação normal aqui é eu falar do que eu bem quiser, e no momento quero falar de algo que anda me deixando bem desgostosa com a vida. Imagino que numa crescente desde 2013, o Brasil foi se dividindo muito, cada vez mais. Primeiro entre manifestantes e paneleiros, depois entre coxinhas e mortadelas, depois entre petralhas e tucanos, e por aí vai. Eu sempre achei isso tudo uma MERDA, porque essa polarização sempre impediu as pessoas de olharem para frente, para o melhor do país. Virou um fla x flu desgraçado, e se um partido dava uma boa ideia, o outro votava contra porque "eu não compactuo com ELES". Sempre essa coisa entre "nós" e "eles". Seja lá de que lado você esteja. Eu sempre fiquei desconfortável com isso tudo, afinal de contas, eu sou uma pessoa que simpatiza com as pautas da esquerda, mas que nunca votou no Lula. Sou alguém que votou (e se arrepende, tá), no Aécio, mas que era absolutamente contra o impeachment. Da pra entender? Eu nunca curti esse nós e eles, porque meu caminho sempre foi outro. 

Só que no momento, vejo uma polarização entre gente e bicho. Me dói dizer uma coisa dessa, mas é a real. Marielle foi assassinada. Foda-se, gente, F O D A S E o partido que ela representava, foda-se as ideias que cultivava, foda-se. Era uma mãe, uma filha, uma esposa, uma amiga, era alguém, e teve a vida ceifada, com sei lá quantos tiros na face, foi enterrada num caixão lacrado, toda desfigurada. Tem como alguém ficar indiferente a isso? Eu achava que não. Mas teve gente que achou "bem feito, defende bandido, tem que se fuder mesmo". TIRO. CARA. CAIXÃO LACRADO. DESFIGURADA. Como que alguém consegue falar bem feito, como?

Ontem um prédio ocupado por sem tetos pegou fogo e desabou em São Paulo. No momento, são em torno de 45 pessoas desaparecidas. Esse prédio é da União, está abandonado há mais de uma década, numa região que sempre foi negligenciada. Na gestão anterior houve uma tentativa de revitalizar o centro criando moradias populares em prédios abandonados, iniciativa essa que encontrou várias barreiras, como desapropriação e até problemas com invasão. Não preciso dizer que a nova gestão do Caco Antibes Dória não fez absolutamente nada para dar andamento nisso, e diante da tragédia, mais que depressa, tratou de botar a culpa em quem? Nas vítimas, claro. E ele não é uma alucinação de mau gosto não... ele representa o que boa parte da classe média brasileira pensa. A maioria das pessoas não conseguem se colocar no lugar de quem NÃO TEM ONDE MORAR. Não conseguem pensar o que fariam se não tivessem nascido em condições privilegiadas, se não pudessem se candidatar à uma vaga de emprego por simplesmente não ter um endereço, se a única alternativa à rua fosse morar num prédio abandonado. Simplesmente ignoram tudo isso, e saem falando coisas que soariam menos escrotas se elas morassem aqui na Suíça, e não num país assolado pela desigualdade como o Brasil.  

E é isso que anda quase me tirando o sono. Ver o tanto que a nossa sociedade se descolou do bom senso, da generosidade, da empatia, da solidariedade. Eu fico envergonhada em ver que se colocar no lugar do outro é coisa do passado. Alias, eu fico chocada em ver o tanto de gente que sequer conhece a história brasileira, que sequer entende a realidade fora do muro do condomínio, e pior, que não quer entender. Não quer ver o tamanho do abismo que existe no Brasil para não se sentir mal pelos privilégios que tem. E eu não to falando de posições políticas, de agenda, de nada... Eu to falando somente de ler que uma pessoa foi assassinada, e simplesmente sentir compaixão. Não to falando que todo mundo tem que sentir a mesma raiva, tem que vestir o mesmo luto, nada. Só to dizendo isso... de sentir compaixão sem emendar um "MAS" depois. Perdemos a habilidade de ser solidários. Somos uma sociedade doente, que já foi dividida em muitas coisas, mas que hoje se divide entre quem ainda sente e que deixou de sentir. E acho que há poucas coisas piores do que isso. 

Como me sinto sendo uma imigrante

Vinte e dois de abril de 2018. Vivendo na Suíça há um ano e nove meses.

Me sinto, de certa forma, uma cidadã de segunda classe. Veja bem, não sou nem nunca fui abertamente discriminada. Mas carrego comigo aquele feeling de que não posso errar, de que qualquer bola fora é muito mais grave, de que qualquer esforço deve ser dobrado. Por exemplo: sei de um suíço, conhecido de uma amiga, que não compra bilhete de transporte. Simples assim. Ele fez as contas, e resolveu que se for pego de vez em quando, sai mais em conta pagar a multa do que pagar o transporte cada vez que usa. É feio? É. Mas sabe quando que você vai ouvir um tinha que ser suíço por causa disso? Nunca. Inclusive teve partido aqui que já tentou passar lei para que um estrangeiro que cometesse qualquer infração, inclusive andar no transporte sem ticket, fosse deportado. Por essas e outras que eu não me sinto no "direito de fazer conta" (se é que alguém tem esse direito rs). Do mesmo jeito, andei perguntando pra algumas pessoas sobre o Bilag (um imposto auto declaratório daqui sobre o consumo de televisão) e percebi que muita gente finge que não tem TV em casa. Eu fiquei apavorada e declarei no dia em que tiramos a TV da caixa, morta de medo da fiscalização baixar aqui e a gente tomar coió. Pode ser coisa da minha cabeça. Pode ser complexo meu. Acho, inclusive, que é. Mas isso não muda o fato de que é assim que me sinto.

Outro dia falei aqui sobre a questão profissional, sobre como os nomes do meu currículo aqui não significam nada. Sobre isso, uma vez uma amiga me disse uma coisa que ficou muito na minha cabeça: quando você imigra, tiram de você tudo que você tem. Sua experiência, sua vivência, suas conquistas, tudo isso perde valor. E é uma meia verdade. Acho que pra quem vem de certos países, como Estados Unidos, por exemplo, isso pode ser atenuado. Mas quando a gente vem de um país em que é (injustamente) famoso por festa, pobreza, corrupção e bandidagem, é difícil começar a conversa em pé de igualdade. E mesmo olhando a posição de certa forma privilegiada em que estou, acuso esse golpe.

E como assim, cidadã de segunda classe mas em posição privilegiada? Porque infelizmente, em tempos de tomada do conservadorismo, ser branca, com universitário completo e inglês fluente, me coloca numa situação privilegiada (aqui, no Brasil, e em quase tudo que é lugar). Questões como raça e escolaridade podem não ser suficientes pra alguém me dar um emprego aqui, mas são suficientes pra me deixar viver em paz até que eu faça uma cagada. Como eu disse lá no começo, eu nunca fui abertamente discriminada, e é exatamente por essa posição privilegiada. Porque sei de histórias de brasileiros de pele negra, de árabes, que não fizeram nada de errado mas tem que lidar com cada situação de merda, que não é justo. E não me sinto melhor por ter esse privilégio.

Então hoje, quando me perguntam como me sinto aqui, eu fico bem dividida. Minha casa é aqui. Sabe aquela coisa de quando você deita na cama e se sente em casa? Então, eu me sinto aqui. Mas me sinto assim pelo mundo que construí aqui com meu marido. Pela casa que fizemos aconchegante, pelos amigos que temos (99% estrangeiros, diga-se de passagem, o 1% é uma amiga "suíça", nascida e criada na Bélgica rs), pela vida que aqui levamos. Confesso, no entanto, que tudo isso poderia estar sendo vivido exatamente da mesma maneira em Barcelona, em Estocolmo, em Viena, ou em qualquer outra cidade europeia. E, provavelmente, eu estaria me sentindo do mesmo jeito em outro lugar. Porque imigrar é assim mesmo, pra onde for que você vai.

Acho que o sentimento de pertencimento vem com o tempo, com a conquista de certos milestones na vida. Provavelmente, quando eu arrumar um emprego legal, dê um passo a mais nessa direção. Quando fizer alguns amigos suíços (ou simplesmente deixar de me importar com o fato de que os suíços não querem ser meus amigos rs), dê outro. Quando dominar o alemão, mais um. E se um dia eu entender o dialeto, outro. Comecei esse post com data porque ele não é definitivo e deverá ser revisitado de tempos em tempos. A jornada de um imigrante é longa, e eu sinto que ainda estou no começo.

Ps - esse post não é sobre as dores e delícias de viver na Suíça. É única e simplesmente uma reflexão sobre a condição de imigrante, ok? Não me digam que se tá ruim é só voltar pro Brasil, rs. 

Machismo nosso de cada dia

Estou no nível B2 de alemão, e nesse nível o normal das aulas é ter discussões. Estamos aprendendo a montar frases mais elaboradas, longas, usar conectores, etc, e pra isso, o material é meio que todo propondo discussões sobre os mais diversos temas. Já tivemos aula falando sobre padrão de beleza, sobre mercado de trabalho, sobre questões suíças, entre outras coisas, tudo que leva a colocações como "eu acho que, eu penso que, na minha opinião, discordo porque, etc". E é claro que nessas conversas sempre surgem as mais diversas opiniões, alguns confrontos, tudo normal. Somos uma turma bem diversa - eu brasileira, uma polonesa, uma macedônia criada na Itália, um mexicano, um sírio e uma síria, uma bósnia, um italiano, uma chinesa, uma americana, uma albanesa, um romeno e uma paraguaia - e é claro que essa variedade de culturas, de educação, de contexto histórico rende boas conversas. Masssss... sempre tem o MAS. E é do MAS que eu vim falar aqui hoje. 

Tivemos uma lição há algumas semanas que falava sobre o padrão de beleza. O tema era "die Normalenfrauen", que numa tradução livre significa "mulheres reais de Dove" haha. Antes de mandar o real significado da coisa, a professora se dirigiu aos quatro rapazes da sala e perguntou: o que são mulheres normais? Porque sim, antes de mais nada, o "real" da Dove, em alemão é dito "normal". Aí o romeno falou: mulheres femininas. Rolling eyes. Aí o italiano resolveu tomar a palavra e palestrar sobre como "mulheres normais são aquelas que se vestem com saias, vestidos, que usam maquiagem, que gostam de ser mulheres". Sério, gente... SÉRIO. Como eu já sou meio conhecida na sala por ser meio bocuda, rs, achei por bem só fazer cara de paisagem e deixar a discussão pra quem tem estômago. Ou seja, ninguém hahaha. Menção honrosa vai para o colega mexicano, que olhou pra ele e fez aquele sinalzinho com a mão, tipo, para. 
Exatamente assim
Alguns dias depois estamos lá, vendo um videozinho, que falava sobre zumba. Ai a professora pergunta por que não há quase homens fazendo zumba, porque o público esmagador das aulas são mulheres, sendo que é tão divertido, alto astral, etc. Nosso querido Matteo (irei chamar nosso italiano de Matteo, ta?!) pede licença pra vomitar fala: porque não é coisa de homem, é pra mulher. Aqui devo fazer uma inserção de que a professora é uma senhora muito da porreta, cheia de opinião e tal, e que eu já percebi que é chegada em fazer o circo pegar fogo rs. Ela, ao me ver com a cara contorcida, resolveu pedir minha opinião. E eu, honestamente, não estava afim... 

Pior: ele e o romeno começaram a fazer graça e a dizer que na zumba, o homem só assiste. E ficaram nessa, fazendo piadinha de "mulheres gostosas". Nesse dia cheguei em casa descaralhada da cabeça. Eu não concordo, eu não passo pano, mas eu ~entendo~, com muitas ressalvas, que o romeno fale umas merdas. Ele é mais velho, trabalha em construção, e a gente sabe que não é um campo onde exatamente os homens são feministos, né. E embora ele também fale merda, é sempre mais contido nas suas colocações. Mas não consigo dar respiro pro Matteo rs. Não mesmo. O cara tem 29 anos, nascido e criando no centro da Europa, num país dito desenvolvido, frequentou universidade, já era pra estar mais esperto. E embora eu saiba que a Itália é sim um país machista, eu tinha a doce ilusão de que as gerações mais jovens tivessem mais noção. Porque é isso, falta noção. Numa sala com nove mulheres, o cara tem nem vergonha de ser absurdamente machista. Alias, digo que nem percebe que é. 

Aí há uns dias aconteceu um caso trágico em Zurich. Um italiano matou a sua esposa e em seguida se matou. Alguns jornais disseram que ele estava em depressão, desempregado, e não aceitava que a mulher fosse mais bem sucedida que ele. Enfim, uma merda e tals. Não sei do que estávamos falando em aula, quando a professora trouxe esse caso pra roda. E então, afirmou: isso tem acontecido tanto, cada vez mais, sempre o homem matando a mulher. Se virou então aos homens da sala e perguntou: por que?

E é CLARO que nosso amigo Matteo tinha que relinchar opinar. "Eu acho que isso é coisa da mídia. Morrem tantos homens quanto mulheres, mas a imprensa somente noticia os casos de morte das mulheres". A perplexidade foi tanta, que o sírio mandou em inglês mesmo: man, you are so wrong, that's so fucked up. HAHAHA. Eu tive que rir, porque a gente acha que no oriente médio que reina o machismo, e me vem o sírio, e resume bem resumidinho em uma frase o rebosteio. Ninguém falou nada, a cara da sala inteira estava meio que assim...

A professora então perguntou se alguém queria opinar, e depois de tanto fazer a phyna, eu achei que tava na hora de honrar minha fama de bocuda rs. "Então, né.. realmente muitos homens morrem todos os dias. Por causa de acidente de trânsito, de tráfico de drogas, de briga de bar. Agora eu gostaria que você me falasse UM caso em que a mulher assassinou o marido porque ele tinha mais sucesso que ela. Você consegue?" Claro que Matteo nessa hora tava com cara de cu. "Não. E alias, praticamente todos os maridos ganham mais, tem mais reconhecimento que a mulher, né... Mas você conhece algum caso de mulher matando homem porque não concordou com o fim do relacionamento? Porque acha que o homem é propriedade dela?" Ai ele.. "não, mas eu estou falando de morte no geral".  - Entendi... Na hora que interessa você não entende alemão, né? 

*CLIMÃO*

Enfim... essa semana teve dia 8 de março, Dia Internacional das Mulheres. A professora perguntou pra todo mundo como é celebrado o dia da mulher no nosso país, e deixou a parte da Italia pra outra italiana da sala, rs. E é esse o tal do MASSS que eu queria comentar. Esse debate multi cultural pode ser muito legal. Mas quando se trata de machismo, ter esse tanto de gente diferente na sala de aula só me mostra que mulher é menos em qualquer canto do mundo. Que no fim, a gente vai ser ofendida, diminuída, onde for. Que o caminho é longo, que a luta não tem fim, e que a gente tem que aprender a falar "VAI SE FUDER" em tudo que é língua pra sobreviver nesse mundo. 

As dores do regresso

Quando voltei do Brasil comentei aqui que teria várias reflexões a fazer, e no fim, fiz foi nada. A real é que mal processei as coisas, e chegou verão, chegaram viagens, visitas, e ficou tudo meio de escanteio dentro da minha cabeça. Mas aí semana passada recebi uma amiga aqui, e papeamos sobre tantos assuntos, que acho que acabei por tabela organizando vários pensamentos. 

Primeiro que me senti um peixe fora d'água em várias conversas lá no Brasil. A vida passou em um ano, e tirando um grupo com quem falo todo dia, acaba rolando um afastamento. As pessoas perguntam, "e aí, como ta a vida lá?" e tipo... aconteceu tanta coisa mas ao mesmo tempo não aconteceu nada, aí fica naquele, "ta bem, tudo indo, silêncio maldito". Porque realmente, eu não tenho aquela GRANDE novidade. Não to grávida, não arrumei um emprego, e as minhas novidades são ~pequenas insignifcâncias~ do dia a dia, como conseguir entender alemão num papo de elevador, ir num bar diferente, comer um doce bom, conhecer alguém de cultura diferente na escola, cair de bicicleta, fazer alguma merda culturalmente não aceita e tomar xingo de alguma velhinha. E essas coisinhas, se você não compartilha na hora, perdem grande parte do impacto, né? E foi assim que eu simplesmente, depois de quase um ano fora, não tinha nada pra contar, e me senti meio sem assunto com várias pessoas. 

Além disso, percebi que não supri a expectativa da galera, rs. Acho que já falei isso por aqui, mas realmente, o povo acha que você mudou pra Suíça e agora vive montada numa nuvem, tocando harpa enquanto toma lambida do seu unicórnio e se alimenta de algodão doce no shape de arco íris. As pessoas realmente acham que a vida na Europa é linda e sem defeito. Mas não colocam nada em perspectiva. Quando eu comento que faço minha própria faxina, que se der qualquer merda, pegar taxi não é uma opção, todo mundo acha que eu estou exagerando. Acho que no fim, esperavam que eu chegasse lá no Brasil falando "é isso mesmo que vocês acham, a vida lá é perfeita, não temos problemas, acordamos e dormirmos gargalhando todos os dias, e quem não se mandou daqui ainda é imbecil". Aí quando eu falava: sim, a vida é boa sim, mas não é esse mar de rosas aí que vocês acham, a reação imediata era já falar em tom quase agressivo: quer voltar então? É quase um reflexo dos tempos difíceis que vivemos, o diálogo é truncado. Lembro de ter falado pra uma amiga que já tinha soltado uma coisa do tipo pra mim e depois estava reclamando das agruras da maternidade, que era a mesma coisa. Que a maternidade tem as coisas boas, as coisas ruins, e ela reclamar não significa que preferia não ter tido o filho, né?

Mas por essas e outras, mais uma vez, me sentia desconectada. Quando eu dizia que nosso padrão de vida diminuiu, o povo falava que não parecia, que eu viajo pra caramba. Eu até rebatia "mas você foi pro Guarujá, você foi pra Campos do Jordão, foi pra Maresias, foi pra Inhotim, foi pro Rio, viajou também, e mantém a sua rotina de gastos". "Ahhh, mas é diferente, são viagens pequenas". É nada cara pálida. A distância entre Berna e Paris é menor que entre a casa dos meus pais e a dos meus avós, ambas dentro do Estado de São Paulo. A diferença é que aqui pra fazer essas viagens eu tenho que abrir mão de confortos, pedalar morro acima pra economizar um dinheirinho, fazer as contas que depois de 20 dias sem pegar busão eu consigo comprar uma passagem pra algum lugar. E no Brasil, a gente simplesmente não da valor pra essas pequenas viagens porque elas estão dentro do país que a gente ama desprezar. E eu era assim também, não nego. Mas agora ainda por cima o povo culpa a Dilma, o Temer, e o capiroto se precisar, mas não reconhece que eu abro mão de muitas coisas por aqui pra ter esses pequenos luxos. Coisas essas que nunca precisei pensar em renunciar em São Paulo. E veja bem, não to aqui querendo parecer coitada, mas somente mostrar que o pessoal acha que a gente vive aqui a mesma vida que a gente vivia lá, só que num tom mais rosa, e como isso vai tornando a conversa mais difícil. No final, estávamos sempre falando do passado, relembrando histórias de anos atrás, enfim, quando todos falávamos a mesma língua. Deixamos essa coisa de presente, tão complicada, pra lá. 

Fora essas questões existenciais, claro que fiquei meio chocada com o trânsito de São Paulo, o preço das coisas, a pressa das pessoas rs. Mas também fiquei aconchegada com a espontaneidade de tudo, em saber onde encontrar tudo que eu queria, em simplesmente encontrar as coisas, me comunicar, entender e ser entendida no meio da rua, enfim, estar em casa. Foi engraçado que nos primeiros dias, eu ouvia as pessoas falando nas mesas dos lados, no metrô, e pensava, ó, tão falando português, rs, do mesmo jeito que penso quando escuto brasileiros aqui pela rua haha. Demorou pro cérebro registrar que sim, to ouvindo português porque estou no Brasil. E demorou mais ainda pro cérebro registrar, e pro coração aceitar, que eu me sentia muito mais em casa na calçada da Paulista, olhando aquele meu povo incrível e desconhecido, do que na sala da casa de amigas.

E no fim, acho que estou começando a aprender que viver fora é isso. É ser incompreendida, e também talvez não compreender mais tanto assim. É ficar por fora das coisas, se sentir desconectada, mas no fim, olhar praquelas pessoas todas, e saber que sou amada. Amada de um jeito estranho, amada com um tom de nostalgia, porque acho que me amam pelo que já fui, sei lá se pelo que agora eu sou. 

Padrão x Qualidade de vida

Eu estou com esse post empacado na minha cabeça há meses. Um dos motivos pelos quais quis criar esse blog foi justamente porque percebi que estava com dificuldade de expressar minhas ideias. Quatro anos depois acho que melhorei, mas ainda sinto dificuldade, ainda mais quando o tema é meio espinhento, como esse. Por isso talvez fique um pouco confuso, mas tenho certeza que vocês pegam o espirito da coisa, rs.  

Quando você fala no Brasil que mora na Europa, ou quando está comentando algo com os amigos brasileiros, a resposta é sempre "que chic!", ou então, "ta reclamando de que? você mora na Europa!!",  ou pior ainda, "mas agora você é rica, mora na Europa". O mesmo serve pra quem mora nos EUA. A real é que...

A tal diversidade

Desde que entrei no curso de alemão passei a conviver diariamente com uma fauna bem diversificada. Ao longo desses 3 meses passaram pela sala uma sulafricana, um francês, uma americana, uma dominicana, um espanhol, uma colombiana, uma macedônia, uma polonesa, uma grega, um canadense, uma russa. Além desses, tem o grupo que seguiu junto desde o começo: eu, uma italiana, uma suíça que cresceu fora do país, um saudita e 3 iranianos, sendo um par de irmãs e um outro menino. Esses quatro últimos muçulmanos. 

Soltando as amarras

Eu sou feminista desde quando não sabia o que era ser feminista. Pois é, eu achava que feministas eram aquelas moças que odiavam homens e não depilavam o suvaco. E só elas. Achava, inclusive, que ser feminista era um problema, já que achava elas amarguradas e agressivas. Peço que me perdoem pelo clichê ridículo, mas eu era nova e não sabia das coisas. 

Mas eu sempre soube que era dona do meu corpo, que podia dar pra quem quisesse, que era direito meu sair na rua com shortinho e que errados eram eles de ficar assediando, que era um absurdo a mulher ser sempre a vagabunda e o homem pegador. Ficava indignada com o fato de que no trabalho os homens acabavam se destacando mais por menos, e com várias piadinhas que ouvia na sala de aula na faculdade e em reuniões corporativas. Com os anos, fui lendo mais sobre o feminismo, aprendendo muito sobre sororidade, empoderamento, e entendi que sempre fui feminista e que sou cada vez mais, me orgulhei pra caramba. 

Mas e aí, minha gente, eu resolvi largar trabalho e tudo e ir pra Suíça acompanhar o marido, de quem ao casar adotei o sobrenome. E tomar essas decisões já não é fácil porque não é - tem o componente família, distancia, língua, etc. Mas meu cérebro feminista tornou tudo ainda mais difícil. Porque era simplesmente inconcebível que eu, a mulher com o cargo mais alto da organização no Brasil, fosse largar tudo pra ir atrás de marido. Sério... Passei noites sofrendo com isso, me sentindo traidora do movimento.

A questão do nome me pegou de outro jeito: Mati nunca pediu nada. Quando eu perguntei se ele esperava que eu mudasse de nome, ele disse "this is not my business, it is your decision". E aí que a minha cabeça deu um nó de vez, porque eu queria mudar. E me senti menos feminista por isso. Passei meses pensando o porquê de eu querer mudar de nome. Levei até pra terapia. Entendi que era uma questão familiar: estaríamos sozinhos pelo mundo, e eu queria ter aquela sensação de família, que não precisa de nome nenhum pra existir, mas que nesse contexto se tornou simbólica pra mim. Quando aventamos a possibilidade de ele também mudar de nome, achei meio nada a ver ficarmos os dois parecendo irmãos de sobrenomes iguais. 

E depois de muito me torturar, precisei dar um tapa na minha própria cara, e repetir feito mantra: feminismo é sobre ter o direito de escolha. Feminismo é poder escolher se quero ter o nome do meu marido, e não ser obrigada por ele - ou pela lei, pela sociedade, quem seja. É poder escolher se quero ir, se quero ficar, o que quero fazer. Feminismo é sobre não deixar que ninguém faça minhas escolhas.

Aos poucos, fui ficando menos envergonhada do que decidi pra mim, até ficar completamente em paz com tudo. Porque sim, eu escolhi ir, eu escolhi ficar desempregada por tempo indeterminado para viver um amor, eu escolhi adotar o sobrenome do meu marido. Mas eu estava mortinha de vergonha por ter escolhido tudo isso. Ficava me justificando pelos cantos, como se devesse algo a alguém. No caso, à Gabriela feminista. 

Grande bobagem. Já falei sobre isso aqui, sobre como acabamos passando de um extremo ao outro, sem ponderar nossas vontades. Não vamos cair nessa cilada de ficar sempre colocando "o que os outros vão achar" na nossa frente, sejam os outros quem for. Lembrem-se disso. Eu fico me lembrando. E talvez esteja aqui, de alguma forma, me justificando, mais pra mim do que pros outros mais uma vez. Porque faz parte do processo de se libertar das amarras que a gente mesmo se coloca.

E não custa lembrar:

* Quem quiser aprender mais sobre feminismo, a página Lugar de Mulher é parada obrigatória. Essa ilustração é a capa do livro delas. 

Cenas Lamentáveis

Eu queria muito vir aqui falar do final de semana incrível que eu tive, mas infelizmente ainda estou impactada pelas cenas horrorosas da noite de ontem. Antes de seguir com minha humilde opinião, devo dizer que não sou petista, votei no PT somente em 2 oportunidades na vida (Suplicy <3 ) e nunca numa eleição presidencial. Acho o governo Dilma uma lástima, vejo ela como uma tamanha incompetente que não perdeu uma oportunidade de se afundar ainda mais. 

Disclaimer feito, digo que acho esse impeachment muito equivocado. Não porque dona Dilma não mereça, mas porque acho que a nossa democracia não merece. Somos uma democracia nova, que em 5 de outubro fará 30 anos. Tivemos um presidente que morreu, outro impedido e agora provavelmente um terceiro vice assumindo. Isso quer dizer que nesses 30 anos, tivemos 2 casos em que a pessoa eleita pelo povo pode governar durante seu mandato. Não vejo com bons olhos essa situação.

Vejo com menos bons olhos ainda um impeachment baseado nas tais pedaladas fiscais. Nem o STF se decidiu ainda se isso trata-se de crime de responsabilidade. E pior: nem é esse o ponto dos nossos parlamentares. Ontem percebemos bem que os nossos Congressistas estão cagando baldes para as pedaladas. Eu parei de assistir a votação quando deu 342 votos a favor do sim, mas até esse momento, TRÊS parlamentares tinham mencionado pedaladas fiscais e crime de responsabilidade em seus votos. TRÊS, entre quatrocentos e lá vai pedrada. Ah, e dois deles para votar contra. 

O que a gente viu ali foi um festival de gente agradecendo filhos, famílias, invocando o nome de Deus em vão. Os eleitores que os colocaram ali, nada. Um mixaria lembrou de falar "pelos eleitores que me colocaram aqui". Porque sim, essa é a ordem das coisas na cabeça dos nossos políticos: eu > minha família > meus cachorros > meus vizinhos > .... > abismo > meus  eleitores > resto da população. Nem vou me ater aqui ao presidente corrupto da Câmara ou ao demente que invocou o torturador da presidente no púlpito parlamentar, porque esses daí tinham que estar na cadeia há anos. Mas volto, ninguém ali estava preocupado com crime de responsabilidade, ninguém ali estava ligando pro impacto disso na democracia. O nível daquilo foi horrível, de chorar encolhido no canto. 

Considerando que há registros de que o partido do Vice vem se reunindo com deputados há mais de um ano para explicar o procedimento do impeachment, para arrebanhar votos, fica claro que as pedaladas foram só a desculpa e não motivação. Que a motivação é o inconformismo com o resultado da eleição passada. Que para chegar a esse resultado a oposição vem dificultando a governabilidade, ainda que isso signifique ferrar a população. Vocês já ouviram falar na pauta bomba, né? Pois é. Desde a eleição de 2014, a oposição vem votando para contrariar o governo, sem entrar no mérito do que é bom para o Brasil ou não. 

E diante desse quadro todo, eu não consigo pensar em primeiro lugar na ojeriza que tenho do PT. Não consigo. Eu não votei na Dilma, fiquei decepcionada com sua segunda eleição, mas defendo o seu direito de ser incompetente até o fim de seu mandato. No momento, penso somente que as nossas instituições estão seriamente ameaçadas, que a nossa democracia está seriamente ameaçada, que o nosso poder de voto está sendo castrado e que a longo prazo podemos sofrer consequências e retrocessos gravíssimos. 

Mas agora Inês é morta. Não interessa de que lado estamos, não há nada a festejar. Precisamos sim torcer, rezar, implorar, para que alguém lembre de nós. E que a gente olhe pra essa votação como espelho, e veja a merda que estamos refletindo por aí. 

Precisamos falar sobre a elite brasileira - Parte 2

"Era uma vez um cara rico, muito rico, da alta roda paulistana, casado com uma também bem nascida, ambos famosos nas colunas e redes sociais. Um dia o sujeito em questão enche a cara e vai visitar uma ~amiga~, às 6h da manhã. Chegando lá, ele faz uma barbaridade com o volante e, além de tombar o próprio carro (um veículo cujo valor de mercado gira em torno de 250 mil reais), ele quase dá perda total num carro X encostado na rua. O belo rapaz não quer que o dono do carro X faça BO, ou acione o seguro, faça nada, porque o caso não pode chegar ao conhecimento público, da mídia. De repente, todos os policiais e bombeiros que estão no local, somem. A criatura fica surtada de um lado pro outo cobrindo o rosto. Ele sai de cena e entra sua mãe, que, vendo a humildade das pessoas envolvidas, diz que vai pagar todo o prejuízo e faz algumas ameaças para que não seja lavrado o BO."

Essa história é real. Numa conversa casual, minha amiga me contou o ocorrido com o carro do marido e relatou que já fazia 12 dias, sem que tivessem recebido nada. Então eu resolvi assumir a coisa, como boa barraqueira advogada que sou. Depois de muita conversa com a Sra. socialite mãe do belo rapaz, algumas em tons mais amigáveis, outras não tão amigáveis assim, o assunto foi resolvido.

Algumas observações:
- a impressão é que os polícias que sumiram da cena, o fizeram a troco de algo;
- antes de eu me envolver no assunto, a mãe do menino mentiu pra minha amiga, dizendo que tinha comprado o carro que o menino dirigia com todo o esforço de uma vida, que não sabia da onde ia tirar dinheiro pra pagar o prejuízo. Só dar uma zapeada nas redes sociais que você vê a a Sra em questão, ou esposa do cara, carregando o valor de dois carros no look - ou seja, queria mesmo era enganar algumas pessoas e sair dessa história sem pagar nada;
- depois queria pagar o conserto até um certo valor, e não o valor total;
- o marido da minha amiga usa o carro para trabalhar, é vendedor. A princípio, a socialite não queria pagar o aluguel de carro reserva pelos 15 dias estimados para conserto. Depois de muita conversa disse que pagaria 50%. Diante da minha insistência no que é correto, soltou a célebre frase "Você deu foi sorte. Tem muita gente por aí que não paga nada". Tive que eu lembrar uma senhora, no alto de seus muitos anos, que não é porque todo mundo faz errado, que virou certo - e que ela não estava fazendo nenhum favor em pagar os prejuízos que o filho dela causou, e que não foram levados à seguradora por pedido deles;
- já disse que um marmanjo de quase 30 anos chamou a mãe pra limpar a sujeira? Se não disse, ta dito.

Eu já abordei esse assunto aqui no blog uma vez. Naquele post, minha reflexão foi sobre a atitude de adolescentes, seres humanos em formação, e a condescendência dos pais. E aqui a gente vê o resultado dessa educação sem limites, desse senso de merecimento sem fim que a nossa sociedade põe na cabeça de seus filhos, e que cria adultos irresponsáveis, incapazes de lidar com as consequências de seus atos.

Primeiro que esse sujeito poderia ter matado alguém. Ele, bêbado, perdeu o controle do carro numa rua movimentada, 6 horas da manhã, horário em que várias pessoas estão indo pro trabalho (inclusive minha amiga e seu marido, que viram tudo quase em tempo real). E quis fugir de sua responsabilidade simplesmente porque estava onde não devia estar, fazendo algo que não deveria fazer. Mas isso daí não é a vida? Assumir os próprios erros? Encarar as consequências?

Segundo: entendo uma mãe querer proteger o filho, mas que educação é essa? Em que você mostra ao seu filho que, porque tem dinheiro, ele pode tudo, que se dá jeito em tudo, que se compra todos e cala quem for preciso? Minha amiga e sua família ficaram apavorados. Eles simplesmente não lavraram um boletim de ocorrência, perderam o direito ao seguro, porque ficaram assustados com as ameaças recebidas. Ficaram receosos pela influência que essas pessoas tem, e porque o acidente foi na frente de sua casa - ou seja, eles sabiam onde moravam. E pergunto: é isso mesmo que você quer ensinar aos seus filhos? Que você amedronta as pessoas afetadas por suas atitudes irresponsáveis? O cara é casado, tem seus quase 30 anos e ainda resolvem as coisas assim, ou seja, passaram uma vida ensinando a criatura de que esse é o jeito certo de agir na vida.

Ah, e uma constatação: esse rapaz já esteve nas manifestações de domingo na Paulista contra tudo isso que ta aí, contra a corrupção do PT, contra essa corja que está acabando com o Brasil. Essas pessoas não olham pra si. Elas acham que o problema do Brasil são os outros. Não percebem que fazem a mesmíssima coisa. Acham que estão simplesmente se defendendo, e não percebem que estão defendendo interesses próprios da mesma forma que todos os políticos corruptos que temos. E pergunto: isso é ignorância? Não né. São pessoas que frequentaram as melhores escolas e tiveram acesso a tudo, e escolhem ser assim.

Por fim, só digo uma coisa: quem vê o garbo desse povo na Vogue e  no instagram não imagina o nível das barbaridades que eles falam por dinheiro. E eu que entrei nessa história achando que era uma barraqueira de mão cheia, saí dela me achando a personificação da elegância. 

Ninguém tem que nada

To numa fase da vida que é muuuito legal, mas que demanda um certo esforço pra ariana bocuda feito eu não sair mandando metade do mundo tomar no meio daquele lugar. Antes que me achem mal criada - e até sou de vez em quando, mas agora não rs, explico. 

Tenho um enteado, né. Depois que ele entrou na minha vida, comecei a prestar muito mais atenção nesses papos de mãe, porque de certa forma, passou a fazer mais parte do meu dia a dia. E aí que percebi que é um festival de cagação de regra, né. tem que dar colo, tem que deixar chorar um pouco, não pode deixar ver tv, tem que dormir a tarde, tem que tirar a fralda logo, tem que botar na escola, tem que mil coisas. Povo é rei de saber o que é melhor pro filho dos outros. 

Eu, que sou madrasta, já tento não me meter nas diretrizes das coisas, mas é só ir no mercadinho da minha rua que a tia do caixa é cheia de pitaco (juro). Outro dia ela lá falando "tem que tirar a fralda desse menino". Eu sei que é na melhor das intenções, ela é um amor. Ela dá uva pra ele e deixa ele sentar no caixa, fingindo que ta registrando as compras. Mas outro dia tive que falar: eu que troco as fraldas não acho. Você acha por quê? Porra, respeita o espaço dos outros, sabe. Quem cria conhece a criança, conhece a evolução da criança, conhece o tempo da criança, e sabe a hora de botar na escola ou tirar a fralda. Acho uma tremenda invasão. E isso acontece em todo canto. Todo mundo tem um pitaco sobre a maternidade alheia. E o tanto que andam crucificando mães por aí? Dizendo quem cria filho certo, quem cria filho errado? Que parto tem que ser assim ou assado? Tem que amamentar não sei que jeito, senão num é mãe... 
Ai eu vou casar. Não vou fazer festão, não to bridezilla, não nada. Estamos fazendo tudo do nosso jeito, e acaba que estou vivendo esse momento na maior solidão. Isso porque cada vez que alguém me pergunta algo e eu começo a falar, o povo vem com os "tem que". Tem que ir vestida de noiva, tem que ter véu, tem que tocar marcha, tem que chamar num sei quem, tem que ter mesa de doces.

Só que eu não tenho que merda nenhuma. O casamento é meu, o sonho é meu, e se eu quiser ir de jeans e camiseta, eu vou. Porque afinal de contas, tem que ser do jeito que eu quiser, e não do jeito que o povo acha que tem que ser, sabe? To fazendo algum sentido? 

É uma pena, porque eu acabo deixando de falar sobre esse momento especial com um monte de gente. Ou então, acabo no meio de diálogos desagradáveis, tipo um que foi eu falando pra uma amiga super querida algo do tipo "então, mas você não sabe quais são os meus sonhos pra esse dia. E não tem nada a ver com isso aí que você ta dizendo que eu tenho que fazer". E aí, ela se sentiu mal, eu me senti mal, e pronto, olha a merda... Eu simplesmente estou evitando o assunto. 

Opinião todo mundo tem. Eu também tenho. Me pergunte sobre qualquer coisa aí, que é muito provável que eu tenha uma opinião. Mas eu to tentando saber a hora de expor essa opinião. Me perguntou? Ótimo, vou falar. Caso contrário, tento segurar a minha onda. E mais que isso: precisamos parar de achar que os outros tem que suprir nossas expectativas. Ou que os outros tem que seguir a nossa concepção de "certo" e "errado". Esse é um exercício constante.

Precisamos aprender a hora de segurar o "tem que" que tem dentro da nossa boca, e lembrar que as pessoas, na maioria dos casos, não tem que nada. Não tem que casar, não tem que namorar, não tem que engravidar, não tem que dançar valsa, não tem que financiar casa, não tem que comer orgânicos. Talvez o único tem que obrigatório, seja o "tem que respeitar os outros". 

Ser mulher é...

Uma vez escrevi aqui sobre 3 casos de machismo que aconteceram comigo num curtíssimo espaço de tempo. Hoje aconteceu uma outra situação, escandalosa eu diria, e resolvi que agora vou contar aqui TODOS os casos de misoginia que se passarem comigo. Entendi que o registro vai mostrando volume, e a gente vai percebendo o tanto de merda que aguenta nessa vida, e a urgência que a nossa sociedade tem de mudar. 

Hoje de manhã, estava dirigindo quando fui fechada por um carro que mudou de faixa sem dar seta, nem nada. Quase bati. Além de brecar, enfiei sim a mão na busina e dei uma daquelas loooongas businadas. E aí, gente... Começou. 

No momento em que businei, o carro que me fechou, que estava na minha frente, brecou. O semáforo lá na esquina estava fechado, mas ele brecou muito antes do semáforo. E então começou a dar ré. E dar ré. Até encostar no meu carro. E então bateu 3 vezes no meu carro, até empurrar meu carro pra trás. E ai veio e bateu de novo. E eu estava completamente encurralada, com o carro dele na minha frente e um carro atrás (que estava businando com medo de eu bater nele também). Então o sujeito dentro do carro saiu do carro, e começou a me xingar: Vadia, vai tomar no cu, sua puta, sua puta, vai tomar no meio do seu cu, no meio do seu cu, sua puta. Eu não tive coragem de abrir a janela, de fazer nada. Só olhava pro cara e falava, de dentro do meu carro você é louco. Não tive coragem mesmo de fazer algo a mais que isso: 8:40 da manhã, e uma pessoa nesse total descontrole, coisa boa não é. Então ele voltou pra dentro do seu carro, bateu mais uma vez no meu, o semáforo abriu lá na frente e ele seguiu. 

Pergunto: alguém aqui acha que esse cara faz esse circo todo toda vez que alguém busina pra ele? Será que se eu fosse um homem, ou tivesse um homem dentro do carro, ele faria isso tudo? Ou será que ele viu pelo retrovisor que era uma mulher sozinha e resolveu por toda a sua macheza pra fora?

Acabou que não fez nada no meu carro, só amassou a placa. Mas me senti muito agredida, ameaçada. Eu nunca me meti em briga de trânsito, porque sei que a gente não imagina quem ta do outro lado. Mas não posso buzinar? Como sou mulher eu tenho que aguentar todas as irresponsabilidades de terceiros sem dar a mínima manifestação? 

Que nojo dessas pessoas, que nojo.

FAQ da Mudança

Como eu contei aqui, nós vamos nos mudar. Pode ter parecido no post que foi uma decisão tomada de um dia pro outro, mas não foi. Há muito tempo eu e Mati estamos conversando a respeito, amadurecendo a idéia e refletindo sobre os prós e contras. Além disso, queríamos que fosse uma decisão nossa, livre das opiniões e achismos dos outros, por isso mantivemos o mais privado possível. Óbvio que envolvi minha família e amigos no processo, ninguém aqui foi pego de surpresa. Mas foi tudo no tempo certo. 

E assim fomos trabalhando possibilidades, mas sem pressa. Eu sabia que ia acontecer, e até por isso comecei a adiantar minha cidadania italiana, que acho até que falei aqui num post. Lá por outubro Mati começou a olhar com mais afinco o mercado dele, que é mais fácil de mudar. Começou a aplicar pra vagas, e em janeiro foi pra uma job fair na Europa, de onde voltou empregado. 

Devo dizer que nos últimos meses calculamos custo de vida, benefícios, salários, impostos, procuramos apartamentos fictícios e compramos de mentirinha móveis em boa parte do globo. Pra cada vaga que aparecia, lá sentávamos nós, com laptop em punho, e da-lhe pesquisa. 

Mas e aí, dona Gabriela, PRA ONDE?
Pra Berna. Nós vamos morar na capital da Suiça. 
As perguntas que eu recebo quando compartilho a decisão com alguém, invariavelmente, são as mesmas. Deve ser porque são as mais pertinentes pro momento, rs. Então vou responder por aqui, até mesmo porque já da um grande overview do que vem por aí. 

Quando você vai?
Mateus começa a trabalhar em 3 de agosto, e devemos ir em meados de julho pra começar a ajeitar a vida. Ou seja, ainda tenho 5 meses de Brasil pela frente :)

E o que você vai fazer lá?
A menos que meu passaporte italiano saia em tempo - o que é pouco provável, pra não dizer impossível - no meu primeiro ano não poderei trabalhar. Então irei estudar alemão (eu sei, a vida é curta) e quero também fazer uns cursos. Quando estiver apta a trabalhar, irei procurar emprego e é isso aí. 

E você vai poder ser advogada lá?
Depende, acho que advogada de empresa até poderei. Mas se você me conhece bem, sabe que não sou daquelas que não se enxerga fazendo outra coisa da vida. Hoje, inclusive, mais administro do que advogo. Gosto de business, de estratégia e tenho loucura em aprender. Ou seja, estou aberta pro que a Suiça me oferecer.

Mas você trabalhou tanto pra chegar a gerente de multinacional... Vai largar tudo?
Justamente. Aprendi que trabalhando sério você pode ir muito longe. Quando me mudar terei 30 anos. Sou nova e me acho sim com a vida inteira pela frente, com tempo de sobra pra recomeçar. 

E o frio?
Então... Fui feliz no Wisconsin, sabe. 

E o que sua família achou?
Se eu estou feliz, minha família está feliz. E eu tenho certeza que foi a melhor decisão que podíamos tomar, então eles também tem. Devo dizer que meu pai está mais serelepe do que de costume, pois a Suiça calha de ser seu país favorito, rs. 

Como estão os preparativos?
Não estão, haha. Por enquanto trocamos algumas informações com o RH da escola em que Mati vai trabalhar, e eu estou devorando a internet. Estamos aguardando os comandos sobre o processo do visto, que será feito pela própria escola. Mais pra frente certamente vamos resolver algumas coisas práticas, mas por ora, tudo que me resta é manter o pé no chão.

Quando vocês voltam?
Não temos data pra voltar. Queremos construir um lar e ficar o quanto quisermos ficar, até pra sempre se for o caso.

Vocês estão fugindo do caos do Brasil?
Ih gente, to fugindo de nada não. Depois do choque do retorno do intercambio, aprendi a gostar ainda mais do Brasil. Valorizo as belezas, as pessoas, vejo o lado bom, vejo oportunidades pro futuro, tento ser uma versão melhor de mim pro meu país. Alias, gosto e amo tanto que por anos esqueci de algo que eu sempre me fascinou: viver fora. Eu fui viver fora, eu fui feliz. E eu queria mais. Sempre quis. Estou indo viver um sonho, e o melhor de tudo: estou sonhando a dois. Cafona, né? Pois é. A vida as vezes é cafona. 

Mas Mateus não é americano? Por que não Estados Unidos?
Seria mais fácil mesmo ir pros Estados Unidos, dar entrada no Green Card, poder trabalhar e já ser fluente na língua local, com duas multinacionais americanas no currículo. Mas sabe o que seria ainda mais fácil? Ficar onde estamos. Tenho uma carreira, Mati tem um emprego estável e está completamente adaptado, ama o Brasil, tenho minha família, meus amigos, minha casa, amo minha cidade e minha vida. Logo, se fosse pra ser fácil, era só ficar onde estou. Mas optamos por viver algo diferente e aproveitar que temos o pique e a vontade que recomeçar requer. 

E por que a Suiça? Por que Berna?
Como eu disse, Mateus prospectou muitas vagas. Tínhamos sim alguns lugares em mente (beijo, Amsterdam, não foi dessa vez), mas tinha que rolar uma sinergia gigante de vaga interessante pra ele, salário compatível, interesse do empregador, cidade atraente pra morar e um mercado minimamente promissor pra mim no futuro. Bela matemática, não? Por exemplo: ele recebeu uma proposta em Berlim, uma das minhas cidades favoritas no mundo. Mas financeiramente era uma lástima. Precisamos pesar o que compensava mais. E compensou dizer não pra minha querida Berlim, pois viveríamos com várias restrições, e não estou falando do estilo de vida do Brasil, mas pensando no custo de vida local. No caso, as escolas da Suiça eram financeiramente mais atrativas - e temos que considerar aqui que eu não terei salário no início -, a localização era interessante, a qualidade de vida na Suiça é inquestionável, Berna é uma capital, etc. Quando veio a proposta, a equação fechava. 

E por fim, a pergunta que ninguém fez, mas que interessa muito pra esse espaço:

O blog vai virar um blog sobre a Suiça?
Esse blog é meu diário, é um registro da minha vida, onde quer que eu esteja. É sobre as coisas que vejo da minha janela, e o que elas dizem sobre mim. Certamente, nesses 5 meses contarei coisas sobre o processo de mudança, e depois a minha paisagem vai mudar, eu vou mudar. Mas este blog, ele não vai mudar não.

Ps 1 - Mati se chama Matthew, mas eu chamo ele de Mateus. Ele gosta, tá. 
Ps 2 - todas as fotos desse post mostram Berna e foram tiradas do www.myswitzerland.com 

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