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Cuba - Parte 3

A viagem entre Cienfuegos e Trinidad de ônibus é muito sossegada. 1hora, ar condicionado, 6 CUCs. E é linda de viver... Uma praia azul atrás da outra. Para Trinidad eu tinha feito reservas na casa da Yanara antes de sair do Brasil. Iríamos passar 5 noites e eu achei melhor garantir que teríamos vaga na mesma casa, e não precisaríamos mudar no meio da estadia. Quando o ônibus foi chegando no terminal, uma cena bem engraçada: um corredor de pessoas com plaquinhas com nomes, tipo aeroporto. De dentro do ônibus eu vi minha plaquinha: Grabiela, ahaha. Era o Fambyh, marido da Yanara e muito querido. 

Quando eu digo que gosto de viajar com calma, sem apertar muito os destinos, tem gente que acha bobagem. Eu prefiro ver menos cidades de um país, mas conhece-las muito bem. E de quebra, ter espaço para os imprevistos. Por que digo isso? Porque chegando em Trinidad na segunda de manhã, coloquei as malas no chão do quarto, e de repente comecei a passar mal. Muito mal. Fomos à farmácia, eu quase não consegui andar de volta pra casa. Chegando em casa, adivinhem? Mati começou a passar mal também. E assim perdemos 1 dia e meio de viagem. Mortos os dois dentro do quarto. Mas não precisamos ficar estressados, pois ainda tínhamos outros 3 dias inteiros em Trinidad. Por isso que eu digo... Sempre bom deixar a programação com folguinhas. 

Na terça de noite, já estávamos mais vivos. Fomos jantar no centro histórico da cidade, uma coisa linda. Casarios de arquitetura colonial, todos muito bem mantidos, praças lindíssimas, muitos bares e restaurantes e salsa de muita qualidade. Em termos proporcionais, foi também a maior fauna turísticas que encontramos em Cuba. 

Na quarta-feira de manhã estávamos os dois renascidos das cinzas. Yanara serviu o café mara e nos ajudou com o aluguel de bicicletas. Resolvemos que era dia de praia. Com base em algumas informações que lemos, achamos que seria bacana ir à La Boca, uma praia a 4km do centro. Montamos nas bikes (que eram tão frankesteins quanto os carros) e fomos embora. O trajeto era um pouco mais longo do que tínhamos lido e, chegando em La Boca, rolou uma decepçãozinha. A praia bem parecia o Guarujá. Resolvemos seguir em frente, pedalando, até que nos deparamos com isso aqui...

Uma praia só pra gente. Nada mal, heim? Montamos acampamento e ficamos por lá. Tinha um rapaz "tomando conta" da praia, e quando precisávamos de algo, tipo água, ele ía buscar num bar próximo para nos vender. Nos alugou também o equipamento de snorkeling e eu fiquei fascinada com tudo que vi. Coisa mais maravilhosa! Peixes de todos os tipo, cores e tamanhos. Lagostas, carangueijos e criaturas não identificadas por mim, rs. A hora que achamos que era hora de partir porque estávamos com fome, ele resolveu nosso problema:
Ele chamou um amigo, os dois foram pescar...
... e voltaram com o almoço pronto :)

Parecia que eu estava em um sonho. Mar azul, água fresca e comida gostosa. Até que rolou o episódio mais deprimente da viagem. Apareceram três caras, uma mulher e o filho dela, de uns 2 anos. Os quatro adultos simplesmente trêbados, e bebendo ainda mais rum de uma garrafa de plástico. Acabaram todos dormindo, um em cada canto. Lá pelas tantas, dois deles, que mal paravam em pé, tentaram tirar o amigo que ficou dormindo dentro da água e o derrubaram de cabeça na pedra. Eu e Mati panicamos achando que o cara tava morto, porque a cabeça dele quicou na pedra e ele ficou estirado de braços abertos e barriga pro ar. Depois de muita análise, percebemos que ele ainda respirava. Depois a criança começou a chorar e a mãe simplesmente não acordava. E quando acordou, não conseguia fazer nada... só chorava bêbada. Nessa hora, o nosso amigo pescador, percebendo que estávamos inclinados a chamar a polícia, disse que conhecia o pai da criança e levou ela dali. Foi bem foda... Resolvemos ir embora antes que algo pior acontecesse. 

Em nosso caminho de volta, a bike de Mati quebrou e tivemos que nos jogar no esporte nacional: pedir carona.Vivendo a experiência cubana com força! 

No dia seguinte, montamos de novo em nossas bikes (Mati já de bike ~nova~) e resolvemos seguir em outra direção. Pedalamos muito... Mas muuuuuito.. E com paisagens tão lindas que o tempo até passou rápido. 
Quando eu estava já ficando cansada, avistamos uma placa indicando um restaurante na praia. Eu não botei muita fé, mas quando fomos estacionar a bicicleta, descobri que tínhamos chegado no paraíso. Sim, ele existe, e está ali perto de Trinidad:
Is this real life?
Precisamos nem pensar. Montamos acampamento e passamos o resto do dia na base do beijo mojito. Da pra acreditar que uma praia dessa estava praticamente vazia? Pois estava... Devia ter mais umas 15 pessoas por toda sua extensão, que era bem grande. 
Ali, assim como aparentemente toda a costa de Cuba, era também um bom lugar para snorkeling, e vi até pessoas indo para o mergulho com tubo. 
Procurando nemo, rs
Eu não queria nunca mais vir embora, queria morar debaixo desse sapê. Mas quando percebemos umas nuvens estranhas no céu, quase 6h da tarde, achamos que era hora. A pedalada de volta foi tensa, contra o vento, e ó... Meu respeito vai pra esse povo que pedala no frio europeu no meio da ventania. 
Dando um chega mais no Fidel
Resolvemos nos recompensar com um jantar luxuoso no restaurante do hotel Iberostar, numa pracinha bonita que tem por lá (e onde também era possível acessar wifi com cartão pré-pago). A delícia das comidas valeu todo e qualquer centavinho fora do budget que gastamos. Foi um mimo para os nossos estômagos tão castigados pelos frangos cru, haha!

Depois da pedalada insana de quinta, resolvemos explorar Trinidad na sexta-feira. Andamos pela cidade, de olho no casario, nos museus locais, nas lojinhas de artesanato, tomando um mojito entre uma coisa e outra, porque o calor não dá sossego. Trinidad me lembrou muito Parati... 





Não é uma doçura de lugar? 
Outra coisa interessante, é que trata-se de uma cidade com espírito rural. Todo mundo tem um galinheiro e um chiqueiro no fundo de casa. 6 horas da manhã, se desse uma abridinha na janela, dava para escutar centenas (sim, centenas) de galos cantando. Nosso vizinho tinha ainda um porco mega chorão, que ía a loucura lá pelas 9h da manhã. Um belo despertador! Também vimos pessoas com cabrinhas dentro de casa. Isso mesmo. Ah, e cabrinhas domésticas não só lá, vimos em Cienfuegos também. 

Por fim, uma observação interessante: achei a ~presença~ do regime bem mais light em Trinidad. Tirando esse outdoor aí de cima, vimos quase nenhuma referência. Há um museu que fala da Revolução, mas também não é grande coisa. Um local nos explicou que Trinidad foi esquecida - para todos os efeitos - pelo governo e sempre foi muito (mais) pobre. Agora, com o turismo avançadíssimo que tem por lá, as coisas estão melhores.

Depois de muito fritar no sol do centro, achamos por bem conhecer a praia mais famosa de Trinidad, Playa Ancon. Trata-se de uma península a 12 km de Trinidad, onde tem alguns resorts. Alguns relatos diziam que a praia é apinhada de gente e não valia a visita. Resolvemos ir mesmo assim, mas optamos por taxi para evitar a fadiga. 

E vai dizer que não vale a visita? Valeu sim, valeu muito. Passamos a tarde lagartixando, lendo e olhando pra esse mar verdinho. 

De noite fomos jantar no San Jose, um paladar que está em plena evolução para se tornar o melhor restaurante de Cuba, haha. Comida excelente, mojitos deliciosos, preço justíssimo.

Ao acordar, era dia de ir embora. De dar um longo abraço em nossos hosts, que foram tão fofos e atenciosos durante nossa estada, com nosso mal estar, em tirar nossas dúvidas, em nos ajudar com bicicletas, taxis, com tudo. O taxi coletivo passou para nos pegar, e fomos eu, Mati e duas japonesas na companhia do taxista mais louco que pegamos em Cuba. Depois de quase atropelar um bêbado de bicicleta, chegamos são e salvos em Havana. 

A viagem estava acabando, mas ainda tínhamos mais um dia por lá. Então descansamos bastante, voltamos ao Floridita para um último daiquiri de manga (mel delsss que invenção divina) e encontramos um amigo de Mati coincidentemente estava por lá. Compramos os últimos souvenirs, fechamos a mala e demos nossa missão por cumprida. 

De brinde, ganhamos um por do sol incrível sobre as nuvens para fechar com chave de ouro essa viagem que, apesar de todos os perrengues, foi linda do começo ao fim. Muchas gracias, Cuba <3

Cuba - Parte 1

Chegamos em Cuba junto com o verão, dia 21 de junho. Passamos 4 dias em Havana no começo da viagem, e depois 1 no final, antes da volta pro Brasil. É a capital do país, e onde a maioria dos turistas está concentrada. É também onde se encontra mais estrutura. Se precisar sacar algum dinheiro, por exemplo, a maior chance de conseguir está em Havana (beber uma Coca Cola também, só ali, viu). É uma cidade bem caótica, barulhenta, não exatamente limpa. Chega a ser um pouco cansativa, mas ela dá um belo retrato do país.
Oi Cuba
Ao chegar no aeroporto, o Luiz, que nos hospedou, estava nos aguardando com seu Lada (sim, aqueles carros quadrados da União Soviética). Eu achei graça, e no trajeto de 45 minutos entre o aeroporto e a casa, foi despertado meu encanto com os carros antigos, que durou os 14 dias de viagem. Eles estão por tudo, te lembrando que a ilha está mesmo parada no tempo. Também, te provando que todo cubano é um pouco mecânico, porque olha... o que eu vi de carro sendo consertado no meio da rua não está escrito. São verdadeiros franksteins que circulam pelo país, deixando as fotos mais charmosas e o ar muito mais poluído. 

A cidade tem vários bairros, sendo os mais conhecidos o Centro, a cidade velha e o Vedado. Neste último foi onde ficamos hospedados na casa do Luiz. É um bairro mais residencial, e embora tenha alguns hoteis (o mais famoso deles inclusive, o Hotel Nacional), tem muito menos turista, e muuuuito mais cubanos vivendo o dia a dia. Tem escolas, hospitais, universidades, e se interliga com o centro e a cidade velha por meio do Malecon, a avenida beira-mar de Havana.

A vida em Vedado, pelos olhos de Mati
A parte mais interessante é de fato Havana Velha, ou Habana Vieja, a parte antiga da cidade. É um pouco chocante, porque seria tudo muito lindo se não estivesse caindo aos pedaços. Mas está... As ruas são sujas, as casas muito mal cuidadas, o cheiro é péssimo (ainda mais debaixo do calor infernal), e no meio dessa zona toda a vida vai acontecendo. As pessoas moram, abrem seus pequenos negócios, tocam salsa, tentam complementar sua renda e seguem em frente. 
Mercado local
Acho válido olhar um pouco pra história. Quando o regime socialista foi implementado em 1959, todas as empresas passaram a ser estatais, e em consequencia, todo mundo passou a ser funcionário público. As pessoas não pagariam impostos, luz, água, teriam transporte gratuito, alimentação 3x por dia no trabalho (e para as crianças na escola, integral) e por isso ganhavam um salário "simbólico", de 20 dolares mensais, mais ou menos. Corta pra realidade: o regime cubano foi por muito tempo sustentado pela União Soviética, que comprava cana com preço acima do mercado, e vendia petróleo por preço abaixo. Mandava carros, tecnologia, etc. Assim que caiu o muro, com o aperto do bloqueio, as finanças do regime colapsaram. O transporte deixou de ser gratuíto, bem como energia, etc. Hoje, as pessoas continuam ganhando os mesmos 20 dolares, e vivem numa miséria de dar pena. Para colocar dinheiro no país o governo abriu as portas pro turismo, permitiu que os cubanos fizessem taxis de seus carros particulares, alugassem quartos e instalassem restaurantes dentro de casa (que eles chamam de paladares). O assédio sobre o turista é muito grande, tanto para te "arrastar" pra dentro desses paladares, quanto para vender serviço de motorista, pedir sabonete, etc. Tem hora que enche (muito) o saco. Mas é compreensível, as pessoas precisam viver.
Leva eu moçooooo
Em Havana Vieja tem muita coisa para olhar, prédios emblemáticos, como o Capitólio, a antiga sede da Bacardi, etc. Tem bares famosíssimos, como o Floridita, que era a segunda casa do Hemingway em sua fase cubana, ou o Bodeguita del Medio, onde foi criado o Mojito. Alias, o daiquiri do Floridita vale o hype. É bom demais! Tem também praças de arquitetura colonial muito lindas, que me lembraram o leste europeu. Em todas elas alguém vai tentar te puxar pra dentro de algum restaurante tocando salsa. A graça é sentar pra fora, mojito na mão, salsa no pé.
Praça da Catedral
Tem um programa que é mega turistão, mas que eu achei bem divertido, e de quebra ainda te mostra as atrações que estão espalhadas por Havana: o passeio de conversível. Você negocia por onde quer passar, mas eles oferecem tudo! É melhor ainda pra quem tem menos tempo na cidade.

Nosso motorista, e o indefectivel Impala amarelo
Aqui embaixo, um deles passando pela praça da Revolução. É onde Fidel reunia a população para fazer seus discursos. Há também a imagem dos dois "heróis" da Revolução que já morreram: Camilo Cienfuegos e o Che. Alias... falando em Che: e o tanto de mocinhas com o Che tatuado? Na perna, nas costas, no ombro, e sabe lá mais onde, rs... Acredito que, tendo ele falecido muito antes de as coisas degringolarem, ficou a visão romantica do guerreiro libertador. Enfim, mais pra frente vou falar um pouco mais disso.

Cansada de bater perna debaixo do sol, cismei um dia que queria ir a praia. Mati ficou bem ressabiado, porque a coisa não parecia muito promissora, já que em lugar nenhum (diga-se guias ou blogs) vimos algo sobre praias em Havana. Mas o Luis nos assegurou que as praias valiam a viagem de 15 km. Pegamos o ônibus e fomos parar no meio da farofa cubana, rs... Mas ó, não posso reclamar. A cor do mar compensou qualquer farofa.

Algumas curiosidades: tivemos problemas com falta de água, tanto encanada quanto engarrafada, rs. Teve um dia que Mati andou por 6 estabelecimentos até encontrar garrafinha de 500 ml de água. Nesse dia, o Luiz, nosso host, teve que ir até outra cidade para encontrar água de 2l. A cidade é muito barulhenta, MUITO. As pessoas ouvem música alta o tempo todo, no carro, em casa, nos restaurantes, as vezes um reggaetown desgraçado, que é tenso. A poluição do ar, como eu disse, por conta dos carros antigos, é pesada também. E por fim, o mais engraçado. Algumas vezes, quando eu disse que era brasileira, ouvi de volta: "Aqui não tem favela". A minha cara de ? ficou no ar em todas elas porque as partes central e antiga de Havana são exatamente como nossas favelas: submoradias com problemas de infraestrutura. A graaaande diferença é a segurança. Em momento nenhum da viagem inteira eu me senti insegura ou ameaçada. E acredito que esse era o ponto que eles queriam realmente tocar: aqui não tem violência. E realmente, a violência que nós brasileiros temos, lá não tem mesmo. A violência lá se faz presente de outra forma, através do governo. Mas como esse post ta comprido, o assunto vai ficar pra depois.

Havana foi uma bela porta de entrada e de saída, mas devo dizer que meu coração foi bater mais forte mesmo lá do outro lado da ilha. Em breve, muito amor cubano por aqui <3
Havana e Eu

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