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Cuba - Parte 3

A viagem entre Cienfuegos e Trinidad de ônibus é muito sossegada. 1hora, ar condicionado, 6 CUCs. E é linda de viver... Uma praia azul atrás da outra. Para Trinidad eu tinha feito reservas na casa da Yanara antes de sair do Brasil. Iríamos passar 5 noites e eu achei melhor garantir que teríamos vaga na mesma casa, e não precisaríamos mudar no meio da estadia. Quando o ônibus foi chegando no terminal, uma cena bem engraçada: um corredor de pessoas com plaquinhas com nomes, tipo aeroporto. De dentro do ônibus eu vi minha plaquinha: Grabiela, ahaha. Era o Fambyh, marido da Yanara e muito querido. 

Quando eu digo que gosto de viajar com calma, sem apertar muito os destinos, tem gente que acha bobagem. Eu prefiro ver menos cidades de um país, mas conhece-las muito bem. E de quebra, ter espaço para os imprevistos. Por que digo isso? Porque chegando em Trinidad na segunda de manhã, coloquei as malas no chão do quarto, e de repente comecei a passar mal. Muito mal. Fomos à farmácia, eu quase não consegui andar de volta pra casa. Chegando em casa, adivinhem? Mati começou a passar mal também. E assim perdemos 1 dia e meio de viagem. Mortos os dois dentro do quarto. Mas não precisamos ficar estressados, pois ainda tínhamos outros 3 dias inteiros em Trinidad. Por isso que eu digo... Sempre bom deixar a programação com folguinhas. 

Na terça de noite, já estávamos mais vivos. Fomos jantar no centro histórico da cidade, uma coisa linda. Casarios de arquitetura colonial, todos muito bem mantidos, praças lindíssimas, muitos bares e restaurantes e salsa de muita qualidade. Em termos proporcionais, foi também a maior fauna turísticas que encontramos em Cuba. 

Na quarta-feira de manhã estávamos os dois renascidos das cinzas. Yanara serviu o café mara e nos ajudou com o aluguel de bicicletas. Resolvemos que era dia de praia. Com base em algumas informações que lemos, achamos que seria bacana ir à La Boca, uma praia a 4km do centro. Montamos nas bikes (que eram tão frankesteins quanto os carros) e fomos embora. O trajeto era um pouco mais longo do que tínhamos lido e, chegando em La Boca, rolou uma decepçãozinha. A praia bem parecia o Guarujá. Resolvemos seguir em frente, pedalando, até que nos deparamos com isso aqui...

Uma praia só pra gente. Nada mal, heim? Montamos acampamento e ficamos por lá. Tinha um rapaz "tomando conta" da praia, e quando precisávamos de algo, tipo água, ele ía buscar num bar próximo para nos vender. Nos alugou também o equipamento de snorkeling e eu fiquei fascinada com tudo que vi. Coisa mais maravilhosa! Peixes de todos os tipo, cores e tamanhos. Lagostas, carangueijos e criaturas não identificadas por mim, rs. A hora que achamos que era hora de partir porque estávamos com fome, ele resolveu nosso problema:
Ele chamou um amigo, os dois foram pescar...
... e voltaram com o almoço pronto :)

Parecia que eu estava em um sonho. Mar azul, água fresca e comida gostosa. Até que rolou o episódio mais deprimente da viagem. Apareceram três caras, uma mulher e o filho dela, de uns 2 anos. Os quatro adultos simplesmente trêbados, e bebendo ainda mais rum de uma garrafa de plástico. Acabaram todos dormindo, um em cada canto. Lá pelas tantas, dois deles, que mal paravam em pé, tentaram tirar o amigo que ficou dormindo dentro da água e o derrubaram de cabeça na pedra. Eu e Mati panicamos achando que o cara tava morto, porque a cabeça dele quicou na pedra e ele ficou estirado de braços abertos e barriga pro ar. Depois de muita análise, percebemos que ele ainda respirava. Depois a criança começou a chorar e a mãe simplesmente não acordava. E quando acordou, não conseguia fazer nada... só chorava bêbada. Nessa hora, o nosso amigo pescador, percebendo que estávamos inclinados a chamar a polícia, disse que conhecia o pai da criança e levou ela dali. Foi bem foda... Resolvemos ir embora antes que algo pior acontecesse. 

Em nosso caminho de volta, a bike de Mati quebrou e tivemos que nos jogar no esporte nacional: pedir carona.Vivendo a experiência cubana com força! 

No dia seguinte, montamos de novo em nossas bikes (Mati já de bike ~nova~) e resolvemos seguir em outra direção. Pedalamos muito... Mas muuuuuito.. E com paisagens tão lindas que o tempo até passou rápido. 
Quando eu estava já ficando cansada, avistamos uma placa indicando um restaurante na praia. Eu não botei muita fé, mas quando fomos estacionar a bicicleta, descobri que tínhamos chegado no paraíso. Sim, ele existe, e está ali perto de Trinidad:
Is this real life?
Precisamos nem pensar. Montamos acampamento e passamos o resto do dia na base do beijo mojito. Da pra acreditar que uma praia dessa estava praticamente vazia? Pois estava... Devia ter mais umas 15 pessoas por toda sua extensão, que era bem grande. 
Ali, assim como aparentemente toda a costa de Cuba, era também um bom lugar para snorkeling, e vi até pessoas indo para o mergulho com tubo. 
Procurando nemo, rs
Eu não queria nunca mais vir embora, queria morar debaixo desse sapê. Mas quando percebemos umas nuvens estranhas no céu, quase 6h da tarde, achamos que era hora. A pedalada de volta foi tensa, contra o vento, e ó... Meu respeito vai pra esse povo que pedala no frio europeu no meio da ventania. 
Dando um chega mais no Fidel
Resolvemos nos recompensar com um jantar luxuoso no restaurante do hotel Iberostar, numa pracinha bonita que tem por lá (e onde também era possível acessar wifi com cartão pré-pago). A delícia das comidas valeu todo e qualquer centavinho fora do budget que gastamos. Foi um mimo para os nossos estômagos tão castigados pelos frangos cru, haha!

Depois da pedalada insana de quinta, resolvemos explorar Trinidad na sexta-feira. Andamos pela cidade, de olho no casario, nos museus locais, nas lojinhas de artesanato, tomando um mojito entre uma coisa e outra, porque o calor não dá sossego. Trinidad me lembrou muito Parati... 





Não é uma doçura de lugar? 
Outra coisa interessante, é que trata-se de uma cidade com espírito rural. Todo mundo tem um galinheiro e um chiqueiro no fundo de casa. 6 horas da manhã, se desse uma abridinha na janela, dava para escutar centenas (sim, centenas) de galos cantando. Nosso vizinho tinha ainda um porco mega chorão, que ía a loucura lá pelas 9h da manhã. Um belo despertador! Também vimos pessoas com cabrinhas dentro de casa. Isso mesmo. Ah, e cabrinhas domésticas não só lá, vimos em Cienfuegos também. 

Por fim, uma observação interessante: achei a ~presença~ do regime bem mais light em Trinidad. Tirando esse outdoor aí de cima, vimos quase nenhuma referência. Há um museu que fala da Revolução, mas também não é grande coisa. Um local nos explicou que Trinidad foi esquecida - para todos os efeitos - pelo governo e sempre foi muito (mais) pobre. Agora, com o turismo avançadíssimo que tem por lá, as coisas estão melhores.

Depois de muito fritar no sol do centro, achamos por bem conhecer a praia mais famosa de Trinidad, Playa Ancon. Trata-se de uma península a 12 km de Trinidad, onde tem alguns resorts. Alguns relatos diziam que a praia é apinhada de gente e não valia a visita. Resolvemos ir mesmo assim, mas optamos por taxi para evitar a fadiga. 

E vai dizer que não vale a visita? Valeu sim, valeu muito. Passamos a tarde lagartixando, lendo e olhando pra esse mar verdinho. 

De noite fomos jantar no San Jose, um paladar que está em plena evolução para se tornar o melhor restaurante de Cuba, haha. Comida excelente, mojitos deliciosos, preço justíssimo.

Ao acordar, era dia de ir embora. De dar um longo abraço em nossos hosts, que foram tão fofos e atenciosos durante nossa estada, com nosso mal estar, em tirar nossas dúvidas, em nos ajudar com bicicletas, taxis, com tudo. O taxi coletivo passou para nos pegar, e fomos eu, Mati e duas japonesas na companhia do taxista mais louco que pegamos em Cuba. Depois de quase atropelar um bêbado de bicicleta, chegamos são e salvos em Havana. 

A viagem estava acabando, mas ainda tínhamos mais um dia por lá. Então descansamos bastante, voltamos ao Floridita para um último daiquiri de manga (mel delsss que invenção divina) e encontramos um amigo de Mati coincidentemente estava por lá. Compramos os últimos souvenirs, fechamos a mala e demos nossa missão por cumprida. 

De brinde, ganhamos um por do sol incrível sobre as nuvens para fechar com chave de ouro essa viagem que, apesar de todos os perrengues, foi linda do começo ao fim. Muchas gracias, Cuba <3

Cuba - Parte 2,5

Eu disse que queria dividir os posts entre as 3 grandes paradas que fizemos. Como a parada em Cienfuegos rendeu, preferi dividir para não ficar um pequeno tratado. A verdade é que chegamos em Cienfuegos numa quinta no fim do dia, e depois de andar pela cidade um dia e meio, esgotamos o local. Olhando pro mapa cubano, e papeando com a Damilsy, decidimos que ficaríamos lá mais 2 dias, e usaríamos Cienfuegos de base para fazer outros passeios diários. E foi isso que fizemos nas linhas pretas do mapa abaixo.


No sábado a Damilsy organizou um taxista que nos pegou pela manhã em casa. Pagamos 30 CUCs e ele nos levou à Santa Clara. Tínhamos lido sobre a cidade, e chegamos em Cuba com o plano de ir para lá, e não Cienfuegos. Mas não teve UM cubano que disse que isso era uma boa ideia, rs... Então achamos por bem aceitar o conselho de quem entende. A viagem durou 1 hora e meia e haja calorrrr. 


Este é o tesouro de Santa Clara. Um memorial dedicado ao Che, e também onde ele está enterrado. A cidade foi a última parada de Che na luta revolucionária. Lá ele ficou baseado por um tempo, conquistando províncias, até que em 1º de janeiro de 1959 tomaram Havana. Eu já tinha dito que o Che é o "namorado" oficial das mocinhas de Cuba, né... Em  Santa Clara a coisa intensifica ainda mais.   

 O museu é bem completo, detalha toda a trajetória do Ernesto "Che" Guevara, com fotos de acervo familiar, fotos da guerrilha na Sierra Maestra, seus uniformes, armas e cartas. A frase dele "Hasta la Victoria, Siempre", está por Cuba toda, nos outdoors nas estradas, em cima das lojas, e neste museu em vários pontos. Ele é o grande heroi nacional (embora seja argentino). O memorial faz jus ao culto. É uma praça ampla, bonita, com suas frases sobre a libertação da América Latina espalhada pelas paredes, neste bloco, em tudo. Muitos visitantes deixam bilhetes, peças queridas, para homenagea-lo.


Atrás há um pequeno cemitério onde estão enterrados muitos dos mortos na Sierra Maestra, com um jardim e flores bonitas. Achei uma bela homenagem. Eu não sou a maior sabida de Cuba, mas quando decidi ir, quis ler mais a respeito da Revolução. Li um livro de crítica ao Regime, chamado "A tragédia da Utopia", e um famoso livro de apoio, "A Ilha", de Fernando de Moraes. Acredito que ambos os relatos são muito cegados por suas paixões. Um não vê nada de bom em Cuba, e outro nada de ruim. Não dá, né... Mas acabei aprendendo que os Revolucionários ficaram por alguns anos escondidos na Sierra Maestra, uma cadeia de montanhas na parte leste da Ilha, e de lá iniciaram os combates e a tomada que culminou com a vitória de Fidel, Camilo e o Che. Isso está tudo muito bem exposto no museu, e eu achei bem bacana. 

De lá, seguimos para o centro da cidade, e foi quando entendemos o que os cubanos diziam quando falavam que "não tem nada em Santa Clara". Não tem mesmo... O centro da cidade não tinha muito charme, e o ápice que passamos por lá foi ver uma carroça com crianças sendo puxada por uma pobre cabra. Depois vimos outra, e outra, e descobrimos que a graça em Santa Clara é por boné e óculos escuros na cabra, e botar ela pra trabalhar, rs...

Oiiiiiiii

Passamos por um outro museu, este mais pobrinho. É um trem do governo carregado de armamentos que foi descarrilhado pelos homens de Che durante a Revolução. Na posição que a composição se embolou ela está até hoje, e dentro dos vagões tem algumas fotos, uniformes, armas. Mas é quente demais da conta, as informações são poucas, e não demoramos muito ali. Tínhamos esgotado Santa Clara e o calor estava puxadíssimo. A cidade é mais pro interior, como se vê no mapa, e a brisa do mar estava fazendo falta. Retornamos a Cienfuegos e fomos procurar restaurantes e mojitos.

No outro dia, mesmo acerto: o Andy, taxista, passou na casa da Damilsy (todos os dias após o café da manhã dos campeões que ela fazia pra gente) e seguimos para o destino do dia, a Baia dos Porcos, palco da famosa derrota dos EUA em 1960. Desta vez o foco era na praia. 


Fomos para Playa Giron, e então paramos numa prainha delícia, Caleta Buena, que tinha um restaurante e bar. Você pagava 15 CUCs e passava o dia, podendo comer e beber a vontade. Passamos o dia intercalando sombra com mergulhos e mojitos. Nada mal... 


De vez em quando passava um calanguinho também pra agitar a vida...


Sério, impossível não ser muito feliz diante deste mar azul. Seguindo em frente neste caminho, tinha uma cova de peixes, para fazer snorkeling. Tenho um amigo que foi e amou, mas preferimos não ir porque com o incidente do pé, só eu estava nadando. Mati estava com o pé infectado devidamente enfaixado e embalado num tênis, debaixo do calorão, rs. Preferimos voltar para Giron e ir no museu da Invasão à Baia dos Porcos. 

O museu é bem completo, e bem interessante. Mas é uma das propagandas mais "discaradas" do regime que vimos pela viagem. Embora saibamos que as intenções americanos nunca são das melhores, ali é colocado até que a motivação da invasão yanques seria a escolarização das pessoas da área. As traduções para o inglês são feitas pelo google e volta e meia são pejorativas até. Como a entrada era mais cara para quem fotografava, não temos nenhuma foto, mas algumas delas valeriam uma, rs. 

Ao voltar para Cienfuegos, estávamos famintos. Fomos jantar e uma situação que se repetiu na viagem algumas vezes aconteceu: frango cru. NÃO GENTE, FRANGO CRU NÃO. Mais de uma vez em Cuba tive que retornar prato de frango para a cozinha, para que fosse melhor cozido. Tenso, viu. 

Na segunda-feira pela manhã, nós fechamos a mala, demos um belo abraço apertado na Damilsy, subimos na carroça taxi e pegamos o ônibus rumo à Trinidad. Viagem mais linda, à beira mar. Estávamos chegando em nossa última parada :)


Cuba - Parte 2

Depois de 4 dias em Havana, e tendo definido que nosso destino intermediário seria Cienfuegos, o Luis organizou um taxi coletivo para nos levar da capital até lá. 

Pra quem tiver a fim de se aventurar em Cuba sem ficar muito preso a planos, dá pra simplesmente reservar uma casa particular em Havana, e de lá arrumar o resto. Pra começar que tem muuuuuita casa particular no país inteiro, então vaga não falta. Basicamente, todo mundo que tem um quarto vago em casa, coloca pra alugar. Não tem investimento, então a oferta é altíssima. Todo mundo se conhece e tem um amigo pra indicar. O Luiz arrumou o carro para nos levar, ofereceu uma casa em Cienfuegos, nos dissemos que estava acima do que tinhamos nos programado pra gastar, ele achou outra no budget (20 CUCs por noite), reservou e feito. E soube de outros relatos do mesmo tipo. Os taxis são normalmente divididos. Nessa viagem eramos nós dois e mais um cubano, indo pro mesmo lugar. Eles cobram preço justo (alguns pesos a mais que o ônibus), e a viagem é mais rápida.

Na estrada
A viagem durou umas 3 horas, obviamente regada a reggaetown, gargalhadas e paradinhas na beira da estrada pra tomar água e brisa. A paisagem me lembrava muito o Brasil, cheia de canaviais e bananais, várias matas preservadas. Nos deparamos também com a maciça propaganda do governo margeando todas as estradas. 

Aqui acho válido uns comentários rápidos sobre a política em Cuba. As pessoas não tem muita liberdade para refletir sobre o regime. Em cada quarteirão do pais (sim, quarteirão) há um "delegado", um representante do governo, responsável por ouvir as conversas, reportar se tem alguém ~mijando fora do penico. O jornal de circulação nacional, chamado Granma, tocado pelo Partido Comunista, reporta todos os acontecimentos do país de forma completamente parcial, e ainda assim somente na superfície. Não tem uma reportagem de mais de meia folha (e o tamanho dele é menor, rs). Os lemas da revolução são repetidos à exaustão e as histórias de guerra são sempre romanceadas para mostrar uma revolução sempre justa, correta, e o imperialismo yanque (eles não usam o termo "americanos", o que eu acho bem interessante, já que né... americanos somos todos) o responsável pelo "maior genocídio da humanidade". É assim que eles se referem ao bloqueio comercial. Palavras como combatente e vitorioso estão até em cima das sorveterias. Então as pessoas não participam muito do dia a dia político. Elas são obrigadas a comprar o que lhes é entregue, a ter suas vidas impactadas por decisões que elas não sabem como, quando e porque foram tomadas. E tem uma resiliência incrível...

Chegamos em Cienfuegos no final da tarde, e de cara me encantei pela cidade. A avenida principal tem um grande passeio, de influencia francesa, como quase toda a arquitetura da parte central da cidade. 
Passeio do Prado em Cienfuegos
Andamos muito pela cidade, passeamos pelo Malecon (a avenida beira-mar cubana) deles, extremamente agradável. Cidade limpa, silenciosa, um contraste gritante com Havana. Eu já sabia que tínhamos feito a escolha certa depois de meia hora. É toda bem cuidada, as casas bem mantidas, muitas com pintura nova. É aí que você vê que não interessa qual o princípio rege a economia, fato é que a vida nas capitais é sempre mais hostil haha. Depois de muito caminhar, nos deparamos com o que foi um dos melhores restaurantes da viagem: Florida Blanca, um paladar delicioso, e que fez os melhores mojitos que tomei em Cuba. Precinho pra lá de camarada, tendo sido o mais barato da viagem.

A casa em que nos hospedamos, da Damilsy, era uma graça e ela uma figura. Nos deu dicas sobre a cidade, sobre as redondezas, nos ajudou a definir nossos passeios, e ainda fazia um café da manhã pra lá de delicioso e deixou o café que tomamos em um hotel no chinelo. O pé direito dos apartamentos, até no segundo ou terceiro andar, são imensos, de 3 metros pra cima... Ela explicou que a cidade foi planejada por franceses, e todas as construções até 1950 seguem esse padrão. Achei chic. 
Eu e Damilsy jogando conversa fora
Em nosso segundo dia em Cienfuegos, andamos MUITO. Além de passar pelo centrinho, fomos caminhando pelo Malecon até a Punta Gorda, uma prainha não muito bela. Passamos pelo clube de Cienfuegos, e lá tinha fotos da visita de Hugo Cháves orgulhosamente penduradas pelo salão principal. Seguimos em frente, e nos deparamos com o castelo de Jagua, uma construção de inspiração árabe que tem um restaurante no terreo e um simpático terraço em cima. Uma delícia de parar pra tomar uns drinks, descansar e aproveitar a brisa, tão deliciosa depois de andar pelo calor senegalês cubano. 

Bateria recarregadas, seguimos em frente até chegar em La Punta, a praia urbana de Cienfuegos. Eu não estava botando muita fé, porque no início do Malecon, mais próximo à cidade, a água não é limpa, e Punta Gorda tampouco me impressionou. Mas La Punta é linda. A água é cristalina, a vista incrível e tem uma pracinha com lanchonete, sombras e música. E desta vez não tinha reggaetown... Tinha Alexandre Pires cantando "to fazendo amoooooooor com outra pessoaaaaa..". Pois é. 

La Punta sendo linda

Apesar do Alexandre Pires, rolou toda uma paz em La Punta, e eu fiquei extremamente grata pela caminhada que fizemos. Sim, foi longa, foi suada e eu fiquei com vontade de dar uma choradinha quando acabou a sombra, mas valeu. Na volta, passamos no estádio municipal de baseball. Mati pirou, porque conseguimos entrar no gramado, acompanhados de uma senhorinha que trabalha na manutenção. O baseball é o esporte nacional, eles chamam de La Pelota. Todo mundo é vidrado no jogo, e você vê nos campinhos pessoas jogando, nas praças pais e filhos praticando as tacadas, uma graça.

Em Havana vimos algumas carroças, mas muito poucas. Eu não tinha dado muita atenção. Na estrada até Cienfuegos, passamos por várias carroças na estrada. Achei bem inusitado. Mas chegando na cidade meu queixo caiu... Eu diria que por volta de 30% do transporte local é feito por carroças. São muitas, o tempo todo, fazendo serviço de taxi inclusive. No fim do dia estávamos passeando, quando passa uma carroça com uma pessoa acenando loucamente pra gente: era a senhorinha do estádio, indo embora de ~taxi <3. Todos esses cavalotaxis tem uma carroceria escrito "Transporte Nacional", o que me fez achar que é tudo regulamentado. Em nossos passeios pela região, percebemo que está tudo bem enraizado. Além de ser muito comum nas cidades, as pessoas viajam nas carroças, vivem em cima delas, e ao passar por uma cidadezinha, vimos até uma carroça puxada por roda de madeira (!!!!!). Me diz se não é uma viagem no tempo?

Nesse dia voltamos pra casa, e aí o inesperado aconteceu. Na saída da praia em Havana, Mati cortou o pé, mas era pequeno, não demos muita bola. Dois dias depois, em Cienfuegos, percebemos que o corte estava (muito) infeccionado. Então, seguimos nós dois para o hospital.

Eu não sei como se vê isso ao redor do mundo, mas aqui no Brasil aprendi que Cuba pode sofrer de vários males, mas que duas coisas não faltam à população: educação e saúde. A educação do povo é visível. Realmente, todos com quem conversei me pareceram muito cultos, liam muitos livros (me pareceu que um número de livros acima da média daqui), tem formação profissional. Todo mundo estudou alguma coisa, pode até não exercer a profissão, mas são formados. Grande parte da população arrasta um inglês mais ou menos, e entre o pessoal um pouco mais velho, na faixa dos 40 e 50, é fácil encontrar alguém que fale russo.

Ao chegarmos ao hospital de Cienfuegos, no entanto, percebi que o buraco da saúde é um pouco mais embaixo. Explico: em 15 minutos, coisa impensável no Brasil, fomos atendidos. Uma clínica geral olhou o pé dele, mandou que passasse pela ortopedia. Passamos, o médico deu a receita do antibiótico e mandou fazer um curativo, que rapidamente foi feito. Tudo isso em 15 minutos. Parece bom, né? E foi. MAS... Não tinha qualquer controle sobre o atendimento. Você chega, e vai de porta em porta  de consultório pra saber onde você deve ser atendido. O hospital estava pra lá de caindo aos pedaços. Imundo, empoeirado, com pessoas machucadas se escorando pelas parades. Cortinas e lençois que já não estão mais amarelos, estão marrons. Eu achei que ele ia sair de lá mais infectado do que entrou. Passamos por 4 salas de atendimento, e não vi um aparelho sequer que tivesse menos que 20 anos. Nada era minimamente atual (vou nem dizer moderno). E ouvimos dos moradores que hoje em dia tem várias coisas na saúde que são pagas, inclusive medicamentos essenciais. Lembrando do salário que eles ganham, sob o pretexto que o governo dá tudo o que precisam, achei triste.

Vou parar o post por aqui, porque essa parada em Cienfuegos rendeu mais do que eu esperava, rs... Assim, a série que seria de 4 posts, será de 5. Nada grave :) Fiquemos com a foto de um fim de tarde cienfueguero.

Cuba - Parte 1

Chegamos em Cuba junto com o verão, dia 21 de junho. Passamos 4 dias em Havana no começo da viagem, e depois 1 no final, antes da volta pro Brasil. É a capital do país, e onde a maioria dos turistas está concentrada. É também onde se encontra mais estrutura. Se precisar sacar algum dinheiro, por exemplo, a maior chance de conseguir está em Havana (beber uma Coca Cola também, só ali, viu). É uma cidade bem caótica, barulhenta, não exatamente limpa. Chega a ser um pouco cansativa, mas ela dá um belo retrato do país.
Oi Cuba
Ao chegar no aeroporto, o Luiz, que nos hospedou, estava nos aguardando com seu Lada (sim, aqueles carros quadrados da União Soviética). Eu achei graça, e no trajeto de 45 minutos entre o aeroporto e a casa, foi despertado meu encanto com os carros antigos, que durou os 14 dias de viagem. Eles estão por tudo, te lembrando que a ilha está mesmo parada no tempo. Também, te provando que todo cubano é um pouco mecânico, porque olha... o que eu vi de carro sendo consertado no meio da rua não está escrito. São verdadeiros franksteins que circulam pelo país, deixando as fotos mais charmosas e o ar muito mais poluído. 

A cidade tem vários bairros, sendo os mais conhecidos o Centro, a cidade velha e o Vedado. Neste último foi onde ficamos hospedados na casa do Luiz. É um bairro mais residencial, e embora tenha alguns hoteis (o mais famoso deles inclusive, o Hotel Nacional), tem muito menos turista, e muuuuito mais cubanos vivendo o dia a dia. Tem escolas, hospitais, universidades, e se interliga com o centro e a cidade velha por meio do Malecon, a avenida beira-mar de Havana.

A vida em Vedado, pelos olhos de Mati
A parte mais interessante é de fato Havana Velha, ou Habana Vieja, a parte antiga da cidade. É um pouco chocante, porque seria tudo muito lindo se não estivesse caindo aos pedaços. Mas está... As ruas são sujas, as casas muito mal cuidadas, o cheiro é péssimo (ainda mais debaixo do calor infernal), e no meio dessa zona toda a vida vai acontecendo. As pessoas moram, abrem seus pequenos negócios, tocam salsa, tentam complementar sua renda e seguem em frente. 
Mercado local
Acho válido olhar um pouco pra história. Quando o regime socialista foi implementado em 1959, todas as empresas passaram a ser estatais, e em consequencia, todo mundo passou a ser funcionário público. As pessoas não pagariam impostos, luz, água, teriam transporte gratuito, alimentação 3x por dia no trabalho (e para as crianças na escola, integral) e por isso ganhavam um salário "simbólico", de 20 dolares mensais, mais ou menos. Corta pra realidade: o regime cubano foi por muito tempo sustentado pela União Soviética, que comprava cana com preço acima do mercado, e vendia petróleo por preço abaixo. Mandava carros, tecnologia, etc. Assim que caiu o muro, com o aperto do bloqueio, as finanças do regime colapsaram. O transporte deixou de ser gratuíto, bem como energia, etc. Hoje, as pessoas continuam ganhando os mesmos 20 dolares, e vivem numa miséria de dar pena. Para colocar dinheiro no país o governo abriu as portas pro turismo, permitiu que os cubanos fizessem taxis de seus carros particulares, alugassem quartos e instalassem restaurantes dentro de casa (que eles chamam de paladares). O assédio sobre o turista é muito grande, tanto para te "arrastar" pra dentro desses paladares, quanto para vender serviço de motorista, pedir sabonete, etc. Tem hora que enche (muito) o saco. Mas é compreensível, as pessoas precisam viver.
Leva eu moçooooo
Em Havana Vieja tem muita coisa para olhar, prédios emblemáticos, como o Capitólio, a antiga sede da Bacardi, etc. Tem bares famosíssimos, como o Floridita, que era a segunda casa do Hemingway em sua fase cubana, ou o Bodeguita del Medio, onde foi criado o Mojito. Alias, o daiquiri do Floridita vale o hype. É bom demais! Tem também praças de arquitetura colonial muito lindas, que me lembraram o leste europeu. Em todas elas alguém vai tentar te puxar pra dentro de algum restaurante tocando salsa. A graça é sentar pra fora, mojito na mão, salsa no pé.
Praça da Catedral
Tem um programa que é mega turistão, mas que eu achei bem divertido, e de quebra ainda te mostra as atrações que estão espalhadas por Havana: o passeio de conversível. Você negocia por onde quer passar, mas eles oferecem tudo! É melhor ainda pra quem tem menos tempo na cidade.

Nosso motorista, e o indefectivel Impala amarelo
Aqui embaixo, um deles passando pela praça da Revolução. É onde Fidel reunia a população para fazer seus discursos. Há também a imagem dos dois "heróis" da Revolução que já morreram: Camilo Cienfuegos e o Che. Alias... falando em Che: e o tanto de mocinhas com o Che tatuado? Na perna, nas costas, no ombro, e sabe lá mais onde, rs... Acredito que, tendo ele falecido muito antes de as coisas degringolarem, ficou a visão romantica do guerreiro libertador. Enfim, mais pra frente vou falar um pouco mais disso.

Cansada de bater perna debaixo do sol, cismei um dia que queria ir a praia. Mati ficou bem ressabiado, porque a coisa não parecia muito promissora, já que em lugar nenhum (diga-se guias ou blogs) vimos algo sobre praias em Havana. Mas o Luis nos assegurou que as praias valiam a viagem de 15 km. Pegamos o ônibus e fomos parar no meio da farofa cubana, rs... Mas ó, não posso reclamar. A cor do mar compensou qualquer farofa.

Algumas curiosidades: tivemos problemas com falta de água, tanto encanada quanto engarrafada, rs. Teve um dia que Mati andou por 6 estabelecimentos até encontrar garrafinha de 500 ml de água. Nesse dia, o Luiz, nosso host, teve que ir até outra cidade para encontrar água de 2l. A cidade é muito barulhenta, MUITO. As pessoas ouvem música alta o tempo todo, no carro, em casa, nos restaurantes, as vezes um reggaetown desgraçado, que é tenso. A poluição do ar, como eu disse, por conta dos carros antigos, é pesada também. E por fim, o mais engraçado. Algumas vezes, quando eu disse que era brasileira, ouvi de volta: "Aqui não tem favela". A minha cara de ? ficou no ar em todas elas porque as partes central e antiga de Havana são exatamente como nossas favelas: submoradias com problemas de infraestrutura. A graaaande diferença é a segurança. Em momento nenhum da viagem inteira eu me senti insegura ou ameaçada. E acredito que esse era o ponto que eles queriam realmente tocar: aqui não tem violência. E realmente, a violência que nós brasileiros temos, lá não tem mesmo. A violência lá se faz presente de outra forma, através do governo. Mas como esse post ta comprido, o assunto vai ficar pra depois.

Havana foi uma bela porta de entrada e de saída, mas devo dizer que meu coração foi bater mais forte mesmo lá do outro lado da ilha. Em breve, muito amor cubano por aqui <3
Havana e Eu

Cuba - A preparação

Como o assunto Cuba vai render, vou separar tudo em 4 posts. Esse primeiro é sóbre o pré viagem. Os outros posts vão falar das 3 grandes paradas que fizemos: Havana, Cienfuegos e Trinidad. 


Começando os preparativos, o primeiro passo foi comprar a passagem. Aqui do Brasil tem algumas opções, todas de vôos com conexão: Avianca, Copa, Aerolinias Argentinas e Aeromexico foram as que eu vi. Fomos de Avianca, que estava um pouco mais em conta e recomendo muito, porque facilita a viagem pra Cuba em dois pontos. 1- eles vendem, no balcão de embarque na Colombia (em Lima parece que também), o visto para Cuba. Assim, não precisamos ir no consulado aqui para pegar o visto, o que já é uma praticidade. 2- para sair de Cuba, todos os turistas devem pagar uma taxa de 25 CUC. No nosso caso, já estava embutida no preço da passagem e não precisamos pagar nada (deixando o vôo ainda mais barato).

Outro ponto foi o dinheiro. Lá tem 2 moedas, o peso cubano, que é reservado somente aos cubanos, e o peso convertível, ou CUC, que é a moeda do turista. A princípio, a primeira coisa que vem a cabeça é levar dolar pra trocar por CUC, né? Pois é, melhor não. Descobrimos que, em razão das más relações diplomáticas entre Cuba e os EUA, na hora de trocar os Dolar por CUCs, você paga uma taxa de absurdos 12%. Dolar canadense também tem uma multa, mas acho que é de 6%. Assim, levamos euros, que não tem taxa nenhuma. A troca lá pode ser feita em qualquer "Cadeca", as casas de câmbio local. E aí, tendo em vista os princípios do regime, não tem variação de preço. Em qualquer Cadeca o valor é o mesmo. Os hoteis também trocam dinheiro, mas aí é capitalista mesmo e a cotação é pior, rs... 

Quando comecei a ler sobre Cuba, quase todos os blogs, roteiros, etc, falavam basicamente em Havana, Varadeiro e algum dos Cayos. Tanto em Varadeiro quanto em qualquer dos Cayos, o esquema é resort e só. Mas quando decidimos que o destino seria esse, chegamos a conclusão que não faria sentido ir pra um resort. Se a ideia fosse essa, seria melhor ir pro Mexico, Aruba, Punta Cana, e ter mais infra. Com isso em mente, acabamos definindo que iríamos obviamente pra Havana, e que a parte "praia" da viagem seria em Trinidad, uma cidade que vinha aparecendo em reportagens mais recentes sobre Cuba por sua arquitura colonial e o mar azul. Como tínhamos 15 dias, precisavamos incluir um destino a mais (se quisessemos apertar, poderíamos enfiar vários destinos, mas eu gosto de ficar bastante tempo nos lugares, e efetivamente descansar, passear com calma). Assim, lemos muito, e optamos por algo em torno de Cienfuegos, Santa Clara ou Sanctis Spiritus, mas não reservamos nada... Chegamos em Havava, e conversando com as pessoas, definimos que a nossa parada intermediária seria Cienfuegos. Assim, chegamos ao roteiro do mapa que ilustra o post.

Na pesquisa, também aprendemos que a locomoção dentro da ilha é bem feita por terra, tanto por ônibus, quando por carros particulares. Quem vai a Santiago de Cuba, na outra ponta da ilha, ou pra algum dos Cayos, rola uns aviõezinhos. Mas esse não era o caso... Então, deixamos para resolver essa parte por lá, para não ficarmos tão engessados com horários.

E se a ideia é conhecer a vida dos cubanos, por que não ficar na casa deles? Lá por abril deste ano, o AirBnb passou a funcionar em Cuba, mas além de os preços estarem muito salgados, por ser um serviço novo, não tinha quase reviews. Assim, fui para o www.mycasaparticular.com, o AirbBnb cubano, rs. Por lá, reservei um quarto na casa do Luiz em Havana, e na casa da Yanara em Trinidad. Recomendo muito, e quem quiser contato, me pede que eu passo direto. O Luiz nos ofereceu o serviço de taxi, e assim ficou acertado que ele nos buscaria no aeroporto. 

Precisei tomar a vacina da febre amarela, e fazer umas compras por aqui. Eu já tinha lido que lá é um problema pra encontrar algumas coisas básicas, como escova de dente, shampoo e afins. Eu não tava afim de pagar pra ver, então fiz uma listinha pra não esquecer nada. Também separei livros, fiz downloads de conteúdo offline, e me abasteci de coisas pra ler. E aí, foi só esperar as lindas férias chegarem :)
O mar do Caribe da janela do avião, sem filtro 

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