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04/12: O meu mês

Abril é um mês muito feliz nessa casa. Dia 4 de abril de 1986 eu nasci. Em 5 de abril de 2014, fui comemorar meu aniversário no Lollapalooza em São Paulo, e conheci o cara com que, no dia 30 de abril de 2016, eu me casei. Abril chega aqui em casa cheio de festa, sempre. Eu fico contemplativa, eu me sinto amada com a avalanche de mensages que chegam, a gente planeja comemorações com muito carinho, e como se não bastatesse tudo isso, a primavera sempre da as caras deixando os dias mais longos e coloridos. 


E abril de 2022 não foi diferente. Teve bolo de aniversário no escritório, teve festa rave que durou 12 horas, teve viagem de Páscoa, teve jantar chique, teve tudo! Aqui em baixo deixo alguns registros desses momentos festivos e felizes. 

Um arco íris em nosso jantar comemorativo de 6 anos de casamento

Beleza por tudo: Kayserberg, Alsace, na França

Um registro da minha rave de aniversário - um dos poucos publicáveis

Zurich vestida de primavera

Páscoa em Reims, Champagne, na França

Nem só de belezas e festas é a vida. Passamos um susto com um familiar do marido, e ele fez quase um bate e volta pra California. A gente foca no lado bom das coisas, mas se tem um lado negativão de mudar de país, é esse: estar longe da família, em todos os momentos. Nos bons momentos a gente sofre de vontade de estar lá, mas nos difíceis a gente sofre e sente culpa. Lá em casa sempre fomos criados pro mundo, seguir vivendo na cidade dos meus pais nunca foi uma opção, e tomar decisões de morar longe da família pra mim nunca foi muito complicado. E mesmo assim, quando da uma merda, a gente se culpa. Se culpa pelas escolhas que fez (mesmo sendo muito felizes com elas), se culpa por não poder fazer muita coisa, se culpa por não estar lá pra segurar a mão, se culpa até por não ter vontade de arrumar as malas e se mudar pro Brasil. Viver fora do país vai sempre ser esse monte de emoção: orgulho, culpa, não pertencimento, conquista, etc. Eu sempre digo que nenhuma decisão precisa ser pra sempre, e não é mesmo, e que o mesmo avião que traz, leva de volta rs. Falo isso sempre, pra todo mundo que pede meu conselho sobre morar fora. Mas é muito importante estar confiante e confortável com a decisão que toma, porque momentos como esses de dificuldades na família fazem você repensar tudo. 


E passada a crise, voltamos ao trabalho, a primavera, e aos dias cada mais claros, quentes e longos. Sério, essa época do ano eu sou muito feliz, e acabo ficando com muita energia, o que ajuda demais com as metas: 

- ler dois livros por mês: em abril li dois livros, de autoras argentinas, e lindos, lindos, lindos. 

O parque das irmãs magníficas, de Camila Sosa Villas: o livro mais lindo que li esse ano. Eu quis ler devagarinho, porque ele começa lindo e forte, e eu já sabia que era meu tipo de livro. Embora fictício, a história tem sim muito da vida da autora, uma mulher trans sobrevivendo pela vida na província de Córdoba, Argentina. Fala sobre força, sobre feminismo, sobre preconceito, sobre violências, sobre tudo que é tirado de uma mulher trans, sobre toda sorte de abuso que lhes são impostos. Leia, apenas leia. 

Morra, amor, da Ariana Harwicz: esse daí é mais porradão, uma leitura menos linear, mais visceral, e mais uma vez, sobre mulheres. Eu não amei o livro o tempo todo, mas em sua maior parte. 


- Conhecer lugares novos em Zurich: 

Pois vi que eu falei do Cartell em março, mas eu fui nele em 1o de abril hahaha.. em todo caso, ta falado. Fomos também no restaurante do Markthalle, tipo um mercadão de produtores aqui do bairro. O restaurante é lindo, embaixo do Viadukt, uma estrutura de arcos. As comidas são feitas com ingredientes das lojas do mercado, mas o ponto alto mesmo foram os drinks feitos por um barman muito apaixonado pelo rolê. Um melhor que o outro. 

Também fomos finalmente comer o hamburguer do Blacktap, uma rede de NY que tem uma filial aqui em Zurich. Achei o hamburguer bom, mas considerando o tanto de fila que faz no lugar, acho que eu esperava mais rs. E eles tem aquelas taças lambuzadas de milkshake, e eu tenho pavor rs. Mas voltaremos sim, porque hamburguer BOM é algo que não tem aqui, e esse daí se sai bem. 

Terminamos o mês conhecendo o restaurante Alex, do hotel do mesmo nome, que fica em Thalwil, na "grande Zurich" rs. O hotel é 5 estrelas, o restaurante tem uma vista linda sobre o lago (da foto que abre o post) e serviço de wannabe Michelin star (no momento, é só Michelin guide, e tem uma pontuação boa no Gaut Millau). É bom? É. Mas eu achei o cardápio pouco inovador rs. É um restaurante bem caro, até pros padrões já caros da Suíça, e por isso eu gostaria de ter visto coisas mais diferentonas no menu rs. Mas tava tudo uma delícia, pratos bonitos, e valeu a pena. 


Me exercitei mais, bati minha meta de passos por vários dias, e alternei com dias de alimentação muito saudável com dias regados a champagne e queijo. É o ideal? Não. Vou pra França e vou ficar noiando pela alimentação ideal? Também não. Então a beleza ta em encontrar esse equilíbio rs. Encerro o post com essa foto do casal de milhões de centavos completamente ressacado mas fingindo riquena na beira do canal em Zurich num dia BEM lindo. 


* post esquecido nos rascunhos rs, mas antes tarde do que nunca

A vida em quarentena

Já falei aqui como vai a minha vida na Suíça. A real é que eu não moro no pior lugar para se estar nesse momento: embora a Suíça tenha um número bem altos de infectados, a situação aqui na parte alemã nunca saiu de controle e não tivemos restrições completas. É possível sair de casa pra fazer um exercício físico, fazer compras nos mercados, pedalar, as estradas não estão bloqueadas. A gente tem saído no geral uma vez por dia para pedalar ou dirigir, e isso tem me mantido muito bem. O tempo primaveril incrível também ajuda: as temperaturas estão passando dos 20 graus, os dias estão ensolarados e lindos, e assim fica mais fácil manter a sanidade. 

Eu não entrei numa nóia de ser produtiva, de fazer e acontecer nesse período. Mas busquei encontrar coisas que me me façam sentir bem, e se possível, que ajudem esse tempo a passar mais rápido. And here we go: 

* A cozinha tem sido uma bela distração. Fiz alguns bolos, variei receitas, tentei coisas novas, e me divirto bastante. As vezes eu simplesmente não to afim, tipo agora de noite, que eu simplesmente não estava afim de cozinhar, e o bofe tomou a frente da coisa. Ele cozinha melhor do que eu, mas eu tenho tido mais vontade de encarar o fogão. Algumas das experiências: 
Avocado Toast

E esse bolo de banana que ficou mára <3 
* Não é novidade que eu sou meio gastona, e um tanto quando chegada em roupas e fashion items em geral. Nessa quarentena no entanto eu percebi o tanto que eu negligenciei pijamas, lingerie e roupa de ginástica na última década hahaha. Eu ainda estava usando uns pijamas de 2009, e percebi que a última vez que comprei soutien foi em 2014, aém de estar usando camiseta de brinde pra correr. Aproveitei esse tempo para fazer uma limpa. Joguei fora meias e calcinhas velhas, pijamas esgarçados, camisetas com buracos. Acabei também comprando algumas coisas online. Para quem está aqui na Suíça, eu recomendo muito o Zalando. Comprei pela primeira vez na Manor (está com uma promoção babado), mas ainda não chegou então depois conto sobre a experiência. 

* Voltei a fazer aula de alemão, agora online. Eu parei de fazer alemão há dois anos, quando comecei a fazer um curso na Universidade. O curso era caro, e eu não conseguia ficar pagando as duas coisas. Também, estava bem de saco cheio da escola, não gostava da turma. Alguns meses depois eu comecei a trabalhar e em Zurich, então voltar pras aulas saiu de questão. Tinha os planos de voltar pras aulas quando mudássemos pra Zurich, mas depois de um mês de quarentena, resolvi antecipar. Não ta sendo fácil.. depois de bastante tempo parada, meu vocabulário está bem capenga. Mas estou feliz de estar de volta :) 

* Eu tinha imaginado passar meus últimos meses em Berna retornando a lugares queridos, curtindo a cidade, visitando lugares que ainda não conheço, comendo nos restaurantes que eu gosto. Por enquanto, esse plano está on hold. Mas para dar uma força pro comércio local, e aproveitar um pouco dessas coisas daqui que a gente adora, temos pedido delivery uma vez por semana. Assim comemos algo diferente, e de quebra eu "mato a saudade" de alguns lugares que a gente gosta aqui. O destaque por enquanto ficou com o hamburguer to The Butcher, que chegou aqui muito maravilhoso e nem parecia que tinha viajado na garupa de uma bicicleta. Mas o melhor: pudemos ticar alguns itens dos nossos lugares para conhecer em Berna que não são, por assim dizer, pontos turísticos. Um deles é um prédio residencial que tem uma arquitetura moderna, e é todo verde de plantas por fora. Como ainda estava frio, quando fomos o verde não estava lá e as fotos não ficaram muito boas. A foto abaixo é do site do escritório de arquitetura responsável. Eu descobri sobre esse prédio lendo um artigo do Buzzfeed sobre prédios de design, e fiquei passada que tinha um em Berna e eu nunca nem tinha ouvido falar.
Foto por Bucher Bründler Architekten
Também pedalamos até o aeroporto da cidade. Acho que já comentei aqui que nesses anos a gente nunca usou esse aeroporto, porque ele é bem pequeno e limitado, e quase não tem voos comerciais (e por isso, os poucos que tem são caros). Desde que a pandemia começou a tomar força, está inclusive fechado. O aeroporto fica na beira do rio, e mais parece uma rodoviária rs. Estamos indo embora sem nunca ter entrado em seu micro terminal. Mas foi interessante ver onde fica, e a rusticidade do aeroporto da capital da Suíça.
Descobrindo Berna, ainda
* E em meio a essa loucura coronática, eu fiz 34 anos. Definitivamente não foi o aniversário que sonhei, mas não me queixo. Foi um dia muito ensolarado, e pela primeira vez pude colocar os pezinhos pra fora das meias e botas. Comecei meu dia com um pão de queijo, e terminei com churrasco e caipirinha. Dancei funk na sacada, recebi ligação dos amigos queridos, chorei as 3h da madrugada com vídeo surpresa, e fui dormir agradecendo todo o amor que recebi, que recebo, a saúde dos meus, e o cara incrível que ta dividindo mais essa comigo.
Pão de queijo
Uma foto ruim mas que tem muita coisa boa envolvida
E nós <3
E assim seguimos. Aqui na Suíça a previsão é que a partir do dia 26 de abril, eles comecem a afrouxar o confinamento. Os casos de corona vem caindo, mas somente em umas 10 ou 15 dias veremos se os esforços do governo em manter as pessoas em distanciamento social mesmo com o tempo bom terão surtido efeito. Se sim, prevejo que teremos verão. E tem tudo pra ser o melhor da vida <3 

A (minha) vida na Suíça em tempos de corona virus

No fim de fevereiro eu comentei por alto algumas mudanças trazidas pelo corona para a Suíça. Mas ainda falávamos de 20 e poucos casos, e uma situação sob controle. Eu tinha alguns planos para março e tava tudo mantido. Encontrar uma casa em Zurich, passar um fim de semana em Paris, me preparar para receber a minha mãe aqui para comemorar meu aniversário. Tinha também um banheiro em obras me tirando do sério. Pois bem. De lá pra cá foram 3 semanas bem doidas, então vamos lá:

1a semana de março
Muita preocupação com a vizinha Italia, mas no geral a vida aqui caminhando bem "normal". Tirando a prateleira de macarrão e molho de tomate, que estava mais desfalcada, o mercado estava abastecido. No trabalho  rolou um "ensaio" de home office coletivo. Cada dia da semana algumas funções se revezeram trabalhando de casa. Para quem não estava acostumado, a ideia era testar VPN, ferramentas, e ver se estávamos todos preparados caso tivéssemos que trabalhar de casa full time. A minha função ficou em casa na terça, e eu fiquei meio descaralhada das idéias que ninguém da obra do banheiro apareceu. Mandei um email bem puto tipo "e ai galera, faz só um mês que eu to de quebra quebra no banheiro e vocês ai se dando ao luxo de disperdiçar um dia?!?!?!". Spoiler: eles disperdiçaram a semana inteira e não apareceram aqui nenhum dia. Senti que meus nervos estavam esquentando rs. Naquela sexta-feira os casos da Suíça foram de 80 para 180 e a empresa anunciou um rodízio para a próxima semana. Falei com minha mãe, que precisávamos ficar de olho na situação, e que talvez não fosse possível voar. Fomos passar um fim de semana em Zurich e fomos a restaurantes, esquiamos, visitamos apartamentos, e tudo que fazíamos era caprichar no álcool em gel e lavagem de mãos.
Corona, que corona? 
2a semana de março 
A segunda-feira começou passando dos quatrocentos casos e o aumento exponencial de uma chacoalhada na galera. Eu fui ao escritório três vezes na semana, e as pessoas estavam realmente espalhadas, inclusive na cantina. Galera se evitando rs. Nos dois dias que trabalhei de casa quase fui a loucura com o quebra quebra, bate bate e poeira voando. Essa obra precisa acabar, era tudo que eu conseguia pensar.
5 semanas de obra e o banheiro assim...
Eu ainda visitei apartamentos em Zurich, e já comecei a me incomodar de estar na casa de pessoas estranhas, com tanta gente. Na quinta-feira fiz um happy hour com as amigas (e no bar tinha bastante gente sem noção como a gente), e no fim nos despedimos: sabíamos mesmo que não nos veríamos nas próximas semanas. Eu conversei com a minha irmã, pra ela começar a me ajudar na missão de convencer a minha mãe que não seria uma boa vir pra cá messe momento. Ela é teimosa, e não estava afim de desmarcar não.
Eu, minhas amigas e minha mãe rs
Na sexta-feira tínhamos passagens de trem para passar o fim de semana em Paris, e deixamos até o último minuto pra resolver se íamos ou não, mas o juízo (e o medo de ficar quarentenados num hotel, ou de fronteiras fecharem e não conseguir voltar pra casa) falou mais alto e ficamos em casa. A semana terminou com os membros do Conselho Federal da Suíça decretando o fechamento das escolas até o dia 3 de abril. No sábado eu ainda fui dar uma volta na cidade, e lojas, bares, todos lotados num dia ensolarado. No mercado no entanto o medo do suíço deu as caras: prateleiras vazias de tudo. Domingo fomos a um parque natural para fazer uma trilha e começar nosso pseudo isolamento: isolados na natureza.

3a semana de março 
No domingo a noite chegou mensagem do CEO: todos os funcionários de home-office. O desespero bateu. Eu ficando todos os dias em casa não iria conseguir visitar apartamentos em Zurich, e a gente tem data pra saír daqui (aqui falo mais de como é o processo de alugar casa na Suíça e como você TEM que visitar pessoalmente os apartamentos). Além de tudo, a M A L D I T A obra. Fui ao mercado e o abastecimento estava de volta.
Escritório montado
Logo na segunda-feira teve mais uma coletiva do governo, e eles decretaram o fechamento de todas as lojas, bares, restaurantes e tudo mais que não fosse essencial, taté o dia 19 de abril. Remarcamos a viagem da minha mãe para novembro, e eu fiquei bem arrasada. Fui a uma loja comprar uns acessórios pra fazer exercício em casa, e acabamos indo no bar favorito de Mati porque eles estavam vendendo as cervejas que já estavam na pressão com desconto. Nessas alturas, eu já tava olhando todos os desconhecidos na rua e pensando: será que eles me contaminam ou eu contamino eles?! Paranóia crescendo.
Paranóica porém bem linda pra ir no único programa possível: mercado
A semana foi horrível, pra ser bem sincera. O banheiro que não ficava pronto, a sujeira, a crescente tensão e ansiedade de estar vivendo uma pandemia, a preocução com os meus no Brasil. Pra piorar: o pedreiro lacrou o banheiro e não avisou. Para cada xixi, mesmo no meio da noite, teríamos que descer pro terceiro andar (moramos no quinto), onde tinha um banheiro pra gente usar. Foi o dia que eu comecei a duvidar da minha sanidade rs. Chorei pencas, o dia inteiro. Eu entrava em video call com os colegas, e quando saia só fazia chorar. Foi quando senti o isolamento pesando na minha. Outra coisa que me deixou meio desnorteada foi a ideia das fronteiras fechando. É muito simbolismo na minha cabeça e eu fiquei triste. Na sexta-feira eles finalmente terminaram a obra do banheiro, SEIS SEMANAS depois. A casa foi completamente limpa, e ao acordar no sábado, eu percebi que mais da metade do meu sofrimento vinha da casa estar completamente zoneada, zero aconchegante e suja. Saímos dirigindo por aí, e mais de 300km depois, eu estava bem feliz. Dirigir me deu uma sensação de normalidade, e por uns momentos eu meio que esqueci de tudo. Mas em nossas paradas mantivemos distância de tudo e todos. Encerramos a semana com sete mil casos de corona na Suíça.
A serenidade de quem sobreviveu ao caos inicial
Iniciamos a quarta semana de março, a segunda de quarentena. Aqui ainda é permitido sair de casa para caminhar, correr, pedalar, desde que mantendo distância mínima de 2 metros de outras. Sendo a Suíça um país de tantos espaços verdes, é possível manter uma distância muito maior. É o que tem me segurado bem: poder sair uma vez por dia e correr, pedalar. Voltar pra minha casa agora arrumadinha e aconchegante também ajuda rs. Compramos um quebra cabeça de mil peças, livros de colorir, estamos assistindo séries, fazendo facetime com amigos, falando com Baby com maior frequência. Sigo procurando apartamentos, mas ainda estamos vendo como vai ser a questão das visitas. A real é que com o fim da obra, eu já nem vejo mais problema em ficar aqui, e estou considerando conversar com o landlord pra gente ficar mais tempo, até a situação normalizar. A Suíça no momento tem mais de 8 mil casos confirmados. Os testes só são feitos em pacientes graves ou grupo de risco, o que significa que são muito mais do que isso. Embora seja o segundo maior índice de contaminação per capita, a mortalidade segue baixa. Vamos acompanhar o que vai acontecer daqui pra frente.

Reflexões de Twitter

Esse foi um dos twits que mais me fizeram pensar nesses meus 10 anos de twitter rs. Ao ler, comecei a tentar lembrar meus sonhos de criança. A verdade é que não consegui lembrar de nada rs, talvez ir pra Disney era um. Ai mudei pros sonhos de adolescência, e lembro basicamente de "ser juíza, ser diretora jurídica da Votorantin, viajar". Lembrei nessa ordem e já fiquei incomodada... tipo, que saco, uma adolescente já sonhando com carreira rs. 

Mas logo comecei a pensar por que, tendo nascido onde nasci, eu entendi bem cedo que precisava "ganhar dinheiro" pra realizar outros sonhos. Acabou sendo o campo onde eu projetei mais coisas sobre o futuro. Eu nasci e cresci em Pariquera-Açu. Fui à melhor escola que poderia, mas segue sendo a região mais pobre do Estado de São Paulo, com poucos recursos, poucas empresas, poucas indústrias. Até a conselheira vocacional da escola não sabia explicar o que certas profissões faziam. Design por exemplo, só fui entender o que era depois dos 20 já na faculdade. Relações Públicas? Idem. Ali, naquele ambiente limitado, quem era de humanas fazia direito, quem era de exatas engenharia, e quem era rico medicina rs. Claro que tinha a galera da adminitração, e tal. Mas assim, tudo bem tradicional, você nem consegue vizualizar outras carreiras. E foi assim que eu, de humanas né haha.. fui parar (e odiar) o Direito. 

Lá pro terceiro ano de faculdade eu queria muito largar o curso, porque já odiava o rolê, mas não sabia bem o que fazer. Meus pais insitiram pra eu terminar, porque eu nem sabia o que fazer depois, e porque "agora que começou termina, se forma, vai ganhar dinheiro e depois paga você mesma pra estudar outra coisa". E foi aí que eu achei que a vida era essa merda  de acordar, ir lá fazer um troço que você odeia, ganhar um salário no fim do mês, e ir sobrevivendo. Os meus dois últimos anos de faculdade foram um suplício. Fui muito infeliz, e acho que por isso que, do Mackenzie, só sinto saudade das minhas amigas mesmo. A galera é toda saudosista, vai lá passear na Maria Antonia, e eu quero é distância dessa época que eu chorava no busão. 

Pois bem. Hoje eu tenho uma visão completamente diferente. Eu hoje gosto do que faço, curto meu trabalho e tal, mas assim... Eu trabalho mesmo pra ganhar um salário no fim do mês, e com ele bancar o que realmente me faz feliz. E se lá pra 2008 essa possibilidade de "trabalhar só pelo salário" me deprimia, hoje vejo as coisas com outras lentes. Em algum momento do fim da minha adolescência, eu sonhava com aquela vida de mulher mega ultra bem sucedida sem tempo pra nada, correndo pra lá e pra cá, "diretora jurídica da Votorantim". Hoje eu olho pra essa vida aí, e deus me dibre. 

E é aí que entra a reflexão maior: eu percebi que essa caída na minha "ambição" se deu com a minha vinda pra Europa. Eu percebi que muitas das minhas aspirações de criança e adolescente eram focadas onde eu precisava chegar pra ser alguém na vida, ser respeitada, pra poder viajar, pra poder ter conforto, poder devolver um pouco dos meus pais me proporcionaram. Aqui eu não preciso ser gerente, nem diretora, nem nada, pra ter um salário digno, uma vida confortável e fazer tudo isso, inclusive investir no que me faz feliz fora do horário comercial.

Uma vez conversando com um executivo da empresa onde trabalho, ele disse que o filho dele queria ser jardineiro. E não disse isso com nenhuma conotação, ou julgamento. Era um fato. O menino de 16 anos quer ser jardinheiro. E ele pode ser que não vai passar fome, não vai ser tratado como subalterno ou alguém menor na sociedade, nada disso. E ai fico pensando que em dado momento da nossa vida no Brasil, a gente já nem consegue mais saber qual é o nosso sonho genuíno. Eu lembro que láááá nos idos da minha infância, falava de ser professora, e todo mundo, inclusive meus pais (que são educadores), falavam que é uma profissão muito bonita mas que não da dinheiro. Você logo cedo aprende a nortear suas escolhas pelo que paga as contas, e começa a esquecer quais são os seus reais sonhos.

Então o que aconteceu é que esse twit, e todas as reflexões a que ele me levou, me mostraram de maneira clara que o Brasil mal deixa a gente sonhar rs... Não gosto da ideia de que sonhos sejam resumidos a trabalho. E ai fico pensando na tristeza que é ver crianças, adolescentes, que quando podem escolher o que fazer, acabam escolhendo a partir do que pode dar dinheiro, do que põe comida na mesa.

A volta dos que não foram

Tem hora que eu não sei nem por onde começar. Tenho vindo super pouco aqui no blog, e não é por falta de assunto. É mesmo que a vida real anda tomando muito do meu tempo, da minha energia, da minha criatividade. Eu sabia que quando começasse a trabalhar e entrasse no modo automático, essa coisa do ócio criativo ia dar uma sumida rs... Embora não ande conseguindo nem pensar em assunto pra escrever, confesso que sinto falta do blog, da interação com gente interessante que conheci por aqui, de registrar coisas da minha vida. E por isso, achei de bom tom dar uma passada de leve pelos acontecimentos dos últimos meses rs.

Italia
Esse, sem dúvidas, foi o semestre italiano. Fui pra Italia 3 vezes dentro de poucas semanas. Ao Lago de Como com meus pais, depois para Cinque Terre e Milão para feriados. E gente.. ESSE PAÍS! Por que tão maravilhoso?! Comi comidas deliciosas, vi paisagens incríveis, me senti em casa com gente muito boa, e também dei risada do mal humor de certos italianos rs. Além de tudo, quem mora na Suíça aproveita visitas aos países vizinhos pra fazer comprinhas, e eu não fiz diferente. Pra coroar tudo, ainda encontrei uma grande amiga por algumas horas. E foi excelente! Eu vou sentar pra escrever aqui sobre Como e Cinque Terre, porque acho que vale a pena em tem umas dicas boas pra dar. Agora Milano, se fala tanto sobre ser capital da moda, do luxo, e não sei que mais, que eu esperava uma cidade podre de chique. E não é. Tem sujeira, gente demais, carros demais, não achei fácil de gostar. Mas curti Milão numa vibe diferente, meio que de cidade grande, que por mais que não seja a mais bela de todas, tem muito a oferencer. E fica ainda mais interessante quando você vive a vida na regradinha Suíça rs. Daqui de Berna são só 3h no trem, portanto, Milão que me aguarde. Voltarei. 
Navigli em Milão
Die Länggasse
Nos mudamos em fevereiro e a cada dia que passa eu amo mais esse bairro. Além da conveniência de estar pertíssimo da estação de trem, do centro da cidade, de fazer tudo andando, ainda é cheio de restaurantes, bares e vida. Tem rua fechada pra picnic no fim do dia, tem as casinhas mais fofas dessa Berna, muitas jovens famílias, estudantes universitários, uma filial da melhor sorveteria. Eu poderia passar um bom tempo falando das coisas boas que encontro por aqui, porque mesmo depois de quatro meses de intensa exploração, seguimos encontrando coisinhas novas. Sinto que encontrei nosso lugar: nosso apartamento, nossa vista da janela, e o entorno. Tenho amigos morando aqui, a gente se encontra sem combinar pela rua, fazemos jantares noite a dentro porque ninguém precisa pegar transporte na saída, encontramos festinhas aleatórias espalhadas pelo bairro. Não ligo de viajar 1h por dia para Zurich, porque fico feliz demais de voltar pra cá todos os dias.

Não é fofo demais?!

Trabalho
Falando em viajar pra Zurich... Pra morar onde eu moro, e trabalhar onde trabalho, eu tenho que viajar. E viajo feliz, porque da mesma forma que estou amando o bairro, estou amando meu trabalho. Mesmo com todas as complexidades, dificuldades e frustrações, tem sido um grande aprendizado, uma super expriência, e eu estou me desenvolvendo em várias direções. Estou trabalhando muito, mas quase todo dia termino feliz, exausta mas feliz. Mas ainda to longe de ter sossego: trabalho sob um contrato temporário que acaba em 31 de dezembro. Agora começa a luta para ser efetivada.

Saúde
Há uns dois meses eu comecei a fazer aula de Body Pump. To meio chocada com a gravidade que atingiu meu corpo de uns 2 anos pra cá, e resolvi fazer algo a respeito. Pra falar a verdade, nem sei se vi algum resultado no físico, mas no psicologico ta sendo ótimo hahaha.. saber que eu tenho tentado fazer alguma coisa além de reclamar já me acalma. Hoje também corri a Frauenlaufen, uma corrida só de mulheres em Berna. É um evento super legal. São mais de 10 mil mulheres que participam, em algumas diferentes modalidades: 10km, 5km, ambos corrida e nordic walk (que é aquela caminhada rápida com os pauzinhos de apoio). Tem gente de todas as idades, crianças correndo com suas mães, senhoras bem mais velhas, amigas vestidas em grupo. A organização é toda feita por voluntários, e no dia da corrida mesmo, a maioria dos voluntários são crianças e adolescentes. Eles entregam água nos pontos de apoio, entregam os brindes, acodem quem precisa de ajuda, é uma graça de ver. A cidade vai toda pra varanda, pra calçada, incentivar e torcer pela mulherada. Tem bandas, e é uma energia incrível. Esse ano eu não treinei, só me inscrevi e fui. Acabou sendo bem difícil, mas terminei os 5k sem caminhar no meio, e com um tempo ainda melhor que do ano passado rs. Vai entender... enfim, minha breve carreira de musa fitness é essa daí. E to feliz com ela rs.

A vida ta assim... e acho que lendo assim, elencadinho, tudo que tem me ocupado, deu pra perceber porque ta faltando tempo pro blog. Mas antes devagar do que parado, né?! 

Eine Pause für das reale Leben

Há 10 dias eu vim aqui toda felizona contar como a vida ia ficando cada vez melhor. E assim foi, sábado de manhã fomos de férias para a França. E o que aconteceu na nossa segunda noite por lá? Um filha da puta resolveu arrombar a porta da minha casa e roubar meu apartamento. Pois é. Na Suíça, é mole?! E se em 2015 eu tive que fazer uma pausa para a vida real, em terras germânicas eu precisei de eine Pause für das reale Leben rs. 

Na segunda-feira pela manhã acordei com uma ligação da Polícia. Quando o policial se identificou, eu meio desorientada de sono, tendo que falar em alemão, só pensava "puta merda, o que será que a gente fez de errado". Até que ele desembuchou, falou tudo, e me caiu a ficha... nosso apartamento novinho, para onde tínhamos nos mudado há 15 dias somente, tinha sido arrombado e saqueado. Eu sou bem prática nessas horas, entro em modo automático, e resolvo tudo que tenho pra resolver. Em meia hora tinha resolvido com a polícia como trancar a porta para manter o apartamento seguro até o nosso retorno, avisado a seguradora, a administradora do prédio, informado meu trabalho que levaram o laptop, o trabalho de Mati. Fomos tomar café da manhã, e resolvemos fingir demência e sair esquiando, rs. Foi só umas 12 horas depois que caiu a minha ficha que alguém tinha estado, maliciosamente, dentro da nossa casa, tocando nas nossas coisas, e então eu desabei a chorar. 

Mas é isso. Não tem sonho, não tem vida perfeita, não tem felicidade que dure muito. A realidade sempre tem que bater na porta e te mostrar que o mundo é bem escroto. E que se rodear de amor, de pessoas queridas, de gente que te cuida, é o que nos resta, para viver em sanidade e enfrentar esses momentos de merda.

Chegamos em casa sexta-feira, fomos à Polícia. Eu já tinha ouvido dizer que em Berna tem dois crimes: roubo de bicicleta e de apartamentos quando ninguém está dentro. A Polícia confirmou que é isso mesmo, que acontece muito, e ainda mais no bairro onde nos mudamos, onde tem muito estudante que volta pra casa de fim de semana. E nesses cinco dias entre recebermos a má notícia e chegarmos em casa, a gente especulou muito o que teria sido roubado (além dos computadores que a polícia já tinha confirmado que não estavam aqui). Eu me preparei para chegar aqui e me deparar com araras vazias, rs. E no fim, acabou que levaram menos coisas do que a gente esperava. Tivemos algumas perdas que serão reparadas pelo seguro, e algumas coisas que são insubstituíveis, com muito valor afetivo. 

O pior mesmo foi a invasão de privacidade, a sensação de que nossa casa não é segura. É um sentimento que me acompanhou aqui nos meus primeiros meses de Suíça, porque em SP tínhamos porteiro, câmeras, um monte de coisa que passa uma falsa sensação de segurança. Cheguei aqui e fiquei me sentindo muito vulnerável numa casa sem portaria, rs. Mas aí depois de um tempo passou. E agora voltou com força. Porém eu quero achar que foi um grande azar e que essa sensação vai passar. Realidade, por favor, seja gentil. 

A colheita

Se por um lado parece que foi ontem que eu estava em êxtase por voltar a trabalhar, por outro parece que couberam 6 anos nesses 6 meses. Por questões estratégicas, por feeling, por um monte de coisas que eu poderia contar outra hora em outro post, optei por aceitar a vaga temporária de estagiária que me ofereceram, mesmo tendo uma oferta de emprego permanente e bem remunerado na outra mão. Eu sempre tomei decisões estratégicas na minha carreira, decisões que algumas pessoas não compreendiam muito, mas que pra mim faziam sentido no longo prazo. Não foi diferente dessa vez.

Só que pra um estágio fazer sentido nessas alturas da vida, eu tinha que fazer ele render muito. Eu tinha que me mostrar muito, mostrar tudo que aprendi nessa vida, e que eu era uma estagiária "diferenciada". Depois daquela primeira semana que é sempre meio marasmo, eu comecei a me jogar de cabeça no trabalho. Me enfiar em tudo que é reunião, puxar qualquer coisa pra mim, botando a cara no sol rs... Acabei ganhando um projeto de presente, e aos poucos fui criando meu espacinho. Comecei a mostrar para as chefes (sim, ainda tem isso, entrei numa equipe feminina muito incrível :) que eu conseguia fazer muita diferença. E começou a dar certo.

Terça-feira encerrei meu estágio com um contrato de especialista assinado :) Ainda não é uma vaga permanente de emprego, mas um contrato atrelado ao projeto que estou liderando, até dezembro. Se tudo correr como previsto, e o projeto decolar, a gente vê como fica depois. Mas eu estou com um orgulho que não cabe em mim. Por ter seguido minha intuição mais uma vez (e num ambiente tão desfavorável, vamos combinar), por ter conseguido provar meu valor, por estar de volta com tudo nesse mundo corporativo do qual tanto falo mal mas ao qual sou bem apegada rs. Some-se tudo isso que eu estou curtindo muito a empresa, sou liderada por mulheres inspiradoras, aprendo muito, conheço muita gente interessante. 

E por fim, mas não sou hipócrita de dizer que é menos importante: financeiramente entramos numa nova fase aqui. Não que a gente vá ficar rico, porque eu ainda sou empregada, não a dona da empresa hahaha, mas vamos ter um respiro. Nos dois anos em que não trabalhei nos descapitalizamos muito. A Suíça é cara, nós temos Baby que mora em outro país, e tínhamos economias em Reais. A gente não sabia desse problema do visto quando viemos (uma cortesia do RH do emprego de Mati, que nos informou incorretamente), e estávamos preparados para uma eventual demora para eu encontrar emprego, mas pensávamos em coisa entre 6 meses e um ano, mas não dois anos sem poder nem procurar. Eu encontrar um emprego o quanto antes (depois da novela do visto) era imperativo para continuarmos na Suíça. Tínhamos alguns planos B, C, etc, que ao invés de dar conforto, me tiravam o sono à noite. A verdade é que eu gosto muito, mas muito mesmo, de morar aqui e sair desse país sem ao menos ter tido a oportunidade de experimentar o mercado de trabalho era um cenário que me deixava deprimida. E ainda que o estágio não me pagasse um baita salário, ele já possibilitou que a gente refizesse um pouquinho as nossas economias. E agora, voltando a exercer um cargo de profissional graduada, a gente meio que entra numa "vida normal", como seria no Brasil, ou em qualquer outro lugar em que estivéssemos. 

Entre um contrato e outro eu pedi férias. Va lá que são não remuneradas rs, porque um contrato terminou e o outro não começou. Mas tudo bem. Passei os últimos dias dando um tapa na casa nova, que ta uma ligeira bagunça rs, e sábado vamos para uma semana de férias nas montanhas. Na volta eu ainda tenho um tempo para curtir minha Berna, relembrar meus dias de absoluta folga por essa cidade (dos quais, não nego, sinto certa saudade, porque o ser humano é um bicho complicado mesmo), tomar todos os cafés com minhas amigas, para retornar ao trabalho zerada. O futuro, ele chegou :)

(des)Inspiração

Estou meio sumida daqui porque tem me faltado inspiração para escrever. Parece que anda me faltando assunto, não porque eu não tenha vivido nada interessante, mas porque minha cabeça está altamente dominada por alguns tópicos: trabalho, mudança e esqui. E aí que, pra não deixar esse blog às moscas, vim falar um pouco sobre esses temas, que tanto tomam conta dos meus pensamentos no momento. Voilà. 

Trabalho
O sorriso da criatura num workshop do trabalho... acho que ta gostando, né?
Em algumas semanas meu contrato de seis meses de estágio termina. Tem sido uma jornada daquelas... Me adaptar novamente à uma rotina de trabalho, somando aí um commute diário de mais de 3h, foi uma paulada. Mas foi muito bom entrar numa empresa e ir me descobrindo aos poucos muito interessada por ela. Acho que faz tempo que eu não curtia tanto um trabalho... alias, sei bem: desde 2013. E com isso foi me dando uma vontade enorme de ficar, o que me deu ainda mais gás pra trabalhar, pra ser notada, e valorizada. Ainda não tenho uma resposta em definitivo sobre o meu futuro, mas estou felícissima com a oportunidade que tive, com a forma como a agarrei e com tudo que desenvolvi nesses seis meses. Estou também bem cansada rs... E como nesses seis meses eu, no ritmo frenético, não usei todos meus dias de férias, nas próximas semanas terei vários rs, o que vai ser providencial pra esse momento de mudança. Falando nela... 

A Mudança
Mudamos daqui 10 dias, no dia 2 de fevereiro. A gente acabou optando por levar a facada e pagar uma empresa pra fazer nossa mudança. Não contratamos o pacote todo, daqueles que a galera vem e empacota sua casa, mas como meu apartamento novo é no 5o andar, achei por bem contratar a empresa para levar as coisas daqui pra lá, e desmontar e montar os móveis. Assim que cheguei de férias, pedi as caixas e comecei a empacotar de leve. Eu não sou uma Marie Kondo da organização, rs, mas tenho pavor de não cumprir prazos (advogada né mores hahaha), e a ideia de chegar dia 1 sem estar com tudo pronto tem me assombrado. Então comecei empacotando a sala, que basicamente só tem decoração, e foi bem rápida. Semana passada foi a vez do quarto de visitas, onde a gente acaba guardando (e acumulando) muita tranqueira. Agora, chegando mais perto, estamos andando com as roupas e demais coisas do quarto, e semana que vem, pra fechar, será a cozinha. Nesse processo acabei doando muita roupa, jogando muita coisa fora, e me chocando com o tanto de coisa que adquirimos em 2 anos e meio rs. Apesar da chatisse que é gastar meu tempo livre com afazeres domésticos, eu acho um exercício super necessário: avaliar as coisas que estão aí só atravancando o caminho, acumulando poeira e ocupando espaço. Dez longos dias pela frente. 
O bairro novo, em foto do Der Bund por Valérie Chételat
E minha rua nova, em foto do Wikipedia. Can't wait!
Esqui
Meu tema favorito do inverno rs... Nos outros anos, estando em casa, eu ia toda sexta-feira esquiar com a turma da escola de Mati. Quem vê eu falando assim, pensa que eu estou pronta pras Olimpíadas de Inverno hahaha mas realmente, não é o caso. É um esporte que, quanto mais velho você fica, mais difícil é de aprender. Você depende muito mais de partes do seu corpo que você nem lembra que existe, e principalmente, do seu psicológico. Se uma criança nem faz ideia de que a morte existe, eu devo dizer que o meu subconsciente adulto está ali lembrando dela quase o tempo todo hahaha e travando minhas pernas, claro. Mas ainda assim, vivendo aqui na Suíça, faz parte do inverno, e é um jeito de aproveitar as belíssimas paisagens, por isso sigo firme tentando melhorar. Nos arredores de Berna tem várias estações, e fim de semana passado eu fui pro meu primeiro esqui do inverno em Lenk. Fiz uma aulinha pra retomar a confiança, e eu recomendo, pra quem não esquia desde a vida inteira, a fazer aulas de vez em quando, pra melhorar a técnica, lembrar os básicos e espantar o medo rs. Com os dias de folga que mencionei ali em cima, devo aproveitar para ir com Mati mais algumas vezes, e em fevereiro faremos nossa primeira viagem de esqui. Vamos passar uma semana na França, e eu estou MUITO empolgada. 
Empolgada, eu?!?!?!
E é isso... Eu espero que esse marasmo de ideias passe logo, e que em breve eu encontre coisas mais interessantes pra falar rs. Mas esse blog é pra isso mesmo, né... pra eu registrar a minha vida, e acho que esses momentos de mente vazia fazem parte. E vocês, o que contam? 

Procurando emprego na Suíça

Não é porque recebi umas propostas que virei expert no assunto rs, mas agora pelo menos consigo dizer o que pode funcionar mais ou menos. E de quebra, as always, tentar ajudar alguém que precise. 

* * *
CV
O currículo por aqui é bem diferente do que estamos acostumados no Brasil. De cara, quando fui ao trabalho de Mati pedir à RH dele para dar uma olhada no CV, ela já lançou: falta foto, ta enxuto demais. Eu acho um absurdo gigantesco ter que botar foto no currículo, pois é uma baita ferramenta de discriminação. Mas o mundo a gente muda aos poucos, e pro emprego eu tinha pressa rs. Então tirei uma foto estilo profissional, com fundo branco, com roupas de trabalho (nada de cortar aquela foto que você saiu bonita numa viagem rs) e, muito braba, botei no currículo. Além disso, se no Brasil menos é mais, aqui mais é mais mesmo haha. Aparentemente, o currículo deve explicar de forma mais detalhada as experiências profissionais, e se isso resultar num CV de até 2 ou 3 páginas, tudo bem. Então fiz isso. A ideia é que fique mais ou menos assim:
Obviamente, essa não sou eu. Esse CV é um template do site http://genericrevia.club/
Onde procurar? 
A internet, meus queridos, é um mundo de oportunidade. A minha principal fonte de busca foi o LinkedIn, desde sempre. Perfil atualizado, e busca diária. Mesmo quando eu não tinha o visto de trabalho, estava sempre olhando por lá. No total, consegui quase umas 10 entrevistas pelo site e uma virou proposta. As empresas estão cada vez mais usando o Linkedin, e vale gastar tempo lá (e se comportar, Linkedin não é Facebook). Também usei bastante o Indeed e lá tem muuuuita coisa, muita mesmo. Tem ainda os sites de agências, como a Hays, a Page Personal (do Grupo Michael Page), Adecco, Randstad, etc. Se você entrar nisso tudo, vai ter um range bem grande de vagas, indo de trabalhos manuais até grande diretoria de empresas rs. 

Networking
É fundamental. Li um dado de que quase 70% das vagas na Suíça não são postadas (e desconfio que esse número seja similar mundo afora), e ter uma rede de contatos pode ser fundamental para você se colocar no mercado. Chegando num país novo é bem difícil construir essa rede e por conta disso eu comecei a frenquentar MeetUps, entrei em grupos de facebook, fui à palestras e isso foi até um dos fatores decisivos para eu optar pelo curso que estou fazendo. Num encontro de um grupo do facebook, acabei conhecendo uma mulher cujo marido era advogado, e recebi um email para realizar um projeto com ele. Na época era um projeto de um mês, e eu estaria 15 dias desse mês no Brasil, além da questão do visto, então não rolou. Mas olha só.. um drink no bar virou um possível projeto temporário, que poderia ter virado uma vaga permanente. Através da rede de contatos da Universidade de St. Gallen, onde estou fazendo meu curso, consegui o estágio que estou realizando no momento (sim, virei estagiária, e irei explorar esse ponto logo abaixo). É muito importante conhecer pessoas que possam te informar de vagas não postadas, que possam te recomendar para amigos, que possam ao menos passar o seu CV para o topo da pilha. Inclusive, eu coloquei o networking aqui, embaixo de onde procurar, porque uma coisa complementa a outra: você pode achar uma vaga no Linkedin, por exemplo, e achar um contato que trabalhe na mesma empresa, que possa botar o seu CV na mão certa.

Candidatura
O famoso application, rs.  No Brasil, quando me candidatava pra alguma vaga, era só escrever um email falando que estava interessada na vaga e anexar o CV. Aqui é beeem diferente. O CV deve ser acompanhado primeiramente de uma bendita cover letter, a carta de motivação. Eu detesto escrever cover letter, mas é necessário. Não vou dar receita de cover letter aqui porque quem sou eu na fila do pão, né... mas acho que é importante manter princípio básicos de redação: introdução, exposição, conclusão, tudo de forma coesa, e sem se alongar muito porque os caras tem sabe-se lá quantas candidaturas pra ler. Fale da sua experiência, do seu interesse pela vaga, e pronto, seja profissional. Além dela, devem acompanhar o CV o diploma (SIM, o DIPLOMA) e cartas de recomendação de antigos empregadores. Então é bom ir atrás desses documentos se vocês, assim como eu, não tem eles em mão rs. Eu me formei em 2010 e nunca tinha buscado meu diploma, olha a vergonha hahaha.. Fui quando me informaram que sem apresenta-lo aqui não ia rolar. Mesma coisa para carta de recomendação, eu nunca pedi. Mas graças a deusa sempre tive bom relacionamento com chefes, e ai fui atrás delas com um c e r t o delay, e resolvido. Ai pega CV, cover letter, diploma, recomendação, faz um tudo um PDF só e pronto, ta pronto seu application :) 

Aceite que talvez uns passos pra trás sejam necessários
Aqui acho que é um ponto crucial dessa busca. Já comentei em algum post do blog de como foi "dolorido" ver a minha experiência sendo diminuída. A verdade é que chegar num país novo é abrir mão de muitas coisas, inclusive de muitas conquistas. Eu fiz uma faculdade de Direito que no Brasil tem certo prestígio. Aqui ninguém N U N C A ouviu falar. Eu trabalhei num escritório de advocacia de ponta, com o cara que escreve livros que a gente usa na Universidade. Aqui? É isso mesmo, nunca ninguém ouviu falar. Trabalhei em multinacionais relativamente grandes, porém dessas que eu nunca tinha ouvido falar antes de entrar, e nunca mais ouvi falar depois que saí. Empresas que empregam 20 mil pessoas pelo mundo, cujo serviço passa dentro das nossas casa algumas vezes por dia, mas que não conhecemos, e que não trazem um pingo de atenção pro meu CV. Resumindo, aqui, no meio de tantos CVs com Sorbonne, LSE, St. Gallen e afins, eu sou ninguém. E se eu era gerente no Brasil, rapidinho aceitei numa boa que não seria aqui. Tentei expor a minha experiência da forma mais rica possível, e apliquei para vagas que condiziam com ela, mas também para vagas bem mais juniores. Tracei como estratégia conseguir uma vaga, qualquer que fosse ela, numa empresa grande, respeitada, que sobressaísse no meu CV pra sempre. E foi aí que, mesmo tendo recebido uma oferta de emprego fixo (também para um cargo mais baixo do que eu tinha no Brasil), bem remunerada, numa empresa grande, resolvi aceitar uma vaga de estágio numa empresa Fortune 500. Pra quem não ganhava nada, o salário de estagiário já estava bom rs, e eu entendi essa oportunidade como um investimento a longo prazo para a minha carreira. Vejam bem, eu recebi duas ofertas, as duas para vagas mais júniores que a minha experiência permite. Mas tudo bem. Entendi que esse vai ser o passo pra trás que me permitirá dar dois pra frente. Por isso, se abra para outras possibilidades. Mudar de país é um eterno exercício de humildade, em vários aspectos. 

Esses são os pontos que eu acho mais fundamental. Se alguém tiver como complementar esse post, será muito bem vindo :) 

Advogada na Suíça?

Esse post pode ser bem chato para quem não tem interesse no assunto. Mas resolvi mexer nesse vespeiro porque essa é uma pergunta que escuto com certa constância. Voilà. 

Para quem é de fora da área, o Direito ainda segue parecendo um tema muito pouco transferível de um país pro outros. Já vi em vários blogs, canais e afins, quando estão falando sobre exercer profissão fora do país, que "em algumas áreas, como o Direito, é impossível". Essas pessoas sempre são de outras áreas, e tem em mente um Direito bem antigo. Aquele em que só existia família, criminal, tributário, trabalhista e previdenciário. Aquele em que advogado ou ta trabalhando na porta de cadeia ou fazendo divórcio, e que precisa recitar a letra da lei. Bom, há muito tempo o Direito é bem mais amplo do que isso. Sempre foi, claro, mas há uns bons 20 anos, com globalização e afins, o Direito também se globalizou. E é aí que as portas podem ter se aberto um pouco para quem pensa em exercer a profissão fora do país de origem.

Para quem tem experiência com M&A (ou fusões e aquisições), compliance, operações cross border, tributação internacional, contratos internacionais, direito migratório, é bem mais fácil trabalhar em outros países (e veja bem, digo trabalhar, porque arrumar emprego é sempre difícil né). Nos últimos quatro anos da minha carreira no Brasil eu trabalhei em multinacionais, participando da negociação global de contratos e depois adaptando esses contratos globais para a legislação brasileira. Também trabalhei com a implementação de controles de compliance seguindo padrões europeus e de FCPA (e aqui, para quem não é da área, num resumo bem resumidinho, compliance é conformidade e hoje em dia as empresas tem departamento específico que atua para garantir que a empresa segue à risca todas as regras internas e externas. Há procedimentos de padrão internacional de compliance, que podem certificar uma empresa. Já o FCPA que mencionei é a lei americana anti corrupção. Empresas americanas colocam em contrato que a outra parte deve seguir controles de compliance para obediência da FCPA). Em menor escala, fiz trabalhos voltados para M&A. Ou seja, tenho alguma experiência que torna meu perfil mais internacional. 

É claro que ter uma faculdade no país em que se quer trabalhar, tirar a OAB local, vai aumentar a sua chance de encontrar algo em muitos porcentos, pois é qualificação extra, e ainda por cima aumenta seu campo de procura, certo?! Você abre suas possibilidades para além das multinacionais. Mas eu cheguei na Suíça sem intenção de, a princípio, me qualificar. Primeiro porque são anos de estudo e eu precisava trabalhar, e segundo porque tem a questão da língua. Sabe-se lá quando eu teria condições de prestar uma prova técnica como a "OAB"(que aqui chama SAV) em alemão, francês ou italiano, as línguas oficiais do país. Além do mais, aqui na Suíça tem muitas, mas MUITAS, multinacionais. A minha ideia era, desde o princípio, encontrar uma posição em que eu pudesse usar o conhecimento que tenho, me apoiar na minha experiência, para aprender mais e evoluir. 

E aí a pergunta... MAS E NÃO PRECISA DA OAB? Não necessariamente. Vou resumir novamente de forma bem simplista. Para quem quer atuar como advogado com poderes para atuar em Cortes, para representar legalmente clientes diante de autoridades e afins, é necessária a OAB sim. Mas há uma outra infinidade de possibilidades dentro da área: analista/gerente de contratos ou de compliance, consultor em qualquer das áreas que mencionei, auditoria, paralegal (que é uma posição abaixo de advogado, mas que mexe com contratos, com documentos corporativos, etc), etc. São posições nas quais você usa o seu conhecimento jurídico, mas não necessariamente irá assinar como advogado. E deixo um exemplo: estou trabalhando no departamento de contratos de uma empresa, e não no departamento jurídico. Quando é necessário o sign off de um advogado, eu encaminho a questão para o jurídico. 

E tem bastante vaga nesse perfil. Claro que tem também muita vaga que pede a OAB local. Mas honestamente, o mercado é bem mais aberto aqui do que eu esperava. Nesses dois anos que não trabalhei, não foi por causa de vaga. Já comentei por aqui que eu tinha um problema de visto, e em todas as entrevistas que fiz, a conversa acabava aí. Mas veja só... tinha vaga, tinha entrevista. Portanto, se você é da área e acha que vai ser impossível encontrar algo aqui na Suíça, não é não. Tampouco é fácil, é verdade. Mas em outra hora eu escrevo aqui sobre como funciona a busca por emprego aqui.

Enfim, esse texto é zero profundo, e não tinha a intenção de inventar a roda com ele. Mas sei que é uma dúvida frequente das pessoas da área, uma curiosidade das pessoas fora da área, e já cansei de revirar os olhos vendo informação errada por aí. 

*** 

UPDATE: venho do futuro, mais precisamente de fevereiro de 2022, avisar que esse texto segue atual, segue verdadeiro, e que não, não adianta me mandar mensagem com seu currículo e me perguntar quais suas chances de arrumar emprego na Suíça, porque eu sou um monte de coisa, mas não sou vidente e nem charlatã, e muito menos sou irresponsável. A informação que eu tenho sobre o mercado de trabalho nessa área está aí nos parágrafos acima. São verdades universais? Não. É a minha visão. Mas eu não sei mais do que isso. Esse é DE LONGE o texto mais lido desse blog, e nesses 3 anos e meio eu recebi mais de 50 mensagens privadas de gente contando sua história pessoal e pedindo minha opinião. E assim, gente... eu tenho noção, eu não vou falar pra ninguém que com esse ou aquele perfil vai ser fácil ou difícil arrumar vaga. Aí em cima eu falo de áreas quentes, falo da questão de línguas, falo da ordem -  é isso aí, não tenho nada a acrescentar. Faz uma pesquisa, vai atrás, aplica pra umas vagas e vê qual é a recepção do seu perfil, enfia as caras. Uma coisa posso te garantir: mudar de país, recomeçar carreira num lugar novo, é difícil pra caramba, vai demandar muita resiliência, muita humildade e muita coragem. Então por mais tentador que seja achar que alguém vai te dar uma receita de bolo pro sucesso, não caia nessa. Não existe. E se alguém te oferecer isso, sai correndo que é golpe. Um abraço e boa sorte a todos :)  

A internet, a exposição e o que vem depois

Uns tempos atrás deixei o blog fechado por dez dias, e o motivo me fez refletir bastante sobre o quanto nos expomos voluntariamente na internet. Não estou falando de exposição como se fosse algo ruim, mas simplesmente como um fato. É isso, hoje em dia a gente mostra muito mais de nós, a gente se expõe, e isso tem impactos de várias formas. 

O impacto imediato - e o melhor - é a rede de conexões que criamos. Aqui pelo blog conheci várias pessoas - várias que também tem blogs - e por ler seus comentários aqui (bem como seus blogs), criei uma identificação. Segui-las em outras redes acabou revelando ainda mais coisas em comum, ou coisas que acho interessante, relevante, o que me fez gostar muito delas, pessoas essas que nunca nem vi. Alias, algumas até conheci :) Enfim, resultado é que conheci pessoas incríveis e fiz algumas amizades, laços esses que são puro impacto da exposição, minha e delas, na internet. E isso é fantástico!

Por outro lado, veja só... Eu me candidatei pra uma vaga de emprego bem interessante aqui na Suíça, o processo começou a andar e, depois de algumas entrevistas por telefone, fui convidada a ir à sede da empresa fazer uma entrevista pessoalmente com quatro pessoas. Quando me passaram os nomes, rapidamente, notei que um deles era brasileiro. Ao vivo percebi que uma das outras três pessoas, um gringo, era MUITO "xereta". Ele foi checando meio ao vivo tudo que eu ia falando. Abriu o site das empresas em que eu trabalhei ali na lata, fez perguntas sobre, abriu o google maps para discutir o meu commute, até o site do projeto onde faço voluntariado ele abriu e notou que eu não estava na foto de capa. Ao sair de lá me deu um certo pânico de que o cara achasse o blog e desse pro brasileiro traduzir. E veja bem, eu não falo nada demais aqui, não há nada de que eu me envergonhe, mas falo da minha vida, deixo claras algumas opiniões políticas, falo palavrão, falo merda, enfim... sou quem eu sou fora do horário comercial (e dentro dele quando acho que cabe rs). A real, é que eu não sei qual é a das pessoas, e não quero que elas saibam qual é a minha antes da hora, sabe?! 

Enfim, por isso fechei o blog enquanto esse processo se desenrolava, e a ideia era deixar fechado até que acabasse. Depois de uns dias eu comecei a relaxar, porque é isso, o blog mostra em estado bruto o que sou, não tem muito como fugir. Se for pra me negarem um emprego por causa disso, paciência. Reabri o blog antes de saber o que tinha rolado com o emprego (confesso que ter pintado outra vaga no horizonte ajudou nessa relaxada). 

Nessa reflexão sobre minha auto exposição, percebi que hoje em dia é meio que inevitável ter um extenso footprint na internet. Por exemplo: isso tudo aconteceu na mesma semana que uns imbecis fizeram um vídeo ultra misógino na Rússia assediando uma moça, vocês devem se lembrar. Os caras foram super expostos, alguns perderam emprego, enfim... E não postaram o vídeo no instagram, nem facebook, nada. Esse vídeo foi enviado para amigos "do mundo real" por whatsapp, e vejam a proporção que tomou. Quantas vezes isso não aconteceu? A nossa vida hoje em dia não se divide mais entre on e offline. Ta tudo junto, ações do mundo offline reverberam no online para então sofrer consequências na vida offline. 

Não consegui chegar à uma conclusão, mas pensei muito e tenho certeza que não tenho vontade de fechar o blog e deixa-lo somente para "convidados". Nos últimos meses eu recebi vários emails de pessoas que se mudaram, ou que moram na Suíça, e que tinham algumas dúvidas. Achei muito legal poder ajudar de alguma forma, tirar dúvidas, dar umas ideias. Alias, mais engraçado: um parente distante me encontrou aqui enquanto procurando subsídios para a cidadania italiana dele, e eu pude ajudar também. Não é muito bacana?!

Por essas e outras, por hora tenho sim consciência de que devo prestar atenção no "oversharing" (aqui, em todas as redes e na vida), mas que a experiência no geral é muito positiva. O blog é meu hobby favorito, é onde eu registro as mudanças da vida, o que meus olhos veem, e muito do que meu coração sente. De quebra, é onde conheci pessoas muito legais, e onde nesses dois anos de Suíça ainda me senti fazendo alguma diferença. Não quero nem vou abrir mão disso aqui por uma privacidade online que acho que nem existe mais. 

Quase um ano novo

Em alguns posts por aqui falei sobre a questão do visto que eu tinha, como dificultava para eu encontrar um emprego, e as perspectivas de que em julho desse ano tudo se resolveria. Me resignei a ficar 2 anos fora do mercado e segui a vida: comecei um curso, segui curtindo a Suíça e programei férias bem longas. A idéia era ter essa questão do visto resolvida, e em algum momento do segundo semestre começar a trabalhar - e nessa vida de escritório, férias de 5 semanas acho que nunca mais rs. 

Pois bem. Lá pra maio, mesmo sem ter 100% de certeza de que o visto ía rolar, eu comecei a mandar currículos. Deixei meu CV bem redondinho no formato que aprendi que o mercado suíço gosta, comecei a caprichar muito nas cartas de motivação (que odeio, diga-se de passagem hehe), comprei umas roupas para entrevista, passava horas do dia fuçando o Linkedin, entrei no modo fight, sabe como é?! E comecei a ter um retorno bem legal. Fui chamada para algumas entrevistas, e um processo começou a engrenar. 

Nesse meio tempo fui ao Departamento de Imigração para tentar saber com mais certeza o que aconteceria no meu processo. Me mandaram na Gemeinde, a comuna. Fiquei que nem barata tonta rodando por aí e rolou muita frustração, mas sobre esse processo vou contar num post a parte. Fui ao trabalho de Mati e rodei uma pequena baianinha lá no RH. As coisas estavam em via de começar a acontecer pra mim, e tudo que eu não queria era que desse alguma merda por conta do visto. 

Quando eu estava certa de que ia fechar com uma empresa, apareceu uma outra vaga, e numa entrevista pá pum, fui com a cara da chefe, a chefe foi com a minha cara, rolou aquele match tinderesco maravilhoso, e eu, que passei dois anos desempregada choramingando pelos cantos, de repente tinha duas ofertas na mesa. 
Acabei optando pela vaga que, embora temporária e com uma remuneração inferior agora, tem mais potencial para o futuro. Foi uma aposta, e exatamente o tipo de desafio que eu sempre curti pra minha carreira. Ontem comecei a trabalhar e a vida está toda diferente. Vou para Zurich todo dia, toda fantasiada de advogada rs. Para quem saia das cama 10h da manhã e andava xexelenta o dia inteiro, já dá um impacto, né? hahaha... Além disso, rola toda uma diferença de não ter meu tempo inteiro só pra mim rs. Estou ainda pensando em como adaptar essa nova rotina às necessidades do dia a dia, mas com o tempo chego lá. Eu estava preparada para em algum momento do segundo semestre começar a trabalhar, mas nem nos meus melhores sonhos imaginei que eu sairia de férias já empregada e começaria logo depois do retorno.
Toda travestida de advogada, mas e a cara de mamona, como lidar?! hahahaha
Mas o principal mesmo foi o alívio de tirar esse grande obstáculo na frente, o tal do visto. A nossa vida aqui agora muda por uma série de coisas:
- deixamos de nos sentir temporários, deixamos de sentir como se não tivéssemos propriamente assentados aqui. Nosso visto agora é de RESIDENTE, assim somos considerados, e assim podemos nos sentir; 
- temos a segurança de que agora ficamos na Suíça. A gente já há um tempo tinha a certeza de que queríamos ficar, mas era insustentável se eu não tivesse um emprego, por questões emocionais e financeiras, claro; 
- com o visto posso dar entrada na cidadania italiana aqui, e ela saindo, ficamos atrelados a mim, e não ao trabalho de Mati. Ou seja, mais segurança para nós.

E por que "quase ano novo"? Porque eu to sentindo como se tivesse vivendo um grande recomeço. O alívio, a alegria, de conseguir esse visto foi absurdo. O trabalho nem se fala. E agora eu estou começando a viver a vida que eu sempre sonhei por aqui. É uma nova fase, e eu to celebrando como tal. Eu precisava desse rito. Sendo assim, feliz ano novo pra mim, e pra vocês!

Coisa de pobre

Com licença, hoje eu vim aqui desabafar.

Lá em 1990 e poucos apareceu o Sai de Baixo, e com ele o Caco Antibes. Na época o único dia que eu podia ficar acordada até mais tarde era domingo, eu podia assistir o Sai de Baixo e eu morria de dar risada com o Caco e suas tiradas pobrefóbicas. Hoje, com um olhar mais maduro, eu vejo que o Caco Antibes era uma alegoria acertadíssima do brasileiro médio. O brasileiro que não tem um centavo na carteira, mas "odeia pobre". Que odeia tudo que tem cara de pobre. Que gasta o que tem e o que não tem para parecer que pertence à elite. E pior: o brasileiro que ganha 5 mil, e se considera mais próximo de quem ganha 100 mil, do que de quem ganha mil. Esse brasileiro aí só esqueceu que o Caco Antibes era engraçado na TV. Na vida real é bem patético. 

E por que eu to aparecendo com essa conversa agora, nesse tom quase amargo? Porque toda hora aparece algo pra me lembrar porquê somos um povo endividado, porquê somos um povo que vive de aparências. Eu já comentei aqui de quando eu tinha um carro popular 1.0 bem simplão, e de como os colegas de trabalho simplesmente zoavam, na caruda, o meu carro. Tinha gente com o mesmo salário que eu que comprava BMW usada e gastava fortunas em seguro e manutenção, mas tirava maior sarro do meu Clio riscado rs. Porque carro popular é coisa de pobre. Outra, dessa mesma galera, foi tirar onda porque eu andava com as bikes do Itaú "credo, você não tem vergonha?! Compra uma bicicleta em vez de ficar andando com essas coisas velhas, eu ía morrer de vergonha". Juro que ouvi essa frase. E andar de transporte público em Paris e NYC? Legal. Mas em SP é coisa de pobre. 

E repetir roupa em casamentos? Coisa de pobre, né gente... E é aí que a coisa andou me pegando esses dias. Vi umas três blogueiras comentando com certo desdém o fato da Kate Middleton ter usado um vestido repetido no casamento, que era displicente, que o evento "pedia mais". E é aí que eu pergunto: pedia mais por que? Pedia nada. A ocasião pedia que Kate estivesse bem vestida e elegante, e isso ela estava. Period. Todo o resto é coisa da nossa cabeça que acha que a vida é "o diabo veste Prada" e que todo mundo tem que andar por aí numa montação escandalosa e inédita todo dia.

Alias, digo mais: o advento das blogueiras de moda e lifestyle, do instagram catapultou a classe média brasileira para Marte. Porque a viagem que o povo anda vivendo é coisa de outro mundo. Vejo a galera pirando nos looks do dia, indo montada até na padaria. Vejo umas festas de criança que mais parecem bodas de ouro da minha vó, de tanta flor e coisa e tal. Virou um delírio coletivo de tudo ter que ser tão lindo e ryco e instagramável como a vida da Lalá Rudge. Amiga minha cotou festa de quatro anos do filho, e saia nada por menos de 10 mil reais. OI?!?!?! Porque tem que ter buffet, tem que ter brinquedo, lembrancinha personalizada, tem que ter uma mesa esplendorosa, tem que ter tudo. E o que aconteceu com as decorações de cartolina que a mãe fazia em casa? Com as vizinhas enrolando brigadeiro na mão uma semana antes da festa? Coisa de pobre né. O que sei é que ando vendo nas redes festa de criança com trocas de roupas, em salões caros e fico aqui pensando... e errada mesmo é a princesa?!?! Cê jura? Num país em que metade da população vive com menos de um salário mínimo todo mundo acha ok gastar 10 mil em festinha, trocar de carro e de iphone todo ano, e ir em cada festa com um vestido novo?

E eu digo que é delírio coletivo, porque é facinho pra você ir caindo nessa também, não to aqui pagando de superior não. Eu já comprei muito vestido de festa que, analisando friamente, não precisava não. Mas também já botei muitas vezes o pé no freio pra entender qual é a minha realidade, e qual é a minha necessidade. Nunca que eu gastei dinheiro que não tinha pra sair bonita no instagram.

Agora quão paradoxal é você andar nas ruas da Suíça, e ver que o povo não tem carro porque prefere andar de transporte público? E que a galera faz uma farofa nervosa por onde passa? Levam sanduíche, fruta e o escambau pra montanha, nos passeios, pra praia, e pra onde mais forem? Alias, o povo come marmita onde der vontade de comer. No ônibus, na rua, e se não tiver plaquinha proibindo, come marmita até em mesa de restaurante rs... Vai dizer o que? Que é coisa de pobre? Pois é. Com esse post, além de reclamar e desentalar essa irritação que estava presa na minha garganta hehe, eu também quero deixar essa pergunta no ar: e vocês, o que acham mais elegante, heim? Lady Kate repetindo vestido ou essa galera imprimindo riqueza, ostentando o que tem e o que não tem num país todo corroído pela pobreza? 

Deixo esse resmungo gigantesco por aqui. 

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