Quase todos os dias a noite, depois que meu filho dorme, eu olho as fotos que tirei dele no dia, ou volto a galeria lá atrás quando ele era muito pequeninho, ou um dia que ele fez algo engraçado, ou quando eu vesti ele de abóbora para o Halloween. Ele vai dormir, e eu finalmente tenho tempo pra não fazer nada, pra ficar de perna pra cima, e o meu fazer nada é ficar olhando pra ele rs.. a versão dele que dá pra olhar deitada de perna pra cima, que é a versão em foto e vídeo rs.
Eu escuto muitas pessoas falando que a melhor parte da maternidade é o tal do maior amor do mundo, do amor incondicional e puro que só uma criança tem, amor amor amor. E, realmente, tem, sim, um amor avassalador. Eu tenho muita preguiça desse discurso de que só uma mãe conhece o verdadeiro amor, o maior amor do mundo e não sei o quê, e eu discordo, mas isso é assunto pra outro post.
O que eu queria mesmo falar é que pra mim, a melhor parte da maternidade é assistir o Dominic existir. Assistir, assim, de tão perto, um ser humano se desenvolver, desabrochar, aprender, é algo para o qual eu não estava preparada. A gente sabe que a criança vai aprender a andar, a falar, a se expressar... e mesmo assim, quando o processo começa a se desenrolar na frente dos seus olhos, naquela criança que saiu das duas entranhas, é mágico, e é deslumbrante. Dominic, com um ano e cinco meses, está com o cérebro em franca expansão. Todos os dias eu fico embasbacada ao perceber novos aprendizados, palavras, habilidades, um olhar atento pra algo. E enquanto estava deitada vendo um jogo xoxo da Copa, intercalando entre olhar a tv e olhar a carinha dele no meu telefone, me deu vontade de vir aqui falar sobre a minha maternidade.
Eu falei aqui sobre os primeiros seis meses, num momento em que eu estava começando a relaxar, a me encontrar como mãe. Embora eu tenha amado meu bebê desde que soube que ele estava na minha barriga, e tenha sentido esse sentimento superlativo, doido, imenso, no momento em que ouvi o choro dele, eu não me senti mãe desde o começo não. Mas me sentindo ou não, eu virei mãe, a mãe do Dominic.
E eu lembro que, ainda grávida, eu pensava muito, manifestava muito, que eu queria viver uma maternidade leve. Eu queria não deixar meus medos, meus traumas, dominarem a forma como eu me relacionava com meu filho e o apresentava para o mundo. Mas ali, naquelas primeiras semanas e meses, eu já caí do cavalo porque foi tudo menos leve rs. Eu tive um baby blues pesadíssimo, muito perto de virar uma depressão. Eu me sentia amedrontada, quase paralisada, incapaz de cuidar do meu filho e de entender suas necessidades. O meu estado de absoluto alerta, as dores pós cesária, a cesária em si, impactaram a minha amamentação, e eu entrei numa pira que durou até outro dia aí rs. E ai eu lembrava que eu queria viver isso tudo com leveza, e sentia mais ainda o peso de estar completamente enlouquecida, chorava mais, uma bola de neve.
Eu não sei exatamente quando a chavinha virou, mas num dado momento, acho que quando ele deixou de ser um recém nascido, eu percebi que eu estava mais tranquila. O bebê começa a dar risada, olhar pra você como quem te vê, e eu comecei a curtir a companhia do meu filho, em vez de me sentir intimidada por ele. Também comecei a colocar muitas coisas mais em perspectiva, e aquele medo de estragar a criança pra sempre foi se dissipando... Comecei a pensar mais na relatividade de tudo, e entender que, quando você ta no olho do furacão, dormir mal por noites a fio é terrível, mas um dia você acorda e lá tem um pré adolescente na sua casa rs. Simplesmente resolvi aceitar que meu filho gostava de canguru e andei por essa cidade inteira com ele. Com a volta ao trabalho, desencanei total de tentar devolver ele pro berço depois de acordar de madrugada, levava pra minha cama e pronto. Aliás, desencanei também da consultoria do sono que eu tinha pago quando a gente tava sofrendo com uma dessas regressões do sono. Comecei a ouvir mais os meus instintos, fazer do jeito que eu queria, e dar com os burros n´agua por idéias minhas e não idéias dos outros rs.
E assim tem sido desde então. E não, não é um mar de rosas. Muitas vezes eu me pego ali no meio do caos e fico com vontade de arrancar a calcinha pela cabeça. Mas sempre acontece alguma coisa que me faz dar risada e aproveitar o momento. Outro dia fui com meus pais para Madrid. Marido se juntou, mas chegou depois da gente e voltou antes. E por isso a função aeroporto, voo e afins foi nas minhas costas. O menino tocou o zaralho no avião, daquele jeito andando pra cima e pra baixo, querendo puxar o cabelo dos passageiro da frente, cuspindo a comida, querendo fugir do cinto de segurança na hora da turbulência, e eu ali, entre suor e lágrima, pensando o que que eu fiz da minha vida, o que eu to fazendo aqui, socorroooooo, eu nunca mais vou voar com essa criança. Mas a gente chega onde tem que chegar, vê esses olhinhos se ajustando a tudo, dando conta do mundo em torno de si, e você logo pensa: o que são horas de perrengue diante de dias de alegria?
E quando eu penso na minha maternidade no momento, ela é 100% baseada em perspectiva. Ontem fomos jantar fora. Eu tava precisando de ar, precisando sentir que a vida não é só casa-trabalho-casa. Queria comer tacos, tomar uma cerveja, fomos num restaurante mexicano, e não tinha nada pro menino comer. Não aceitou nada do que a gente ofereceu, e jantou um pote de batata frita. E eu fiquei só pensando.. p e r s p e c t i v a. O menino come super bem, arroz, feijão, proteína e legume todo dia rs. Ele nunca nem tinha comido batata frita. Ele amou. Não é lindo? hahaha.. se em algum momento eu perceber que a vida dele é comer batata frita, aí a gente se preocupa. Mas eu comi meu taco, tomei minha cerveja, pintei inúmeros desenhos, e vim embora feliz. Ontem foi ontem, e hoje é um novo dia, cheio de comida saudável pela frente rs.
E isso também serve para aquele eu que ficou meio perdido pós-maternidade. Eu me lembro que no auge do puerpério, eu me sentia completamente desconectada de mim mesma. Eu repetia pro meu marido: parece que eu to suspensa no ar, olhando a minha vida sendo revirada, e sem poder nenhum sobre ela. Passadas as primeiras semanas, eu tava menos apocalíptica, mas ainda me sentia perdida. Lembro da primeira vez que saí de casa, por 3 horas, sem o Dominic, quando ele tinha 2 meses e meio. Fui numa despedida de colegas que saíram do trabalho. Enquanto eu estava lá, eu tomei uma tacinha de vinho, conversei com pessoas, lembrei de quem eu era, senti um alívio e uma saudade. Mas assim que eu tomei o rumo de casa, fui me enchendo de culpa, me sentindo uma pessoa horrível por ter saído sem ele. Veio um choro descompensado e, quando me dei conta, eu estava correndo pelas ruas, desesperada pra chegar em casa. Uma grande viagem na maionese.
Com o tempo passando, voltar a ter vida fora de casa, voltar a ter afazeres além do meu papel de cuidado foi voltando a ser normal, e eu fui me acostumando. As vezes sinto mais falta da liberdade de simplesmente sair por aí sem lenço nem documento nem um carrinho e uma sacola de tralha, sem hora pra voltar, sem pensar na rotina, no sono, no que será a manhã seguinte. E as vezes nada disso me faz falta nenhuma. Eu acordo de manhã e fico ali brincando com ele, olhando a carinha dele e pensando como esse tempo, em que ele é tão pequeno, tão dependente, tão meu, é curto, é passageiro. E como talvez a minha mãe deve lembrar de quando eu era igualzinha a ele, e pensar que num piscar de olhos estou aqui.. com 40 anos, com minha família, com a minha vida, e tão longe dela. E eu tenho vontade de congelar esse tempo, e aproveitar muito o meu menino.
E esse entendimento de que nada é definitivo, que nada é pra sempre, tem me dado muita tranquilidade pra ir navegando as noites difíceis quando tem dente nascendo, as birras, as crises, os saltos de desenvolvimento, e também as coisas que ficaram mais difíceis e complicadas, como uma saída a noite. E hoje, entre momentos felizes, momentos de culpa, e tantos momentos, eu me sinto vivendo a tal maternidade leve que eu tanto quis. É pra sempre? Não sei. To aqui, vivendo um dia depois do outro, apreciando toda a beleza do caos que existe neles.
Abraçando o caos pra viver os bons momentos <3




nossa, é isso. sem tirar, nem por. é doido como, mesmo cada uma vivendo a sua maternidade, dentro da sua realidade. a gente também se vê muito na maternidade do outro, nesses momentos de desabafo, reflexão, contemplação ou até apenas registros das realidades do momento.
ResponderExcluirOs desafios são mto semelhantes, mas a forma de lidar com eles varia bastante - e é sempre aconchegante ver essas similaridades, ver que o que ta acontecendo dentro da nossa casa e dentro da gente “é normal”.
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