Uma fenda no tempo


Uma fenda no tempo. Um buraco no espaço. É assim que eu enxergo as últimas semanas de 2024 e as primeiras de 2025, sem sombra de dúvidas, as mais especiais da minha vida. Parece que o mundo em torno de nós parou de girar, e a gente entrou numa bolha, num universo paralelo.


No dia 19 de dezembro eu tive uma consulta, e como já estava lidando com muitos desconfortos, tendo dificuldade pra ficar sentada muito tempo em frente ao computador, e ainda de quebra lutando contra uma sinusite brava e sem ajuda de remédios, minha médica acabou me dando uma licença médica. Foi assim que eu encerrei o meu ano profissional e entrei no que seria já a minha licença maternidade. Marido estava de férias, e nessas semanas que se passaram nós curtimos a nossa casa e companhia.


 Passamos o fim de ano aqui, e aproveitamos para, aos poucos ir nos despedindo da vida como conhecemos. Muita gente acha que filhos acabam com a vida, e eu acho isso bem fatalista rs. Mas a chegada de um filho realmente muda tudo, e a vida não será mesmo como antes. Tudo que se vivia ainda poderá ser vivido, mas de formas diferentes. E conscientes disso, a gente aproveitou pra fazer algumas coisas que talvez demore pra gente voltar a fazer juntos, de forma tão descomplicada. Nessas 3 semanas nós dormimos até tarde, vimos um ballet na Opera de Zurich, passamos alguns dias ensolarados nas montanhas, aproveitamos tudo num tempo bem devagar, e principalmente, nos curtimos muito. Também passamos as festas com amigos queridos, e foi tudo muito íntimo, aconchegante e feliz.










No dia 7 de janeiro fui a minha médica, e nosso bebê ainda encontrava-se sentadinho no meu útero, inviabilizando um parto normal. Marcamos a cesária pro dia 9, mas sabendo da minha vontade de tentar o normal, minha médica sugeriu que ao darmos entrada na maternidade, que seguissemos para um último ultrassom antes de ir pra cirurgia... vai que o baby resolvia nos surpreender no último minuto. Na quarta, sentindo sua cabeça ainda no alto da barriga, eu sabia que ele não tinha virado. Levamos Carlito pra creche, e saímos num date night, sabendo que provavelmente foi o último em um bom tempo.  Eu e marido nos arrumamos, fomos num restaurante animado que gostamos, comemos bem, e depois fomos pegar um cineminha. Além de estar ali curtindo muito um ao outro, a gente não parava de falar e pensar.. amanhã a essa hora a gente vai ter um filho. Voltamos andando pra casa, tarde da noite, conversando, e eu me senti muito feliz. 

No horário marcado na quinta nós chegamos na maternidade, e depois de confirmar no ultrassom que ele seguia sentado, ficou confirmado que ele nasceria em poucas horas. Nas duas horas entre dar entrada no hospital e ir pra cirurgia, eu pensei muito em tudo que vivemos, como casal, até chegar ali. Não só nos bebês que não pudemos conhecer, mas nesses mais de 10 anos de parceria, em todas as coisas que fizemos, histórias que criamos, e principalmente, decisões que tomamos, para que no dia 9 de janeiro de 2025 a gente estivesse olhando pra cidade de Zurich e pensando que aqui a gente vai ter e criar o nosso filho. Eu já saí pra cirurgia já muito emocionada, com Matt empurrando a minha maca. 


Não vou fazer relato de parto aqui, porque parto no fim é sempre meio igual, e só é especial pra quem vive. Mas eu fui muito bem acolhida pela equipe, pela minha médica maravilhosa, que me fez carinho enquanto eu levava anestesia, e apesar da cesária não ser lá uma via de parto muito poética rs, eu sempre lembrarei da minha com muito carinho. Eu jamais esquecerei o momento em que eu ouvi o choro do meu filho, a emoção de saber que ele tava bem, que ele era meu, que ele chegou. É uma lembrança que desde então vem a minha cabeça ao menos uma vez ao dia... eu lembro do choro dele, tão urgente, tão alto, e do alívio que senti. A impressão que tenho é que só ali todos os meus medos e traumas finalmente cederam, e eu senti uma paz sem fim, me senti curada de tantas dores. 


Por duas semanas ficamos nos alimentamos de nós mesmos, vivendo inúmeras primeiras vezes, nos conhecendo, e praticamente incomunicáveis com o mundo lá fora. Aqui dentro só nos três existíamos. Eu com a cabeça 100% tomada pela neblina do puerpério, vivendo um turbilhão emocional, consegui ver a beleza desses dias, e sentir um amor imenso não só pelo meu filho, mas pelo meu marido, por esse momento. Eu lembro de querer absorver cada minutinho e os repeti na minha cabeça com a intenção de nunca esquecer nenhum detalhe. Examinei cada centímetro do corpinho do Dominic, ficava horas cheirando ele, tentando memorizar aquele cheirinho de recém nascido. Eu também morria de medo de furar a bolha, de sair de casa e ver que o mundo seguia não tão mágico quanto esses dias aqui dentro. Eu nunca, NUNCA, imaginei viver algo assim, tão profundo, tão bonito, e tão sofrido, tudo ao mesmo tempo. Profundo por tudo isso que já falei, pela potência de gerar uma vida, de ver o amor transbordar e se concretizar num novo ser humano, e bonito por ver o início de uma pessoa, e a transformação da minha existência. Mas sofrido porque transformar a minha existência significou constatar uma sequência de lutos, os quais estou elaborando até agora. 


Ao fim dessas duas semanas, meu marido voltou ao trabalho, e a nossa bolha se furou. A vida foi entrando no novo normal, e como ouvi tanto falar, os dias passaram devagar, mas as semanas passaram muito depressa. Hoje, quase 3 meses depois, parece que essas semanas ficaram em outra vida. Mas foram as mais lindas que já vivi. 







9 comentários:

  1. Ah, que lindo o relato, que bonito viver tudo isso <3

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  2. Gabi, venho aqui a muito tempo, você ainda morava em São Paulo. Passei um tempo sem vir e quando voltei te encontrei grávida. Você não sabe, mas seu blog teve uma importância grande na minha vida: me apaixonei por Berna e até tentei um trabalho lá inspirada pelo seu relato tão positivo da cidade. O trabalho no final das contas não deu certo, mas foi um percurso importante que começou com o seu blog. Lendo seu relato do puerpério encheu meus olhos de lágrimas e eu fico tão feliz por você e pelo que você está vivendo que nem sei! Acho tudo isso muito doido, a gente nunca se viu, trocamos alguns comentários aqui e eu só sei aquilo que você compartilha aqui, mas de uma certa forma existe uma conexão, porque afinal de contas você fala da experiência humana que é universal. Com um toque da sua simpatia e positividade que contagia e inspira. Obrigada por isso. Sei que você escreve mais pra você e ter leitores é uma consequência disso, mas saiba que o que você faz aqui de uma certa forma toca gente por aí, de um jeito muito positivo. Desejo pra vocês toda a felicidade do mundo! E da próxima vez que vier ao norte da Itália mande sinais de fumaça! Auguri!! ❤️

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    1. Menina, seu comentario me deixou muito pensativa, e fiquei feliz. Obrigada pela companhia por aqui ao longo desses anos, por compartilhar essa experiencia com Berna, e pelos desejos tao belos!

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  3. Que bonito, Gabi. Fico muito feliz por voce. Que a bolha fure e que o que estiver dentro dela contamine o mundo (em vez do contrario).

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  4. Gabi, já falei tudo mais diretamente, mas queria deixar registrado aqui como amei esse post, como ele me encheu de amor, e como tô feliz por vocês terem curtido esses últimos dias como casal e agora os primeiros meses com esse neném lindo! Essas fotos transbordam amor. Muita felicidade pra vocês e espero que possamos marcar um playdate pros pimpolhos em breve!

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    1. Muito obrigada pelo carinho conosco, sempre <3
      E sim, quero muito levar esse menino pra conhecer a Irlanda, e ai eles vao brincar!

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  5. Amei saber que vocês decidiram aproveitar ao máximo esses últimos momentos juntos apenas como um casal. Tenho certeza que foram momentos muito especiais. Assim como os primeiros dias de vida com o Dominic tb foram. Me identifiquei demais com você tentando memorizar o cheirinho dele de recém nascido. Eu faço isso direto com as minhas gatas pq sei que um dia elas não estarão mais comigo e tenho consciência que esse dia está cada vez mais próximo. São esses momentos que fazem a vida valer a pena neh?

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