Porque juntos somos (mais) fortes

Eu achei que esse dia nunca chegaria. As pessoas no Brasil sempre tiveram mania de achar que discutir política é causar desconforto. Ficavam naquelas de que política, futebol e religião não se discute. Só que essa máxima tem um probleminha: a sua religião é problema seu, o time para o qual você torce, também. Já a política é um problema de todos. É meu, é seu, e precisa ser discutida sim. 

O brasileiro também é conhecido por seu um povo acomodado, não se mexer por nada e é lindo ver uma nação entender que de R$0,20 em R$0,20, engoliu muito desaforo. 



E é por isso que hoje foi um dia histórico, que valeu viver para ver! E por isso também que espero que isso não acabe aqui. O que aconteceu hoje foi uma mostra do nosso poder, de como podemos nos unir, exigir respeito, cobrar nossos direitos, sermos um povo melhor e desejar (e ter) governantes melhores. Eu realmente desejo que essa ânsia do brasileiro por justiça social, por dignidade, por uma vida e um país melhor não acabe, não passe, não descanse. Eu desejo que em outubro do ano que vem, ela esteja mais forte do que nunca!

*ouvindo Patti Smith, People have the Power

As palavras que me faltam sobram aos outros

Eu sempre gostei de escrever, mas isso não significa que escrevo bem. Fui uma criança que tinha uma certa facilidade com para me expressar, e embora tenha seguido uma carreira inclinada à explorar isso, sinto que cada vez mais estou perdendo a habilidade com as palavras. Volta e meia me pego pensando em alguma situação, alguma coisa, que eu não consigo explicar. Fico consumida. E é muito bom quando você encontra alguém que consegue descrever aquilo com perfeição. Da até um alivio: há...não estou sozinha!!

Pois bem. A conversa toda é porque eu achei um texto em um blog de uma pessoa que não conheço, primeira visita, que traduziu perfeitamente uma sensação que toma minha cabeça em certas situações. 
A Carmem Guerreiro tirou palavra por palavra da minha mente (e certamente, não só da minha, mas de um monte de gente) e fez um texto claríssimo e sem afetação, o qual eu vou replicar aqui, pra abreviar o assunto:

"A arrogância segundo os medíocres
“Adorei o seu sapato”, disse uma amiga para mim certa vez.
“Legal, né? Eu comprei em uma feira de artesanato na Colômbia, achei super legal também”, eu respondi, de fato empolgada porque eu também adorava o sapato. Foi o suficiente para causar reticências  quase visíveis nela e no namorado e, se não fosse chato demais, eles teriam dado uma risadinha e rolariam os olhos um para o outro, como quem diz “que metida”. Mas para meia-entendedora que sou, o “ah…” que ela respondeu bastou.
Incrível é que posso afirmar com toda convicção que, se tivesse comprado aquele sapato em um camelô da 25 de março, eu responderia com a mesma empolgação “Legal, né? Achei lá na 25!”. Só que aí sim eu teria uma reação positiva, porque comprar na 25 “pode”.
Experiências como essa fazem com que eu mantenha minhas viagens em 13 países, minha fluência em francês e meus conhecimentos sobre temas do meu interesse (linguística, mitologia, gastronomia etc) praticamente para mim mesma e, em doses homeopáticas, comente entre meu restrito círculo familiar e de amigos (aquele que a gente conta nos dedos das mãos).
Essa censura intelectual me deixa irritada. Isso porque a mediocridade faz com que muitos torçam o nariz para tudo aquilo que não conhecem, mas que socialmente é considerado algo de um nível de cultura e poder aquisitivo superior. E assim você vira um arrogante. Te repudiam pelo simples fato de você mencionar algo que tem uma tarja invisível de “coisa de gente fresca”.
Não importa que ele pague R$ 30 mil em um carro zero, enquanto você dirige um carro de mais 15 anos e viaja durante um mês a cada dois anos para o exterior gastando R$ 5 mil (dinheiro que você, que não quer um carro zero, juntou com o seu trabalho enquanto ele pagava parcelas de mil reais ao mês). Não importa que você conheça uma palavra em outra língua que expressa muito melhor o que você quer falar. Você não pode mencioná-la de jeito nenhum! Mas ele escreve errado o português, troca “c” por “ç”, “s” por “z” e tudo bem.
Não pode falar que não gosta de novela ou de Big Brother, senão você é chato. Não pode fazer referência a livro nenhum, ou falar que foi em um concerto de música clássica, ou você é esnobe. Não ouso sequer mencionar meus amigos estrangeiros, correndo o risco de apedrejamento.
Pagar R$200 em uma aula de francês não pode. Mas pagar mais em uma academia, sem problemas. Se eu como aspargos e queijo brie, sou “chique”. Mas se gasto os mesmos R$ 20 (que compra os dois ingredientes citados) em um lanche do Mc Donald’s, aí tudo bem. Se desembolso R$100 em uma roupa ou acessório que gosto muito, sou uma riquinha consumista. Mas gastar R$100 no salão de cabeleireiro do bairro pra ter alguém refazendo sua chapinha é considerado normal. Gastar de R$30 a R$50 em vinho (seco, ainda por cima) é um absurdo. Mas R$80 em um abadá, ou em cerveja ruim na balada, ou em uma festa open bar… Tranquilo!
Meu ponto é que as pessoas que mais exercem essa censura intelectual têm acesso às mesmas coisas que eu, mas escolhem outro estilo de vida. Que pode ser até mais caro do que o meu, mas que não tem a pecha de coisa de gente arrogante.
O dicionário Aulete define a palavra “arrogância” da seguinte forma:
1. Ação ou resultado de atribui a si mesmo prerrogativa(s), direito(s), qualidade(s) etc.
2. Qualidade de arrogante, de quem se pretende superior ou melhor e o manifesta em atitudes de desprezo aos outros, de empáfia, de insolência etc.
3. Atitude, comportamento prepotente de quem se considera superior em relação aos outros; INSOLÊNCIA: “…e atirou-lhe com arrogância o troco sobre o balcão.” (José de Alencar, A viuvinha))
4. Ação desrespeitosa, que revela empáfia, insolência, desrespeito: Suas arrogâncias ultrapassam todo limite.

Pois bem. Ser arrogante é, então, atribuir-se qualidades que fazem com que você se ache superior aos outros. Mas a grande questão é que em nenhum momento coloco que meus interesses por línguas estrangeiras, viagens, design, gastronomia e cultura alternativa são mais relevantes do que outros. Ou pior: que me fazem alguém melhor que os outros. São os outros que se colocam abaixo de mim por não ter os mesmos interesses, taxar esses interesses de “coisa de grã-fino” (sim, ainda usam esse termo) e achar que vivem em um universo dos “pobres legais”, ainda que tenham o mesmo salário que eu. E o pior é que vivem, mesmo: no universo da pobreza de espírito."

E eu nunca mais vou precisar tentar entender o que está se passando na minha cabeça quando alguns olhinhos rolarem por aí. 

Aquela Árvore

Uma das coisas que eu mais gosto de fazer é ficar xeretando pela internet, procurando gente interessante. Porque sim, tem muita gente criativa por aí. E essas pessoas fazem os meus dias mais felizes! Eu queria muito ser criativa assim, e olhar para algo tão banal, aparentemente tão trivial, e fazer parecer tão único. Acho que isso é um dom. 



Pois bem, o criativo que alegrou meu dia foi o Mark Hirsch, um fotógrafo de Iowa, que como todo fotógrafo profissional, não achou que a câmera do iPhone fosse lá grandes coisas. Mas aí ele fotografou Aquela Árvore que estava no caminho de todo dia há 19 anos. A partir deste dia, Mark fotografou Aquela Árvore todos os dias, durante 1 ano, com seu iPhone. O resultado é dos mais lindos, e vai virar livro. O site vale - muito - a visita!

Mais gelo, por favor...

As últimas semanas estão sendo complicadas. Estou num momento de questionar minhas escolhas, de parar pra pensar se era isso mesmo que eu desejei quando pulei algumas ondas no meu maravilhoso ano novo. Esse tipo de sentimento é um saco...te põe pra baixo, é aquela deprê do inferno, você só consegue ver as coisas ruins, tudo fica ainda muito pior, e tira a vontade das coisas boas. To nessa bad há uns dias. 
E aí que esse friozinho no final de semana, essa pinta de chuva e tal, não estava me ajudando a tirar a nhaca.  Mas né, hoje é sábado, e eu tenho uma má reputação a zelar. Eu vou é tomar meus bons drinks, por minha botinha zebu pra arrasar, paquerar todos os hipsters barbudos que achar no meu caminho, e voltar pra casa com aquela sensação de guerra perdida pro cartão de crédito (e pra dignidade), mas ganha pra alma!

A desgraça vai começar nos ótimos Vaccines, e vai acabar onde e quando o corpo cansar, porque a vida pode ta uma bosta, mas sábado é sempre sábado, e merece um pouco da nossa dedicação.


She's up there somewhere now

Ontem foi o dia das mães e eu passei o meu dia inteirinho agarrada na minha.
Hoje, depois de chegar morta do trabalho, resolvi assistir um dos meus filmes favoritos, o excelente Adeus, Lenin!
Assisti a primeira vez em 2004, porque o professor do cursinho disse que era um filme que podia ajudar na Fuvest. Fiquei encantada: é um filme muito original, sagaz e fofo...muito fofo! Alguns anos depois eu assisti de novo, e achei ainda mais interessante, os diálogos e as sacadas muito inteligentes. E então eu fui pra Berlim.. e eu me apaixonei por Berlim. E me apaixonei ainda mais pelo filme, em ver Berlim tão linda nele, tão igual e tão diferente dele. E hoje, vendo pela vigésima vez, eu entendi porque eu amo tanto: porque o que move o filme, além de Berlim, é uma mãe. O amor de mãe. E o amor que mãe desperta. E é tão lindo ver tudo o que o Alex faz pela mãe dele, e como ele é feliz de fazer... Não tem jeito. Não importa da onde você vem, em que época viveu... alguns sentimentos, só a mãe da gente faz brotar.


Love is all we need

Nas minhas xeretâncias pela internet, hoje eu achei esse site lindo, The Battle We Didn´t Choose . Um marido, fotógrafo se eu entendi bem, que fotografou a batalha de sua mulher contra o câncer de mama. E que lutou junto. E amou...amou muito. E com o lencinho em punho, depois de muito chorar, eu realizei que é isso que eu quero pra mim: um amor que seja amor até o fim!


Redneck's heart

Quem me conhece sabe que a minha vida se divide em AW/DW: antes do Wisconsin, e depois do Wisconsin.


Essa mudança toda não se deve a esse pedaço vermelho no mapa em si, mas às pessoas que eu conheci lá, aos interesses que eu passei a ter, à forma de ver o mundo e as pessoas, enfim, à pessoa que eu me tornei lá. Até então, eu sabia que eu gostava de viajar, mas nunca tinha viajado muito propriamente dito, haha. Acho que eu viajava mais na maionese do que pelo mundo. Eu tinha saído há pouco tempo de Pariquera, e ainda era crua aqui em São Paulo... ainda não tinha conhecido as pessoas que de fato eram diferentes de mim, pensavam diferente, tinham sido criadas de outra forma.E cheguei no Wisconsin e conheci aquela gente toda. Americanos, eslovacos, peruanos, poloneses, ucranianos, jamaicanos, russos, chilenos, lituanos, etc... Eu fiz amigos do CAZAQUISTÃO. Além da adaptação à uma (não) cultura diferente e todo o processo de ficar sozinha pelo mundo.

E não interessa se esse crescimento todo poderia ter sido em qualquer outro lugar: na Flórida, na California, em Pequim, Roma ou no próprio Cazaquistão. Foi no Wisconsin. E é por isso que eu amo aquele lugar.

Desde que voltei, todo americano que eu encontro e conto que morei no WI me olha com cara de "WTF?!".  Eu sempre tento explicar, mas mal começo e já desanimo, porque nunca faz total sentido.

Mas toda vez que eu lembro dele, dos lagos, das maçãs, da minha casa, meus amigos, meu carro, os parques, baladas e histórias (felizes ou não), ainda que 6 anos depois, me da uma nostalgia, e aí eu penso: Wisconsin, ninguém precisa entender, mas eu quero que você, com tudo o que tem dentro, fique pra sempre no meu coração.

*Escrito ouvindo: Tame Impala

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