A primeira semana de abril foi o "Spring Break" de Mati, e resolvemos fazer uma viagem baratex por aqui. Barata porque o primeiro semestre é cheio dos feriados (Ski Week em fevereiro, Spring Break, Ascenção e Pentecostes em maio, etc), e ou mantém o modo econômico, ou não dá pra passear em todo feriado não. E embora a gente tenha uma lista de lugares para os quais queremos ir, no momento, é tudo decidido na base do preço. O que aparecer barato e for atrativo, vai. Só que pra esse Spring Break não apareceu nada barato... não apareceu um voo atrativo, um nada. Alias, foi pesquisando pra esse feriado que eu fiquei com tanta raiva que fiz
esse desabafo aqui. E diante do total de zero voos baratos, resolvemos fazer uma viagem por terra, e fechamos um roteiro Bern - Munich - Praga - Viena - Berna. Como tá tudo fresco na memória, achei legal fazer um post com preços e afins, pra ter uma noção de custos de uma viagem baixa renda com dignidade rs. Ou nem tanta dignidade assim, já que vou deixar pro fim a grande cagada que rolou ;)
Hospedagem
Começamos a planejar essa viagem no começo de março, ou seja, com um mês de antecedência o que é bem em cima da hora, se considerar que era época de Páscoa, o primeiro feriado primaveril na Europa. E por isso a maioria das opções mais em conta já estavam esgotadas. Um adendo: já passei dos 30, sou casada, não to mais em época de ficar em quarto compartilhado e afins. A gente tem zero frescura pra hospedagem, mas o mínimo é ter nosso espaço, nosso banheiro rs. Resolvemos então ficar mais afastados do centro, mas em locais com boas opções de transporte público, e devo dizer que foi uma ótima decisão. Em Munich e em Viena, que são cidades mais caras, pagamos 60 euros a diária. Em Praga 45. O valor que gastamos com transporte interno não seria suficiente para bancar acomodação no centro, e foi legal ver outras áreas das cidades. Os bairros em que nos hospedamos eram bem residenciais, bem locais, e bem mais em conta. Fica essa dica: vejam possibilidades que não são exatamente no centro da cidade, mas bem conectados por transporte público. No fim, mesmo as grandes cidades europeias, em geral, são pequenas comparadas com as brasileiras, e é possível ficar "afastado" do centro, mas chegar nele em 10, 15 minutos de tram/trem/metrô/ônibus.
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| Explorando os outros bairros de Praga |
Budget diário
Dessa vez fizemos um budget de 100 euros por dia, pro casal. Não sei se alguém considera isso muito ou pouco, mas vou dizer que no geral foi bem justo. Logo no primeiro dia a gente, que gosta bem duns bons drinks e petiscos, percebeu como de 4 euros em 4 euros a gente sempre acaba gastando muito com pequenas coisas. No geral tomamos um bom café da manhã todo dia, comemos um petisco no meio do dia, e jantamos legal. Visitamos o que queríamos, compramos uns souvenirs, e foi tudo bem. Acho que se não fosse uma viagem low cost esse budget teria ficado em torno de 150 por dia. Mas não fez mal nenhum policiar o número de cervejinhas do dia rs.
Transporte
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| No busão confortável da DB |
O trajeto de Berna pra Munich, por terra, demora entre 4 e 5 horas, tem algumas opções de ônibus e trem, e escolhemos o melhor horário, que não necessariamente era o mais barato de todos. Mas ainda assim, saiu 40 euros por pessoa com a Deutsche Bahn. De Munich para Praga tem várias opções de trem, ônibus e avião e acabamos indo com a FlixBus, famosa empresa de ônibus low cost da Europa. A viagem dura 5 horas, e custou 20 euros por pessoa, também saindo no horário que era mais conveniente pra nós (poderia ter saído mais barato em outros horários, e também mais caro). De Praga para Viena tem opções de ônibus e trem, e optamos por comprar o trem com a ÖBB, empresa austríaca de trem. A viagem é super fácil, sai da Central em Praga e chega na Central em Viena, durou 4 horas e custou 20 euros por pessoa (e recomendo muito. O trem é super confortável, tem wifi, espaçoso, enfim, bom). Por fim a volta pra casa. Não tinha muita opção bacana. Ou gastava (bem) mais e voltava de avião, ou amargava uma viagem de mais de 10 horas de trem ou ônibus. Diante do precinho convidativo, resolvemos fechar um ônibus noturno com a FlixBus. O ônibus saiu da estação central de Viena, numa viagem de mais ou menos DOZE horas até a rodoviária de Berna, e custou 65 euros por pessoa (contra mais ou menos 210 euros de avião até Zurich e trem para Berna).
E foi aí, meu caros, que a porca torceu o rabo. Viagem, seja ela rica ou pobre, está sempre sujeita a percalços. Países diferentes, lugares desconhecidos, planos que nem sempre dão certo, imprevistos, tudo isso pode acontecer. Mas quando você viaja "low cost", digamos que você pode ficar mais exposto a alguns riscos, porque tem que confiar em empresas que cortam custos, que não tem atendimento personalizado, afinal o baixo custo ta lá por um motivo, né? E o que aconteceu?
Aconteceu que chegamos na estação de Viena bem tranquilos para pegar nosso ônibus à meia noite. Já tínhamos feito um trajeto com a FlixBus e tinha sido bem agradável. Uma amiga minha fez dois trajetos noturnos longos com eles e também não reclamou de nada, então estávamos bem relax. Demos a bagagem e íamos entrar no ônibus para escolher os lugares (que não são marcados). Ao parar na porta, vi que Viena não era o ponto inicial do busão, mas ele vinha de Bucareste, numa viagem que tinha começado 15 horas antes. Já fiquei cabreira, porque imagina só a situação de um banheiro num busão desse? Rs.. Mas ok, respirei fundo e entrei. O andar debaixo do ônibus estava todo vazio, e então pegamos dois assentos. Nisso aparece o motorista e começa a mandar a gente pra cima, sem motivo nenhum. Mati foi olhar, não achou banco livre. O motorista não falava inglês, mas engrossou o tom, ordenando que a gente subisse. Eu ficava questionando em tudo que é língua "Porque?", "Warum?", "Why?", "Pourquoi?", e nada. O cara simplesmente com a cara fechada, apontando dedo, gritando pra subir, até que ele me empurrou, como que me mandando andar. Ai rapaz... eu saí do corpo: STOP FUCKING TOUCHING ME. DO NOT TOUCH ME. Ele entendeu do que eu tava falando e parou, mas nessa eu já estava bem louca do cy, na maior raiva. Ele subiu, tocou um cara que tava deitado num banco, e mandou a gente sentar lá. A hora que eu subi, deu vontade de morrer. Lá em cima o ar condicionado não dava conta, tava um fedor imenso da galera viajando há horas, comendo, bafejando e o escambau. E pior: era um bando de homem, tudo meio mal encarado, que estava olhando a gente (porque todo mundo me ouviu gritando), e enquanto seguíamos para o nosso banco, começou a fazer piada, falar alto, dar risada olhando pra gente, tudo em alguma língua que desconheço. Eu gelei. Fiquei apavorada. Muito medo. Sentei naquele bafo, no fedor, morta de medo, e me caiu a ficha da merda feita... não tinha o que fazer, pra onde ir. Não tinha a menor condição de dormir num lugar daquele. Comecei então a pesquisar trens saindo das próximas paradas, mas além de caros, no meu bilhete de ônibus estava dizendo que a saída no meio do trajeto não é permitida. Então também já imaginei que o motorista não iria devolver a nossa bagagem. O ônibus fez várias paradas rápidas, o que foi bom porque não precisei usar o banheiro dele. Me subia o sangue cada vez que eu descia a escada e via o andar debaixo completamente vazio, mas confesso que eu estava com medo do motorista, Mati idem, então deixamos quieto. Lá pelas 4h da manhã paramos na fronteira da Áustria com a Alemanha, e eu percebi que a macharada ficou agitada. A polícia mandou seguir sem entrar no ônibus. Mas quando chegou na entrada na Suíça, o ônibus foi parado, e na inspeção, deu pra ver que a agitação é porque eles estavam todos com história esquisita. Ficamos parados uma hora na fronteira, vários deles entrevistados, revistados, mas fomos liberados. Na parada em Zurich, percebemos que algumas pessoas que disseram pro guarda que estavam a caminho da França desceram. Ao chegar em Berna, só eu, Mateus e mais duas pessoas íamos descer. Éramos os primeiros na porta, e quando ela abre: POLÍCIA. A Polícia chegou chegando lá no busão, no maior esquema de apreensão de ilegais. Eles viram nossos documentos, nos liberaram, e fecharam a porta do ônibus com todo mundo que tava dentro. Não sei o que se passou depois, finalmente tínhamos chegado em casa.
Agora gente, me diz? Me diz que economia que vale uma merda dessa? Esse medo que passamos, o stress todo? Isso que eu estava com Mati. Imagina uma mulher sozinha numa situação dessas?! Eu nem sei qualé a desses caras, eles podem ser simplesmente pessoas normais buscando uma vida melhor, sei lá, mas é inevitável pensar merda, ainda mais quando eles começaram a falar alto e fazer piada, sério... gelou a minha espinha, porque eram coisa de uns 10, 12 caras, e sabendo que nem com o motorista (alias, muito menos com ele), poderia contar.
Enfim, nada mais grave aconteceu, tirando ter sido a minha pior experiência de trânsito em viagens. Foi uma lição, e eu confesso que depois dessa pensarei algumas vezes antes de me meter numa viagem longa de ônibus. Mas ainda assim, pra quem ta com um budget restrito, é uma opção sim. Acho que, no entanto, é válido observar algumas coisas: de onde sai o ônibus, quais as questões migratórias entre os países envolvidos no trajeto, estar acompanhado é uma boa, se possível reservar lugar.
No fim, apesar do desfecho meio bizarro, foi uma viagem bem bacana de nove dias, por três cidades lindíssimas, e com um custo bem legal. Em breve conto mais do que fizemos por lá!