Vejo aqui no Brasil uma idealização dos Estados Unidos. Desde que me dou por gente, o sonho do brasileiro é conhecer a Dinsey e Nova York. É gastar tubos em Best Buy, Victoria Secrets e Abercrombie. E todo mundo pensa que a vida por lá é só aquilo que vimos em seriados como Sex and the City, Barrados no Baile, etc. Em tempos de crise no Brasil, o que mais vejo é gente que não tem o menor conhecimento de como as coisas realmente são por lá, querendo fugir pra Miami. E tendo, no mesmo final de semana, visto algumas pessoas falando umas asneiras no fb, acabei vindo aqui dar meus pitacos.

Antes de começar, que fique claro que eu acho sim os EUA um lugar muito bom. Meu ponto é que vejo uma idealização, uma visão distorcida das coisas, como se os Estados Unidos fossem o paraíso onde tudo é lindo, tudo funciona, não existem problemas, e toda vez que faço contra pontos, vejo feições confusas. A maioria esmagadora das pessoas aqui realmente não faz a menor ideia de como é a vida -
e não as férias - em terras americanas. E não é que eu sei porque morei um tempinho lá. Tem sim a parte da minha vivência, tem o fato de eu estar na segunda empresa americana e ter que ficar explicando pra gringo o custo trabalhista no Brasil, mas tem também o fato de que eu sou curiosa. Na época que ficava
choramingando que queria sair do Brasil, pesquisei muito sobre lugares, e aprendi um monte. Aprendi que lugar perfeito não existe.
Mas vamos lá. Direitos trabalhistas quase inexistentes. Quando comento com amigos que não existe licença maternidade remunerada, férias remuneradas como regra, 13º salário, seguro desemprego, FGTS, o povo quase cai de costa. Mas é isso mesmo. A licença maternidade é via de regra 4 semanas, e não remunerada. São 4 semanas nas quais você "falta no trabalho", sem que o seu empregador te desconte algo ou te mande embora. Quanto às ferias, quem trabalha no esquema mensalista negocia as próprias férias e, normalmente, é coisa de 7, 10 dias úteis. Conforme você vai tendo mais tempo de casa, vai ganhando mais dias. Pra quem trabalha no esquema horista - como eu trabalhei - vale a máxima aprendida no Chapolin: Time is money. Quer ganhar bem? Trabalhe 80 horas por semana. Quer viajar no feriado? Viaje, mas não receba. Ta com diarréia? Call in sick. E não receba. Se for mandado embora, é isso aí... recebe o do período trabalhado, e boa sorte. Não tem multa, não tem rescisão. De novo, as coisas mudam um pouco caso você ocupe um cargo melhor numa empresa, que pode ter alguns benefícios.
E o sistema de saúde? Povo aqui xinga muito no SUS e diz que "nunca que nos EUA acontecia uma coisa dessas". Então amiga... Não existe saúde pública nos EUA. Ok, existe, mas ficaria corada de vergonha diante do nosso SUS. No geral, as pessoas tem um "seguro", que não é como nosso plano de saúde. Quase não existe isso de ir no hospital e não tirar um centavo do bolso. Você paga por utilização, e o seguro pode simplesmente resolver não cobrir seu atendimento. To com uma conhecida que teve um princípio de AVC, mas o seguro achou que como foi só princípio, ela não deveria ter ficado 3 dias internadas. Resumindo, não quer pagar a conta de 30 mil dolares. Se você sofrer um acidente, a ambulância vai te levar pra um hospital. Privado. E aí depois você vai ter que se virar. Minha ex vizinha sofreu um acidente lá, e ficou 2 anos em disputa judicial pra não pagar a conta de 180 mil dolares. Gastou uma grana menor com advogado e funcionou. Mas gastou.
Aposentadoria pública, vulgo nosso INSS, é outra coisa que o povo não sabe se é de comer ou de passar debaixo do braço. Só existe fundo de pensão privado. Uma das coisas que mais me cortou o coração nos EUA foi ver velhinhos, nos seus 80 anos, procurando emprego, porque caso não trabalhem, irão passar fome. Alias... A famosa profissão de Greeter do Walmart, tem coisa mais melancólica? Toda vez que eu entrava, eu tinha vontade de abraçar o senhorzinho, chorar, mandar ele pegar um avião pra Pariquera, sei lá. Eu acho digno que encontrem energia, que estejam dispostos, que consigam. Mas não é o sonho de todo mundo poder, ao menos na velhice, descansar? Ou trabalhar por opção? Afinal de contas, é maravilhoso que muita gente consiga se programar, ter uma pensão privada. Mas sabemos que a vida as vezes nos põe obstáculos. Pior que isso: alguém que teve problemas de saúde, que já comprometeu o orçamento da família e que deixou de receber salário por não estar apto a trabalhar, pelos motivos que já disse aqui, simplesmente não tem de onde tirar dinheiro. É a terra das oportunidades... Pra quem tem saúde.
De novo, digo: eu não acho um lugar ruim pra viver. Muito longe disso. Eu vivo com um americano aqui, e consideramos sim a hipótese de ir pros Estados Unidos. Como eu contei na minha saga do Wisconsin, eu me sentia muito segura. Eu sentia uma tranquilidade em termos de segurança que não tem nem comparação. E pra mim isso não tem preço. Além disso, tem educação, tem infra estrutura, tem muito trabalho pra quem quer e pode trabalhar. Mas acho que precisamos olhar pra todos os lados. Precisamos entender um troço que o americano diz: there is no free lunch. O american dream te dá vários benefícios, e te tira tantos outros. Precisamos saber das coisas, precisamos parar de achar que existe paraíso. O paraíso se chama férias, e ele dura alguns dias por ano.
Agora, gostaria de convidar os mais entendidos a enriquecer essa conversa.