Notas sobre o luto

Post escrito em 20 de junho de 2023

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Em setembro do ano passado fui pega de surpresa por uma gravidez. Eu nunca tinha me descuidado, já  comentei aqui que tenho endometriose, achei que demoraria pra engravidar se um dia tentasse, mas na primeira vez em que dei uma descuidada, aconteceu. A maternidade sempre esteve no horizonte, "daqui uns anos¨, algo pro futuro. Ver aquele positivo completamente inesperado foi um susto. Coincidentemente, no dia seguinte eu tinha minha consulta anual com a gineco, já agendada há meses, e depois de uma noite mal dormida, quando vi o feijãozinho lá no ultrassom, me emocionei e abracei a idéia com muito amor. Mas eu não preciso dizer que, 9 meses depois, eu não tenho um bebê aqui em casa, né? Pois é. Uma semana depois sofri a perda gestacional e vivi uma experiência devastadora. 


Hoje em dia tem se falado mais sobre o luto de vidas não vividas, e mesmo tendo lido a respeito, e ter muita empatia por amigas e familiares que passaram por isso, nada te prepara pra viver essa perda. Posso dizer que é a tristeza mais profunda que já tinha sentido na minha vida. É incrível o tanto de expectativa, o tanto de vida que a gente consegue imaginar em uma semana. O tanto de mudança no nosso corpo que a gente sente, e o tanto de mudança que a gente vê no nosso futuro. E de repente, essa vida que nem começou, não vai mais existir. É um luto pelo futuro. Nenhum outro filho que você venha a ter vai ter o mesmo rostinho, vai ter a mesma personalidade, a mesma trajetória. Você nunca vai ver ou saber como essa vida teria sido. 


E depois de semanas de uma apatia horrível, de ter passado pelo processo de finalizar a gravidez mal sulcedida, que é doloroso física e emocionalmente, eu comecei a voltar à vida. E aos poucos esse assunto foi virando uma memória triste, um capítulo triste de uma vida feliz. Nunca deixei de pensar nessa vida que podia ter sido e não foi, mas aos poucos deixou de ser uma lembrança diária que acabava comigo, e virou algo sobre o que eu conseguia falar com tranquilidade, um pouco de quem sou eu. 


Depois de um tempo tivemos uma boa conversa: e aí, queremos filho mesmo? A gente chegou a vizualizar essa vida, é isso mesmo que a gente quer? Estamos prontos? Então bora. E resolvemos tentar com intenção. Nesse meio tempo, chegou maio, e a data prevista de parto daquela gravidez. A tristeza, que há muito tinha deixado de me dominar, voltou de uma forma diferente. A nostalgia de tudo que estaríamos vivendo nesse momento, as coisas que estávamos fazendo e que definitivamente não estaríamos se estivessemos prestes a receber um bebê. Eu falei de maio aqui... e apesar de toda essa nostalgia, foi um mês bom, um mês feliz. E mais: eu tinha uma certeza muito esquisita dentro de mim de que estava grávida. Eu não sou mística, não sou espiritual, sou bem adepta das coisas terrenas... mas lembro de acordar e sentir que o ciclo daquela gravidez perdida estava encerrado, e que algo novo estava nascendo dentro de mim. E estava. Entrei numa farmácia em Málaga, comprei um teste, e BINGO! Estava grávida.


Me senti muito feliz, muito sortuda, e com muito medo. Quem já passou por uma perda gestacional sabe o medo que vem junto com um novo positivo. A vontade de ser otimista, de pensar positivo, de acreditar que vai dar tudo certo, mas o medo de sofrer de novo, de não dar certo de novo, de mais uma vez entrar pras estatísticas. E dessa vez, numa gravidez planejanada e desejada. Passei uma semana bem fisicamente, mas dormindo mal, super ansiosa, até que num sábado a tarde, tive um sangramento leve. Eu fiquei até o último minuto tentando acreditar, tentando mentalizar, que era tudo normal, que dessa vez ia dar tudo certo. Mas não deu. Foi mais uma vez sob choque, no mesmo consultório, que a médica de emergência me informou que não havia uma gravidez no meu útero, embora o exame ainda fosse positivo. 


Saí de lá meio anestesiada, sem entender o que exatamente estava acontecendo no meu corpo. Dias depois, entendemos que estávamos diante de um provável caso de gravidez ectópica, fora do útero. Foram 12 dias monitorando para conseguir identificar onde estava o embrião, que é inviável nessas condições. 12 dias de uma tortura, de me saber grávida sem ter a perspectiva de ter um filho. Muita ansidade, incerteza, noites mal dormidas, e mais uma vez uma tristeza sem fim, mais uma vez esse luto pelo futuro que não vai existir. Mais uma vida que não vamos viver, mais um rostinho que não vamos conhecer. Os pensamentos que brotam na cabeça diante dessa segunda perda são inevitáveis: por que eu?? Por que comigo? Por que todo que mundo resolve ter filho, tem, e eu to aqui passando por isso DE NOVO? O que eu fiz de errado? E por mais que não tenha resposta, não tenha porquê, seja uma obra terrível do acaso e só, eu sigo refazendo essas perguntas todas na minha cabeça. 


A cirurgia pra retirada do embrião correu bem, não foi preciso retirar trompas, ovário, nada. Fui muito bem tratada e acolhida, tanto pelos médicos, como pela rede incrível que eu tenho a sorte de ter. Amiga que saiu pra almoçar comingo pra me distrair, e acabou segurando minha mão numa sala pré cirúrgica até o marido chegar. Amiga que cuidou do meu cachorro. Amigas que mesmo longe se fizeram presentes. Amiga que foi passar a manhã comigo no hospital. E meu marido, que não é rede, é um pouquinho de mim. Em meio aos seus sentimentos, me amparou, me cuidou, e foi meu chão, meu tudo mesmo. Num dado momento, só a presença física dele me acalmava, mais nada. 


Os dias entre a descoberta do problema e a cirurgia foram talvez os mais difíceis que já vivi. A cirurgia a princípio trouxe o alívio de uma resolução, de me tirar da situação de ser uma bomba relógio, que podia ir dormir e acordar no meio da noite morrendo de dor com o rompimento de uma trompa. Ter saído dela com meus orgãos intactos também foi reconfortante. Mas conforme os dias foram passando, e eu em casa, fraca, debilitada e cansada, a conta emocional voltou a ser cobrada. Mais uma vez o luto por um filho perdido me pegou de jeito. E o fato de ser o segundo só foi adicionando na balança. Fiquei pensando nas minhas vidas em universos alternativos, onde eu seria mãe de um, mãe de outro, coisas que nunca vou viver com nenhum desses dois indivíduos. Pensei tambem na minha idade, e quanto o tempo só faz ser cruel com as mulheres. Em abril de 2024 eu completaria meus 38 anos com um recém nascido no colo. Na minha inesgotavel juventude, com um medo eterno de gravidez na adolescência, fico pensando onde os anos foram parar... nunca me imaginei sendo mãe tão tarde na vida, mas também nunca tinha me imaginado mãe até menos de um ano atrás, quando fiquei de repente grávida. Uma pessoa da minha idade tem gestações geriátricas, uma palavra que eu não diria que me diz respeito nos próximos 30 anos.


Estou no momento lambendo as minhas feridas, que esse post desordenado mostra que são muitas. Há três anos faço acompanhamento com uma terapeuta, e ela ta sendo mais uma vez fundamental pra me manter com a cabeça acima do nível da água. Meu marido segue aqui, agarrado na minha mão, sendo meu colo, e tentando me lembrar que a gente já passou por muita coisa, e vai sair bem disso também. Em muitos momentos eu penso que eu nunca mais vou ser a mesma... E não vou mesmo. Eu nunca mais serei uma pessoa que não perdeu dois filhos. 


Quando essa neblina triste da uma limpada, eu até consigo olhar pro futuro com otimismo, um passo de cada vez. No fim de semana, se eu estiver bem, irei ver a Beyonce e embarcarei de férias pra California com a família, e isso no momento é o longo prazo que consigo enxergar. Eu não sei se algum dia vou publicar esse post, mas eu queria escrever, e eu escrevi. 


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Quando escrevi esse texto eu estava, até aquele momento, no auge da minha tristeza. Mal sabia que, meses depois, eu encararia minha terceira perda gestacional e, de longe, o período mais triste e obscuro pelo qual já passei. Eu fui derrubada não só pela perda do meu bebê, como também por ver arrasada toda possibilidade de ser otimista. Eu tinha certeza que eu tinha sofrido o suficiente, então dessa vez daria certo simplesmente por que não era possível que eu tivesse que passar por mais dor. Lembro de repetir ao meu marido: as gravidezes normalmente dão certo, gravidez É pra dar certo, quase todas dão, a gente deu azar, não vamos mais dar. Mas demos, e a imagem do nosso bebê, tão pequenino, paradinho dentro de mim, sem batimentos cardíacos, nunca mais vai sair da minha cabeça. Os meses que se seguiram foram muito difíceis e, mais uma vez, muito definidores de quem eu sou hoje, do que valorizo, de quem valorizo. 


Hoje estou gestando meu quarto filho. Uma gestação que vai tranquila, que tem corrido sem nenhum pormenor, se não fosse por todos os monstros dentro da minha cabeça. Tudo que me passei me privou de viver os primeiros meses da minha gravidez com a leveza que gostaria e que levo normalmente a minha vida, mas aos poucos fui relaxando. Ainda odeio os dias que antecedem consultas médicas, morro de ansiedade e medo do que vai aparecer no monitor do ultrassom. Aprendi a ver o batimento cardíaco nos primeiros segundos, e é então quando consigo relaxar e começar a curtir. 


Penso muito nos meus bebês que nunca conheci. Tenho amigos e conhecidos que tiveram filhos em datas próximas as que seriam minhas datas previstas de parto, e muitas vezes quando vejo essas crianças, ainda penso nas vidas paralelas que eu poderia estar vivendo. Penso também em tudo que vivemos nesses dois anos que tanto nos marcaram, e vejo momentos muito felizes, fizemos viagens e outras coisas que não faríamos com uma criança pequena, construímos memórias, e nos fortalecemos como pessoas e como casal. 


Desde que escrevi o post inicial, em junho de 2023, eu já voltei aqui inúmeras vezes. Nunca mexi nele, apenas corrigi erros de digitação que fui encontrando. Esse texto sempre me deixa triste, porque eu sempre constato que eu nunca mais vou ser uma pessoa que não passou por nada disso. Eu sei que finalmente vou conhecer meu filho, que vou pega-lo no colo e viver tudo que me foi negado tantas vezes, eu anseio demais por esse momento. Mas não deixo de pensar que, para vive-lo, tive que conhecer uma tristeza que preferia não ter conhecido, e me tornar alguém que eu preferia não ter me tornado. Eu nunca mais serei uma pessoa que não perdeu três filhos.

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