O que passou, e o que temos pela frente

Abril foi um mês bem estranho. Talvez o mais estranho da minha vida. Em março por quase metade do mês ainda estávamos sem saber do tamanho do buraco em que se enfiou a humanidade rs. Mas abril... parece até que coube um ano dentro de um mês. Além de passar por todos os estágios do luto pelo mundo como ele foi um dia, eu fiz aniversário, nós dirigimos de carro Suíça afora, curtimos muito nossa casa que amamos tanto, eu trabalhei que nem uma doida, e senti saudade da vida normal como a conhecíamos. Mas em momento algum deixei de me sentir grata por, nesse momento tão difícil, ter saúde, ter emprego, ter uma casa aconchegante pra morar, estar num país onde foi possível manter alguma liberdade, e mais do que nunca, reconheci meus privilégios. Abril foi um mês que talvez tenha me mudado pra sempre... 
Churrasco de aniversário na varanda
E aquela festinha online maravilhosa!
Fim do dia no lago de Biel
E sábado de Páscoa fazendo social distancing no Lago de Genebra, em Nyon
A fofíssima Solothurn
E as coisas lindas do bairro que vai deixar muita saudade

Mas eis que maio chegou e junto com ele, a proximidade cada vez maior do tal "new normal". O governo suíço começou o plano de reabertura gradual, e no dia 11 de maio muitas coisas vão abrir, inclusive restaurantes, museus, etc. Tudo, claro, com regras de higiene e distanciamento. Na empresa em que trabalho, no entanto, eles não estão com pressa para voltar ao escritório, e não há previsão de voltarmos pelo menos até julho. Apesar de sentir saudades do contato humano, das interações e tal, agora que me adaptei BEM adaptada a trabalhar de casa todos os dias, não to com pressa também. 

Estou amando viver minha casa linda em sua plenitude, e ainda mais, poder pedalar e curtir Berna na luz do dia, sem ter que gastar horas do meu dia em transporte, e aos poucos, ir me despedindo dessa cidade que foi nossa primeira morada na Suíça, e que nos acolheu tão bem. Mais do que isso: Berna me fez viver a vida suíça com muito mais intensidade, e sem dúvidas, me integrei muito mais ao país por estar vivendo aqui. Tínhamos viagens programadas para esse mês, e foi tudo devidamente cancelado, mas eu nem liguei muito. Esse mês será de organizar a mudança, fazer aquele exercício cansativo e necessário de olhar pra cara de tudo que acumulamos desde a última mudança, ver o que precisa ficar, doar o que deve ser doado, vender o que deve ser vendido, empacotar tudo que vai, e no dia 30 de maio, levantar acampamento. 

Sinto que maio será o mês dos recomeços. Que seja bom pra vocês! 

Cycle Chic

Eu nasci e cresci em Pariquera-Açu, interior de SP. Lá, ter uma bicicleta é (ou era, no meu tempo), ter liberdade. Bicicleta era um meio de locomoção como outro qualquer, e eu vivia em cima da minha: pra ir brincar na casa de amigos, ir às aulas de jazz, inglês, kumon, piano, ir ao mercado, ir pra todo lugar. Então quando me mudei pra SP e fazer tudo de bicicleta não era possível, eu meio que esqueci dela. E eu nunca me animava quando amigas me chamavam pra "andar de bicicleta no parque". Sei lá, pra mim andar de bicicleta nunca foi uma atividade em si. Era pra me levar do ponto A ao B. E justamente por isso, pra mim nunca existiu isso de usar roupa de ciclista. Simplesmente porque, sendo a bike um meio de transporte, eu me vestia para onde estava indo, e a bike era só o veículo. 

Corta pra 2012. Eu já estava andando com as bikes do Itaú nos finais de semana, para ir no cinema na Paulista, encontrar amigos em Moema. Um dia eu estava na ciclovia da Faria Lima, de saia e rasteira. Passou uma ciclista toda paramentada e num semáforo vermelho que estávamos as duas paradas ela me deu um pito: você não está vestida direito, se sofrer um acidente se machuca toda. E eu só mandei ela cuidar da vida dela e fui embora pensando será que agora só é possível pedalar pronto pra participar de corrida olímpica? Eis que um belo dia, andando pela Livriaria da Vila, eu me deparei com um livro de fotografias: Cycle Chic. 

Comprei na hora, voltei pra casa e fui atrás do blog. Devorei o livro, o blog, e tudo mais em poucas horas: eu tinha achado minha turma, e tava empolgadíssima rs. O movimento "Cycle Chic" foi fundado por um dinamarquês em 2008, falando exatamente isso, sobre como a bicicleta é o veículo. Eles tinham até um manifesto (!!!):

- I choose to cycle chic and, at every opportunity, I will choose Style over Speed.

- I embrace my responsibility to contribute visually to a more aesthetically pleasing urban landscape.

- I am aware that my mere presence in said urban landscape will inspire others without me being labelled as a 'bicycle activist'.

- I will ride with grace, elegance and dignity.

- I will choose a bicycle that reflects my personality and style.

- I will, however, regard my bicycle as transport and as a mere supplement to my own personal style. Allowing my bike to upstage me is unacceptable.

- I will endeavor to ensure that the total value of my clothes always exceeds that of my bicycle.

- I will accessorize in accordance with the standards of a bicycle culture and acquire, where possible, a chain guard, kickstand, skirt guard, fenders, bell and basket.

- I will respect the traffic laws.

- I will refrain from wearing and owning any form of 'cycle wear'. 

Alguns desses itens eu acho meio engraçados (e entendo também que em algumas cidades tem regras que demandam uma outra postura), mas eu me identifiquei demais com o 6o item: eu vou considerar a minha bicicleta meio meio de transporte e um suplemento ao meu estilo. Enquanto eu lia o livro, e via as cidades em que eles fotografaram, é claro que eu lembrei que as grandes metrópoles brasileiras não são receptivas para com bicicleta e o ciclista. Acho que tinha uma ou duas fotos na orla do Rio, e só. Mas mesmo assim, lembro que desde aquele dia, eu voltei a me sentir menos ET quando andava de bike com SP de saia, e até salto rs. 
De saia e na bicicletinha, indo pro encontro das migues
Desde que mudamos pra Suíça, a bicicleta voltou com tudo pra minha vida. Eu uso a bicicleta como meio de transporte mesmo, e inclusive por três anos aqui, nós nem tivemos carro. Além de ir pra escola, pra casa de amigos, pra bares, happy hours, pra balada, já até carreguei móveis na bicicleta. Verão passado levei uma bike pra Zurich, e comecei a fazer o trajeto entre a estação e o escritório na magrela, o que me rendeu uns belíssimos looks rs. 

Enfim, esse blog não é de moda, é sobre minha vida. Mas eu ontem tava folheando esse livro de novo, e me senti mais uma vez super inspirada, e quis dividir essa inspiração. Resolvi dar uma passada no rolo de câmera e achei umas fotos legais de dias em que eu tava chic na bike, e quis registrar aqui. Mas recomendo super dar uma olhada no blog, e além de ver uns belos looks, viajar por cidades super bike friendly.

E uma das minhas fotos favoritas <3

E abrindo o post, uma foto minha cycling chic em Copenhagen, a cidade onde tudo começou :) 

A vida em quarentena

Já falei aqui como vai a minha vida na Suíça. A real é que eu não moro no pior lugar para se estar nesse momento: embora a Suíça tenha um número bem altos de infectados, a situação aqui na parte alemã nunca saiu de controle e não tivemos restrições completas. É possível sair de casa pra fazer um exercício físico, fazer compras nos mercados, pedalar, as estradas não estão bloqueadas. A gente tem saído no geral uma vez por dia para pedalar ou dirigir, e isso tem me mantido muito bem. O tempo primaveril incrível também ajuda: as temperaturas estão passando dos 20 graus, os dias estão ensolarados e lindos, e assim fica mais fácil manter a sanidade. 

Eu não entrei numa nóia de ser produtiva, de fazer e acontecer nesse período. Mas busquei encontrar coisas que me me façam sentir bem, e se possível, que ajudem esse tempo a passar mais rápido. And here we go: 

* A cozinha tem sido uma bela distração. Fiz alguns bolos, variei receitas, tentei coisas novas, e me divirto bastante. As vezes eu simplesmente não to afim, tipo agora de noite, que eu simplesmente não estava afim de cozinhar, e o bofe tomou a frente da coisa. Ele cozinha melhor do que eu, mas eu tenho tido mais vontade de encarar o fogão. Algumas das experiências: 
Avocado Toast

E esse bolo de banana que ficou mára <3 
* Não é novidade que eu sou meio gastona, e um tanto quando chegada em roupas e fashion items em geral. Nessa quarentena no entanto eu percebi o tanto que eu negligenciei pijamas, lingerie e roupa de ginástica na última década hahaha. Eu ainda estava usando uns pijamas de 2009, e percebi que a última vez que comprei soutien foi em 2014, aém de estar usando camiseta de brinde pra correr. Aproveitei esse tempo para fazer uma limpa. Joguei fora meias e calcinhas velhas, pijamas esgarçados, camisetas com buracos. Acabei também comprando algumas coisas online. Para quem está aqui na Suíça, eu recomendo muito o Zalando. Comprei pela primeira vez na Manor (está com uma promoção babado), mas ainda não chegou então depois conto sobre a experiência. 

* Voltei a fazer aula de alemão, agora online. Eu parei de fazer alemão há dois anos, quando comecei a fazer um curso na Universidade. O curso era caro, e eu não conseguia ficar pagando as duas coisas. Também, estava bem de saco cheio da escola, não gostava da turma. Alguns meses depois eu comecei a trabalhar e em Zurich, então voltar pras aulas saiu de questão. Tinha os planos de voltar pras aulas quando mudássemos pra Zurich, mas depois de um mês de quarentena, resolvi antecipar. Não ta sendo fácil.. depois de bastante tempo parada, meu vocabulário está bem capenga. Mas estou feliz de estar de volta :) 

* Eu tinha imaginado passar meus últimos meses em Berna retornando a lugares queridos, curtindo a cidade, visitando lugares que ainda não conheço, comendo nos restaurantes que eu gosto. Por enquanto, esse plano está on hold. Mas para dar uma força pro comércio local, e aproveitar um pouco dessas coisas daqui que a gente adora, temos pedido delivery uma vez por semana. Assim comemos algo diferente, e de quebra eu "mato a saudade" de alguns lugares que a gente gosta aqui. O destaque por enquanto ficou com o hamburguer to The Butcher, que chegou aqui muito maravilhoso e nem parecia que tinha viajado na garupa de uma bicicleta. Mas o melhor: pudemos ticar alguns itens dos nossos lugares para conhecer em Berna que não são, por assim dizer, pontos turísticos. Um deles é um prédio residencial que tem uma arquitetura moderna, e é todo verde de plantas por fora. Como ainda estava frio, quando fomos o verde não estava lá e as fotos não ficaram muito boas. A foto abaixo é do site do escritório de arquitetura responsável. Eu descobri sobre esse prédio lendo um artigo do Buzzfeed sobre prédios de design, e fiquei passada que tinha um em Berna e eu nunca nem tinha ouvido falar.
Foto por Bucher Bründler Architekten
Também pedalamos até o aeroporto da cidade. Acho que já comentei aqui que nesses anos a gente nunca usou esse aeroporto, porque ele é bem pequeno e limitado, e quase não tem voos comerciais (e por isso, os poucos que tem são caros). Desde que a pandemia começou a tomar força, está inclusive fechado. O aeroporto fica na beira do rio, e mais parece uma rodoviária rs. Estamos indo embora sem nunca ter entrado em seu micro terminal. Mas foi interessante ver onde fica, e a rusticidade do aeroporto da capital da Suíça.
Descobrindo Berna, ainda
* E em meio a essa loucura coronática, eu fiz 34 anos. Definitivamente não foi o aniversário que sonhei, mas não me queixo. Foi um dia muito ensolarado, e pela primeira vez pude colocar os pezinhos pra fora das meias e botas. Comecei meu dia com um pão de queijo, e terminei com churrasco e caipirinha. Dancei funk na sacada, recebi ligação dos amigos queridos, chorei as 3h da madrugada com vídeo surpresa, e fui dormir agradecendo todo o amor que recebi, que recebo, a saúde dos meus, e o cara incrível que ta dividindo mais essa comigo.
Pão de queijo
Uma foto ruim mas que tem muita coisa boa envolvida
E nós <3
E assim seguimos. Aqui na Suíça a previsão é que a partir do dia 26 de abril, eles comecem a afrouxar o confinamento. Os casos de corona vem caindo, mas somente em umas 10 ou 15 dias veremos se os esforços do governo em manter as pessoas em distanciamento social mesmo com o tempo bom terão surtido efeito. Se sim, prevejo que teremos verão. E tem tudo pra ser o melhor da vida <3 

A (minha) vida na Suíça em tempos de corona virus

No fim de fevereiro eu comentei por alto algumas mudanças trazidas pelo corona para a Suíça. Mas ainda falávamos de 20 e poucos casos, e uma situação sob controle. Eu tinha alguns planos para março e tava tudo mantido. Encontrar uma casa em Zurich, passar um fim de semana em Paris, me preparar para receber a minha mãe aqui para comemorar meu aniversário. Tinha também um banheiro em obras me tirando do sério. Pois bem. De lá pra cá foram 3 semanas bem doidas, então vamos lá:

1a semana de março
Muita preocupação com a vizinha Italia, mas no geral a vida aqui caminhando bem "normal". Tirando a prateleira de macarrão e molho de tomate, que estava mais desfalcada, o mercado estava abastecido. No trabalho  rolou um "ensaio" de home office coletivo. Cada dia da semana algumas funções se revezeram trabalhando de casa. Para quem não estava acostumado, a ideia era testar VPN, ferramentas, e ver se estávamos todos preparados caso tivéssemos que trabalhar de casa full time. A minha função ficou em casa na terça, e eu fiquei meio descaralhada das idéias que ninguém da obra do banheiro apareceu. Mandei um email bem puto tipo "e ai galera, faz só um mês que eu to de quebra quebra no banheiro e vocês ai se dando ao luxo de disperdiçar um dia?!?!?!". Spoiler: eles disperdiçaram a semana inteira e não apareceram aqui nenhum dia. Senti que meus nervos estavam esquentando rs. Naquela sexta-feira os casos da Suíça foram de 80 para 180 e a empresa anunciou um rodízio para a próxima semana. Falei com minha mãe, que precisávamos ficar de olho na situação, e que talvez não fosse possível voar. Fomos passar um fim de semana em Zurich e fomos a restaurantes, esquiamos, visitamos apartamentos, e tudo que fazíamos era caprichar no álcool em gel e lavagem de mãos.
Corona, que corona? 
2a semana de março 
A segunda-feira começou passando dos quatrocentos casos e o aumento exponencial de uma chacoalhada na galera. Eu fui ao escritório três vezes na semana, e as pessoas estavam realmente espalhadas, inclusive na cantina. Galera se evitando rs. Nos dois dias que trabalhei de casa quase fui a loucura com o quebra quebra, bate bate e poeira voando. Essa obra precisa acabar, era tudo que eu conseguia pensar.
5 semanas de obra e o banheiro assim...
Eu ainda visitei apartamentos em Zurich, e já comecei a me incomodar de estar na casa de pessoas estranhas, com tanta gente. Na quinta-feira fiz um happy hour com as amigas (e no bar tinha bastante gente sem noção como a gente), e no fim nos despedimos: sabíamos mesmo que não nos veríamos nas próximas semanas. Eu conversei com a minha irmã, pra ela começar a me ajudar na missão de convencer a minha mãe que não seria uma boa vir pra cá messe momento. Ela é teimosa, e não estava afim de desmarcar não.
Eu, minhas amigas e minha mãe rs
Na sexta-feira tínhamos passagens de trem para passar o fim de semana em Paris, e deixamos até o último minuto pra resolver se íamos ou não, mas o juízo (e o medo de ficar quarentenados num hotel, ou de fronteiras fecharem e não conseguir voltar pra casa) falou mais alto e ficamos em casa. A semana terminou com os membros do Conselho Federal da Suíça decretando o fechamento das escolas até o dia 3 de abril. No sábado eu ainda fui dar uma volta na cidade, e lojas, bares, todos lotados num dia ensolarado. No mercado no entanto o medo do suíço deu as caras: prateleiras vazias de tudo. Domingo fomos a um parque natural para fazer uma trilha e começar nosso pseudo isolamento: isolados na natureza.

3a semana de março 
No domingo a noite chegou mensagem do CEO: todos os funcionários de home-office. O desespero bateu. Eu ficando todos os dias em casa não iria conseguir visitar apartamentos em Zurich, e a gente tem data pra saír daqui (aqui falo mais de como é o processo de alugar casa na Suíça e como você TEM que visitar pessoalmente os apartamentos). Além de tudo, a M A L D I T A obra. Fui ao mercado e o abastecimento estava de volta.
Escritório montado
Logo na segunda-feira teve mais uma coletiva do governo, e eles decretaram o fechamento de todas as lojas, bares, restaurantes e tudo mais que não fosse essencial, taté o dia 19 de abril. Remarcamos a viagem da minha mãe para novembro, e eu fiquei bem arrasada. Fui a uma loja comprar uns acessórios pra fazer exercício em casa, e acabamos indo no bar favorito de Mati porque eles estavam vendendo as cervejas que já estavam na pressão com desconto. Nessas alturas, eu já tava olhando todos os desconhecidos na rua e pensando: será que eles me contaminam ou eu contamino eles?! Paranóia crescendo.
Paranóica porém bem linda pra ir no único programa possível: mercado
A semana foi horrível, pra ser bem sincera. O banheiro que não ficava pronto, a sujeira, a crescente tensão e ansiedade de estar vivendo uma pandemia, a preocução com os meus no Brasil. Pra piorar: o pedreiro lacrou o banheiro e não avisou. Para cada xixi, mesmo no meio da noite, teríamos que descer pro terceiro andar (moramos no quinto), onde tinha um banheiro pra gente usar. Foi o dia que eu comecei a duvidar da minha sanidade rs. Chorei pencas, o dia inteiro. Eu entrava em video call com os colegas, e quando saia só fazia chorar. Foi quando senti o isolamento pesando na minha. Outra coisa que me deixou meio desnorteada foi a ideia das fronteiras fechando. É muito simbolismo na minha cabeça e eu fiquei triste. Na sexta-feira eles finalmente terminaram a obra do banheiro, SEIS SEMANAS depois. A casa foi completamente limpa, e ao acordar no sábado, eu percebi que mais da metade do meu sofrimento vinha da casa estar completamente zoneada, zero aconchegante e suja. Saímos dirigindo por aí, e mais de 300km depois, eu estava bem feliz. Dirigir me deu uma sensação de normalidade, e por uns momentos eu meio que esqueci de tudo. Mas em nossas paradas mantivemos distância de tudo e todos. Encerramos a semana com sete mil casos de corona na Suíça.
A serenidade de quem sobreviveu ao caos inicial
Iniciamos a quarta semana de março, a segunda de quarentena. Aqui ainda é permitido sair de casa para caminhar, correr, pedalar, desde que mantendo distância mínima de 2 metros de outras. Sendo a Suíça um país de tantos espaços verdes, é possível manter uma distância muito maior. É o que tem me segurado bem: poder sair uma vez por dia e correr, pedalar. Voltar pra minha casa agora arrumadinha e aconchegante também ajuda rs. Compramos um quebra cabeça de mil peças, livros de colorir, estamos assistindo séries, fazendo facetime com amigos, falando com Baby com maior frequência. Sigo procurando apartamentos, mas ainda estamos vendo como vai ser a questão das visitas. A real é que com o fim da obra, eu já nem vejo mais problema em ficar aqui, e estou considerando conversar com o landlord pra gente ficar mais tempo, até a situação normalizar. A Suíça no momento tem mais de 8 mil casos confirmados. Os testes só são feitos em pacientes graves ou grupo de risco, o que significa que são muito mais do que isso. Embora seja o segundo maior índice de contaminação per capita, a mortalidade segue baixa. Vamos acompanhar o que vai acontecer daqui pra frente.

Februar

Se janeiro foi um mês arrastado, fevereiro voou. Entre dias corridos de trabalho, dias longos de férias, o mês passou e eu mal percebi. Vamos a mais um resumão de como vai a vida rs. 

Lenk
Começamos o mês em Lenk, uma cidade alpina aqui nas montanhas do cantão de Berna. Lenk oferece muitas opções pra quem ta querendo dar uma escapada da realidade: tem boas montanhas pra esquiar, fica em cima de águas termais, e tem muita natureza. É também um lugar popular entre os suíços do cantão de Berna, mas nem tanto com os turistas gringos, o que significa preços mais convidativos. De Berna até Lenk com o transporte público é coisa de 1:40, pegando um trem direto até Zweisimmen e lá trocando pra Lenk. Fomos com um amigo, na idéia de dar uma esquiada, e também curtir um fim de semana diferente. O tempo não ajudou muito: as temperaturas não estavam muito baixa, e em vez de nevar, estava chovendo nas montanhas. Mas conseguimos esquiar e aproveitar! Ficamos num hotel com águas termais, e deu pra relaxar. Um ótimo lugar pra uma pequena escapada de fim de semana! 
Quem vê a pose não imagina os tombos, mas enfim, ta bonita né?
A tortura do banheiro
Como nem só de neve se vive o ser humano, estamos há um mês sem chuveiro em casa. Rolou um vazamento no banheiro, e na hora de arrumar, a coisa mostrou-se muito pior do que se imaginava. Resumindo: tiraram a banheira, o chão, a parede. O que era pra durar 15 dias já dura um mês, e se deus quiser, se resolverá em mais 15 dias. Estamos tomando banho num apartamento vazio aqui do prédio, a casa está uma bagunça, cheia de poeira, com pedreiro andando aqui o dia inteiro. Sério, uma merda! E o pior foi ver como o "perfeccionismo" Suíço é ineficiente rs. Eu aposto dinheiro que no Brasil uma dupla de pedreiros tinha resolvido esse banheiro em 5 dias. Mas aqui é uma empresa que cuida do piso, outra da parede, outra do cano, outra da secagem do cano, outra de não sei o que... Resumindo, é um entra e sai de 10 pessoas aqui todo santo dia, e no fim, nada se resolve rs. A conferir o fim dessa novela. 
O banheiro ta nessa situation, é mole?!
Trois Vallees
Ano passado fomos esquiar na França e gostamos muito, então esse ano resolvemos repetir. Procurando opções de hospedagem (no post do ano passado contei que ficamos em Meribel, mas que não gostei do hotel), encontramos algo melhor em Courchevel. Fomos e pegamos dias muito bons. Foi uma delícia, e eu confirmo que é a melhor região pra esquiar pra quem não é super desenvolto no esporte (pra quem é também deve ser, mas não posso opinar rs). Em um dos dias lá, esquiamos 32 km só de pista azul. Isso é impensável na Suíça. Então vale muitooo a pena! 


Quero mais nada da vida não...
MASSS.. um porém. Eu preferi me hospedar em Meribel do que Courchevel. Meribel é bem pé no chão, e embora seja uma cidade alpina de esqui, ainda é bem despretenciosa e descomplicada. Galera andando vestida de esportista, restaurantes sem grande afetação, etc. Courchevel é O lugar da badalação, de ver e ser visto. Só olhar no instagram, e ver que tudo que é blogueira famosa ta por lá. Num dias dias sentamos numa mesa ao lado do David Guetta no bar da montanha. E se tem gente que adora essas coisas, pra mim é curioso e divertido até a página dois. Me dá preguiça ter que sair toda emperequetada pra jantar depois de passar o dia esquiando, na maior friaca. Alias, a galera se monta MUITO pra esquiar, rs... E aí pra me dar mais preguiça, porque tudo bomba muito, os restaurantes todos precisam ser reservados com antecedência, coisa que eu não gosto de fazer em viagem rs. Resumindo: voltaremos? Sim, mas pra nossa querida Meribel :) 

O inverno que era pra ter sido e não foi
Fevereiro coroou um inverno assustador. Por aqui, pela primeira vez, tivemos um inverno praticamente sem neve. Em dezembro tivemos uma neve que durou 45 minutos, super fraquinha. E até poucos dias atrás, tinha sido a única. As temperaturas estão muito altas pra época do ano, e a gente vê as flores brotando por aí, como se primavera fosse. Acho que eu nunca senti tanto medo dos efeitos do aquecimento global como nesse inverno. Vimos estações de esqui que não conseguiram abrir por falta de neve - e levando famílias cuja renda vem de restaurantes na montanha, de dar aulas de esqui, etc, passarem muito aperto. Vimos as geleiras registrarem um nível super baixo em pleno inverno. É muito preocupante. Essa semana que passou, finalmente, caiu uma neve como o inverno suíço pede. No momento, no entanto, faz 12 graus. 
A primeira, e única, neve de 2020
Em busca da casa perfeita
Esse mês também entregamos a carta de aviso prévio do apartamento em Berna. No mais tardar, mudamos daqui 31 de maio. Mas agora começa a pressão pra encontrar um lugar pra morar rs. Nesse mês visitei vários apartamentos, andei por muitos bairros, mas ainda não senti o coração bater mais forte rs. Não vai ser fácil substituir uma varanda com uma vista dessa, né? 

O corona
Em fevereiro também a conversa sobre corona vírus intensificou. Com a explosão de casos na Italia, a Suíça entrou em alerta máximo. E dada a proximidade dos países, não demorou a pipocar casos aqui. No momento são mais de 20 casos confirmados, e mais de 100 pessoas em quarentena. Começou a rolar um certo pânico na galera, e já vi prateleiras vazias no mercado. A minha empresa suspendeu todas as viagens internacionais, e cancelou todos os eventos. Pra mim foi um banho de água fria, porque eu tinha uma viagem MUITO legal a trabalho, e melou tudo. Eu, particularmente, não estou muito preocupada. É uma gripe. Mas tem sido curioso estar vivendo uma situação como essa tão de perto. 

E isso foi mas ou menos o meu fevereiro: trabalhar, esquiar, passear, passar raiva, sentir medo e explorar, tudo rodeada de belíssimas paisagens haha. Vamos ver o que março me reserva!

As mudanças da vida


Até janeiro de 2016 eu nunca tinha pensado em morar na Suíça. Alias, era bem pelo contrário: por ser um país que meu pai adora, minha cabeça automaticamente o rotulou como país chato. Mati inclusive algumas vezes comentou que tinha amigos morando aqui, e eu sempre fui categórica: não saio do Brasil para ir morar na Suíça. RYSOS. 

Eu só tinha estado na Suíça pra fazer conexão no aeroporto, e Berna eu só conhecia de nome por uma convenção de direito. Sabia que era capital, e mais, sabia que era pequena. Era um "no go" pra mim e quando ele recebeu um convite para entrevista o acordo foi que ele faria a entrevista "só pra praticar". MAIS RYSOS. Há 4 anos ele recebeu essa proposta de emprego em Berna, e eu fiquei muuuuito contrariada. Inclusive teve muita lágrima, sofrência, ligações pra casa da mãe no meio da noite rs... Mas a proposta era atraente, tínhamos outras questões familiares acontecendo, eu conversei com umas amigas que moravam em cidades europeias de proporções similares, e resolvi encarar o desafio. 

E além da minha eterna vontade de ser feliz (que me faz tirar o melhor de qualquer lugar que eu vá), Berna mostrou-se muito, mas muito acolhedora. Confesso que, dia após dia, essa cidade só se fez crescer no meu coração. E eu virei uma Bern lover. Assim, com força. Nos meus anos "sabáticos" (mais rysos aqui porque eu to saudosa e piadista rs) eu aproveitei muito a cidade: andei de bicicleta por ela inteira, entrei em tudo que é café, procurei coisas novas para fazer a cada mês, curti os sábados de museu de graça em agosto, fui em quase todas as piscinas públicas, nadei nesse rio diariamente em meses quentes, piz picnic em muitos parques, fiz trilhas pela cidade, e principalmente, conheci gente muito maravilhosa. Berna me mostrou, mais uma vez, que eu posso dizer até que eu sou bixo de cidade grande, mas eu sou mesmo bixo de onde eu quiser. 

Convenhamos que não é nenhuma missão impossível amar esse lugar, né?
Mas teve uma coisa que Berna não conseguiu me dar: um trabalho. Berna é uma cidade que gira em torno da administração pública, de embaixadas, e de negócios focados na Suíça. Ou seja, Berna é focada no mercado interno e por isso exige um nível bem elevado de alemão pra quem quer trabalhar num escritório. Claro que deve ter uma vaga ou outra aí que facilita, mas eu não as encontrei. E desde agosto de 2018 eu acordo todo dia em Berna, pego um ônibus, depois um trem, depois outro trem, e uma hora e meia depois, sento num escritório em Zurich, de onde só saio depois das 6 da tarde pra fazer o caminho inverso. Ou seja, há um bom tempo eu não vivo Berna :( 

Nesse tempo eu nunca deixei de procurar emprego aqui, mas não rolou. E começou a ficar insustentável. Não só a canseira de viajar 3 horas e 200 quilômetros por dia, mas a falta de perspectiva de reverter essa situação. Todos os currículos que já enviei, todas as vagas que já me interessei (e que tenho qualificações), são fora daqui. 95% em Zurich e arredores, algumas em Basel, e outras espalhadas na área francesa. São cidades mais internacionais, onde é possível trabalhar em inglês. Então, apesar de todo meu carinho por Berna, era questão de tempo. 

Desde que comecei a trabalhar em Zurich é claro que a cidade começou a me conquistar. Conforme eu fui passando mais tempo lá, eu fui vendo mais e mais dela, principalmente fora da rota turística. Além disso, fui conhecendo mais gente por lá, passando mais tempo com gente que eu já conhecia, e fui ficando muito mais interessada na possibilidade de mudar pra lá. Nesse verão, principalmente, o commute foi muito pesado pra mim: muitos trens atrasados, estações cheias, vagões sem ar condicionado, e um nível crescente de insatisfação pro meu lado. Tivemos muida conversa e chegamos a conclusão de que seria melhor pra nós. Inclusive passamos um fim de semana por lá pra dar aquela animada. Foi no verão, com dias lindos, com festival de música, Zurich se mostrando toda pra nós. 
Nosso primeiro "chega mais" em Zurich, em agosto
E foi assim que começamos a planejar nossa mudança, que vai acontecer em algum momento da primavera. Eu estou muito animada com o que vem pela frente, em explorar uma cidade nova, em encarar uma mudança e tudo que vem com ela. Estou começando a busca por um lar, conhecendo bairros, prestando atenção em cada cantinho e ansiosa pela fase nova. Estou cada dia mais interessada em Zurich, e na contagem regressiva pra chamar ela de lar! 


O próximo verão vai ser assim :)

Janeirão

Eu resolvi que esse ano eu vou fazer resumo mês a mês aqui. Assim, se nada mais acontecer nesse blog, pelo menos as memórias ficam em dia rs. E foi só ontem, dia 5 de fevereiro, que eu me dei conta que o primeiro mês do ano já acabou, e que se janeiro se arrastou, fevereiro ta voando. Comecei Janeiro na Bahia, e foi a melhor coisa que eu fiz. Inclusive já falei da viagem com mais detalhe aqui. Mas ai tudo que é bom acaba, e eu voltei pra realidade gelada da Suíça, e logo comecei a trabalhar. 
Look trabalho em dia frio e cinza
E se por um lado tudo se resumiu a entrar no fuso, lavar roupa suja, se recuperar de doença, por outro teve uns belíssimos momentos. Tipo esse domingo aqui, que fomos até Brienz num dia beeem ensolarado. Eu adoro Brienz! É uma cidade bem pequena, no finzinho do cantão de Berna. Acho que já falei dela em outro post do blog. Basicamente o que eles tem é o lago, mas QUE LAGO! É azul demais, rodeado de montanhas lindas, chalés charmosos! Tem uma promenade que só de andar ali repõe minha energia, e de quebra tem uns restaurantes onde é gostoso sentar no terraço e aproveitar o sol. E a estrada pra ir de Berna pra lé cheia de paisagens, então eu curto muito, e pra mim é sempre uma opção pra sair de casa no domingo. 

Em janeiro também fui tirar o pó dos esquis, e fui descer a primeira montanha do ano. Eu gosto de fazer aula nessa primeira esquiada, que é pra dar uma lembrada na tecnica e reganhar confiança. Essa coisa de aprender um esporte nessas alturas da vida é tenso, porque mais que do corpo, você precisa da cooperação da mente rs. A minha trava de medo as vezes. Então começar a temporada com aula é sempre uma ajuda pra mim, e eu devo dizer que eu dei um super salto na performance rs. Acho que, no meu quarto inverno, finalmente posso dizer que sei esquiar.

E por fim, o mês acabou com um dia bem ensolarado de home office, que é mais um dos privilégios que eu tenho. Em Janeiro tivemos uma grande conquista, e com ela vem mais uma mudança: no verão, depois de quatro anos, iremos embora de Berna. E mesmo com meses pela frente, eu já estou sentindo saudades desse lar, que é, de longe, o lugar mais bonito onde já morei. Nem fui, mas já sou só saudades!
O home office mais bonito <3
Eu espero aparecer aqui logo, mas caso não aconteça, até o resumo de Fevereiro rs!

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