Suíça com doguinho

 Quando eu contei da adoção de Carlito, eu mencionei também que um dos fatores decisivos pra gente dar andamento nesse plano foi o fato de a Suíça ser super dog friendly, de um jeito que seria mais fácil integrá-lo nos nossos programas e embora sim, tenhamos limitações, elas são menores. Agora que já temos alguns meses de experiência, acho que rola dar um pouco mais de detalhe. 

Transporte Público

Cachorros podem tranquilamente usar o transporte público na Suíça inteira. Os de porte maior pagam meia tarifa, mas no caso de Carlito, que pode ir no nosso colo, ele anda de graça inclusive. É bem tranquilo. Já peguei transporte cheio com ele, e levo ele no colo.


Fotos que retratam 2020: transporte bem vazio (e por isso Carlito não está no colo) e máscara 

Bares, cafés e restaurantes 

Cachorros são aceitos em 99,9% dos estabelecimentos do tipo. Nesses quase três meses que se passaram eu saí muito pra bares e restaurantes, e Carlito é sempre muito bem recebido. Teve um episódio em que fui esperar um amigo num bar de hotel, e eles não permitiam. Era um hotel executivo, então é bem fora do perfil mesmo, mas foi o único caso. No começo eu liguei em alguns lugares pra confirmar, porque não queria perder viagem, mas a regra é mesmo aceitar e receber o cachorro com tranquilidade. Inclusive, acho que ao menos metade dos estabelecimentos em que fomos, eles colocaram um potinho com água pra ele se refrescar. Quando fui procurar fotos, percebi que só temos foto dele quando sentamos pra fora (até mesmo porque fica mais fácil de ele aparecer na foto), mas é tranquilo também pra sentar pra dentro. Carlito - e todos os cachorros que vemos por aí - se acomodam embaixo da mesa e tudo certo. 



Carlito em suas incursões por restaurantes e cafés

Lojas

A maioria esmagadora dos mercados não aceita cachorros, lojas menores acho que aceitam de boa (os pequenos mercadinhos onde vou no bairro eu entro com ele, mas não nos mercados de rede), mas quando estou com ele e resolvo comprar algo, deixo ele amarrado na porta. Em lojas de roupas e afins não tive problemas para entrar com ele, mas é claro que se eu saio de casa para IR numa loja dessas, eu não levo o cachorro né rs... mas já aconteceu sim de estar andando com ele e entrar em alguma loja. Também já vi, ao longo desses 4 anos, vários cachorros dentro de lojas, com seu rabo saindo pra fora do provador hahaha. 

Hotéis

Desde que Carlito chegou nós fizemos algumas viagens curtas, de fim de semana, férias de verão, e nunca foi problema achar hotel que aceitasse ele aqui na Suíça. Inclusive, vários hoteis que vi nem cobram taxa extra pelo cachorro, como por exemplo nosso hotel em Gersau. Em um momento do verão achamos que seria possível dirigir até Amsterdam, e acabamos fazendo reservas em vários hoteis pelo caminho de ida e volta (tive que cancelar tudo depois rs) e também não foi problema achar opções em Luxemburgo, Bruxelas, Colonia e Heildeberg. A única diferença foi que todos os hotéis que vi nessas cidades cobravam uma taxa diária, entre 10 e 20 euros, que se justifica pela potencial limpeza extra que um hóspede canino pode demandar.

Em nosso apartamento em Lugano

Serviços

Locais como correio, repartições públicas, etc... não né? Eu já entrei no correio aqui com Carlito, confesso, mas tem a placa (que eu não vi) falando que não são permitidos. Ninguém falou nada até mesmo porque ele é tão quieto que acho que o povo do Correio não percebeu que ele estava lá. Mas eu dei um google depois e descobri que ele não poderia ter entrado. Então evitem rs.  

Banhos públicos (as badis)

Aqui na cidade de Zurich cachorro não entra em nenhum dos banhos públicos, que são como pequenos clubes na beira do lago e rio. Então quando eu quero ir pra um deles, Carlito fica em casa. Quando queremos levar ele, vamos nas áreas abertas, e tanto na beira do lago como do rio tem um monte. Mas em outros lugares, foi possível entrar com ele, como em Gersau, e na Lido San Domenico, em Lugano. Em ambos os casos, a gente ligou antes pra se informar e evitar perrengue.

Carlito e Bonnie curtindo a beira do lago em Gersau

E quem quer outra vida? 

Comparando com São Paulo, onde cachorro não entra em café, restaurante, bar, ônibus, e basicamente é mal recebido por tudo, é uma tranquilidade sem fim ter cachorro na Suíça. É claro que é importante que o cachorro seja sociável, que não fique latindo que nem doido dentro do restaurante por exemplo, ou faça xixi no ônibus. Antigamente treinamento de cachorro era obrigatório na Suíça inteira. Hoje é para algumas raças e em alguns cantões. A gente optou ainda assim por fazer um treinamento com Carlito, justamente pra gente ter um pouco mais de controle e garantir que consigamos integrar ele na nossa vida e rotina. Ta dando certo :) 

3 dias no Ticino, a Suíça italiana

Como eu dizia em algum post por aí, os planos de verão (e de primavera, e potencialmente de outono e inverno rs) escorreram pelo ralo. E quando a gente estava aqui pensando o que fazer com a minha única semana de férias no verão, começou a cair a ficha que nos restaria o inevitável Ticino rs. Veja bem, eu AMO a Suíça italiana. Amo o clima, a vibe balneário mediterrâneo, as palmeiras, a comida italiana, o povo falando essa língua maravegliosa e tudo mais. Porém eu amo, e a Suíça inteira ama, e é assim que verão no Ticino é bombado, com direito é trânsito dos infernos pra cruzar o São Gotardo, o túnel que liga a região central da Suíça à parte italiana. Mas capitulamos. Alugamos um apartamento, e voilà, acordamos tarde num domingo de tempo meio feio em Zurich, tomamos um café, Carlito na gaiola e bora. 

Carlito cruzando os Alpes 

O São Gotardo é uma obra faraônica da qual a Suíça muito se orgulha, um túnel de 17km de extensão, cortando uma das montanhas do maciço de Saint Gothardo, e facilitando a vida dos viajantes e também do comércio entre os países do norte da europa e a Itália. Dentro do túnel é pista única com duas mãos, e como engarrafamento lá dentro pode ser fatal, eles controlam a entrada e filas se formam antes do túnel. A gente já ficou parado nesse trânsito algumas vezes e dessa vez, como tínhamos tempo de sobra, zero pressa, e vontade de aproveitar as férias ao máximo, resolvemos atravessar a montanha por cima, cruzando o Passo de São Gotardo. Os passos são as estradinhas que sobem as montanhas e as cruzam pelo topo. Normalmente são estradas simples,  sinuosas, íngremes e que proporcionam vistas lindíssimas. E assim foi a crusada do Passo, a 2106 m de altitude. Lá em cima tem um lago, e a gente desceu pra dar uma esticada nas pernas e uma olhada. Mas estava vento demais, frio, e tinha muita obra por perto, então a paisagem estava poluída por gruas rs. Chegamos em Lugano a tempo de, mesmo sem reserva, sentar na mesa mais bonita da cidade e curtir um jantarzinho balado e delícia. 

Nossa vista do jantar era quase essa daí, com o San Salvatore


Na segunda feira acordamos e fomos caçar um café da manhã, já nos encaminhando pro centro da cidade. O centrinho de Lugano é puro charme, a orla é linda, e a vista do San Salvatore QUASE lembra um Pão de Açúcar rs (muitos risos mas enfim, divago rs). Nosso plano era pegar a gôndola e subir o morro, coisa que ainda não fizemos, mas o tempo começou a fechar. Pensamos em fazer algo bem fora do nosso perfil: ir dar uma olhada no outlet de luxo que tem no subúrbio da cidade. Mas antes da gente conseguir fazer qualquer coisa, caiu uma PUTA chuva com vento e tudo mais. Nos restou sentar num bar e passar o dia inteiro lá tomando os bons drinks. Teria sido um dia perdido se eu não gostasse tanto de bons drinks rs.  

O único registro do dia, antes do toró cair

Na terça feira nós tinhamos um programa definido: caminhar pelo centro, pegar o barco no pier Lugano Centrale, e ir curtindo o lago até chegarmos em Gandria, um vilarejo encravado na montanha, na beira do lago, sem acesso de carro, e cheio de charme. Há 3 anos, nós fomos caminhando a Gandria e voltamos de barco. Dessa vez resolvemos fazer o trajeto inverso, para pegar os restaurantes abertos e almoçar com uma vista épica. E se valeu a pena? Ô! O barco de Lugano para Gandria dura cerca de 35 minutos, custa uns 16 francos para quem não tem nenhum desconto. Não é que tem muita coisa pra fazer em Gandria, mas é um vilarejo lindo, tranquilo, fotogênico, e da próxima vez que formos a Lugano, quero passar uma noite lá.

De barco, entre a Suíça e a Italia
 
A chegada no vilarejo de Gandria

E a varanda do Locanda Gandriese, um restaurante delícia

Em nosso caminho de volta, a pé, paramos em Lido San Domenico, um banho público que é mara: tem música boa, drinks, aceita Carlito, e o melhor: acesso direto ao lago de Lugano, o lago com a água mais gostosa dessa Suíça. Passamos o resto da tarde lá, entre um mergulho e outro, um drink e outro, lendo, curtindo a música boa, e a vista incrível. Digo que o lago de Lugano tem a melhor água, porque a temperatura é perfeita: não é gelado, não é quente, é gostoso demais ficar dentro da água. Esse esquema ainda é o que pra mim eu defino como um dia perfeito de férias: um pouco de sight seeing, uma vila bonita, uma comida boa, e horas de "praia". Eu passaria o resto da vida assim :) 

A trilha de Gandria pra Lugano começa assim, bem rústica e linda

E tudo que eu quero pras minhas férias suíças: Lido San Domenico


Na quarta feira fizemos check out e pegamos o carro sentido Locarno. Dessa vez, no entanto, não fomos para a cidade. Nosso destino era um dos hits suíços no Instagram: Lavertezzo, uma vila pitoresca encravada no meio da montanha, cortada por um rio de água absurdamente esmeralda. Aqui fica o alerta mor: se for fazer esse trajeto de carro, vá cedo. A gente meio que dormiu no ponto, chegamos lá por volta do meio dia, e foi MUITO difícil pra estacionar o carro, porque as vagas são limitadas. É possível chegar lá de post bus, só procurar no app da SBB. De Lugano até lá, de carro, é coisa de 45 minutos, e quando começa a subir a montanha, o caminho vira um desbunde. 

Lavertezzo numa foto: montanhas, cidade, água esmeralda, aglomerações e desbunde a olho nu


Lavertezzo deu uma bombada depois de viralizar no instagram, e virou um top destination no Ticino, e por isso acaba sendo também um acúmulo de perrengues: estacionar, achar um lugar sem muita gente por perto, fila pra pular da ponte direto na água, então, tem que ir com paciência. Nós acabamos incluindo na viagem de última hora, porque estávamos perto, e valeu a pena. Achamos um canto pra chamar de nosso e curtir a água mais gelada em que já me enfiei rs. Depois fizemos uma caminhadinha bem de leve até a vila. O ideal seria ter mais tempo por lá, talvez dois dias, e se embrenhar pelo Valle Verzasca, ver as paisagens com menos gente em volta. Muita gente acampa por lá, faz trilhas, e eu acho que esse deve ser o melhor jeito de explorar a região. Terminamos nossa viagem comendo uma pizza de frente para um lago artificial formado numa barragem, e delá seguimos viagem de volta pra casa. 

Aquele perrengue chique básico do verão europeu: tomar sol na pedra rs

Fim de viagem de frente pro lago de Vogorno

Foram dias muito gostosos, lazy, devagar, eu quase fiquei com a impressão que não vimos muita coisa, mas agora colocando assim tudo escrito, na verdade fizemos foi bastante coisa :) E eu gosto desse relato diário, que é mais pra mim do que pros outros, mas aí no meio ta cheio de dicas, querendo, é só explorar! 

O mês de julho

Sigo firme e forte no propósito de ir registrando os meses por aqui, então, mesmo que com um grande atraso, senta que vem resumão de julho. 

O mês começou no auge da crise emocional que contei num post anterior. Pra piorar tudo, Mati fez uma viagem que era importante, e eu estava sozinha em casa. Apesar de todas as dificuldades envolvidas, acho que esse tempo sozinha foi importante pra elevar minha relação com Carlitinho, criar a conexão que precisávamos, e também me dar mais segurança em como lidar com ele. Também teve a participação dos amigos, que não deixaram a peteca cair. Alguns amigos vieram visitar e foi muito bom me distrair e pensar em outra coisa além do serzinho que agora dependia tanto de mim. 

E Mati chegou dia 10, e com ele, uma quarentena forçada. O governo suíço impôs (corretamente, no meu entendimento) quarentena obrigatória para aqueles chegando de países considerado de risco, inclusive os EUA, de onde veio o digníssimo Matinho. E a gente tinha se preparado para ele se isolar aqui dentro de casa, usando quarto e banheiro separado. Mas ainda assim, o cantão de Zurich demandou que as outras pessoas da casa também quarentenassem, e embora tenha sido um SACO, eu acho foi a coisa certa a fazer.  Então por 10 dias, ele não colocou os pés nem no corredor do prédio, dormiu num quarto separado, usou banheiro e varanda separada, e nos convivemos em casa a distancia. Eu, por minha vez, somente saí com o cachorro 3 vezes por dia, por 10 ou 15 minutos, para ele fazer as necessidades. Para que ele pudesse se divertir um pouco, uma pet sitter pegou ele aqui alguns dias, e ele pode se divertir numa fazenda. 

E depois de 10 dias, veio novamente a liberdade rs... E liberdade no verão suíço. Eu sou a doida do verão, e comecei a ir pro lago e rio e tudo mais que água todos os dias depois do trabalho, e alguns dias até na hora do almoço. A Suíça está com a vida relativamente normal. Os casos de corona flutuam, mas a situação está sob controle, e eu acho que no inverno a coisa tende a piorar. Então estou vivendo esse verão adoidado.
Na beira do lago, no meu banho público favorito
E na beira do Limmat
E roubado do stories to Instagram: melhor jantar que tivemos em Zurich. Moudi, anota aí

Num fim de semana, fomos encontrar amigos queridos, nossos ex vizinhos de Berna. A gente queria passar um tempo gostoso em algum lugar bonito, e isso não é difícil de achar na Suíça, então a gente fuçou e achou um lugar lindo nas beiras do Vierwaldstettensee, que também é conhecido como lago de Lucerna, e fomos passar um fim de semana na pacata Gersau. A cidade é mini, porém gracinha, entre o lago e a Rigi, uma das montanhas famosas da região central do país. Apesar da previsão do tempo marcando chuva, os deuses da água questavam do nosso lado rs. Foram dias muito muito ensolarados e quentes, de noites frescas, um fim de semana que valeu muito pra recarregar as baterias, botar a conversa em dia, e lembrar que não precisamos ir muito longe pra nos sentir viajando por aí. A foto que abre esse post é de lá, e ilustra bem o clima do fim de semana. 
Em outra vida acho que fui um peixe, porque sou muito mais feliz dentro da água

E foi assim que julho terminou num tom BEM mais alegre do que começou rs... Pra melhorar tudo, dia 31 foi meu último dia de trabalho antes das férias. O plano inicial era tirar duas semanas e visitar os sogros na California, mas é claro que o corona mudou tudo e por aqui ficamos. Tentamos fazer ainda outros planos que também foram sacrificados, e resolvemos curtir as férias pela Suíça. Se a inspiração vier, esses posts saem antes do resumo de agosto rs. 

Agora é curtir o que resta das férias e do verão :)

Puppy blues: eu tive

Em algum post aqui atrás, contando sobre a chegada de Carlito, eu falei de brincadeira sobre o puerpério canino que me acometeu. A real é que não foi bem brincadeira, e eu descobri então que existe um negócio chamado puppy blues. 

Os primeiros dias da chegada de Carlito foram só festa. Meu sonho de ter um cachorro vem desde que eu não me lembro, acho que eu tinha uns 4 ou 5 anos. Lembro de ter trazido vários animais de rua pra casa, que sempre foram sumariamente proibidos pela minha mãe. Ao longo dos anos, eu sempre fiquei pensando quando seria a hora de realizar esse sonho. Mati sempre teve cachorro com os pais, então desde a nossa união, esse papo também foi recorrente. E chegando na Suíça, que é um país extremamente pet friendly, a gente acertou que era questão de tempo. Ou seja, o cachorro foi mais do que planejado.

Depois de uns dois dias dias de Carlito aqui, eu comecei a sentir uma agonia, uma ansiedade, que foi aumentando exponencialmente. Eu não vou entrar em muitos detalhes, porque sei que foi também uma crise inflamada por outras questões, mas Carlito acabou sendo o gatilho de um breakdown nervoso depressivo que eu nunca tinha tido, e jamais teria imaginado. Por 10 dias, eu não consegui sentir alegria por te-lo na casa, e morria de culpa por isso. Eu chorei provavelmente uma semana sem parar, eu tive dias de não conseguir sair da cama, eu tive que faltar no trabalho porque simplesmente eu chorava tanto que não conseguia pensar, e diante do desespero de achar que eu passaria a vida daquele jeito, pensei seriamente que se isso não passasse eu teria que devolvê-lo. Por dias a fio, eu achava que só devolvendo ele eu iria restaurar a paz na minha vida. Claro que eu não ia devolver um cachorro assim, depois de uma semana. Claro que eu ia tentar fazer funcionar, mas naquele momento eu tinha poucas esperanças de que ia dar certo. 

Veja bem, ele é um cachorro super sossegado, não causou tumulto, não comeu móveis, nem sapatos, teve pouquíssimos acidentes de fazer as necessidades dentro de casa, é super amoroso, ou seja, é muito melhor do que a gente tinha imaginado. Eu tinha me preparado pra um furacão, e le chegou super tranquilo. Mas mesmo assim, sendo bem realista, eu me senti extremamente infeliz. Eu sabia das mudanças todas que um cachorro traria pra nossa vida, e eu estou há muito tempo me sentido pronta pra elas. Mas eu achava que a alegria que seria ter ele iria se sobrepor a essas mudanças. E chegou na hora, o sentimento faltou. Eu não me senti feliz, eu não conseguia sentir um segundo de felicidade, toda a alegria que eu imaginava não chegou, e então todas as mudanças perderam o sentido, e eu fiquei a deriva, só com um buraco no peito que eu nem conseguia explicar. Em algum momento, vendo meu marido incrédulo diante da depressão que eu sentia, eu tentei explicar: é como se a luz que eu tinha dentro de mim tivesse apagado.  

Infelizmente, dividindo a angústia com amigos, em muitos momentos me senti incompreendida. Eu não queria ouvir que "ahh não fique assim, cachorro é tudo de bom". Ou ¨que estranho", ou ainda "mas o problema é cuidar dele?". Uma porque não era, outra porque pra diagnóstico eu já tinha entrado em contato com a minha psicologa no Brasil. Eu queria era me sentir ouvida, compreendida. A reafirmação contínua de que a minha reação toda era estranha, fez eu me senti irresponsável de ter pegado um cachorro, que eu fiz tudo errado, que todo mundo fica feliz com o cachorro, e se eu não estava, é porque eu tinha feito merda. Depois de ficar cavando coisas pela internet (porque não é possível que com esses 7 bilhões de gente no mundo, eu seja a única a sentir algo assim), eu achei alguns relatos no reddit, como esse aqui, que pareciam ter sido escritos por mim, e isso me trouxe uma calma tremenda. Saber que isso é normal, que acontece, me fez sentir mais tranquila, menos ET. Indo atrás, eu descobri que existe sim uma coisa chamada puppy blues, em clara referência ao baby blues, que é aquele período pós parto em que a mãe tem variações de humor, sofrência, e principalmente, em que solidão trazida por um bebê recém nascido se impõe. 

Eu não vou ficar falando aqui que as pessoas tem que aguentar firme, que isso passa. Foi uma barra. Realmente, passou pra mim. Hoje fez um mês que Carlito chegou, e eu não vejo mais a nossa casa sem ele. Depois de uns 10 dias de sofrimento, as coisas começaram a se acalmar, e eu comecei a criar uma relação com ele, e a sentir a tal alegria que eu imaginei desde sempre. Estamos felizes, em harmonia, e tudo certo. Mas eu achei que valia a pena colocar esse relato aqui, por alguns motivos: 

1- eu nunca tinha ouvido falar disso. Talvez você também não. Então se você estiver lendo isso porque esta se sentindo assim, porque o google te trouxe aqui, sinta-se abraçado

2- numa outra oportunidade, irei tentar focar no medo do julgamento alheio. Eu há muito tempo não ligo muito pro que as pessoas pensam, e ainda assim, pela primeira vez em anos, eu me senti desesperada. A ideia de devolver o cachorro era péssima inteira, não era uma solução completa, principalmente porque ele ia sofrer, mas sendo bem honesta, eu me peguei com medo do que as pessoas iriam falar. Eu estava com minha saúde mental em frangalhos, e me sentindo prestes a virar um alvo da fúria da galera do bem da internet. Acho que tem material aqui pra um post meu, mas também pra uma reflexão de todos nós

3- vamos escutar mais as pessoas que se abrem com a gente. Não é de hoje que eu percebo - e eu sou culpada de fazer isso também - que todos desabafos e conversas com amigos são sucedidos de conselhos, opiniões, idéias do que fazer. Ninguém mais escuta por escutar, pra ouvir, pra acolher. Ta todo mundo meio ouvindo e meio já pensando na resposta que vai dar, em como dar comandos praquela pessoa resolver, e falar o que o outro tem que fazer. Isso anda me irritando cada vez mais, e nesse caso específico, me fez sentir muito solitária 

E com isso, fica aqui a minha experiência. De novo, eu não tenho nenhum objetivo específico com esse post além de colocar pra fora algo que aconteceu comigo e que no fim, é mais comum do que eu supunha. Não vou falar pra ninguém segurar firme que vai passar, não vou botar shame em quem, vivendo algo semelhante, devolveu o animal, não vou, agora que tudo passou, diminuir o sofrimento que senti. Talvez, além dos três pontos acima, eu gostaria de dizer: cuidemos da nossa saúde mental. Tem muito mais armadilha por aí do que a gente sabe. E a gente está muito mais vulnerável a elas do que imaginamos. 

Adotando um cachorro na Suíça

Desde que eu postei as primeiras imagens de Carlito no meu instagram, choveu mensagem de gente perguntando que raça, quantos anos e onde eu comprei ele. Primeira coisa: há pelo menos uns 10 anos, tomando consicência da causa animal, e do tanto de cachorro abandonado mundo afora, comprar um cachorro de raça de canil ficou pra mim fora de questão. E foi assim que, mesmo morando num país em que não há animais de rua, eu resolvi que adotaria um cãozinho, e de preferência mais viralatudo. 

(Gabriela, como assim não tem animal de rua na Suíça? Pois é, não tem. Aqui há leis e regras regulamentando o relacionamento com animais, e abandono é crime. Todos os cachorros e gatos são chipados, e se o seu cachorro for encontrado vagando nas ruas por abandono, você está encrencado. Ainda há sim quem abandone o animal de estimação por N motivos, mas esse processo normalmente é feito diretamente nos abrigos) 

A adoção
Voltando, dado que a Suíça tem pouca oferta de animais para adoção, muitos abrigos aqui fazem parcerias com abrigos de outros países onde o abandono é bem comum, como Italia, Espanha, Hungria, Romenia, Grécia. Os abrigos daqui intermediam o processo. Nós estamos há anos planejando a ideia do cachorro, já chegamos a aplicar pra um cachorro há dois anos, e sempre procuramos por essa data base, TierOnline, que é um portal que agrega os animais disponíveis nos abrigos da Suíça, e também desses abrigos parceiros em outros países que se dispõe a enviar o animal pra cá. 

Os dois processos pelos quais passamos (o de dois anos atrás e o de agora) foram bem rigorosos - e foi por isso, inclusive, que em 2018 a nossa tentativa não vingou. Eles querem saber a rotina da família, disponibilidades, expectativas, infra estrutura da casa, e tudo relacionado ao bem estar do animal e a vontade de fazer dar certo. O nosso questionário tinha coisa de 6 páginas, com todo tipo de pergunta que você pode imaginar: quantas horas as pessoas passam fora, planos para o lazer do cachorro, o que fazer em caso de viagem, nível de experiência com cachorros, o que fazer em caso de divórcio. Uma vez aprovado, é feito um home check. No nosso caso, por conta da pandemia, esse home check foi adiado, e aí como veio a nossa mudança, nós pedimos para eles aguardarem e fazerem isso já no lar novo, onde o animal efetivamente moraria. Quando a data chegou, as regras de distanciamento já estavam mais relaxadas e veio uma pessoa aqui, conferiu se tudo que a gente reportou no questionário com relação ao espaço e condições era verdade, e também fez outras perguntas. Com o green light dela, Carlito começou a ser preparado para viajar. 

O cachorro pode ser entregue para a família, normalmente castrado e chipado. Se não houver a chance de fazer a castração antes, no contrato vem essa cláusula de que os novos tutores irão castrar o animal assim que possível. 
Depois da castração, com o cone of shame

Mas no nosso caso, Carlito estava na Hungria. E aí entra outro processo, que é o de trazer um cachorro de outro país para a Suíça (e nem vou entrar no mérito de que, na semana em que nós fomos aprovados, foi declarada a situação de emergência pelo corona, e nós tivemos que esperar 3 meses por ele). 
Carlito em sua última consulta antes da viagem
E aqui já embarcado, pronto pra viajar da Hungria para a Suíça

A imigração
O cachorro foi chipado, e então emitiram um passaporte europeu pra ele. No passaporte, além de ficar registrado os dados dele e dos futuros tutores, também ficou registrado o número do chip, e então das vacinas obrigatórias, acho que é a anti rábica somente. Eu pedi ainda que aplicassem as outras vacinas recomendadas, mas não obrigatórias. 

No dia da viagem, nós deveríamos fazer a imigração dele na Suíça. Então encontramos com o motorista que o trouxe na fronteira com a Áustria, antes da entrada na Suíça. Com ele já no carro, paramos na aduana Suíça e fizemos a declaração e entrada dele. O valor a ser pago é de acordo com o valor do animal. No nosso caso, Carlito é um viralata, mix de puli com alguma coisa, e a taxa do abrigo (para cobrir as despesas médicas, de emissão de passaporte, e pelos cuidados) foi de 245 euros, então a nossa taxa imigratória foi com base em animais que custam até 500 francos. Pagamos 39 francos. No caso de um animal de raça, cujo valor padrão seja de mais de 500 francos, a taxa vai ser outra. Eu vi uma tabela na tela da polícia, mas não me atentei aos outros valores.
O nosso encontro, e eu inchada por motivos de: chorei para caraleooo

A regularização na Suíça
Chegando na Suíça, o tutor tem 10 dias para registrar o animal no Amicus, que é uma database nacional. Esse registro deve ser feito com o acompanhamento de um veterinário obrigatório. Então o procedimento é: ligar no Hundekontrolle (ou veterinäramt) do seu cantão de residência, e pedir o número de identificação do seu cachorro. Aqui em Zurich esse procedimento pode ser feito online aqui, e eu recebi o número por email coisa de 20 minutos depois, bem rápido. Com esse número, você marca vai ao veterinário e ele faz o registro no Amicus. 

E aí, sendo Suíça, os procedimentos estão todos feitos e só sobra as contas rs. Pagamos 180 francos de taxas federais, estaduais e municipais, que recebemos por email junto com o número de idenitificação. Sei que a federal é uma vez só, justamente por conta desse registro no Amicus. As taxas municipais e cantonais, que no nosso caso, de um cachorro pequeno, foram juntas de 50 francos, são anuais. Além da manutenção dessa "vigilância sanitária", esse imposto também paga pelos saquinhos de coco de cachorro espalhados pelo país, que eu acho muito bom. 

Com isso, seu cachorro está devidamente adotado e regularizado. 

Opcionalmente, eu fiz também um seguro saúde para ele. Para o dia a dia e consultas, os preços aqui são bem razoáveis. Mas em caso de acidentes, cirurgias, internações, os valores podem escalar bem rapidinho. Tendo ouvindo de amigos que gastaram 3 mil francos com um problema canino, eu optei por fazer o plano. Tem algumas possibilidades, e o meu eu fechei com a Animalia, um braço da Vaudoise. 

E aqui um Carlito relax com seu penteado de verão :)

Espero que esse post seja válido para alguém que esteja pensando em adicionar um animal à família. Não compre, adote <3

A nova vida que Junho me trouxe

Dia 30 de maio chegamos em Zurich com mala e cuia, mais 55 caixas e todos os móveis. Foi um dos dias mais cansativos de que tenho memória, e que me fez pensar que eu não mudo tão cedo desse apartamento simplesmente porque não tenho saúde pra isso. Os primeiros dias do mês foram de adaptação contínua: estamos num bairro super gostoso, mas badalado rs. Badalado o suficiente pra eu, caipira de Berna, ter passado meus primeiros dias meio overwhelmed, e questionando a nossa "escolha". Com muitas aspas, porque não foi bem uma escolha, foi o apartamento que a gente conseguiu, nesse mercado imobiliário doido que é Zurich. 

Passamos os primeiros dias arrumando a casa, deixando tudo com cara de lar, mesmo que com muitos ajustes. Eu não consigo sossegar enquanto não tiver o mínimo de organização em volta de mim. O caos e a bagunça me tiram do centro, e então em coisa de 3 dias, a nossa casa já estava bem organizadinha, e toda a bagunça restante devidamente escondida no quarto de visitas com a porta fechada rs. 

Também começamos a dar umas voltas e explorar Zurich como moradores. Eu conheço um pouquinho mais a cidade, por estar vindo aqui diariamente há quase dois anos, mas Mati conhecia bem pouco. Então passamos alguns dias caminhando pelo nosso bairro, e dando uns roles de bike, o tipo de coisa que a gente adora. Fizemos várias rotas por lugares que nenhum de nós conhecia, e tivemos aquele feeling de descobrir a cidade juntos. O verão chegando trouxe dias lindos propícios pra isso, inclusive.

O lago de Zurich num fim do dia em Kusnacht, na costa dourada 

Diversão no Limmat com a cidade antiga ao fundo

E por aqui também tem diversão na bóia

E então, dia 22, acordamos bem cedinho e fomos até a fronteira com a Áustria buscar o novo integrante da família, que veio sendo planejado há anos. Junho trouxe também Carlito, o cachorro mais fofo e amoroso que se tem notícias rs. Em um post separado eu vou contar sobre o processo de adoção por aqui. Mas já adianto que apesar da fofisse, nem tudo são rosas, e confesso que nunca ninguém me avisou que poderia rolar um puerpério canino rs... só que rolou. De qualquer forma, por ora vamos superando tudo. 

E foi assim que Junho de 2020 foi um mês de grandes mudanças: novo normal com tudo, cidade nova, casa nova, e um novo habitante. Terminei o mês na melancolia de uma crise existencial, que também explorarei mais pra frente, quando eu mesma tiver plena claridade do que tem passado na minha cabeça e acontecido no meu corpo. 2020, o ano das dificuldades inesperadas. 

Que julho traga sol, calor, amor e paz, porque eu to precisando. 

Maio e o "novo normal"

Maio foi um mês bem especial. Enquanto o corona seguia assombrando boa parte do mundo, a vida começou a retomar alguma normalidade aqui na Suíça. O mês começou com uma pequena abertura para salões e lojas de diy, e terminou com bares, restaurantes e parques abertos ao público. Se a princípio eu fiquei meio ressabiada, no final eu já tava bem a vontade rs... Fomos em vários restaurantes, e aproveitamos ai vinte dias pra nos despedir de Berna. Enquanto a gente ia se entendendo com os dilemas de 2020 - encontrar ou não amigos? Precisa vestir máscara? Ir ou não ir no bar? - uma primavera linda ia florescendo na Suíça. 
Primeira escapada em semanas
Nas despedidas de Bern, conhecendo Schwellenmätteli, um restaurante na beira da água

Ainda no clima de mudança, resolvemos fazer um passeio pela região do Jura, uma área que é mais próxima de Berna, mas já na fronteira com a França. O destino foi Le Locle e La Chaux de Fonds, as duas cidades que, juntas, são a sede da famosa relojoaria suíça. A gente sabia que não tem muito o que fazer por lá, e que depois de mudados, teríamos dificilmente motivo para dirigir mais de 2 horas até lá. E realmente... Além de passar pelos prédios de marcas famosas, como Rolex, Tag Heuer, Tissot, Cartier, etc, não tem muito o que fazer. Le Locle, a 8 quilômetros da França, é especialmente sem graça, rs.. La Chaux de Fonds ainda tem um centro antigo bonitinho. O ponto turístico da região, um mirante sobre o rio Doubs, a divisa entre a Suíça e a França, estava fechado por conta da pandemia. Então pra gente sobrou comer um kebab na praça, pensar nos relógios que nunca compraremos, e dirigir pra casa. Mas no caminho tinha Neuchatel, e de lá eu gosto muito. Pra completar, estava ensolarado. Resumindo, paramos por lá e curtimos um fim de tarde maravilhoso na beira do lago. 
As casinhas coloridas na beira do lago em Neuchatel
Fazendo jus a blogueirisse rs

Maio é também o mês dos feriados: aqui na Suíça é celebrada a ascenção de Cristo e o Pentecostes, feriados do calendário cristão, que variam conforme carnaval e Páscoa. E com esses feriados veio a lembrança dos planos que a pandemia não concretizou: iríamos dirigir até Nice e passar um feriado no Riviera Francesa. Mas não aconteceu, e resolvemos fazer acontecer por aqui mesmo. Durante o feriado teve picnic na beira do rio, teve encontro - a distancia - com amigos queridos, e demos uma volta de bike em que bati meu novo recorde: 29 quilômetros, vendo Berna quase que de cabo a rabo rs. Foi bonito terminar nosso último fim de semana em Berna sentados na varanda do Sternen, o hotel em que ficamos por uma semana na nossa chegada. 
Pedalando brom Bremgarten bei Bern

E pelos campos de Sttetlen

Na beira do Aare

<3

E foi assim, com uma vibe lá em cima, num clima de verão, de vida recomeçando, de esperança pela luz no fim do túnel, que a gente encerrou esse capítulo da vida na Suíça. Berna, valeu, foi bom, adeus :) 

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