Seis meses

A maternidade é mesmo uma sequencia de clichês, e talvez o maior e mais verdadeiro deles seja que os dias passam devagar, mas os meses e anos passam muito depressa. E assim, entre dias de 50 horas, parece que os primeiros seis meses do meu bebê passaram num piscar de olhos. E cá estou eu pra, mais uma vez, tentar eternizar em palavras os sentimentos mil que me invadiram nesse tempo. 


A chegada do Dominic ao mundo foi cheia de amor, suas primeiras semanas foram a tal bolha sobre a qual escrevi aqui. E quando ele fez duas semanas, meu marido voltou a trabalhar e eu me vi sozinha em casa com um recém-nascido. Eu senti um pavor imenso, de não ser capaz de manter aquele nenê tão indefeso, tão frágil, vivo e seguro. Aquelas foram as duas semanas mais longas que eu já vivi... eu estava ainda numa neblina emocional muito grande, chorava muito, agarrada naquele pacotinho, e eu mal lembro como passamos nossos dias. Lembro de ficar com ele no colo, parada diante da minha janela, vendo o ponto de ônibus que tem aqui em frente encher e esvaziar, o dia quase inteiro. Mas entre mamadas, fraldas e e partidas do ônibus, sobrevivemos, e então Mati entrou de férias e eu voltei a ter companhia em casa. E quando a semana de folga dele estava chegando ao fim, a minha mãe chegou pra passar um mês aqui comigo. 


O cantinho onde eu passei praticamente a minha licença inteira, desse jeitinho rs

Uma das primeiras vezes que saí com Dominic no canguru, sem saber que seria onde ele tiraria todas as suas sonecas da vida até aqui rs


Foi um mês muito, muito especial, e eu sei que até o fim da vida, lembrarei desse mês com o maior carinho do mundo. Minha mãe chegou aqui num momento muito crítico, quando as cólicas, gases e desconfortos do Dominic tiveram um pico. Ele chorou, praticamente non stop, da sua terceira à oitava semanas de vida. Quando a minha mãe chegou a gente estava penando com ele já há umas 2 semanas, e estávamos exaustos, nervosos, inseguros, atrapalhados, sem saber o que fazer, tentando tudo, e eu me sentindo um fracasso de mãe. Ela cuidou da gente, nutriu, me fez companhia, cantava, acalmava meu bebê como naquele momento eu não conseguia, e deixou nossos dias muito mais leves. Passamos esse mês passeando por Zurich, nos aventurando com Domi no carro e no carrinho (puro desastre), passeando com Carlito, as vezes se bicando, mas sempre dando muita risada, e completamente vidradas vendo o Dominic crescer diante dos nossos olhos. No seu último fim de semana aqui, eu e bofe conseguimos até sair pra um date night, que foram duas horas de oásis no meio da loucura que é a rotina com um recém nascido. 


Minha mãe me fazendo companhia e empurrando carrinho vazio...

... enquanto eu carregava nosso pacotinho

Ao final da oitava semana do Domi os desconfortos foram cedendo, e ele passou a sorrir cada vez mais e mais, a chorar menos e menos. E então a minha mãe foi embora, e quem chorou pencas fui eu. Tive quase que um puerpério 2.0 com a partida dela, e o reencontro com a solidão que é a licença maternidade. Mas depois de uns dias bem borocoxô, eu aproveitei que Domi estava entrando numa rotina mais previsível, e num humor mais social, e comecei a me aventurar para encontrar amigas em cafés e restaurantes. Também comecei a tirar algumas horinhas para mim quando o Matt voltava pra casa.. ia fazer massagem, exercícios, fazer vários nadas. 


Começando a curtir os dias fora...


Em abril eu fiz 39 anos, e me senti a vontade para receber alguns poucos e bons em casa, cantar parabéns, matar saudade da casa cheia. Também nos aventuramos em nossa primeira viagem com o Dominic. Dirigimos até a região da Provença, na França, e foram dias muito, muito gostosos. De voltar a fazer algo que tanto gostamos, mas de um jeito novo. Nessa primeira viagem a gente deu umas barrigadas, mas também acertamos bastante. Estamos aprendendo com ele, em tudo, inclusive como viajar. Ter ido nessa viagem, mesmo com os perrengues (bebê chorando no carro, apartamento com piso que rangia muito e o acordava, cansaço, etc) me deu muita confiança. 



Conhecendo a região de Provença...


... e aprendendo a viajar num ritmo diferente

E se a viagem foi um grande milestone pra gente, em maio tivemos muitos pequenos momentos de conquistas e alegrias. Eu fui sozinha com Dominic para Berna passar o dia, sobrevivendo com muita dignidade ao role de trem e passeio pela cidade rs. Dominic tirou seu passaporte italiano, fechando seu último compromisso burocrático. Ele também aprendeu a rolar, de trás pra frente e de frente pra trás, passou a curtir andar no carrinho, foi no seu primeiro samba (e dormiu rs). Recebemos visita do meu irmão e sua família, e depois fomos encontra-los na França durante um feriado. Passeamos por Lausanne, nossa cidade favorita na Suíça francesa. E por último, mas muito importante: eu fui com amigos ao show da Mãeana, e me senti muito viva, me reencontrei comigo, dancei muito, tomei vinho, cantei bem alto, e passei 3 horas longe de casa, mas que me renovaram e preencheram, e me deixaram muito feliz. 


Meu primeiro dia das mães



O reencontro comigo no show da Mãeana


No fim de maio acabou a minha licença maternidade oficial, mas eu tirei férias durante o mês de junho (a política familiar da Suíça é das piores, se não a pior, da Europa rs, mas é assunto pra outro post). Foi um momento de começar a me acostumar com a idéia que meus dias inteiros com meu bebê estavam chegando ao fim. Nos preparamos para as férias, fomos para a California num novo grande milestone, que é uma viagem longa de avião. Apesar do jetlag, da situação política do nosso destino nesse momento, foi tudo bem, e passamos 15 dias felizes com a família, de descanso e aconchego. E assim, num piscar de olhos, na duração de um post de poucos parágrafos, meu bebê fez seis meses e eu voltei a trabalhar, encerrando um período único e muito especial da minha vida. 




O retorno da minha persona corporativa


Acompanhar o desenvolvimento, as mudanças diárias do Dominic tem sido um privilégio e uma delícia. Eu amo ver como, de pouquinho em pouquinho, ele vai adquirindo novas habilidades, vai aprendendo coisas, vai ficando cada dia mais fofo. Mas acompanhar as mudanças em mim tem sido igualmente interessante. Eu passei os primeiros meses completamente tensa. Tensa pelos medos, pela insegurança de ser responsável por um bebezinho, tensa pelas dificuldades que ele teve, de ter passado seus primeiros meses basicamente chorando, de eu não saber o que seria dele - e de mim - a cada vez que acordasse. Tensa por me sentir 100% tomada por uma nova vida, uma nova versão, e não saber direito como lidar com ela. E então eu fui, bem aos poucos, ficando mais confortável, sentindo a tensão diminuir, e começando a me encontrar. 


Uns meses atrás, antes do nascimento do Dominic, esse vídeo passou no meu instagram (não achei a versão do ig, e numa busca rápida achei ele no tik tok). Essa educadora celebrada nas redes fala sobre como lutar contra a maternidade pode dificultar o caminho, como é importante se entregar. Na época, mesmo grávida, eu achei interessante mas não pensei muito sobre. Mas andei refletindo muito sobre como, principalmente nos ultimos 3, 4 meses, eu deixei mesmo a maternidade me levar, e como isso ta me fazendo bem. Eu não sou aquela pessoa que se define como mãe, que precisa dizer antes de mais nada que é mãe do fulaninho, não é meu perfil, nunca foi. Mas nesse momento eu to bem em paz com as mudanças que a maternidade trouxe pra minha vida. Eu sinto sim saudade de ter tempo pra mim, acho cansativo que qualquer ida ao supermercado pode virar um grande evento de planejamento, mas eu tenho tido tranquilidade para, na tentativa e erro, buscar novas formas de me estruturar. Eu penso muito em como o meu bebê só vai ser pequenino assim uma vez, e isso me dá uma acalmada para viver o agora em todo o seu caos.


Nos meus momentos de angústia dos primeiros meses, lembro de sofrer porque Dominic não dormia no berço, porque chorava muito, porque só tirava sonecas no canguru, porque só queria colo, mamava o dia inteiro, porque eu sentia que não podia nem sentar num café, muito menos viver minha vida. Sentia inveja das mães passeando por aí com seus nenês a dormir tranquilos no carrinho. A fase de não poder sentar num café passou, mas algumas coisas ainda persistem. E aquela angústia deu lugar a uma aceitação de que eu tenho controle sobre algumas coisas, mas não tenho sobre a maioria delas. Que meu filho é quem ele é, independente do que eu quero, projeto, desejo, planejo. E eu sei que esse ciclo de desejos-frustrações-aceitação vai se repetir inúmeras vezes ao longo da maternidade. Eu to aqui meio fascinada com a paciência, a resiliência, que esse menino tem despertado em mim todos os dias. E eu desejo, cada vez mais, não perder esse olhar generoso com que me vejo, e com que vejo a maternidade. Foram só seis meses, mas foram uma vida.



***

* tenho demorado tanto pra organizar minhas ideias, que rascunhei esse post um mês atrás, mas só vim terminar ele hoje, que Dominic fez 7 meses rs. 

Uma fenda no tempo


Uma fenda no tempo. Um buraco no espaço. É assim que eu enxergo as últimas semanas de 2024 e as primeiras de 2025, sem sombra de dúvidas, as mais especiais da minha vida. Parece que o mundo em torno de nós parou de girar, e a gente entrou numa bolha, num universo paralelo.


No dia 19 de dezembro eu tive uma consulta, e como já estava lidando com muitos desconfortos, tendo dificuldade pra ficar sentada muito tempo em frente ao computador, e ainda de quebra lutando contra uma sinusite brava e sem ajuda de remédios, minha médica acabou me dando uma licença médica. Foi assim que eu encerrei o meu ano profissional e entrei no que seria já a minha licença maternidade. Marido estava de férias, e nessas semanas que se passaram nós curtimos a nossa casa e companhia.


 Passamos o fim de ano aqui, e aproveitamos para, aos poucos ir nos despedindo da vida como conhecemos. Muita gente acha que filhos acabam com a vida, e eu acho isso bem fatalista rs. Mas a chegada de um filho realmente muda tudo, e a vida não será mesmo como antes. Tudo que se vivia ainda poderá ser vivido, mas de formas diferentes. E conscientes disso, a gente aproveitou pra fazer algumas coisas que talvez demore pra gente voltar a fazer juntos, de forma tão descomplicada. Nessas 3 semanas nós dormimos até tarde, vimos um ballet na Opera de Zurich, passamos alguns dias ensolarados nas montanhas, aproveitamos tudo num tempo bem devagar, e principalmente, nos curtimos muito. Também passamos as festas com amigos queridos, e foi tudo muito íntimo, aconchegante e feliz.










No dia 7 de janeiro fui a minha médica, e nosso bebê ainda encontrava-se sentadinho no meu útero, inviabilizando um parto normal. Marcamos a cesária pro dia 9, mas sabendo da minha vontade de tentar o normal, minha médica sugeriu que ao darmos entrada na maternidade, que seguissemos para um último ultrassom antes de ir pra cirurgia... vai que o baby resolvia nos surpreender no último minuto. Na quarta, sentindo sua cabeça ainda no alto da barriga, eu sabia que ele não tinha virado. Levamos Carlito pra creche, e saímos num date night, sabendo que provavelmente foi o último em um bom tempo.  Eu e marido nos arrumamos, fomos num restaurante animado que gostamos, comemos bem, e depois fomos pegar um cineminha. Além de estar ali curtindo muito um ao outro, a gente não parava de falar e pensar.. amanhã a essa hora a gente vai ter um filho. Voltamos andando pra casa, tarde da noite, conversando, e eu me senti muito feliz. 

No horário marcado na quinta nós chegamos na maternidade, e depois de confirmar no ultrassom que ele seguia sentado, ficou confirmado que ele nasceria em poucas horas. Nas duas horas entre dar entrada no hospital e ir pra cirurgia, eu pensei muito em tudo que vivemos, como casal, até chegar ali. Não só nos bebês que não pudemos conhecer, mas nesses mais de 10 anos de parceria, em todas as coisas que fizemos, histórias que criamos, e principalmente, decisões que tomamos, para que no dia 9 de janeiro de 2025 a gente estivesse olhando pra cidade de Zurich e pensando que aqui a gente vai ter e criar o nosso filho. Eu já saí pra cirurgia já muito emocionada, com Matt empurrando a minha maca. 


Não vou fazer relato de parto aqui, porque parto no fim é sempre meio igual, e só é especial pra quem vive. Mas eu fui muito bem acolhida pela equipe, pela minha médica maravilhosa, que me fez carinho enquanto eu levava anestesia, e apesar da cesária não ser lá uma via de parto muito poética rs, eu sempre lembrarei da minha com muito carinho. Eu jamais esquecerei o momento em que eu ouvi o choro do meu filho, a emoção de saber que ele tava bem, que ele era meu, que ele chegou. É uma lembrança que desde então vem a minha cabeça ao menos uma vez ao dia... eu lembro do choro dele, tão urgente, tão alto, e do alívio que senti. A impressão que tenho é que só ali todos os meus medos e traumas finalmente cederam, e eu senti uma paz sem fim, me senti curada de tantas dores. 


Por duas semanas ficamos nos alimentamos de nós mesmos, vivendo inúmeras primeiras vezes, nos conhecendo, e praticamente incomunicáveis com o mundo lá fora. Aqui dentro só nos três existíamos. Eu com a cabeça 100% tomada pela neblina do puerpério, vivendo um turbilhão emocional, consegui ver a beleza desses dias, e sentir um amor imenso não só pelo meu filho, mas pelo meu marido, por esse momento. Eu lembro de querer absorver cada minutinho e os repeti na minha cabeça com a intenção de nunca esquecer nenhum detalhe. Examinei cada centímetro do corpinho do Dominic, ficava horas cheirando ele, tentando memorizar aquele cheirinho de recém nascido. Eu também morria de medo de furar a bolha, de sair de casa e ver que o mundo seguia não tão mágico quanto esses dias aqui dentro. Eu nunca, NUNCA, imaginei viver algo assim, tão profundo, tão bonito, e tão sofrido, tudo ao mesmo tempo. Profundo por tudo isso que já falei, pela potência de gerar uma vida, de ver o amor transbordar e se concretizar num novo ser humano, e bonito por ver o início de uma pessoa, e a transformação da minha existência. Mas sofrido porque transformar a minha existência significou constatar uma sequência de lutos, os quais estou elaborando até agora. 


Ao fim dessas duas semanas, meu marido voltou ao trabalho, e a nossa bolha se furou. A vida foi entrando no novo normal, e como ouvi tanto falar, os dias passaram devagar, mas as semanas passaram muito depressa. Hoje, quase 3 meses depois, parece que essas semanas ficaram em outra vida. Mas foram as mais lindas que já vivi. 







Adeus ano velho

Acordei reflexiva no dia 31 de dezembro. Groundbreaking! Eu e o mundo inteiro. Mas fato é que 2025 me aguarda ali, com muitas mudanças e novas perspectivas, e eu fiquei olhando pra 2024 de uma forma bem generosa e contemplativa. Foi um ano muito bom, apesar de ter sido recheado de momentos e sentimentos difíceis. 

Eu comecei o ano desejando muito ser feliz, enquanto carregava comigo umas correntes que os traumas de 2023 me deixaram. Me sentia apática com relação a muitas coisas, com a visão turva, e com um sentimento de que não estava vivendo, mas sobrevivendo. No meio disso tudo, meu pai teve um problema de saúde que me fez refletir muito sobre a finitude dos meus, e também sobre a minha escolha de construir a vida tão longe. Entendi que esse é um conflito que eu vou viver cada vez com uma intensidade diferente. Criar um filho longe da família, ver meus pais envelhecer a distancia, a sua fragilidade maior a cada reencontro. Por outro lado, olho pro futuro e me sinto em casa aqui, cada vez mais. Tive certeza que fiz escolhas certas, mas que isso não torna mais fácil lidar com as consequencias e renúncias que elas trazem. Com a melhora do meu pai, no fim de março eles vieram, nós passamos duas semanas muito gostosas, e meu coração começou a se acalmar. 

Com a primavera vieram dias mais solares, voltei a me sentir eu. Fiz uma festa de aniversário que foi um grande afago na alma, com a casa cheia de amigos, pista de dança animada até altas horas, me senti querida, me senti leve, e percebi que aquela nuvem cinza estava realmente levantando dos meus olhos. E então me descobri grávida. Desde então tenho travado uma batalha mental contra a ansiedade e o medo constante. Me deixei curtir essa fase aos pouquinhos, dividir com as pessoas no meu tempo. Aproveitei o verão pensando que meus verões serão pra sempre diferente. Fui ao rio quase todos os dias, sempre meio sem hora, as vezes sozinha, as vezes com marido, com amigos. Cada raio de sol me encheu de vitamina D, me encheu de otimismo. Recebi visita de amigas, fomos em baladas, fomos viajar, conheci a Grécia, fomos pras Olimpiadas. Fui vendo minha barriga crescer, meu corpo mudar, e fui recebendo essas mudanças com tranquilidade. Me achei bonita, por vezes não me reconheço, mas no geral eu vejo o impacto da gestação no meu corpo como algo muito, muito poderoso. Embora a gravidez, e todos os medos que vieram com ela, tenha me trazido muita ansiedade, vou guardar esses meses sempre com muito carinho. Foram meses que me encheram de esperança e de amor. 

Profissionalmente, 2024 foi bem desafiador. Comecei o ano aceitando uma posição temporária pra cobrir uma licença maternidade extendida, por um ano, numa área bem especializada na qual eu não tinha experiência, mas tinha muito interesse. O começo foi muito difícil. Para além dos desafios que esse tipo de projeto traz, a vaga tinha muita visibilidade, o perfil da gerente era bem diferente do que eu estava acostumada e, principalmente, eu tava deprimida mas não tinha me dado conta. Só sentia uma apatia gigante, e achava que tudo me demandava muita energia porque eu estava numa área nova. Foi só conforme eu fui acordando do meu estado de torpor que eu percebi o quão difícil estava porque eu estava num momento difícil. E conforme esse momento difícil foi passando, eu fui me sentindo cada vez mais confortável, percebi que estava performando muito bem, que a minha dinamica com a chefe nova era ótima, e que eu adoraria ficar nesse time se a oportunidade aparecesse ao final do ano. Só que no meio do caminho tinha uma reestruturação do departamento, e tudo ficou bem incerto. Minha antiga vaga, para onde eu deveria voltar ao fim desse ano, foi extinta, e eu precisei encontrar uma nova posição. E assim foi. Fiz todo o processo seletivo, entrevistas e afins, e tenho uma vaga legal pra onde irei quando acabar minha licença maternidade. Terminei o ano encerrando esse projeto temporário de uma forma muito positiva. Para além de ver tudo que eu consegui realizar em 2024, tive elementos concretos pra me mostrar o tanto que aprendi, que evolui como profissional de RH, e fiquei muito orgulhosa. Encerrei com um feedback muito, muito positivo, e a certeza de que eu to seguindo no caminho certo. 

Impossível também falar de trajetória profissional sem falar do Mestrado né... Esse ano eu terminei todos os cursos e créditos obrigatórios do programa, e agora falta escrever a tese. SÓ isso rs. Esse negócio tem demandado uma energia imensa do meu lado, simplesmente porque eu não sou uma pessoa academica. Pesquisar, escrever, referenciar, a linguagem, tudo isso é algo bem fora da minha zona de conforto, então, o que acontece é que enquanto eu amei o conteúdo das aulas, das leituras, eu quis morrer um pouquinho cada vez que eu tinha um paper pra entregar hahaha. Eu até adquiri um certo ritmo, consegui melhorar minhas notas, mas assim.. não vou mentir não, eu não curti nenhum minuto dos milhares gastos produzindo conteúdo academico rs. Porém não sou terraplanista, e pude sim ver como o conhecimento adquirido já influenciou no meu trabalho, na minha forma de abordar alguns problemas, de propor soluções, de pensar alguns tópicos. Considero um saldo muito positivo. Agora eu tranquei o programa por um semestre, e em junho eu começo a botar meu projeto de pesquisa em prática. Veremos. 

Quando eu penso nos meus grandes assuntos de 2024, o que eu escrevi até aqui resume bem. Mas mais uma vez, fica claro que pra mim o que mais importa mesmo são as companhias. Quem esteve ao meu lado ao viver tudo isso, quem segurou minha mão nos momentos difíceis, e quem tava junto pra estourar a champagne, descer até o chão, e curtir os bons momentos. E eu sou muito, muito grata, pelas amizades que se fizeram fortes e presentes nesse ano tão intenso. Os amigos daqui, os do Brasil, os da vida inteira. Foi um ano em que, se chorei ou se sorri, o fiz em maravilhosas companhias, pessoalmente ou virtualmente, e sei que pra mim, sempre, a jornada e as companhias são mais importantes que o destino. 

Enquanto eu buscava fotos de viagens e momentos emblemáticos de 2024, fui vendo o quanto o olhar do meu marido é generoso comigo. As imagens mais belas do ano foram registradas por ele, que ta sempre ali, me olhando, me cuidando e me levando pra frente. Encerro essa reflexão com uma egotrip imensa, de momentos lindos que ele captou ao longo desse ano tão singular.










A gravidez e os outros


 Aos 8 meses de gravidez, me sentindo pesada, torcendo pro bebê aguentar firme ai dentro por mais 2 meses, enquanto as vezes me assusto pensando nos efeitos desses mesmos meses no meu corpo, andei pensando em como tem sido gestar. No geral, a gestação não é mesmo uma experiencia individual, e eu teria muito pouco a adicionar ao que o senso comum já sabe: um início de asia, medo e cansaço, um segundo trimestre de mais disposição, constantes dores do crescimento, emoções de descobertas, sentir os movimentos, e um terceiro trimestre que vai chegando na exaustão, nada novo sob o sol. 


Mas o que me intrigou mesmo é o tanto que, nesses tempos de redes sociais, de conexão infinita, a tendência geral é de viver uma experiência completamente padronizada e igual, desde as fotos que se tira e posta, das legendas que se usa, dos memes que se compartilha, aos ritos que se vive (chá disso e daquilo, ensaio, you name it), e aos produtos que se compra. Principalmente vindo das amigas do Brasil, me vi com um grande checklist na mão, e extremamente irritada em como tudo parecia completamente pasteurizado: 9 de 10 pessoas me chamando de gravidinha (peguei irca da palavra rs), falando em nenê no forninho, perguntando sobre chá revelação, chá de fralda, ensaio fotográfico, me mandando os mesmos memes de gestante cansada, gestante neurótica, gestante isso ou aquilo. Sério, que bode rs. 


Primeiro que parece até que essas pessoas, que em sua maioria são pessoas queridas que já estiveram mais ou menos próximas, não me conhecem, né.. pelamor gente, eu lá tenho cara de quem faz chá revelação?! Mas depois eu fiquei pensando em como várias amigas que também não tem cara de quem faz chá revelação acabaram fazendo, e eu comecei a sacar que a tal da culpa materna começa bem cedo, já na gestação. Tenho amigas que fizeram o chá, o ensaio, porque ficaram com medo de se arrepender depois. Afinal, de contas, todo mundo faz, né? A gestação vira um grande checklist das coisas que todo mundo faz, das fotos que todo mundo tira, dos milestones que todo mundo vive, mesmo antes do bebê nascer, e aí as pessoas acabam já vivendo um FOMO. 


Também refleti como, muito rapidamente, a gente já vai sendo reduzida ao papel de mãe. Digo reduzida sim, porque toda mulher com filhos segue sendo mãe, filha, esposa, parceira, amiga, colega, profissional, etc. Mas de repente, todo mundo só enxerga a mãe. Talves eu tenha ficado (mais) azeda nesses meses, não duvido rs, mas comecei a me irritar muito com algumas pessoas que há muito não me ligam pra perguntar da vida, do trabalho, de coisas que me são caras, mas de repente tavam me bombardeando toda semana com mensagem carinhosa perguntando como vai essa gravidinha?, cadê foto da barriguinha?, já ta comprando as coisas do quartinho?. Eu realmente não quero ser uma ranzinza rs, mas chegou num momento em que eu tive que dar uns cortes, porque eu não ligo de falar da gravidez, muito pelo contrário, eu adoro, mas eu não deixei de ter outros assuntos. Nesse meio tempo eu tive uma reestruturação no trabalho, passei por um processo seletivo, consegui uma vaga bacana para quando eu voltar da licença, me envolvi em projetos super legais, mas a grande maioria das pessoas nunca nem perguntou sobre nada disso. 


Pra encerrar o rol de reclamações, queria ainda resmungar sobre o consumismo que envolve essa fase. Uma vez li num livro sobre como gestantes são a mina de ouro do capitalismo: não somente elas estão gerando a nova leva de consumidores (se sua mãe é uma consumidora de marca X, tem grandes chances de você vir a ser também), como elas estão dispostas a não dar nada a menos que o melhor para suas crias. E ai lhes pergunto: quem define o que é o melhor? Pois é, também não sei, mas parece que ta definido rs. O creme anti estria TEM que ser o da marca x, a bomba de extração de leite TEM que ser a da marca y, mamadeira só a da marca z, senão da cólica, tudo TEM que ser desse jeito senão você vai padecer e não vai ser no paraíso, e pior: mais uma vez, vai padecer porque não fez o que todo mundo faz, que é comprar esse produto milagroso. Que maravilha deve ser pra uma marca conseguir ser defininda como A marca que TEM que ter. Mal precisa fazer marketing. A moral da história é que, de repente, sem você nem ter pedido, ta lá com uma lista de compra na casa dos milhares de francos na mão - e imagina em real, meu povo. 


Eu só comecei a compartilhar a gravidez, mesmo com família e amigos próximos, quando já passava dos 3 meses, e fui postar em redes sociais sobre eu já devia estar com uns 5 meses, então essas demandas demoraram um pouco pra chegar até mim, e mesmo assim, quando chegaram, encheram meu saco. Cada vez que eu ia pesquisar algum desses itens, eu chegava a conclusão de que acaba sendo mais fácil mesmo seguir a manada, porque 90% dos sites, listas e recomendações apontam pra elas, e pra passar disso você tem que escarafunchar  muito, pesquisar muito. Eu fui ficando cada vez com mais preguiça, e acabei deixando tudo pra depois rs. Então agora, quando já beirava a entrada no último trimestre, foi que eu realmente comecei a preparar a casa pra receber seu novo morador. 


E aí, eu cheguei a conclusão que, se você conseguir se livrar dos outros, da pressão dos outros, do barulho dos outros, a gestação é muito gostosa rs. Aqui no nosso cantinho, onde eu, meu marido, meu cachorro e meu bebê fomos vivendo os últimos meses, foi só aconchego. Tem hora que tudo que você precisa é mesmo desligar o fio da internet (ainda mais se você mora fora, já que ninguém vai bater na sua porta rs), e aí fica tudo uma delícia: ver a barriga crescer, sentir o bebê mexer, imaginar o futuro, começar a organizar esse futuro. Foi muito gostoso começar a comprar roupinhas, receber presentes, pensar os ajustes que precisaríamos na casa (executar esses ajustes foi, e está sendo, menos gostoso rs). A Suíça também demanda muito planejamento, e precisamos nesse tempo já buscar e registrar com um pediatra, escolher uma creche, registrar esse bebê que nem nome tem para ter um plano de saúde. Tudo isso foi dando bastante concretude pras mudanças que, para além do meu corpo, estamos prestes a viver. 


E ai minha conclusão foi que, enquanto estou amando estar grávida, na maior parte do tempo estou odiando papo de grávida rs. E percebi que não é pelo papo em si, mas pela abordagem. Me dei conta que, com amigas com quem falo de tudo, quando chegamos nos assuntos dos preparativos, dores e angústias da gravidez, eu adoro tagarelar. Mas odeio falar sobre isso com quem SÓ quer falar sobre isso, com quem adquiriu um interesse extra sobre minha vida agora que ela não é só mais minha. 


Uma semana no País Basco: San Sebastián e Bilbao

Em outubro do ano passado tínhamos uma viagem dos sonhos planejada: conhecer o Líbano. Uma semana antes da viagem, no entanto, aconteceu o ataque do Hamas a Israel, e entendemos que não era um bom momento. De última hora resolvemos olhar algumas viagens que temos aí na nossa lista de lugares a visitar, e encontramos uma passagem legal para Bilbao. Eu precisava muito descansar, precisava ter sossego pra ficar meio atoa uns dias e não sentir que estava desperdiçando férias, então optamos manter o plano de passar uma semana viajando, mesmo sabendo que talvez fosse muito tempo na região. Dividimos a semana e passamos metade dela em San Sebastian, e a outra metade em Bilbao. Um ponto importante: essa viagem poderia facilmente ser mais curta, e dois dias em cada uma das cidades seria suficiente pra ver tudo que tem pra ver mas, definitivamente, não seria suficiente pra comer tudo de bom que se tem pra comer rs. É, acima de tudo, um rolê gastronomico, porque para além da cozinha basca ser um desbunde, esse pedacinho do mapa tem a maior concentração de estrelas Michelin do mundo, se não me engano. E isso puxa o padrão lá pra cima. Come-se bem demais em San Sebastian e em Bilbao. Com isso em mente, vale programar pra comer e relaxar. 

E vamos aos highlights da viagem: 

- A orla de San Sebastian - com toda uma pegada de balneário antigo, San Sebastian tem uma orla belíssima, sendo La Concha a sua praia mais famosa, com um calçadão gostoso de andar, e a cidade velha lá no fundo. Nós nos hospedamos no Antiguo, um bairro fora do centro, que é super charmoso e tem hospedagens mais em conta. Alíás, ficamos no Letoh Letoh, um hotel simples mas bonito, com um café gostoso no térreo, e vários bares em seus arredores. O preço foi bem bom, e eu recomendo pra quem não ta procurando coisa chique. Todos os dias andávamos pela orla da praia pra chegar na cidade, víamos os cachorros correndo, as pessoas tomando sol. Uma delícia! 


- Museu Critobal Balenciaga - no vilarejo de pescadores de Getaria nasceu Cristobal Balenciaga, o estilista visionário que fundou a casa (e que deve se revirar no túmulo vendo as presepadas que os hoje donos da marca estão fazendo com seu nome rs). O museu é lindo pra qualquer um visitar, mas pra quem gosta de moda, é um must. A curadoria e montagem são belíssimas, contando não somente sua história, mas exibindo os modelos mais icônicos, estruturados, que quebraram paradigmas com a silhueta feminina mais desconstruída. Tem também uma sessão com a criação de outros estilistas que foram influenciados por ele. Ao andar entre esses modelos, num dia em que o museu estava particularmente vazio, eu fiquei lembrando dos idos de 2007, 2008, quando eu lia o Petisco, e os textos quase poéeticos da Mari Inbar, que me apresentaram ao mundo da moda e couture. Andamos um pouco pela charmosa Getaria, que é bem pequenina, e comemos um peixe fresco de frente pro mar. Um passeio bem gostoso de meio dia. 




- Restaurantes de San Sebastian - A cidade é conhecida por ser uma meca gastronomica, e tem uma altíssima concentração de estrela Michelin. Toda a pegada de alta gastronomia puxa a qualidade da área lá pra cima, e se come muito bem em qualquer biboca. Com isso em mente, acabamos pulando os restaurantes estrelados, que não são baratos, e focamos em almoçar em restaurantes e jantar em bares de pintxos, os tapas da região. Fizemos reserva para  os almoços, e deixamos a vida levar para a janta. Em termos de almoço, o melhor foi o Antonio Bar, que foi também num esquema de pintxos. Também teve o Bodegon Alejandro, onde o digníssimo segue afirmando que comeu o melhor peixe da vida. Em termos de bares de pintxos, a dica é mesmo ficar em pé no balcão pra ver o que mais sai, e copiar o crowd rs. Cada bar tem seus petiscos chefes, e neles que mora o segredo. Meu favorito foi o La Espiga, e teve um outro que infelizmente não guardei o nome. E por fim, a tarta de queso, que é o cheescake basco, é a sobremesa que não pode faltar. Comemos MUITAS tartas de queso, mas em San Sebastian a favorita foi a do Bar Sport.






- Guggenheim de Bilbao - O museu é mesmo lindo e vale o hype, tanto por dentro quanto por fora. Ele é muito majestoso, e é belíssimo de vários angulos: cruzando a ponte, visto de frente, visto do fundo, com o sol batendo. A coleção é também bem interessante, e apesar da lotação, da pra visitar com relativa tranquilidade e sem pensamentos homicidas rs. Gastamos coisa de 2 horas lá dentro, e seguimos para o Nerua, restaurante na parte de fora do museu, e que tem uma estrela Michelin. Fizemos um menu degustação, e eu gostei bastante, não ameeeei, mas gostei. E acho que vale a experiência porque ele teme um preço mais ameno do que a maioria dos estrelados da área. É uma forma bem pagável de experimentar a alta gastronomia da região. 





- Casco Viejo de Bilbao - A cidade antiga de Bilbao é muito, muito charmosa. Uma vibe meio gótica, com predios grudadinhos um no outro, bares charmosos, lojinhas simpáticas. Bater perna pela cidade toda é uma delícia, margear o rio, as ruas de compras, mas o Casco Viejo é bem especial. É pequeno, da pra visitar em um dia, mas nós passamos três dias em Bilbao e sempre acabamos por ali. Destaque pra Plaza Nueva, onde antigamente tinham espetáculos de touros. Ela é rodeada de barzinhos, e mais uma vez comemos pintxos mara e uma tarta de queso arrasadora no Gure Toki. 






Foi uma viagem bem slow, mas muito gostosa. Eu amei o país basco, amei a pegada surf relax de San Sebastian, e a beleza gótica de Bilbao, e acho que aproveitamos suficientemente, mas se um dia a oportunidade de voltar aparecer, não recusarei rs. Recomendo demais um mergulho gastronomico! 

O fim da saga da cidadania italiana

No dia 31 de maio a minha cidadania italiana foi reconhecida, e eu contei aqui em mais detalhes. Vou contar o que aconteceu desde então, pra encerrar o assunto. 


O reconhecimento da cidadania veio por email, com um anexo atestando o reconhecimento, e oficiando as autoridades competentes da minha comuna de origem (a comuna na Italia onde nasceu meu antenato italiano). Eu então entrei no site do Consulado da Italia em Zurich para solicitar o meu registro no AIRE, que é o registro de italianos vivendo no exterior. Todo italiano que mora fora da Italia deve estar registrado no AIRE no consulado de competencia da sua localidade, e é assim que você pode solicitar passaporte nesse lugar, votar, etc. É importante manter ele atualizado com todos os registros da vida civil. Enfim, o processo você faz online mesmo, anexando os documents que eles pedem - um formulário com dados pessoais, o reconhecimento da cidadania, visto de moradia, comprovante de residência. 


Depois de uns 15 dias, eu recebi por email a confirmação do meu registro no AIRE pela minha comuna de origem, ou seja, eles receberam lá a informação de que eu vivo no exterior, e atualizaram meus registros. Dessa forma, eu fiquei registrada no Consulado de Zurich, e a comuna lá na Italia tem essa informação que é onde eu vivo. E com isso abriu o calendário para eu agendar o pedido de passaporte (e poderia também agendar para fazer a identidade italiana, mas eu ainda não fui atrás de descobrir qual a vantagem de ter uma). O agendamento pro passaporte foi um saco. Eu tenho vários amigos italianos aqui e já tinha ouvido todo mundo reclamar que é um saco, que eles nunca tem data, que é impossível. Eu estava determinada a resolver isso tudo ainda esse ano, porque queria estar com tudo em ordem quando o bebê nascer, então por uma semana eu entrava todo dia no site do consulado italiano, e ficava ali dando f5 nas datas. Isso era julho, e um belo dia apareceu uma vaga disponível para setembro e eu agendei. Um parenteses aqui: se você tentar agendar o passaporte antes de estar registrado no AIRE, você vai conseguir mas uns dias depois eles vão extornar o agendamento porque entendem que não tem competência para processar seu passsaporte. Aconteceu comigo rs. 


Estive essa semana no consulado, e foi tudo muito fácil, muito perfeito. Com o agendamento em mãos, você só precisa levar uma cópia de documento oficial (se for primeiro passaporte, se for renovação, só levar o passaporte antigo), comprovante de residência, e uma foto. Eu acabei imprimindo também uma cópia do reconhecimento da cidadania, a cópia da confirmação que recebi da comuna, e a cópia do meu visto suíço. Depois daquela experiência pavorosa na embaixada em Berna, eu queria ter tudo em mãos pra garantir que ia dar certo. Mas aquela experiência ficou pra trás... Cheguei no consulado uns 10 minutos antes do meu horário marcado, peguei uma senha, e depois de 20 minutos fui chamada. O atendente foi extremamente gentil, super tranquilo. Acabou que ele ficou com as cópias de documentos que eu tinha levado, só porque era mais fácil e ele não precisava fazer uma rechecagem no sistema. Ali na hora ele emitiu o passaporte. Depois de meia hora da minha chegada, eu paguei 114 francos, assinei o recibo e peguei o passaporte em mãos. Quando eu estava de saída, ele percebeu minha barriga e, com um sorriso no rosto, falou que o baby já ia nascer italiano, e deu orientações sobre como registrar o bebê e fazer o passaporte pra ele. Eu fiquei muito feliz com isso tudo. Não só de finalmente estar com o passaporte italiano na mão, depois de uns 15 anos de ter encontrado a certidão de nascimento do meu antenato italiano. Mas de ter sido bem tratada e respeitada por, afterall, um dos meus. 


Uma vez eu escrevi aqui nesse blog que eu me sentia um pouco italiana. Hoje eu olho pra trás, e vejo que eu estava só querendo me sentir mesmo rs, mas não sabia o que estava falando, tal qual os caras tontos da Mooca que ficam se achando super europeus. Desde que me mudei para a Suíça, me sinto 100% brasileira, quase uma bandeira ambulante, por meus gostos, hábitos e costumes, na minha forma de pensar e agir. Por outro lado, ao me aproximar e estreitar relações com muitos italianos, eu entendi exatamente porque somos do jeito que somos. Tem sim muito do jeito italiano de ser em SP (e no Brasil) mas em todo mundo que é cria dali, não só nos descendentes. Em todo caso, eu exerci um direito que era meu, e sinto uma enorme satisfação por isso, e também, óbvio, pelas tranquilidades que ele me traz. É o fim da Terra Nostra burocrática rs. 

Notas sobre o luto

Post escrito em 20 de junho de 2023

***

Em setembro do ano passado fui pega de surpresa por uma gravidez. Eu nunca tinha me descuidado, já  comentei aqui que tenho endometriose, achei que demoraria pra engravidar se um dia tentasse, mas na primeira vez em que dei uma descuidada, aconteceu. A maternidade sempre esteve no horizonte, "daqui uns anos¨, algo pro futuro. Ver aquele positivo completamente inesperado foi um susto. Coincidentemente, no dia seguinte eu tinha minha consulta anual com a gineco, já agendada há meses, e depois de uma noite mal dormida, quando vi o feijãozinho lá no ultrassom, me emocionei e abracei a idéia com muito amor. Mas eu não preciso dizer que, 9 meses depois, eu não tenho um bebê aqui em casa, né? Pois é. Uma semana depois sofri a perda gestacional e vivi uma experiência devastadora. 


Hoje em dia tem se falado mais sobre o luto de vidas não vividas, e mesmo tendo lido a respeito, e ter muita empatia por amigas e familiares que passaram por isso, nada te prepara pra viver essa perda. Posso dizer que é a tristeza mais profunda que já tinha sentido na minha vida. É incrível o tanto de expectativa, o tanto de vida que a gente consegue imaginar em uma semana. O tanto de mudança no nosso corpo que a gente sente, e o tanto de mudança que a gente vê no nosso futuro. E de repente, essa vida que nem começou, não vai mais existir. É um luto pelo futuro. Nenhum outro filho que você venha a ter vai ter o mesmo rostinho, vai ter a mesma personalidade, a mesma trajetória. Você nunca vai ver ou saber como essa vida teria sido. 


E depois de semanas de uma apatia horrível, de ter passado pelo processo de finalizar a gravidez mal sulcedida, que é doloroso física e emocionalmente, eu comecei a voltar à vida. E aos poucos esse assunto foi virando uma memória triste, um capítulo triste de uma vida feliz. Nunca deixei de pensar nessa vida que podia ter sido e não foi, mas aos poucos deixou de ser uma lembrança diária que acabava comigo, e virou algo sobre o que eu conseguia falar com tranquilidade, um pouco de quem sou eu. 


Depois de um tempo tivemos uma boa conversa: e aí, queremos filho mesmo? A gente chegou a vizualizar essa vida, é isso mesmo que a gente quer? Estamos prontos? Então bora. E resolvemos tentar com intenção. Nesse meio tempo, chegou maio, e a data prevista de parto daquela gravidez. A tristeza, que há muito tinha deixado de me dominar, voltou de uma forma diferente. A nostalgia de tudo que estaríamos vivendo nesse momento, as coisas que estávamos fazendo e que definitivamente não estaríamos se estivessemos prestes a receber um bebê. Eu falei de maio aqui... e apesar de toda essa nostalgia, foi um mês bom, um mês feliz. E mais: eu tinha uma certeza muito esquisita dentro de mim de que estava grávida. Eu não sou mística, não sou espiritual, sou bem adepta das coisas terrenas... mas lembro de acordar e sentir que o ciclo daquela gravidez perdida estava encerrado, e que algo novo estava nascendo dentro de mim. E estava. Entrei numa farmácia em Málaga, comprei um teste, e BINGO! Estava grávida.


Me senti muito feliz, muito sortuda, e com muito medo. Quem já passou por uma perda gestacional sabe o medo que vem junto com um novo positivo. A vontade de ser otimista, de pensar positivo, de acreditar que vai dar tudo certo, mas o medo de sofrer de novo, de não dar certo de novo, de mais uma vez entrar pras estatísticas. E dessa vez, numa gravidez planejanada e desejada. Passei uma semana bem fisicamente, mas dormindo mal, super ansiosa, até que num sábado a tarde, tive um sangramento leve. Eu fiquei até o último minuto tentando acreditar, tentando mentalizar, que era tudo normal, que dessa vez ia dar tudo certo. Mas não deu. Foi mais uma vez sob choque, no mesmo consultório, que a médica de emergência me informou que não havia uma gravidez no meu útero, embora o exame ainda fosse positivo. 


Saí de lá meio anestesiada, sem entender o que exatamente estava acontecendo no meu corpo. Dias depois, entendemos que estávamos diante de um provável caso de gravidez ectópica, fora do útero. Foram 12 dias monitorando para conseguir identificar onde estava o embrião, que é inviável nessas condições. 12 dias de uma tortura, de me saber grávida sem ter a perspectiva de ter um filho. Muita ansidade, incerteza, noites mal dormidas, e mais uma vez uma tristeza sem fim, mais uma vez esse luto pelo futuro que não vai existir. Mais uma vida que não vamos viver, mais um rostinho que não vamos conhecer. Os pensamentos que brotam na cabeça diante dessa segunda perda são inevitáveis: por que eu?? Por que comigo? Por que todo que mundo resolve ter filho, tem, e eu to aqui passando por isso DE NOVO? O que eu fiz de errado? E por mais que não tenha resposta, não tenha porquê, seja uma obra terrível do acaso e só, eu sigo refazendo essas perguntas todas na minha cabeça. 


A cirurgia pra retirada do embrião correu bem, não foi preciso retirar trompas, ovário, nada. Fui muito bem tratada e acolhida, tanto pelos médicos, como pela rede incrível que eu tenho a sorte de ter. Amiga que saiu pra almoçar comingo pra me distrair, e acabou segurando minha mão numa sala pré cirúrgica até o marido chegar. Amiga que cuidou do meu cachorro. Amigas que mesmo longe se fizeram presentes. Amiga que foi passar a manhã comigo no hospital. E meu marido, que não é rede, é um pouquinho de mim. Em meio aos seus sentimentos, me amparou, me cuidou, e foi meu chão, meu tudo mesmo. Num dado momento, só a presença física dele me acalmava, mais nada. 


Os dias entre a descoberta do problema e a cirurgia foram talvez os mais difíceis que já vivi. A cirurgia a princípio trouxe o alívio de uma resolução, de me tirar da situação de ser uma bomba relógio, que podia ir dormir e acordar no meio da noite morrendo de dor com o rompimento de uma trompa. Ter saído dela com meus orgãos intactos também foi reconfortante. Mas conforme os dias foram passando, e eu em casa, fraca, debilitada e cansada, a conta emocional voltou a ser cobrada. Mais uma vez o luto por um filho perdido me pegou de jeito. E o fato de ser o segundo só foi adicionando na balança. Fiquei pensando nas minhas vidas em universos alternativos, onde eu seria mãe de um, mãe de outro, coisas que nunca vou viver com nenhum desses dois indivíduos. Pensei tambem na minha idade, e quanto o tempo só faz ser cruel com as mulheres. Em abril de 2024 eu completaria meus 38 anos com um recém nascido no colo. Na minha inesgotavel juventude, com um medo eterno de gravidez na adolescência, fico pensando onde os anos foram parar... nunca me imaginei sendo mãe tão tarde na vida, mas também nunca tinha me imaginado mãe até menos de um ano atrás, quando fiquei de repente grávida. Uma pessoa da minha idade tem gestações geriátricas, uma palavra que eu não diria que me diz respeito nos próximos 30 anos.


Estou no momento lambendo as minhas feridas, que esse post desordenado mostra que são muitas. Há três anos faço acompanhamento com uma terapeuta, e ela ta sendo mais uma vez fundamental pra me manter com a cabeça acima do nível da água. Meu marido segue aqui, agarrado na minha mão, sendo meu colo, e tentando me lembrar que a gente já passou por muita coisa, e vai sair bem disso também. Em muitos momentos eu penso que eu nunca mais vou ser a mesma... E não vou mesmo. Eu nunca mais serei uma pessoa que não perdeu dois filhos. 


Quando essa neblina triste da uma limpada, eu até consigo olhar pro futuro com otimismo, um passo de cada vez. No fim de semana, se eu estiver bem, irei ver a Beyonce e embarcarei de férias pra California com a família, e isso no momento é o longo prazo que consigo enxergar. Eu não sei se algum dia vou publicar esse post, mas eu queria escrever, e eu escrevi. 


***

Quando escrevi esse texto eu estava, até aquele momento, no auge da minha tristeza. Mal sabia que, meses depois, eu encararia minha terceira perda gestacional e, de longe, o período mais triste e obscuro pelo qual já passei. Eu fui derrubada não só pela perda do meu bebê, como também por ver arrasada toda possibilidade de ser otimista. Eu tinha certeza que eu tinha sofrido o suficiente, então dessa vez daria certo simplesmente por que não era possível que eu tivesse que passar por mais dor. Lembro de repetir ao meu marido: as gravidezes normalmente dão certo, gravidez É pra dar certo, quase todas dão, a gente deu azar, não vamos mais dar. Mas demos, e a imagem do nosso bebê, tão pequenino, paradinho dentro de mim, sem batimentos cardíacos, nunca mais vai sair da minha cabeça. Os meses que se seguiram foram muito difíceis e, mais uma vez, muito definidores de quem eu sou hoje, do que valorizo, de quem valorizo. 


Hoje estou gestando meu quarto filho. Uma gestação que vai tranquila, que tem corrido sem nenhum pormenor, se não fosse por todos os monstros dentro da minha cabeça. Tudo que me passei me privou de viver os primeiros meses da minha gravidez com a leveza que gostaria e que levo normalmente a minha vida, mas aos poucos fui relaxando. Ainda odeio os dias que antecedem consultas médicas, morro de ansiedade e medo do que vai aparecer no monitor do ultrassom. Aprendi a ver o batimento cardíaco nos primeiros segundos, e é então quando consigo relaxar e começar a curtir. 


Penso muito nos meus bebês que nunca conheci. Tenho amigos e conhecidos que tiveram filhos em datas próximas as que seriam minhas datas previstas de parto, e muitas vezes quando vejo essas crianças, ainda penso nas vidas paralelas que eu poderia estar vivendo. Penso também em tudo que vivemos nesses dois anos que tanto nos marcaram, e vejo momentos muito felizes, fizemos viagens e outras coisas que não faríamos com uma criança pequena, construímos memórias, e nos fortalecemos como pessoas e como casal. 


Desde que escrevi o post inicial, em junho de 2023, eu já voltei aqui inúmeras vezes. Nunca mexi nele, apenas corrigi erros de digitação que fui encontrando. Esse texto sempre me deixa triste, porque eu sempre constato que eu nunca mais vou ser uma pessoa que não passou por nada disso. Eu sei que finalmente vou conhecer meu filho, que vou pega-lo no colo e viver tudo que me foi negado tantas vezes, eu anseio demais por esse momento. Mas não deixo de pensar que, para vive-lo, tive que conhecer uma tristeza que preferia não ter conhecido, e me tornar alguém que eu preferia não ter me tornado. Eu nunca mais serei uma pessoa que não perdeu três filhos.

Follow @ Instagram

Back to Top